EU ME LEMBRO II

RAPOSA VOADORA

 

 

Nos anos oitenta fui o que depois batizei de “comunistinha legal” ou, se vos agradar, o “comunistinha joinha”. De qualquer modo, um comunistinha. Fui levado, é claro.

Meu cooptador foi o mordomo das esferas, o príncipe, o meu querido EBS. Ainda vivo, embora velhusco. Diabos, eu estou velho! As juntas estalando e eu ainda aqui, cuidando da prole e tentando por comida à mesa.

Mas então, “comunistinha legal”. Eu.

Foi uma época fecunda os oitenta, modos que me incomodo com os tempos atuais por exsudarem, vez por outra, um perfume parecido, mas que é só fedor, que os perfumes envelhecem.

Na época, percebia já que a meus colegas comunistinhas faltava senso de humor. Preferiam o velho Karl Marx, com sua cabeçorra preocupada, se inclinando sobre os manuscritos a Jenny von Westphalen ou Jenny Marx, a esposa, que fora uma mulher muito, mas muito bonita.

Preferiam o bom Engels, o pensador, parceiro de Marx, o velho Nick, e esqueciam de Engels, filho de um burguês rico, administrador das empresas do pai na Inglaterra e amante de sua criada.

Digamos que eles viam os escritos e a história e eu preferia o rés-do-chão, os pequenos defeitos e tudo o mais.

Primeiramente, é com certo pudor que informo que meus colegas comunistinhas não liam as bíblias marxistas, mas comentavam assaz.

Segundamente, eu tinha a impressão de que qualquer pessoinha, qualquer serumaninho, poderia fazer a história, mas precisaria perceber que no meio tempo conviria ficar pelado com outra pessoa também pelada, fazer e ler algum poema, beber uns tantos fermentados e destilados e, na miúda miudinha, fazer também a tal da porra da história.

Revolucionário, né não, John Lennon?

Muito estranhamente não me bandeei para o lado direito das coisas, depois dos anos passados, e continuo, me sinto, ainda meio demoníaco, achando o mundo um lugar interessante, achando as pessoas ainda interessantes, mas sempre sentindo o ruído da máquina cada vez mais alto, quase ocultando a conversa no sarau.

A época, é claro. Queria falar da época. E do mau-gosto e dos tempos e das pessoas e da velocidade.

Do modo cego, automático, com que nós todos corremos para ocupar um círculo qualquer no inferno.

Queria, mas falo não.

Volto aos inícios iniciais começantes: eu fui um comunistinha legal e joinha, enquanto também trabalhava como o proverbial garçom no bar lá, da moda.

E confesso, quando me pediam os bons pensantes vodca Wiborowa ou Absolut, eu colocava mesmo era a Vagabundoyeva ou a Esculachakova, que foi como batizei à podríssima vodca “coquinho”.

Minha vingancinha bobinha de comunistinha: sabia que os bons pensantes, os meus irmãos comunistinhas, iriam um dia crescer em riqueza e glória. Vaticinava mesmo que acabariam como comensais dos pequenos ratos morais, os grandes da pátria.

Então à sorrelfa, lhes servia lixo líquido.

 

E como eles bebiam!

O CORINTIANO VOADOR VOLTA A PREGAR. LÁ NO DESERTO, EM RIBA DO MONTE.

Ouroboros-dragon-serpent-snake-symbol

 

…e então eu pensei “por que não fazer ela redonda?”. Pronto, tava ali a solução, mas somente eu, euzinho, tinha topado com ela. A bola, o craque, o transporte de massas, tudo veio depois. Até mesmo o Barcelona.

Mas e aí, me elogiaram?, o chefe deu tapinhas no meu ombro?, o xamã da tribo fez sinal de positivo?. Necas. Nada. Faz quinze mil anos e foi justo desse jeito mesmo que aconteceu.

Cumé?…ah, tá, as manifestações…certo. Bons dias, Brasis.

Então tá. As pessoas do bem ganharam as ruas. Viram?. Deveriam ter visto. Vejam a retrospectiva: Ói lá um…viu? Ói lá outro, o de camiseta com slogan. Notou?

No começo eram trevas e o MPL do B só queria…queria, já nem lembro mais. Mas queria. Teve.

