ODE ÀS BUNDAS

ORANGE YOU GLAD? BY BAILEY ELIZABETH

ORANGE YOU GLAD? By Bailey Elizabeth – DeviantArt

 

 

Bundas, bundas, vós que pairais, voláteis

Entre a coluna e o fim de tudo

No fulcro único, obscuro, de odes mais meritório

E diga o mundo bundas e subilatórios

Mas digam bundas, após e sobretudo

Digam montes de doce maciez, voláteis

E digam divas, musas do submundo

Inda que tudo, digam bundas! Tão portáteis!

Levadas, erigidas, transportadas, quase sem esforço

Mui elegantes criações versáteis

Montes veludosos coroando, inversas.

O torso

Breves considerações sobre a jucunda arte de poetar, assim, a modo internético e fugaz

Iridescências

Iridescências – by Voador

 

 

Rapáizi!

(assim é que os nordestinos se referem a alguém, quando admirados e eu sempre gostei deste “rapáizi!” lá deles. Muito melhor que um “rapaz”.)

Mas, rapáizi!

A coisa é que eu vejo muito dos poetamentos do povo aí na rede. Uns poetam pra dentro, outros poetam em torno do umbigo, o que acaba dificultando e tornando pesada a coisa. Às vezes.

Uns poetam pra cima e somem num zum e aí eu fico aqui embaixo tentando localizar o bólido.

E tem os que poetam pra baixo.

De qualquer maneira, pra dentro ou pra baixo. Prá riba ou pro umbigo, você percebe quando encontraram seu eixo de poetamento. Não tem muito a ver com o texto, nem com a honestidade (que muitos são honestos), tem a ver com o dom de poetar que é uma coisa que se sente.

Mas, rapáizi!

As vezes não consigo achar um rumo, mas sinto um ritmo. Leio e penso: é, a rede acontece e, interneticamente solenes, encontramos aos novos poetas.

Ah, faço questão de mostrar minha gema, meu capitão. E, desculpe, falei que é minha mas né minha não, garimpei:

A solidão acontece a céu aberto.

Claro está que a roubei (Você releve meus hábitos malsãos, Mariana, a Gouveia).

E eu acho que é tudo o que eu tinha a dizer sobre a nova poesia e a internet.

Abraço, povo meu.

POEMETO PARA DEPOIS DA CHUVA (Para ser declamado por um homem nu a uma mulher nua)

 

main

 

 

Eu nem mesmo entendo o que é vida

Mas tenho a mulher que é minha

e a vida e a  chuva

E tenho minhas dúvidas, frias, e a chuva

 

E tenho minha vida, meu governo e suas culpas

E as rimas pobres que rimam morte com sorte

E tenho a sombra pequenina e sombria

E as rimas de estar só com o pó e a terra fria

 

Só, como quem compõe uma canção,

Como quem lamenta estar só e comenta como aporte

Como quem ruge contra o tempo e a sorte

Como quem coleciona momentos, sem métrica

 

Tudo o que abarca a infinitude geométrica

 

Como quem insiste em remar contra o tempo

Rimando quando ninguém mais rima, a paz ascética

Diferentemente de augusto, o dos anjos, de quem roubo

Uns e outros, inda que breves, os vãos momentos

 

Combinando palavra com palavra como quem

coleciona aos todos eles, sim, aos sentimentos

Como quem conspira, puto e terno, contra o tempo

E quando acabar o mundo e não houver mais tempo

 

Cantará sobre mariposas e seios e mais além

E discorrerá sobre corpos de mulheres nuas

Por serem belos os corpos de mulheres nuas

E só porque, só porque, seios cheiram bem

 

 

Sobre o Tentador e, de um modo geral, sobre o mau-gosto atualmente em voga

Ary Scheffer The Temptation of Christ 1854

Ary Scheffer – Jesus and the devil in the desert

Eu, equidistantemente de domingos

Segundafeiramente  ao descoberto

mesmo a mim, me disse a mim, a descoberto

que não mais sonetos cometeria. Bingo!

Eis-me aqui, de novo no deserto, solto

Quarenta dias de fome me prometo

É um jejum, né não? Então me submeto

Espero o diabo, um Lúcifer qualquer, estoutro

Um, cê sabe, que me eleve a uma montanha

E me tente com as terras e conquistas, um suborno

e prometendo como minhas as terras todas

(e seus ouros)

Que meu será todo o querer, coisa tamanha

se todo este eu…

Ah, foda-se, que tenha eu a grandeza, viu?

De num repente, o mandar à puta que o pariu

POLUÇÕES

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Key to my heart – Wesley Souza

 

POLUÇÕES

E a lembrança, Peregrino?

Do sutil momento e a labareda

Da mais tênue mágoa de menino

Micro-histórias do vapor mais fino

(sim, ainda sinto vergonha

Por ter visto os seios proibidos

De minha professora)

Rosa, Lourdes, Aldônia, Leda?

1968

invernal

 

Quando eu tinha cinco anos, olhe e veja

Não havia muita dor, só algum mistério

Só um ou outro cemitério a visitar

E muito pouca dúvida que descreva

que então não havia muito a reclamar

 

Mas aconteciam as manhãs e os dias

E tínhamos tardes tantas, por colecionar

E os semáforos no vermelho, sempre vivos

e os invernos que tinham aquela qualidade

 

e os dias que tinham aquela qualidade

e as tardes que tinham aquela qualidade

de serem claras e ventosas, frialdades

eram não mais que outra qualidade,

 

minha mão na de meu pai, e havia as ruas

e o arvoredo todo segredava e eram ruas

sem alarde, nada mais que ruas

e eram ruas sem enfeites, só de pedras

 

e eu me sabia e solidário me guardava

para todo aquele dia e aquelas pedras

 

para todos os momentos que aguardavam

para toda a cumplicidade sem alarde

para toda ambiguidade que eram as tardes

e as tardes que eram tardes se bastavam

 

 

 

 

 

BORGEANA, COM MOTE DE SUASSUNA

armorial

 

 

Salve ó Senhor. Sou marinheiro

Coroado por números, inteiro

E ainda assim é noite, tempestade

Farto de bondade, mas a tenho

 

Não sei sorrir, o duro cenho

Tenho a pena e meu sangue

Por tinteiro

 

O último e perverso Hassidin

Israel Baal Shem pensava assim?

E ainda assim, inteiro?

POEMETO (A modo para se ouvir ao som de “Nau”)

oswaldo-goeldi-ameaca-de-chuva

Ameaça de Chuva – Oswaldo Goeldi

 

 

A tarde pequenina

O velho opróbio

A questão mais que última

A esquina

E sendo tudo ilusório: o tempo, a palavra e a rima

 

Por o tudo em todo o todo é que são artes

O passaredo

E os jardins e as tardes

E o degredo

 

O roncar surdo do meu cão

E a solidão

 

POEMETO 1

Orisha Iansan - by Marhiao - Deviantart

Orisha Iansan – by Marhiao – Deviantart

 

ORIXÁ TAMBÉM É GENTE, SINHÁ

Sempre tive a esperança

De um dia chegar o bom ano

de ter um despacho de rico

disse o orixá aflito

fumando um charuto baiano

de ter espumante famoso

e não sidra vagabunda

de ter um faisão saboroso

e não frango de macumba