O POBRE, ESTE EMPREENDEDOR NATO.

lampada

 

O Brasileiro é um empreendedor nato. Mas só o pobre.

Guardem minha afirmação enfática, arquivem-na, dissequem-na e sobre ela reflitam.

Sim, considerem o tráfico de entorpecentes.

Todo um negócio de venda de entorpecentes para, majoritariamente, atender às classes desfavorecidas, com toda sua complexidade em termos de logística: a aquisição de matéria-prima, seu beneficiamento, sua distribuição e a contabilização necessária dos valores auferidos.

Não, não estranhem quando falo que o principal mercado consumidor dos entorpecentes sejam as classes baixas e médias. É. O lucro advindo da venda para as classes altas é marginal, parte ínfima do lucro geral e muito mais cara em termos de operação, pois que o entorpecente deve ser mais puro e as condições de entrega e consumo mais seguras.

Modos que esqueçam Meu nome não É Johnny, é só um ponto fora da curva.

Enfim, o traficante-empreendedor só fornece às classes altas por uma questão de sobrevivência política.

Com as classes baixas e médias, não; por “causo” que aí sim é que vem o verdadeiro lucro. Ora vejam, o empreendedor do bagulho pode diluir o entorpecente com outras substâncias para maximizar seus ganhos e sem nem sequer precisar dar grande importância à qualidade do produto.

Modos que na cocaína e na maconha vendidas aqui na terra tem até, em sua composição, alguma cocaína e alguma maconha.

Houvessem headhunters de verdade atuando e os principais cargos na administração das empresas seriam ocupados por ex-funcionários do lucrativo ramo do tráfico de entorpecente.

Vera verdade.

Eis.

Mas falava de empreendedorismo e talvez me perguntarão do porquê de minha opinião de só ser ele exercido por pobres.

Ora.

Ora, de novo.

Pra comecim de conversa ninguém com bom senso acredita nesta parlanda vendida por aí da meritocracia. A ascensão, natural, da competência. Pobre não é idiota e não acredita na meritocracia.

O pobre não só sabe que o buraco é mais embaixo, ele vive a situação. E não se engana com filhos de empresários sendo empresários, filhos de juízes, filhos de promotores, continuando a juizar e a promotorar como seus ancestrais.

O pobre sabe que ninguém será por ele, daí considerar o Estado somente um ruído de fundo inconveniente que lhe enche o saco.

Daí que não espera bondades o pobre.

E daí que o pobre que prefere se manter do lado, digamos, legal da coisa, crie do nada suas fontes de renda: os salões de beleza de periferia, os camelódromos informais, os botecos microscópicos, as pequenas igrejas vendedoras de milagres et alia.

Quando Deus é servido, quando dá, o pobre trabalha na metalúrgica, labuta no comércio, dá o sangue na construção civil.

Quando não dá, empreende.

O que é só uma maneira edulcorada de dizer que pobre pratica a mais alta magia conhecida: sobreviver.

É.

Acho que é tudo o que eu tinha a dizer sobre o empreendedorismo.

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RECEITA PARA DOMINAR O MUNDO

TIRANO

Não é fácil, esclareço de pronto. Existem concorrentes de peso conhecidos e, pior, os desconhecidos (sempre tem um maluco para competir com você). Mas, é possível. Para ser um bom dominador do mundo é preciso primeiramente atender a certos requisitos, não necessariamente todos e não necessariamente excludentes:

1- Você pode ser um cientista maluco, por exemplo. Um cientista genial a frente de seu tempo, com tendências paranoides acentuadas. E se você for obsessivo ao extremo,  sempre ajuda, mas convém tomar cuidado com os ajudantes. Principalmente se atenderem por Ígor;

2 – Ou, quem sabe, um mago dotado de poderes malignos que tenha algum objeto de poder mágico (uma joia mística que só funcione com o alinhamento dos planetas, um livro misterioso, essas coisas). Mais uma vez, também é preciso ter cuidados com os ajudantes;

3 – Existe uma variante do mago, que é a de pertencer a uma seita secreta com milhares de anos de existência cheia de segredos místicos e planos de dominação deste simplório plano físico. Também conhecida como variante Ctulhu (leia H. P. Lovecraft).