Aí entraram outros e outros e outros, lembram do cara ali?, tão vendo?…perto dos nóias e do lado do poste…isso, os que estão babando.

E as coisas continuaram e chegaram os que não gostam de político, os que odiavam a Dilma, os anticorruptos, qualquer um servia, os Black Blocs (assim, em inglês, para pronto entendimento), os…um monte.

E chegaram mais. Era massa. Era movimento.

Falar nisso, vitoriosos, derrubamos a Dilma. Depois fomos prá balada.

O povo. A massa.

Aí, não devolveram o meu porrete ainda!…

Pulhas!

Ouve, ó Sião…

profeta-isaias

 

 

Por que, por que não ouviram ao Corintiano Voador, quando ele bradava aos quatro cantos do mundo, de riba do Monte Everest, avisando da conspiração macumbístico-germânico-ocultista para minar o Brasil. Sim, ele sabia. Previra tudo. Soubera da convocação do famigerado pai-de-santo Ulrich de Wotan e da perversa Ialorixá Mãe Franziska de Czenerborg e tentava avisar aos incautos da pátria. Foi ouvido? Níquites. E os despachos feitos nas esquinas de Berlim, a base de Faisões e Schnaps, Hein, hein, hein? É o carajo, ninguém ouve o profeta em sua terra…

MUNDANIDADES

Arte e Literatura – William-Adolphe Bouguereau

O mundo são todas as possibilidades.

Não sei se entendi, mas aí vai de novo: o mundo são todas as possibilidades. Estou gostando cada vez mais.

Não resisto, é mais forte que eu.

O mundo…são todas…as possibilidades. Mas hoje eu estou de verve, como diria Machado, o de Assis.

E caminha o mundo?

O mundo caminha, caminha e caminha. Vai caminhando o mundo, entra pelo túnel, sai do túnel e caminha.

Mas então tudo tem seu final. O que é o mundo?

O mundo é um balaio.

Repito. O mundo é um balaio, o rato é safo, o gato seduz, o barro dá forma, o cavalo trota, a musa tarda, o momento passa, a pergunta cala.

E é mundo sempre e durante e onde: agora, pressionarei a última tecla.

No meio do caminho do mundo que caminha não tem uma pedra, tem bosta.

É um moinho o mundo!

É o mundo em transe. Mas como já dizia um sábio (a modéstia me faz calar seu nome): não é o fim do mundo.

JARBAS, JARBAS

JARBAS

 

Jarbas ascendeu ao poder lá pelas onze horas e já me ligava, untuoso e gozador.

“Viu? Fácil não, né? Vai, fala mal de mim agora.”

Não me dignei a responder que Jarbas podia ser irritante quando queria. Mas que diabos, por que estrilava? É claro que tive de o demitir. Nada pessoal, mas com o tempo se percebe que um mordomo é como um nariz sobressalente.

Desliguei e voltei a me enfronhar nas deliciosas memórias de Carlos Lacerda. Ainda tenho comigo o exemplar puído, editora Nova Fronteira, coleção Brasil Século 20, edição de 1978. A transcrição de entrevista de trinta e quatro horas, justamente um mês antes de sua morte. Uma preciosidade.

O celular novamente.

Preocupado que fosse nova tentativa de Jarbas, atendi com receio. Era a Pátria.

“Tudo isso acontecendo e você aí na praça, dando milho aos pombos”, reclamou, chorosa.

“Na verdade estou em casa, querida. Sem Pombos”.

“Não me chama de querida! Seu, seu…merda”.

“Pátria, baby, não faça assim…”.

“Faço! Como não fazer? Hein? Ele já se abancou por aqui, parecendo meu dono. Me faz propostas. E se fosse só ele…já viu os amigos que ele trouxe?”.

Levei os dedos ao septo e comprimi meus olhos cansados. Entendia o transe pelo qual passava a Pátria. Jarbas estava eufórico e somente eu sabia o quanto podia ser inconveniente em tais ocasiões.

“Escute…querida. Pátria, amor, me ouça! Me dê algum tempo para raciocinar e te ligo em seguida, ok?”.

