TERCEIRO CANTO PARA ARAM – um canto feminino

armorial

 

Helena de Briseis

 

 

Para Balac, que o achará infantil

E para Issac, que perguntará e perguntará…

 

 

 

Existe uma casa para o homem Aram, no infinito

para que existam constelações que se cruzem

Por sobre seu teto

Cheiro (existe cheiro)

Você agora pode sentir o cheiro de facas

Usadas em rituais ao por-do-sol

(reflexo na adaga

o teu rosto pode estar capturado na folha da Atame

de uma bruxa

um duplo

um brilho fulvo de doppelgänger partindo do metal

mas teu rosto inda assim)

 

Pausa

 

Existe uma floresta

E nesta floresta

É tarde agora

E existe relva

 

E há o sol na folha

E na folha, bálsamo e mistério e frialdade

(e há alguém dormindo

ressonar entressaindo do verde

sussurro da fada do dia)

 

existe um sonho sendo tecido

sobre uma tarde nublada e uterina

em uma casa de amores paralela

uma casa para Aram no infinito

 

e em seu quintal há uma pedra

e sobre a pedra o altar

e em tudo isto

o cheiro de constelações alinhadas

 

e o fulgor incandescente do amor

e toda a teimosia feminina feita de fogo

 

 

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POEMETO DE UM HOMEM CANSADO

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L´INCENDIO DEL SOLE – By l_e_n_t_e_s_c_u_r_a – DeviantArt

 

E então acrescento todos os meus dias!

Feios que sejam, penserosos, fundos.

E então acrescento todos eles, os meus ais,

Meus microscópicos momentos e significados

E me traio em tons de medo solidificados

E me distraio com pequenas dores de algo mais,

E me comprazo com o passar silente destes dias

Como se o mundo fosse lodo, lodo os mundos

Como se a tarde fosse peregrina e tudo

Como se ao final de tudo o mundo só restasse, cru

A minha estrada peregrina costurada ao sonho

A todo transe da manhã que me desperta nu

A todo estar, a todo êxtase, a todo estase mudo

A todo choro, a todo riso e o sentir bisonho

Como se a vida, densa, em dó, dúctil e indócil

Conspirasse ante meus olhos, à mais triste revelia

Como se o rosto meu já vincado e absorto

Como a esperança tola, a lágrima, fosse um porto

Como se fosse o tempo e a vida nada mais que tempo

Como se fosse o caos um meu compadre torto

Como se o dia, os ais, as dores, as dores e o momento

Como se o tempo…

Sobre Ezra Pound, um poema de Ezra Pound e uma tentativa de Tradução

Michael Cheval - Division of Prime Cause

Michael Cheval – Division of Prime Cause

 

Ezra Pound publicou seu poema The Alchemist: Chant for the Transmutation of Metals em 1920 (Collected Early Poems of Ezra Pound), com uma nota dando a entender que dele havia uma primeira versão, não publicada, em 1912.  O poema sempre me fascinou pela sua economia, no sentido da justeza como suas partes se fundem em harmonia, como pelo seu tema.

É tanto um canto quanto um mantra, escreveu Timothy Materer em seu ensaio Ezra Pound and the Alchemy of the Word.

Desconheço se há outra tradução em português.

Todo caso, é poema difícil pela matéria que traz, a alquimia. Pound tinha cultura enciclopédica e assim o poema oferece diversas dificuldades, como por exemplo o verso “Under night, The peacock-throated”. O pavão, em termos alquímicos, representa tanto a retorta onde o alquimista calcina e revolve, cauda pavonis, como também a sua cauda é uma metáfora para a aurora. Assim garganta-do-pavão é uma metáfora para a noite.

Do mesmo modo, “larches of Paradise”, literalmente seria os “lariços do paraiso”. Um opção pomposa (lariços, um tipo de pinheiro, só faz sentido a leitores de climas temperados) que preferi omitir, optando pelo genérico “pinheiro”; quando não pela possibilidades aliterativas de PI-nheiROS e PA-RAI-sos.