No caso de uma seita, é importante a presença de um líder com acesso a objeto mágico de manipulação do meio físico em nível planetário. É ainda necessário que a seita em questão seja antiga, com mitologias particulares bem sedimentadas de domínio e a crença num destino manifesto maior, conjugada a crença na sua superior capacidade de ditar os destinos humanos;

4 – ou você pode optar pela promissora profissão de Tirano Extragalático Do Mal Com Vontade De Estuporar O Planeta. Darth Vader; Ming, o impiedoso, você sabe.

Ainda no que tange ao tirano em potencial, também é possível que seja ele uma entidade supranormal ou, mais idealmente, uma entidade com capacidades super-humanas (Ver PROLEGÔMENOS PARA DOMINAÇÃO PLANETÁRIA, Dr. Gori, 1987).

Neste espectro de possibilidades poder-se-ia especular a título de exemplo, a ocorrência de entidades parafísicas com capacidades de manipulação mágica, tais como: demônios associados a maldições cósmicas, obscuros deuses(as) de culturas antigas e seus sacerdotes com expertise em magia negra, necromancia, teurgia, goecia, pactuação demoníaca de nível I, manipulação de planos extrafísicos, etc, etc.

Já foi inclusive provado que através do uso intensivo de hipnose telepática e preces fervorosas, torna-se factível, possível, influenciar às correntes históricas-padrão (Ver PSICO-HISTÓRIA COMO APLICAÇÃO, Jurgens, 2000), se consideradas como vetores Riemannianos em um sistema em retroalimentação.

Tal domínio, evidentemente, pressupõe uma vontade focal, vastos conhecimentos de Teurgia Pura, não se desconsiderando mesmo o uso da Goecia Quimbândica. Todo processo deve ser cuidadosamente velado, de tal forma que os agentes sociais e, principalmente, Deus, não encetem tentativas de frustrar as ações do dominador em potencial.

Entretanto, convém ao dominador do mundo novel ter sempre em mente que os dominadores de mundos geralmente se dão mal no final. Fu Manchu especula que tal tendência de queda abrupta na curva de domínio deva-se a uma lei ainda não adequadamente formulada que preveja o equilíbrio cósmico (Ver “O MAL COMO ECONOMIA: Um estudo de Atuações Maléficas como Vetores de Realidade – Fu Manchu, 1976).

Não, esse negócio de dominar o mundo não é uma boa ideia. Trabalhoso é pouco.

Certo, esqueça, torne-se um consultor ou uma consultora Jequiti e seja feliz de outro jeito.

EU ME LEMBRO II

RAPOSA VOADORA

 

 

Nos anos oitenta fui o que depois batizei de “comunistinha legal” ou, se vos agradar, o “comunistinha joinha”. De qualquer modo, um comunistinha. Fui levado, é claro.

Meu cooptador foi o mordomo das esferas, o príncipe, o meu querido EBS. Ainda vivo, embora velhusco. Diabos, eu estou velho! As juntas estalando e eu ainda aqui, cuidando da prole e tentando por comida à mesa.

Mas então, “comunistinha legal”. Eu.

Foi uma época fecunda os oitenta, modos que me incomodo com os tempos atuais por exsudarem, vez por outra, um perfume parecido, mas que é só fedor, que os perfumes envelhecem.

Na época, percebia já que a meus colegas comunistinhas faltava senso de humor. Preferiam o velho Karl Marx, com sua cabeçorra preocupada, se inclinando sobre os manuscritos a Jenny von Westphalen ou Jenny Marx, a esposa, que fora uma mulher muito, mas muito bonita.

Preferiam o bom Engels, o pensador, parceiro de Marx, o velho Nick, e esqueciam de Engels, filho de um burguês rico, administrador das empresas do pai na Inglaterra e amante de sua criada.

Digamos que eles viam os escritos e a história e eu preferia o rés-do-chão, os pequenos defeitos e tudo o mais.

Primeiramente, é com certo pudor que informo que meus colegas comunistinhas não liam as bíblias marxistas, mas comentavam assaz.

Segundamente, eu tinha a impressão de que qualquer pessoinha, qualquer serumaninho, poderia fazer a história, mas precisaria perceber que no meio tempo conviria ficar pelado com outra pessoa também pelada, fazer e ler algum poema, beber uns tantos fermentados e destilados e, na miúda miudinha, fazer também a tal da porra da história.

Revolucionário, né não, John Lennon?