Li um mais um trecho inspirado das memórias de Lacerda. Justamente onde ele relata os fatos que se passaram após o suicídio de Getúlio. Meus Deus, o homem era um visionário!

O celular.

“Sim, Jarbas?”.

“Agora eu sou imortal, viu? imortal! Escreva aí. Já entrei para a história…”.

Suspiro profundo, dedos massageando as têmporas. Calma, muita calma…”.

“Imoral, você disse?”.

“Imortal! Imortal!”.

A imoralidade eu conhecia. A imortalidade não podia julgar. Enfim!

Dona Jivoneide me trouxe o chá de camomila e as Memórias Improvisadas de Alceu Amoroso Lima, Editora Vozes, edição de 2000. Leitura perfeita quando no banheiro, poderoso laxante. Não comentou sobre o dia nem sobre Jarbas.

Não pude me conter.

“Vai, fala…diz que me avisou!”.

Não passou recibo.

Saia já da sala quando se virou, a face pétrea.

“Dona Pátria ligou de novo, pro fixo. Falou que seu Jarbas passou a mão na bunda dela.”

Deixei passar.

Essa não é de modo nenhum a atitude de um bom católico, pensei.

Jarbas, Jarbas…

 

GLOSSARIUM BRASILIENSIS – LÉXICO BRASILEIRO PARA O FIM DOS TEMPOS. PODENDO SER TAMBÉM AGORA (Extrato aleatório em ordem desalfabética)

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SÃO JERÔNIMO – Caravaggio

 

 

 

FACTOIDE – um vilão extraterrestre; uma acusação feita por desequilibrados a nossas impolutas pessoas. Serve para direitistas e esquerdistas.

RELAÇÃO DE PROXIMIDADE – imaginativa forma de dizer que você, se não é culpado, bem…você é culpado de qualquer maneira, visto ser cunhado do fornecedor de brindes cujos brindes foram vistos na mesa de outro culpado que mantinha relações de proximidade com mafioso célebre, visto que tinham o mesmo nome. Utilíssima para policiais e promotores de justiça em ascensão.

BUNDA – Uma fruta tenra a ser apalpada com ternura.

ABORTO – Termo ligado à concepção. Significa que uma mulher pode votar, mas não decidir sobre seu corpo; direito a ser exercido somente por sacerdotes: “todo valor ao feto e nenhum ao marginal”, já cantaram Gil e Veloso.

LOBBY – atos de vilania se perpetrados por nossos inimigos, que claramente estão se locupletando. Uma ocupação legítima se levada a cabo por nós mesmos, por nossos parentes ou por nossos ídolos.

PEDRA – também “crack”. Entorpecente de pobre: fica sempre no meio do caminho. Rende sempre algum. O bom policial sempre se referirá a ela como “esta verdadeira praga que destrói a juventude” (repórteres deverão anotar diligentemente).

USUÁRIO – termo a se usar quando um jovem de classe média baixa pra cima for encontrado com entorpecentes. Pobre sendo, maconheirinho safado, “nóia” filho-da-puta, são mais que aceitáveis.

MÍDIA – leitura tupiniquim do inglês Media, plural de Medium, ambos vindos do latim. No mais, não significa nada e eu não falaria nadinha de que qualquer um ligado à mídia. Ver IMPARCIAL.

DESCONSTRUÇÃO DE IMAGEM – outro nome para “duela a quiém le duela”, “resgataremos a verdade a todo transe”, ou ainda: “filma eu”. Se dirigida a nós devemos alertar para os “interesses escusos por trás”.

LULA – Cefalópode viscoso.

CARDOSO – Que tem cardos.

FACEBOOK – Feicebúqui. Círculo infernal onde os condenados são mergulhados em chumbo derretido, enquanto demônios negociam seus “like”. Também, vitrine.

GOOGLE – Gôgou. Um número incompreensível de tão grande.

POESIA – Um objeto magnético, secreto lugar de encontro de forças contrárias, segundo Octavio Paz. Atividade humana improdutiva a ser praticada com o máximo de ineficiência. Uma marca de cachaça.

GOVERNADOR – Uma abstração construída por um Saci a mando de um presidente.

ASTÚCIA – Prima da inocência e irmã da rosa.

SEIOS – Todo mundo deveria ter dois.