E ainda, as citações-invocações de damas com nomes de sabores provençais tirados da literatura cortesã medieval, Saîl of Claustra, Aelis, Azalais, Raimona, Tibors, Berangèrë, figuram como se o poeta as estivesse conclamando às invocações para as operações alquímicas. São também um símbolo para a figura onipresente da donzela, tão cara ao cancioneiro da época (Midonz, evocação presente no poema: contração do provençal para “minha donzela”).

Tentei, no melhor dos possíveis, manter os jogos fônicos originais, no que fui, admito, pouco feliz. Então, vejam que há soluções que não se traduzem na fidelidade fiel e canina, pois que ao contrário a mim parecem que seriam traições à intenção original e talvez grandes traições. Modos que prefiro as traições menores. Assim, transcriei com a safadeza que se me acudiu para preservar a harmoniosa escansão do original. Sempre lembrando que as línguas têm ritmos próprios, diferentes, e nós (de quando em quando e com sorte) podemos até conseguir reproduzi-los, em outro eco.

Se chegarmos a tanto, se conseguirmos, é toda transparência que nos cabe, é toda ambição que nos é possível.

Dito isto, sem modéstia mas com cagaço, segue minha tentativa de transcriação do poema.

Vale!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

THE ALCHEMIST

“Chant for the Transmutation of Metals”

Ezra Pound

 

 

Saîl of Claustra, Aelis, Azalais,

As you move among the bright trees;

As your voices, under the larches of Paradise

Make a clear sound,

Saîl of Claustra, Aelis, Azalais,

Raimona, Tibors, Berangèrë,

‘Neath the dark gleam of the sky;

Under night, The peacock-throated,

Bring The saffron-coloured shell,

Bring the red gold of the maple,

Bring the light of the birch tree in autumn

Mirals, Cembelins, Audiarda,

Remember this fire.

 

Elain, Tireis, Alcmena

‘Mid the silver rustling of wheat,

Agradiva, Anhes, Ardenca,

From the plum-coloured lake, in stillness,

From the molten dyes of the water

Bring the burnished nature of fire;

Briseis, Lianor, Loica,

From the wide earth and the olive,

From the poplars Weeping their amber,

By the bright flame of the fishing torch

Remember this fire.

 

Midonz, with the gold of the sun, the leaf of the poplar,

by the light of the amber,

Midonz, daughter of the sun, shaft of the tree, silver of the leaf, light of the yellow of the amber,

Midonz, gift of the Gold, gift of the light, gift of the amber of the sun,

Give light to the metal.

Anhes of Rocacoart, Ardenca, Aemelis,

From the power of grass,

From the white, alive in the seed,

From the heat of the bud,

From the copper of the leaf in autumn,

From the bronze of the maple, from the sap in the bough;

Lianor, Ioanna, Loica,

By the stir of the fin,

By the trout asleep in the gray-green of water;

Vanna, Mandetta, Viera, Alodetta, Picarda, Manuela

From the red gleam of copper,

Ysaut, Ydone, slight rustling of leaves,

Vierna, Jocelynn, daring of spirits,

By the mirror of burnished copper,

O Queen of  Cypress,

Out of Erebus, the flat-lying breadth,

Breath that is stretched out beneath the world:

Out of Erebus, out of the flat waste of air, lying beneath the world;

Out of the brown leaf-brown colourless

Bring the imperceptible cool.

Elain, Tireis, Alcmena,

Quiet this metal!

Let the manes put off their terror, let them put off their aqueous bodies with fire.

Let them assume the milk-white bodies of agate.

Let them draw together the bones of the metal.

 

Selvaggia, Guiscarda, Mandetta,

Rain flakes of gold on the water

Azure and flaking silver of water,

Alcyon, Phaetona, Alcmena,

Pallor of silver, pale lustre of Latona,

By these, from the malevolence of the dew

By these, from the malevolence of the dew

Guard this alembic.

Elain, Tireis, Allodetta

Quiet this metal.