Muito estranhamente não me bandeei para o lado direito das coisas, depois dos anos passados, e continuo, me sinto, ainda meio demoníaco, achando o mundo um lugar interessante, achando as pessoas ainda interessantes, mas sempre sentindo o ruído da máquina cada vez mais alto, quase ocultando a conversa no sarau.

A época, é claro. Queria falar da época. E do mau-gosto e dos tempos e das pessoas e da velocidade.

Do modo cego, automático, com que nós todos corremos para ocupar um círculo qualquer no inferno.

Queria, mas falo não.

Volto aos inícios iniciais começantes: eu fui um comunistinha legal e joinha, enquanto também trabalhava como o proverbial garçom no bar lá, da moda.

E confesso, quando me pediam os bons pensantes vodca Wiborowa ou Absolut, eu colocava mesmo era a Vagabundoyeva ou a Esculachakova, que foi como batizei à podríssima vodca “coquinho”.

Minha vingancinha bobinha de comunistinha: sabia que os bons pensantes, os meus irmãos comunistinhas, iriam um dia crescer em riqueza e glória. Vaticinava mesmo que acabariam como comensais dos pequenos ratos morais, os grandes da pátria.

Então à sorrelfa, lhes servia lixo líquido.

 

E como eles bebiam!

O CORINTIANO VOADOR VOLTA A PREGAR. LÁ NO DESERTO, EM RIBA DO MONTE.

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…e então eu pensei “por que não fazer ela redonda?”. Pronto, tava ali a solução, mas somente eu, euzinho, tinha topado com ela. A bola, o craque, o transporte de massas, tudo veio depois. Até mesmo o Barcelona.

Mas e aí, me elogiaram?, o chefe deu tapinhas no meu ombro?, o xamã da tribo fez sinal de positivo?. Necas. Nada. Faz quinze mil anos e foi justo desse jeito mesmo que aconteceu.

Cumé?…ah, tá, as manifestações…certo. Bons dias, Brasis.

Então tá. As pessoas do bem ganharam as ruas. Viram?. Deveriam ter visto. Vejam a retrospectiva: Ói lá um…viu? Ói lá outro, o de camiseta com slogan. Notou?

No começo eram trevas e o MPL do B só queria…queria, já nem lembro mais. Mas queria. Teve.

Aí entraram outros e outros e outros, lembram do cara ali?, tão vendo?…perto dos nóias e do lado do poste…isso, os que estão babando.

E as coisas continuaram e chegaram os que não gostam de político, os que odiavam a Dilma, os anticorruptos, qualquer um servia, os Black Blocs (assim, em inglês, para pronto entendimento), os…um monte.

E chegaram mais. Era massa. Era movimento.

Falar nisso, vitoriosos, derrubamos a Dilma. Depois fomos prá balada.

O povo. A massa.

Aí, não devolveram o meu porrete ainda!…

Pulhas!

Ouve, ó Sião…

profeta-isaias

 

 

Por que, por que não ouviram ao Corintiano Voador, quando ele bradava aos quatro cantos do mundo, de riba do Monte Everest, avisando da conspiração macumbístico-germânico-ocultista para minar o Brasil. Sim, ele sabia. Previra tudo. Soubera da convocação do famigerado pai-de-santo Ulrich de Wotan e da perversa Ialorixá Mãe Franziska de Czenerborg e tentava avisar aos incautos da pátria. Foi ouvido? Níquites. E os despachos feitos nas esquinas de Berlim, a base de Faisões e Schnaps, Hein, hein, hein? É o carajo, ninguém ouve o profeta em sua terra…

MUNDANIDADES

Arte e Literatura – William-Adolphe Bouguereau

O mundo são todas as possibilidades.

Não sei se entendi, mas aí vai de novo: o mundo são todas as possibilidades. Estou gostando cada vez mais.

Não resisto, é mais forte que eu.

O mundo…são todas…as possibilidades. Mas hoje eu estou de verve, como diria Machado, o de Assis.

E caminha o mundo?

O mundo caminha, caminha e caminha. Vai caminhando o mundo, entra pelo túnel, sai do túnel e caminha.

Mas então tudo tem seu final. O que é o mundo?

O mundo é um balaio.

Repito. O mundo é um balaio, o rato é safo, o gato seduz, o barro dá forma, o cavalo trota, a musa tarda, o momento passa, a pergunta cala.

E é mundo sempre e durante e onde: agora, pressionarei a última tecla.