WOLFGANG AMADEUS MOZART – Um tipo de prestidigitador ou artista de circo – Ver CEGO ADERALDO.

PECADO – Direito de todos. Sempre lembrando que depois de pecar, é de mister lavarem-se as almas. Depois, pecar de novo.

AMBIGUIDADE – O acaso em equilíbrio.

JESUS – marca de refrigerante no Maranhão.

BILBOQUÊ – Palavrão bizantino.

SERÔDIO – “Chegou atrasado, né safado?”.

HISTORIADOR – O mesmo que “inventador”, só que dando aulas e recebendo pelas aulas.

CRISE – Uma época maravilhosa para autores de autoajuda saírem do anonimato, da crise e, consequentemente, do vermelho.

MONGA, A MULHER-GORILA – Dama com habilidades metamórficas geralmente contratada por parques de diversões de cidades do interior. Ver GLÁDIA, A MULHER-ARANHA.

SANTO IRINEU DE LYON – Ver SÃO CLEMENTE DE ALEXANDRIA.

ARMANDO CATALANO – Ver ZORRO/ PROFESSOR JOHN ROBINSON.

CRIAÇÃO – Manufaturação de universos e cosmologias diversas praticadas por divindades diversas.

CUBA – Local de destino de pessoas que odiamos, embora sem que o saibamos bem por que, mas que odiamos mesmo assim.

CONTRADIÇÃO – Parceria entre a realidade e nossos desejos mais recônditos.

COMUNISTA – Surrealismo em doses nada homeopáticas. Deve-se proferir com ódio e asco, como se soubéssemos o que significa.

INTELIGÊNCIA – Coisa a que tomamos de empréstimo.

DULCINÉIA – Uma Aldonza quase inexistente.

SANCHO PANZA – Antigo governador de Barataria.

QUIXOTE – Um louco a toda prova, mas com método. Ver POLÔNIO/ HAMLET.

CORINTIANO VOADOR – Torcedor alado de agremiação esportiva brasileira.

Uma pessoa profunda e sábia, eu…

 

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Sem título – ANA BODNAR

 

 

 

A melhor coisa até agora, a que deixa o mais doce retrogosto é o fato simples e cru de que eu não tenho nada a dizer, nada a escrever, nenhum pensamento novo, nenhuma reflexão sobre o tempo e as coisas.

Eu. Nada tenho a fazer ou sentir. Não tenho nada a ver com o que está por aí e nem sinto qualquer necessidade de discutir o momento atual.

Estou. Equidistante de Brasília e da moda e das lutas e do amor. E dos ódios e da cozinha simples e da batalha dos chefs.

E nem. Não ligando para a saúde, nem dando conhecimento à dorzinha esquisita no braço esquerdo.

Estou fumando três cigarros por hora. Viu? Mais um. E mais um copo de vinho. Ao bar, claro, estou indo como quem vai à latrina, por necessidade. E fico lá, por horas, às vezes só, com uma long neck e um copo de cachaça dita de Salinas, tendo como companhia a televisão em algum canal de esportes.

É quase inacreditável. Nada a dizer, escrever ou almejar.

Alcanço agora felicidade da qual não supunha merecedor: a de comentarista do Nada, descritor solene de um saco vazio.

Só me falta uma figueira, uma serpente gigante, um Satori.

 

Agora, vamos ao jogo de armar:

 

A melhor coisa até agora, a que deixa o mais doce retrogosto é o fato simples e cru de que eu tenho tudo a dizer, tudo a escrever, infinitos pensamentos novos, infinitas reflexões sobre o tempo e as coisas.

Eu. Tenho tudo a fazer ou sentir. Tenho tudo a ver com o que está por aí e sinto profunda necessidade de discutir o momento atual.

Estou. Entranhado de Brasília e da moda e das lutas e do amor. E participante voraz dos ódios e da cozinha simples e da batalha dos chefs.

E sim. Dando enorme importância para a saúde, dando toda minha atenção à dorzinha esquisita no braço esquerdo.