 

 

 

(The New Pocket Anthology of American Verse. Washington Square Press : New York)

 

 

 

 

O ALQUIMISTA

“Canto para a transmutação dos metais”

Ezra Pound

Sail de Claustra, Aelis, Azalais

Como vos moveis por entre árvores de luz

Como vossas vozes, sob pinheiros do paraíso

Fazem soar som cristalino

Sail de Claustra, Aelis, Azalais, Raimona, Tibors, Berangèrë,

Abaixo do escuro fulgor do céu;

sob a noite, a garganta do pavão:

Tragam a cobertura de açafrão,

Tragam o ouro vermelho do bordo,

Tragam a luz da bétula no outono,

Mirals, Cembelins, Audiarda,

Façam recordar este fogo.

 

Elian, Tireis, Alcmena,

Em meio ao sussurro de prata no trigo,

Agradiva, Anhes, Ardenca,

Do lago em cores de ameixa, em quietude

Do Matiz derretido da água

Tragam o calcinado gênio do fogo,

 

Briseis, Lianor, Loica

Da Terra em amplidão e da oliva

Dos choupos chorando seus âmbares,

Pela brilhante flama de lanternas de pesca,

façam recordar este fogo.

 

Midonz, com o ouro do sol, a folha do choupo, pela luz do âmbar,

Midonz, filha do sol, seta da árvore, prata da folha,

Luz do amarelo do âmbar,

Midonz, dádiva do deus, dádiva da luz, dádiva do âmbar, do sol,

concede luz ao metal.

 

Anhes de Rocacoart, Ardenca, Aemelis,

Do poder da relva,

Do branco, vivo na semente,

Do calor do broto em florescência,

Do cobre da folha no outono,

Do bronze da bétula, da seiva no galho,

Lianor, Ioanna, Loica,

Pelo mover da barbatana,

Pela truta adormecida no verde-cinza da água,

Vana, Mandetta, Viera, Alodetta, Picarda, Manuela

Do fulgor rubro do cobre,

Ysaut, Ydone, leve sussurrar de folhas,

Vierna, Jocelynn, ousadia de éteres,

Pelo espelho de cobre calcinado,

Ó, rainha do cipreste

Ao largo do érebo, a plana largura,

Cujo hálito dilata-se abaixo do mundo:

Ao largo do érebo, ao largo da planura deserta de ar,

deitada abaixo do mundo;

Ao largo de folhas incolores castanho-pardas,

Tragam o imperceptível frio

Elain, Tires, Alcmena

Apazigüem este metal!

Extraiam os manes de seu terror, extraiam-nos

Seus aquosos corpos com fogo.

Façam-nos assumir os branco-leitosos corpos de ágata.

Façam-nos extrair os ossos do metal.

 

Selvaggia, Guiscarda, Mandetta,

Chuva de flocos áureos sobre a água

Cerúlea e floculada prata da água,

Alcyon, Phaeton, Alcmena,

Palor de prata, pálido lustro de Latona,

Por isso, da malignidade do orvalho,

Resguarda este alambique.

Elain, Tireis, Allodetta,

Serenem este metal.

 

Marco Polo, na prisão, Conversa com Rustichello de Pisa

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A mystical voyage – by Fizzyjinks (DeviantArt)

 

 

 

Ezo

térmita, forasteiro

out

eu sou um preto amarelo sem raiz

venho então de todo lugar

 

lagarto amarelo na pedra

judeu marinheiro

 

existiu um rei, dizem

que me empregou cosmógrafo

e me lancei então ao mar de especiarias

ao oceano que despenca na crista do mundo

 

e trazia as roupas de meu pai

e seu legado de poemas por companhia

 

velha mulher

te trago agora meu portolano, minhas próprias entranhas,

minha nudez marinha, minha carta náutica do coração

e a mensagem do coração

 

olha e ouve, mulher da idade

matriarca da chuva

:eu nunca esqueci

eu fiz o caminho através dos portos

e me misturei às gentes

 

e trouxe ao de dentro as cores

e os cheiros diversos

pra misturar no teu caldeirão, mãe!