No meio do caminho do mundo que caminha não tem uma pedra, tem bosta.

É um moinho o mundo!

É o mundo em transe. Mas como já dizia um sábio (a modéstia me faz calar seu nome): não é o fim do mundo.

JARBAS, JARBAS

JARBAS

 

Jarbas ascendeu ao poder lá pelas onze horas e já me ligava, untuoso e gozador.

“Viu? Fácil não, né? Vai, fala mal de mim agora.”

Não me dignei a responder que Jarbas podia ser irritante quando queria. Mas que diabos, por que estrilava? É claro que tive de o demitir. Nada pessoal, mas com o tempo se percebe que um mordomo é como um nariz sobressalente.

Desliguei e voltei a me enfronhar nas deliciosas memórias de Carlos Lacerda. Ainda tenho comigo o exemplar puído, editora Nova Fronteira, coleção Brasil Século 20, edição de 1978. A transcrição de entrevista de trinta e quatro horas, justamente um mês antes de sua morte. Uma preciosidade.

O celular novamente.

Preocupado que fosse nova tentativa de Jarbas, atendi com receio. Era a Pátria.

“Tudo isso acontecendo e você aí na praça, dando milho aos pombos”, reclamou, chorosa.

“Na verdade estou em casa, querida. Sem Pombos”.

“Não me chama de querida! Seu, seu…merda”.

“Pátria, baby, não faça assim…”.

“Faço! Como não fazer? Hein? Ele já se abancou por aqui, parecendo meu dono. Me faz propostas. E se fosse só ele…já viu os amigos que ele trouxe?”.

Levei os dedos ao septo e comprimi meus olhos cansados. Entendia o transe pelo qual passava a Pátria. Jarbas estava eufórico e somente eu sabia o quanto podia ser inconveniente em tais ocasiões.

“Escute…querida. Pátria, amor, me ouça! Me dê algum tempo para raciocinar e te ligo em seguida, ok?”.

Li um mais um trecho inspirado das memórias de Lacerda. Justamente onde ele relata os fatos que se passaram após o suicídio de Getúlio. Meus Deus, o homem era um visionário!

O celular.

“Sim, Jarbas?”.

“Agora eu sou imortal, viu? imortal! Escreva aí. Já entrei para a história…”.

Suspiro profundo, dedos massageando as têmporas. Calma, muita calma…”.

“Imoral, você disse?”.

“Imortal! Imortal!”.

A imoralidade eu conhecia. A imortalidade não podia julgar. Enfim!

Dona Jivoneide me trouxe o chá de camomila e as Memórias Improvisadas de Alceu Amoroso Lima, Editora Vozes, edição de 2000. Leitura perfeita quando no banheiro, poderoso laxante. Não comentou sobre o dia nem sobre Jarbas.

Não pude me conter.

“Vai, fala…diz que me avisou!”.

Não passou recibo.

Saia já da sala quando se virou, a face pétrea.

“Dona Pátria ligou de novo, pro fixo. Falou que seu Jarbas passou a mão na bunda dela.”

Deixei passar.

Essa não é de modo nenhum a atitude de um bom católico, pensei.

Jarbas, Jarbas…

 

GLOSSARIUM BRASILIENSIS – LÉXICO BRASILEIRO PARA O FIM DOS TEMPOS. PODENDO SER TAMBÉM AGORA (Extrato aleatório em ordem desalfabética)

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SÃO JERÔNIMO – Caravaggio

 

 

 

FACTOIDE – um vilão extraterrestre; uma acusação feita por desequilibrados a nossas impolutas pessoas. Serve para direitistas e esquerdistas.

RELAÇÃO DE PROXIMIDADE – imaginativa forma de dizer que você, se não é culpado, bem…você é culpado de qualquer maneira, visto ser cunhado do fornecedor de brindes cujos brindes foram vistos na mesa de outro culpado que mantinha relações de proximidade com mafioso célebre, visto que tinham o mesmo nome. Utilíssima para policiais e promotores de justiça em ascensão.

BUNDA – Uma fruta tenra a ser apalpada com ternura.

ABORTO – Termo ligado à concepção. Significa que uma mulher pode votar, mas não decidir sobre seu corpo; direito a ser exercido somente por sacerdotes: “todo valor ao feto e nenhum ao marginal”, já cantaram Gil e Veloso.