Não estou fumando três cigarros por hora. Viu? Nenhum. E nem mais um copo de vinho. Ao bar, claro, estou indo como quem vai a uma festa, há muito esperada. E fico lá, por horas, nem sempre só, nem sempre só com uma long neck e um copo de cachaça dita de Salinas, mas sempre tendo como companhia a uma legião de conversadores e algum canal de esportes.

É quase inacreditável. Tudo a dizer, escrever ou almejar.

Alcanço agora felicidade da qual não supunha merecedor: a de comentarista do Todo, descritor solene de um saco cheio de plenitudes.

Só me falta uma figueira, uma serpente gigante, um Satori.

Kamikaze Joe e as Sereias de Ébano

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A pena inspirada de Temujin Pancho nos conta no Kamikazion que Kamikaze Joe visitava o universo número 222, pouco antes de despertar e sair para o trabalho.

Era e ainda é lugar de maravilhas, de magias escolhidas, de guerras aeronáuticas travadas por dirigíveis com quilômetros de extensão, de milhares de Graals somente esperando seus cumpridores de demandas.

Falo, e é claro que todos já perceberam, de Bombalurina 33, no setor do Dragão de Caça, logo ali a direita do Saco-de-Carvão.

Pois bem, uma nave avariada forçou nosso herói a uma parada fora de seus planos. E dado que a tecnologia Bombaluriana ainda não ultrapassara (e ainda não ultrapassou) a idade atômica, para não mencionar outras especificidades, foi uma longa temporada esta que reteve nosso aventureiro preferido sob os verdes céus e os triplos sóis.

Não, não nos deteremos nas descrições, quiçá enfadonhas, do Porto do Céu, nem falaremos das Kalavinkas sobrevoantes, nem da austera, mas magnífica arquitetura da Cidade Velha.

Os tempos eram de crise, a Rainha-Mãe morria lentamente e os Sobrinhos-Reis estavam encerrados no conclave da Ilha Firme. Tal não impediu que a sempre falada hospitalidade bombali mostrasse sua presença e Kamikaze se viu hóspede da Margravina em pessoa.

Kamikaze ressonou e encolheu-se contra a parede.

Os dias se passaram então em discretas festividades a honrar o importante hóspede (discretas. A Rainha morria, os reis em conclave, etc.). É claro que discretas do ponto de vista dos bombalis, o que é uma grande diferença.

Eis então que chegou a mensagem, urgente, imperiosa, trazida pela manhã e pelas fadas secretárias. A Rainha escolhera seu anjo de morte e a notícia apanhou nosso herói em deslustrosa nudez, em jucunda foda com Jade e Rubi, as netas da Margravina.

Para os mais afoitos e dedicados à luxúria recomendo as páginas 33 e 34 do tomo III do Kamikazion, profusas em descrições de seios túrgidos, bundas empinadas e interessantes variantes das posições sexuais mais conhecidas.

Nunca se disse que Temujin fosse pudibundo.

Mas o fato é que Kamikaze Joe foi escolhido para liderar o féretro da Rainha-Mãe, função sempre entregue a hóspedes ou mendigos, o que viesse primeiro. Significava também uma penosa viagem pelo oceano Caldeirão até o pequeno continente de Bonifácio para, após uma temerária expedição por selvas fumarentas, desertos de asfalto e desfiladeiros coalhados de criminosos Neanderthal,  se chegar ao lago Hemorragia.

Aliás, só para o perfeito entendimento, são verdes as águas do Hemorragia, como o sangue Bombali.

Também não vamos nos estender sobre as inúmeras aventuras protagonizadas pelo nosso Kamikaze Joe, nem falaremos de suas vitórias, de sua notável habilidade no comando da pequena tropa dos Infantes Funerários. Calaremos mesmo sobre os boatos da bacanal ocorrida na tribo Neanderthal dos Espremedores-de-Urso, onde se ventilou ter Kamikaze se submetido à prática do fio-terra sagrado com a xamã Tectonpalmiraba.  Mais uma vez, o Kamikazion, etc., etc.

Kamikaze emitiu palavras desconexas, puxando as cobertas até seus pés, aflitivamente.

 

Mas tergivesamos. Voltemos ao lago Hemorragia onde se deu, assim nos contou Temujin Pancho, a perigosa entrevista com as carpideiras reais, as Sereias de Ébano.