 

vivi os muitos séculos

para me tornar cada vez mais

parecido comigo mesmo

filho de tua tribo

cada vez mais do mar.

RIMADOR, RIMADOR

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260ANALOGOUS by mcptato- DeviantArt

 

Certo, falaremos da viola e do prepúcio

Não, da perseguida falaremos e de Dóris

Para que seja fácil a rima com clitóris

E também, safados, falaremos de Vespúcio

 

O cabra celerado e italiano que sem mais nos deu

Nos emprestou seu nome à América, e por concurso

Nos habilitou a por través o navegar no leito seu

E a dar partida à rima rica e ao discurso? Fudeu?

 

Mas, falava eu?, lembro não, ô vida besta

Só sei que ao relento não me calo, meto os peitos

Procuro outros sóis para regalo, nos direitos

Falho, desconsigo, empunho a lira, romanesca

 

E termino, pronto, agora, ao poeminha torto

Vos concitando a que relembrem e acreditem

Comigo, pois, repitam: vida, estro, luz e porto

Bunda, bilro, sombra, caos e manto. Recitem!

 

 

 

A paixão segundo o Corintiano Voador II

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Com o que então, Suleiman ibn Daoud, começo esta história

, eu que estava tão longe de ti na ocasião, lá em digamos, um janeiro não é? Uma Jerusalém, quem sabe?

Bem, era um destes dias ou lugares talvez,

quando então era moda lutar contra os fados, desde que se babasse com cuidados nos culhões dos deuses em voga.

Não era uma época de calma, de vagar.

Era mais o comum, o pastoreio de ovelhas, a fermentação de nossas lágrimas, os sacrifícios rituais.

Uma época propícia para servas chamadas Hagar.

Não como hoje, onde enredamos a vida e a paciência em grades tão apertadas que elas choram,

Mas não mais livre era a época, Também cheia de salvação e perdão e inferno em drágeas

Se acaso morrêssemos, quem ligaria para nossos sobejos? As coisas sórdidas que se desprenderiam de nós?, em livros, terra, cuecas, camisetas, sistemas?

Nada. Isto dito pelos golfinhos e pescadores.

Se acaso morrêssemos, nada em nós mereceria sequer um peido.

Enfrentaríamos batalha última, leríamos as muitas bíblias, e não teríamos olhos para ver;

Não atentaríamos para o fato de ser Lilith mais completa que Eva, embora tão morta quanto

E até agora, forçoso dizer: até aqui, só falamos de nosso umbigo

Sim, e de púrpuras sonolentas. E sim, de fadas desidratadas

Ainda assim, temos e mantemos nossas declarações de amor para nossas mulheres: Tu és valente como uma idiota e terna como uma tarde.

É verdade, somos o que o somos, como um anjo, como uma promissória.

É. Ainda assim, Hagar, teremos filhos.

A PAIXÃO SEGUNDO O CORINTIANO VOADOR

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O Evangelho Segundo São Mateus – Set de filmagem – Pier Paolo Pasolini

 

Reservado, contrito, mas atento, em uma viela de Jerusalém

Eis que Jesus se recolheu (avistara a cavalos e soldados)

Nada demais, soldados e cavalos, eram romanos os cavalos

E eis que havia ainda, devotados, apóstolos mais além

 

Então, eram os cavalos e os soldados e o Senhor

De nome Yeshua ben Yussef, um carpinteiro

Que iria se foder ao fim do dia, o fim certeiro

Era certeza e desfazia-se o enviado em dor.