LOBBY – atos de vilania se perpetrados por nossos inimigos, que claramente estão se locupletando. Uma ocupação legítima se levada a cabo por nós mesmos, por nossos parentes ou por nossos ídolos.

PEDRA – também “crack”. Entorpecente de pobre: fica sempre no meio do caminho. Rende sempre algum. O bom policial sempre se referirá a ela como “esta verdadeira praga que destrói a juventude” (repórteres deverão anotar diligentemente).

USUÁRIO – termo a se usar quando um jovem de classe média baixa pra cima for encontrado com entorpecentes. Pobre sendo, maconheirinho safado, “nóia” filho-da-puta, são mais que aceitáveis.

MÍDIA – leitura tupiniquim do inglês Media, plural de Medium, ambos vindos do latim. No mais, não significa nada e eu não falaria nadinha de que qualquer um ligado à mídia. Ver IMPARCIAL.

DESCONSTRUÇÃO DE IMAGEM – outro nome para “duela a quiém le duela”, “resgataremos a verdade a todo transe”, ou ainda: “filma eu”. Se dirigida a nós devemos alertar para os “interesses escusos por trás”.

LULA – Cefalópode viscoso.

CARDOSO – Que tem cardos.

FACEBOOK – Feicebúqui. Círculo infernal onde os condenados são mergulhados em chumbo derretido, enquanto demônios negociam seus “like”. Também, vitrine.

GOOGLE – Gôgou. Um número incompreensível de tão grande.

POESIA – Um objeto magnético, secreto lugar de encontro de forças contrárias, segundo Octavio Paz. Atividade humana improdutiva a ser praticada com o máximo de ineficiência. Uma marca de cachaça.

GOVERNADOR – Uma abstração construída por um Saci a mando de um presidente.

ASTÚCIA – Prima da inocência e irmã da rosa.

SEIOS – Todo mundo deveria ter dois.

WOLFGANG AMADEUS MOZART – Um tipo de prestidigitador ou artista de circo – Ver CEGO ADERALDO.

PECADO – Direito de todos. Sempre lembrando que depois de pecar, é de mister lavarem-se as almas. Depois, pecar de novo.

AMBIGUIDADE – O acaso em equilíbrio.

JESUS – marca de refrigerante no Maranhão.

BILBOQUÊ – Palavrão bizantino.

SERÔDIO – “Chegou atrasado, né safado?”.

HISTORIADOR – O mesmo que “inventador”, só que dando aulas e recebendo pelas aulas.

CRISE – Uma época maravilhosa para autores de autoajuda saírem do anonimato, da crise e, consequentemente, do vermelho.

MONGA, A MULHER-GORILA – Dama com habilidades metamórficas geralmente contratada por parques de diversões de cidades do interior. Ver GLÁDIA, A MULHER-ARANHA.

SANTO IRINEU DE LYON – Ver SÃO CLEMENTE DE ALEXANDRIA.

ARMANDO CATALANO – Ver ZORRO/ PROFESSOR JOHN ROBINSON.

CRIAÇÃO – Manufaturação de universos e cosmologias diversas praticadas por divindades diversas.

CUBA – Local de destino de pessoas que odiamos, embora sem que o saibamos bem por que, mas que odiamos mesmo assim.

CONTRADIÇÃO – Parceria entre a realidade e nossos desejos mais recônditos.

COMUNISTA – Surrealismo em doses nada homeopáticas. Deve-se proferir com ódio e asco, como se soubéssemos o que significa.

INTELIGÊNCIA – Coisa a que tomamos de empréstimo.

DULCINÉIA – Uma Aldonza quase inexistente.

SANCHO PANZA – Antigo governador de Barataria.

QUIXOTE – Um louco a toda prova, mas com método. Ver POLÔNIO/ HAMLET.

CORINTIANO VOADOR – Torcedor alado de agremiação esportiva brasileira.

Uma pessoa profunda e sábia, eu…

 

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Sem título – ANA BODNAR

 

 

 

A melhor coisa até agora, a que deixa o mais doce retrogosto é o fato simples e cru de que eu não tenho nada a dizer, nada a escrever, nenhum pensamento novo, nenhuma reflexão sobre o tempo e as coisas.

Eu. Nada tenho a fazer ou sentir. Não tenho nada a ver com o que está por aí e nem sinto qualquer necessidade de discutir o momento atual.