Foi na ilhota situada no centro do lago, donde se avistavam as cariátides do templo de São Pancrácio de Bombaluria. As águas repletas de magníficos corpos cor de breu.

Elas aguardaram até Kamikaze chegar a beira d´água, a comitiva esperando mais atrás, em tensa expectativa. É sabido que a entrevista é crucial para o bom andamento dos enterros reais, e mais de um reinado acabou em desgraça, no mais completo caos, ante uma falha de um líder de comitiva.

Acresce que era estrangeiro, Kamikaze, pouco versado na complicada etiqueta de morte bombali. Acresce que as sereias de ébano costumavam devorar aos líderes ineptos.

O psicopompo da comitiva aproximou-se e entregou a nosso herói o Penico Doirado, símbolo daquela tarefa santa, ainda contendo as últimas fezes ressecadas da soberana morta.

Também se aproximou do herói a margravina das sereias, agarrando-se preguiçosamente  à pequena rocha conhecida como Parlatório.

Da cauda delfinídea até os brilhantes dreadlocks azuis, ela mediria uns bons metro e oitenta. E é claro, dava-se a notar os grandes seios desafiando a gravidade.

Kamikaze Joe roncava.

Temujin Pancho pintou quadro magnífico da cena, recheando-o de pompa cerimoniosa, tendas esplendorosas da mais pura seda, um psicopompo vetusto e digno em barbas de pura neve (na verdade banguela, vesgo e com tique nervoso nos cantos da boca), ainda que verdadeira  a parte da taurobolíade nua sob os efeitos de maconha-brava.

O diálogo entre Kamikaze e a margravina, emerso da pena algo fantasiosa de Pancho, é até hoje modelo de oratória nas universidades bombalis.

Na verdade se deram de forma mais simples os fatos.

“Qual o segredo do morcego?”, perguntou sem delongas a sereia.

Kamikaze segurou seu membro por cima das calças e improvisou uma careta plena de safadeza.

“É isso aqui no teu rego!”.

Uma insinuação de sorriso e uma nova pergunta.

“Conhece o Mário?”.

“É o primo do meu caralho!”.

“A rosa no cume nasce?”. E a sereia bateu com a cauda agitando verdes águas.

“Quer alho?”, ripostou de pronto nosso galante Kamikaze.

A sereia começou a nadar, pensativamente. E de chofre proferiu o terrível Koan.

“Barafunda?”.

“Cú ou bunda!”, disse o herói, algo malicioso.

Passaram-se intermináveis minutos.

“Tá, pode mandar a véia…”, e mais não disse a sereia.

Durante o traslado do féretro, Kamikaze e a margravina das sereias de ébano dividiram, preguiçosos, uma garrafa de um raríssimo Conhaque Padre Cícero, Gran Reserva, retrogosto de asfalto.

Kamikaze Joe abriu os olhos.

AS AVENTURAS DE KAMIKAZE JOE

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Startling Stories – Capa de maio de 1936

 

 

 

No universo número 1, na Demanda da Torre de Cristal, Kamikaze Joe e seu parceiro Temujin Pancho salvaram a princesa Cassiopae de um destino pior que a morte. A seguir, suado e sujo da batalha, Kamikaze Joe a tomou em seus braços e a beijou apaixonadamente, o que para algumas línguas ferinas do reino foi, aí sim, um destino pior que a morte.

No universo número 37 Kamikaze Joe foi convidado para as Justas de Dragões pelo próprio Duque Negro, o senescal do rei. Lá, assistido pelo indefectível Temujin Pancho, Kamikaze Joe venceu todas as provas, com isto ganhando o direito à mão da filha de seu patrono, Stella, baronesa de Bereshit, aliás, herdeira do trono ducal. Cavalheirescamente, Kamikaze Joe abdicou da honra, embora tenha aceitado uma noite de prazeres com a belíssima jovem. Importa comunicar que desta feita, de banho tomado.

No universo número 222, no Grande Porto dos Navios do Céu, Kamikaze Joe embarcou na Briolanje, fragata ligeira, mas bem armada, com destino às guerras estelares em Beta Thataghata. Todos já ouviram de suas vitórias, claro, mas não custa lembrar aos desmemoriados que a conquista de Inocência, Terranova e Aquitânia-Sobre-Delta-Pavonis não teria sido possível sem sua mestria no comando da Frota Infinita. Ainda hoje se conta com admiração a alegria das massas ao avistarem os costados azuis e dourados da Arcalau, sua nau-capitânia.