 

Jesus amava a inteireza, sabia que sabia todo o enredo

Não lhe importavam judas, o sinédrio ou Pedro

Sobre este último, interessa, dizer que era Pedra de apelido

De nascimento, o pedra, o Kephas, o remido

 

Shimon bar Ionah, negador profissional, três vezes

(apenas aos melhores convocava o nazareno)

e cada pedra da cidade segredava o ai supremo,

morrerás, Jesus, mas olha, os teus revezes

 

servirão para consolidar, serão fecundos

será de glória vossa morte, em prol do mundo

terás a via dolorosa e turistas em disputas

uns por adorarem o deus uno iracundo

outros por irem mais além, e resolutas

outros por teu gesto de amigo às putas

 

as massas ocuparão o paredão do templo

e colocarão mil orações em suas fendas

e quando não restar alento ou mesmo tempo

 

de modo calmo, firme e lento,  em meiga dança

como convém a tão gentil messias, ei-lo

repartirão as rendas vossas, teu dinheiro

e irão mercadejar teus gestos e teus dias

 

e Jesus não será mais Jesus, o desenredo

não mais que uma pintura em uma folhinha

um inventado homem em uma folhinha

e, claro, uma cadeira doirada para Pedro

EU ME LEMBRO III

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Lullaby for Butterfly King II – Michel Cheval

 

NINGUÉM TE SALVARÁ,

BÉTULA SEM CAULE,

NADA DE VENDAS HOJE

ZERO, PÁTINA EM MINHA BÍBLIA

 

(FOI EM ABU SIMBEL)

 

 

NINGUÉM TE RECITARÁ O CADISH

CAMPÂNULA CARENTE DE CARNE, SEDA PLANTADA EM CINZENTO, NAUFRÁGIO

TRAMASTE O FIM, SÓ ME  RESTOU A MEDUSA DO TEU CABELO

 

LEMBRAS?

EU VINHA COM AQUELE AMIGO EM UM DIA DE PEDRA

DRÁCULA NOS ESPERAVA NA BANCA DE JORNAL MAIS PRÓXIMA

NAVIOS ESPANHÓIS

BUCANEIROS À MESA RASGANDO MEU CORAÇÃO INGLÊS

E O NATAL ADIVINHADO NO BARCO ANCORADO NO CORREDOR DE PEDRA

SALVIA

DRAM-ISTABRACADIM

KHIAMAMADRA

FLASH GORDON

 

NO RELÓGIO DA TUA CABEÇA

TECEMOS O TEMPO EM TORNO DE MARGARIDAS

 

AH, EU AMAVA O COBRE VENTUROSO DO CAMINHO

O TELEVISOR SAGRADO, A COPA DO MUNDO

AS MANHÃS JAPONESAS

E O RISO DE MEU PAI VINDO PARA ME DIZER DO DIA

 

FRAGÂNCIA PRESA AO MEU NARIZ DE PEDRA

EU COLOCAVA UM AMIGO DEPOIS DO OUTRO EM CIMA DA MESA

E OS RECONTAVA

E OS AMOLGAVA NA MOENDA DE MINHA TREVA

CHICO EM MINHA CASA

EXPEDITO EM MINHA CASA

ALVIM AO MEIO-DIA

AS ESTRELAS NO FRIO DA MANHÃ

 

ERA DE NOVO O QUE ERA

KOMUSO COM A TIGELA

O GATO EM TRANSE

 

A TARDE E A NOITE

DOS VERÕES DE DEZEMBRO ME COLOCAVAM

ME SUSTINHAM

PENDENTE

 

AS MANHÃS FRAGANTES

TEÓPOLIS

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Artificial Sun – by Ahermin / DeviantArt

 

E NA ALA VIP DO CÉU

OS TURISTAS CORREM COM OS DENTES

EM SANGUE

POIS É

EU ESTOU LÁ, SORRINDO!

 

FOTOGRAFO DEUS

PROTEGIDO POR QUERUBINS

E ESPERO O ARMAGEDON

ATRASANDO O EMBARQUE

 

É. DEUS DE MANHÃ

QUASE NÃO RECONHECI

SEM O RAY-BAN

SOBRE A POESIA E OUTRAS EXCENTRICIDADES

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ANDERSON ANDRADE – DeviantArt

 

Para Mariana, a Gouveia. Arqueóloga de quintais, geógrafa afetiva e tecelã de ritmos.