Estou. Equidistante de Brasília e da moda e das lutas e do amor. E dos ódios e da cozinha simples e da batalha dos chefs.

E nem. Não ligando para a saúde, nem dando conhecimento à dorzinha esquisita no braço esquerdo.

Estou fumando três cigarros por hora. Viu? Mais um. E mais um copo de vinho. Ao bar, claro, estou indo como quem vai à latrina, por necessidade. E fico lá, por horas, às vezes só, com uma long neck e um copo de cachaça dita de Salinas, tendo como companhia a televisão em algum canal de esportes.

É quase inacreditável. Nada a dizer, escrever ou almejar.

Alcanço agora felicidade da qual não supunha merecedor: a de comentarista do Nada, descritor solene de um saco vazio.

Só me falta uma figueira, uma serpente gigante, um Satori.

 

Agora, vamos ao jogo de armar:

 

A melhor coisa até agora, a que deixa o mais doce retrogosto é o fato simples e cru de que eu tenho tudo a dizer, tudo a escrever, infinitos pensamentos novos, infinitas reflexões sobre o tempo e as coisas.

Eu. Tenho tudo a fazer ou sentir. Tenho tudo a ver com o que está por aí e sinto profunda necessidade de discutir o momento atual.

Estou. Entranhado de Brasília e da moda e das lutas e do amor. E participante voraz dos ódios e da cozinha simples e da batalha dos chefs.

E sim. Dando enorme importância para a saúde, dando toda minha atenção à dorzinha esquisita no braço esquerdo.

Não estou fumando três cigarros por hora. Viu? Nenhum. E nem mais um copo de vinho. Ao bar, claro, estou indo como quem vai a uma festa, há muito esperada. E fico lá, por horas, nem sempre só, nem sempre só com uma long neck e um copo de cachaça dita de Salinas, mas sempre tendo como companhia a uma legião de conversadores e algum canal de esportes.

É quase inacreditável. Tudo a dizer, escrever ou almejar.

Alcanço agora felicidade da qual não supunha merecedor: a de comentarista do Todo, descritor solene de um saco cheio de plenitudes.

Só me falta uma figueira, uma serpente gigante, um Satori.

Kamikaze Joe e as Sereias de Ébano

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A pena inspirada de Temujin Pancho nos conta no Kamikazion que Kamikaze Joe visitava o universo número 222, pouco antes de despertar e sair para o trabalho.

Era e ainda é lugar de maravilhas, de magias escolhidas, de guerras aeronáuticas travadas por dirigíveis com quilômetros de extensão, de milhares de Graals somente esperando seus cumpridores de demandas.

Falo, e é claro que todos já perceberam, de Bombalurina 33, no setor do Dragão de Caça, logo ali a direita do Saco-de-Carvão.

Pois bem, uma nave avariada forçou nosso herói a uma parada fora de seus planos. E dado que a tecnologia Bombaluriana ainda não ultrapassara (e ainda não ultrapassou) a idade atômica, para não mencionar outras especificidades, foi uma longa temporada esta que reteve nosso aventureiro preferido sob os verdes céus e os triplos sóis.

Não, não nos deteremos nas descrições, quiçá enfadonhas, do Porto do Céu, nem falaremos das Kalavinkas sobrevoantes, nem da austera, mas magnífica arquitetura da Cidade Velha.

Os tempos eram de crise, a Rainha-Mãe morria lentamente e os Sobrinhos-Reis estavam encerrados no conclave da Ilha Firme. Tal não impediu que a sempre falada hospitalidade bombali mostrasse sua presença e Kamikaze se viu hóspede da Margravina em pessoa.

Kamikaze ressonou e encolheu-se contra a parede.

Os dias se passaram então em discretas festividades a honrar o importante hóspede (discretas. A Rainha morria, os reis em conclave, etc.). É claro que discretas do ponto de vista dos bombalis, o que é uma grande diferença.

Eis então que chegou a mensagem, urgente, imperiosa, trazida pela manhã e pelas fadas secretárias. A Rainha escolhera seu anjo de morte e a notícia apanhou nosso herói em deslustrosa nudez, em jucunda foda com Jade e Rubi, as netas da Margravina.

Para os mais afoitos e dedicados à luxúria recomendo as páginas 33 e 34 do tomo III do Kamikazion, profusas em descrições de seios túrgidos, bundas empinadas e interessantes variantes das posições sexuais mais conhecidas.