No universo número 511 Kamikaze Joe jogou xadrez de seis camadas com a própria Morte, conforme se pode ler nas inspiradas páginas do Kamikazion, finamente escritas pela fiel pena de Temujin Pancho em seu exílio em Nova Tessália.

Entretanto, no universo zero, neste universo para ser mais exato, Kamikaze enfrentou sua batalha mais renhida. Foi neste universo, apurem olhos e ouvidos, que Kamikaze Joe foi entrevistado por Tânia Mara da Silva Mazzini, também conhecida como a Bruxa Vermelha, com vistas ao emprego de auxiliar de limpeza no famoso Centro Comercial. Aquele.

Foi neste universo zero e somente neste que Kamikaze respondeu de onde viera, qual sua escolaridade e quais foram suas experiências anteriores. Foi lá que lhe informaram da inviabilidade de sua contratação, visto que residia em mui afastado bairro da periferia, mas que não desistisse e esperasse por eventual nova convocação.

Foi neste universo que kamikaze Joe tomou três conduções até o seu bairro e, contando seus trocados, decidiu por uma parada na Padaria Santa Edwiges, também conhecida como Taverna do Unicórnio.

Foi neste universo e nesta Taverna do unicórnio que ele, o magnífico Kamikaze Joe, trocou amenidades com Jhonny Carlos de Santana Nicolau, mais conhecido como Temujin Pancho.

E foi Temujin Pancho, ali trabalhando como balconista (temporariamente), quem disse a frase hoje antológica: “Mano…dureza”.

Kamikaze só pode concordar, acendendo com resignação filosófica seu último cigarro paraguaio com seu último bastão-laser.

Um modelo já antiquado, de baterias nucleares a fusão já se esgotando. De marca BIC.

Trechos da entrevista de Selma Plá à revista PANTA RHEI

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[…]

PANTA RHEI – E o que a senhora entende por estrutura funcional de opressão à mulher ou construto pensado para oprimir a feminilidade?

Bagas ácidas caídas de um salgueiro-anão, não menos do que isso. Ante tais eventos nós permanecemos ali, estacados à beira da caverna.

PANTA RHEI – Há uma interessante análise sua na revista FEMINA, onde a senhora destaca que a definição de gêneros é questão de fé. O que significa isto?

Caritas era uma palavra teimosa, não muito benquista em nosso meio. Rodolfina Maier dizia que tudo e todos estavam nas mãos de Eurídice e ela bem que tinha razão. Olha, ainda sobre isso…lá em casa tínhamos um bigorrilho, desses antigos, que faziam mingau. Bem, as reflexões, os nossos medos eram todas guardados ali pela minha mãe. Entende, havia um presto e um staccato e os castrati não diziam nada…

[…]

PANTA RHEI – Perturbador decerto, mas a questão do ethos feminino, que a senhora ainda considera como uma definição às apalpadelas, já foi suficientemente respondida?

Duas libras de algodão, dizia o profissional do koan e ninguém melhor que Lisavetta Batory para por os pratos na mesa, as baixelas…combinando as cores e desligando o rádio quando das refeições. Minha pátria é minha língua, dizia Ferdinando Persona.

PANTA RHEI – Neste sentido o que significa se colocar como feminista nos dias de hoje. Antônio Cao, seu antigo professor e hoje um seu polemista, disse que a senhora desconstrói lindamente, mas não dá forma. Bem, isto é só um outro modo de dizer que a senhora apenas pergunta e não responde. É possível uma obra acadêmica de pura desconstrução?

Acredito num patamar de glória e desacredito nas espadas quebradas. Veja, um falanstério é só mais um trunfo na manga obscena de um delegado de polícia do interior, sem parentes importantes. Não basta só reiterarmos, temos que polir a fruta bulbosa, temos que fatorar e fatorar muito. O tédio é glosa…

PANTA RHEI – O mundo é um moinho?

Ainda é cedo, amor…