 

 

Quando era eu ainda um petiz (adoro esta palavra tão antiga dos meus primeiros livros de escola); bem, quando era ainda um moleque, me apresentaram à poesia. Primeiro com meu pai, devoto de cordéis e depois se acomodaram na sala os parnasianos e aí ouvi a música de Bilac e Castro Alves, suas palavras encorpadas, as rimas feitas de matéria diáfana, mas densas, como trovões.

Começo de novo, a poesia.

Bem, amigas e amigos, a poesia para mim que começava eram só as rimas. Não conseguia conceber o poetamento sem a mágica das rimas. Poema para mim, nos começos começantes, eram os rimados.

Na época, todos concordavam comigo. Todos os habitantes do meu mundo social tinham isto claro e soberano: poesia sem rima não era poesia. Daí que desprezavam as poesias não rimadas como imperfeitas, dignas de riso.

Eram os setenta e os oitenta em toda sua falta de glória.

Então, como na canção, se passaram os anos e eu consegui, com certo sucesso, sair do nicho onde me gerei e conheci a outras formas: primeiro os versos brancos, depois os Oswalds e Mários de Andrade, as Cecílias e a Túnica Inconsútil de Jorge de Lima. Depois, os concretistas, as tentativas de tradução de haicais, os franceses, Octávio Paz (e os arcos e as liras de Octávio Paz), Drummond.

Foi aí que eu percebi o que de fato me atraía na poesia. Não eram as rimas. Gregos e romanos, chineses e persas e árabes não rimavam. Mais que tudo, percebi que era o ritmo.

Uma coisa que o poeta mediano não percebe, embora todo poeta, medíocre ou genial, mereça o cognome grandiloquente e vazio: Fulano, o poeta.

Sempre acompanhei com carinho as seções de poesia de pequenos jornais de cidades, os jornais de classe, as revistas de ocasião, onde Beltrana e Beltrano se faziam publicar. Como não entendiam de ritmo, cometiam seus poemas com aquela qualidade que nos trazia a nós, leitores, um pequeno incômodo em nosso ouvido interno.

Mas eram poemas e eu apreciava seus esforços. Ainda aprecio. A única medida sendo se eram honestos ou não em seus esforços.

Houve mesmo uma evolução no gosto médio dos poetas médios. Nos anos setenta e oitenta (e sem dúvida nas décadas anteriores que não vivi) preferiam os meus adorados medianos às rimas, depois perceberam não ser pecado soltarem as suas palavras das grades da metrificação.

Só não percebiam que com rima ou sem rima, os poemas reclamavam uma forma, um andamento, uma pulsação.

Não obstante, minha régua não mudou: honestidade. Sem honestidade não há o poema e, suspeito, nem a prosa e nem o texto. Não estou falando da verdade, estou falando de coerência. Um signo tem que responder a outro signo, um tom a um outro tom.

Exempli Gratia, a música. A música também não pode prescindir da pulsação, do andamento, embora sejam outras, as pulsações e andamentos da música, por existirem dentro de outra pulsação e andamento mais poderosa, imperiosa, que é feição e a necessidade que fazem da música, música.

Você pode ouvir a uma peça serial de Schoenberg ou Alban Berg; a Jackson do pandeiro ou a uma música introdutória em peça do teatro Nô; a Ravi Shankar; a Elis, ao hip-hop, ao funk, ao sertanejo, enfim. E lá você vai reconhecer a música, o balanço e vai saber no ato se está tratando com um criador honesto.

Se não, você vai sentir o ruído da máquina, cada vez mais presente e só.

Também assim com a poesia. Parece ser uma questão não do acorde, mas da mão que dá vida ao acorde. Parece ser uma questão não da palavra, mas da boca e da mão que se preocupa com, em conjugar, em tornar harmônica a palavra e o espaço em branco entre as palavras.

Aliás, não é vazio o espaço entre uma palavra e outra palavra. Talvez nem seja branco, mas está lá.

E era só o que eu tinha a escrever.

Em outra ocasião, reinventaremos a roda. Aguardem.