Nunca se disse que Temujin fosse pudibundo.

Mas o fato é que Kamikaze Joe foi escolhido para liderar o féretro da Rainha-Mãe, função sempre entregue a hóspedes ou mendigos, o que viesse primeiro. Significava também uma penosa viagem pelo oceano Caldeirão até o pequeno continente de Bonifácio para, após uma temerária expedição por selvas fumarentas, desertos de asfalto e desfiladeiros coalhados de criminosos Neanderthal,  se chegar ao lago Hemorragia.

Aliás, só para o perfeito entendimento, são verdes as águas do Hemorragia, como o sangue Bombali.

Também não vamos nos estender sobre as inúmeras aventuras protagonizadas pelo nosso Kamikaze Joe, nem falaremos de suas vitórias, de sua notável habilidade no comando da pequena tropa dos Infantes Funerários. Calaremos mesmo sobre os boatos da bacanal ocorrida na tribo Neanderthal dos Espremedores-de-Urso, onde se ventilou ter Kamikaze se submetido à prática do fio-terra sagrado com a xamã Tectonpalmiraba.  Mais uma vez, o Kamikazion, etc., etc.

Kamikaze emitiu palavras desconexas, puxando as cobertas até seus pés, aflitivamente.

 

Mas tergivesamos. Voltemos ao lago Hemorragia onde se deu, assim nos contou Temujin Pancho, a perigosa entrevista com as carpideiras reais, as Sereias de Ébano.

Foi na ilhota situada no centro do lago, donde se avistavam as cariátides do templo de São Pancrácio de Bombaluria. As águas repletas de magníficos corpos cor de breu.

Elas aguardaram até Kamikaze chegar a beira d´água, a comitiva esperando mais atrás, em tensa expectativa. É sabido que a entrevista é crucial para o bom andamento dos enterros reais, e mais de um reinado acabou em desgraça, no mais completo caos, ante uma falha de um líder de comitiva.

Acresce que era estrangeiro, Kamikaze, pouco versado na complicada etiqueta de morte bombali. Acresce que as sereias de ébano costumavam devorar aos líderes ineptos.

O psicopompo da comitiva aproximou-se e entregou a nosso herói o Penico Doirado, símbolo daquela tarefa santa, ainda contendo as últimas fezes ressecadas da soberana morta.

Também se aproximou do herói a margravina das sereias, agarrando-se preguiçosamente  à pequena rocha conhecida como Parlatório.

Da cauda delfinídea até os brilhantes dreadlocks azuis, ela mediria uns bons metro e oitenta. E é claro, dava-se a notar os grandes seios desafiando a gravidade.

Kamikaze Joe roncava.

Temujin Pancho pintou quadro magnífico da cena, recheando-o de pompa cerimoniosa, tendas esplendorosas da mais pura seda, um psicopompo vetusto e digno em barbas de pura neve (na verdade banguela, vesgo e com tique nervoso nos cantos da boca), ainda que verdadeira  a parte da taurobolíade nua sob os efeitos de maconha-brava.

O diálogo entre Kamikaze e a margravina, emerso da pena algo fantasiosa de Pancho, é até hoje modelo de oratória nas universidades bombalis.

Na verdade se deram de forma mais simples os fatos.

“Qual o segredo do morcego?”, perguntou sem delongas a sereia.

Kamikaze segurou seu membro por cima das calças e improvisou uma careta plena de safadeza.

“É isso aqui no teu rego!”.

Uma insinuação de sorriso e uma nova pergunta.

“Conhece o Mário?”.

“É o primo do meu caralho!”.

“A rosa no cume nasce?”. E a sereia bateu com a cauda agitando verdes águas.

“Quer alho?”, ripostou de pronto nosso galante Kamikaze.

A sereia começou a nadar, pensativamente. E de chofre proferiu o terrível Koan.

“Barafunda?”.

“Cú ou bunda!”, disse o herói, algo malicioso.

Passaram-se intermináveis minutos.

“Tá, pode mandar a véia…”, e mais não disse a sereia.

Durante o traslado do féretro, Kamikaze e a margravina das sereias de ébano dividiram, preguiçosos, uma garrafa de um raríssimo Conhaque Padre Cícero, Gran Reserva, retrogosto de asfalto.

Kamikaze Joe abriu os olhos.