ODE ÀS BUNDAS

ORANGE YOU GLAD? BY BAILEY ELIZABETH

ORANGE YOU GLAD? By Bailey Elizabeth – DeviantArt

 

 

Bundas, bundas, vós que pairais, voláteis

Entre a coluna e o fim de tudo

No fulcro único, obscuro, de odes mais meritório

E diga o mundo bundas e subilatórios

Mas digam bundas, após e sobretudo

Digam montes de doce maciez, voláteis

E digam divas, musas do submundo

Inda que tudo, digam bundas! Tão portáteis!

Levadas, erigidas, transportadas, quase sem esforço

Mui elegantes criações versáteis

Montes veludosos coroando, inversas.

O torso

SOBRE O TEMPO E SOBRE TEMPOS

 

 

 

midas_s_daughter_by_radoslawsass-d84wwg1

Mida´s daughter – by Radoslawsass-d84wwg1SS / DeviantArt

 

 

deste mundo nada sei, sei nada não, sou o que nunca

Verdade verdadinha, nada atino sobre o tempo

Sei só que é escroto o tempo em cada canto,

E que a tarefa mais dileta que o tempo funda

É fazer minorar o tempo e o mundo e o pranto

 

Já não relembro mais Robertos Carlos, nem Gonzagas

Mas relembro que o tempo é um cu, caso acabado

Ou talvez seja só o tempo um consolo mal acomodado

Todo caso não está em nossas mãos, o tempo e o fado

 

E é sempre bom mandar o tempo, nosso namorado,

É sempre bom mandar o tempo, nosso amante, às favas.

 

 

Breves considerações sobre a jucunda arte de poetar, assim, a modo internético e fugaz

Iridescências

Iridescências – by Voador

 

 

Rapáizi!

(assim é que os nordestinos se referem a alguém, quando admirados e eu sempre gostei deste “rapáizi!” lá deles. Muito melhor que um “rapaz”.)

Mas, rapáizi!

A coisa é que eu vejo muito dos poetamentos do povo aí na rede. Uns poetam pra dentro, outros poetam em torno do umbigo, o que acaba dificultando e tornando pesada a coisa. Às vezes.

Uns poetam pra cima e somem num zum e aí eu fico aqui embaixo tentando localizar o bólido.

E tem os que poetam pra baixo.

De qualquer maneira, pra dentro ou pra baixo. Prá riba ou pro umbigo, você percebe quando encontraram seu eixo de poetamento. Não tem muito a ver com o texto, nem com a honestidade (que muitos são honestos), tem a ver com o dom de poetar que é uma coisa que se sente.

Mas, rapáizi!

As vezes não consigo achar um rumo, mas sinto um ritmo. Leio e penso: é, a rede acontece e, interneticamente solenes, encontramos aos novos poetas.

Ah, faço questão de mostrar minha gema, meu capitão. E, desculpe, falei que é minha mas né minha não, garimpei:

A solidão acontece a céu aberto.

Claro está que a roubei (Você releve meus hábitos malsãos, Mariana, a Gouveia).

E eu acho que é tudo o que eu tinha a dizer sobre a nova poesia e a internet.

Abraço, povo meu.

POEMETO PARA DEPOIS DA CHUVA (Para ser declamado por um homem nu a uma mulher nua)

 

main

 

 

Eu nem mesmo entendo o que é vida

Mas tenho a mulher que é minha

e a vida e a  chuva

E tenho minhas dúvidas, frias, e a chuva

 

E tenho minha vida, meu governo e suas culpas

E as rimas pobres que rimam morte com sorte

E tenho a sombra pequenina e sombria

E as rimas de estar só com o pó e a terra fria

 

Só, como quem compõe uma canção,

Como quem lamenta estar só e comenta como aporte

Como quem ruge contra o tempo e a sorte

Como quem coleciona momentos, sem métrica

 

Tudo o que abarca a infinitude geométrica

 

Como quem insiste em remar contra o tempo

Rimando quando ninguém mais rima, a paz ascética

Diferentemente de augusto, o dos anjos, de quem roubo

Uns e outros, inda que breves, os vãos momentos

 

Combinando palavra com palavra como quem

coleciona aos todos eles, sim, aos sentimentos

Como quem conspira, puto e terno, contra o tempo

E quando acabar o mundo e não houver mais tempo

 

Cantará sobre mariposas e seios e mais além

E discorrerá sobre corpos de mulheres nuas

Por serem belos os corpos de mulheres nuas

E só porque, só porque, seios cheiram bem

 

 

Sobre o Tentador e, de um modo geral, sobre o mau-gosto atualmente em voga

Ary Scheffer The Temptation of Christ 1854

Ary Scheffer – Jesus and the devil in the desert

Eu, equidistantemente de domingos

Segundafeiramente  ao descoberto

mesmo a mim, me disse a mim, a descoberto

que não mais sonetos cometeria. Bingo!

Eis-me aqui, de novo no deserto, solto

Quarenta dias de fome me prometo

É um jejum, né não? Então me submeto

Espero o diabo, um Lúcifer qualquer, estoutro

Um, cê sabe, que me eleve a uma montanha

E me tente com as terras e conquistas, um suborno

e prometendo como minhas as terras todas

(e seus ouros)

Que meu será todo o querer, coisa tamanha

se todo este eu…

Ah, foda-se, que tenha eu a grandeza, viu?

De num repente, o mandar à puta que o pariu

1968

invernal

 

Quando eu tinha cinco anos, olhe e veja

Não havia muita dor, só algum mistério

Só um ou outro cemitério a visitar

E muito pouca dúvida que descreva

que então não havia muito a reclamar

 

Mas aconteciam as manhãs e os dias

E tínhamos tardes tantas, por colecionar

E os semáforos no vermelho, sempre vivos

e os invernos que tinham aquela qualidade

 

e os dias que tinham aquela qualidade

e as tardes que tinham aquela qualidade

de serem claras e ventosas, frialdades

eram não mais que outra qualidade,

 

minha mão na de meu pai, e havia as ruas

e o arvoredo todo segredava e eram ruas

sem alarde, nada mais que ruas

e eram ruas sem enfeites, só de pedras

 

e eu me sabia e solidário me guardava

para todo aquele dia e aquelas pedras

 

para todos os momentos que aguardavam

para toda a cumplicidade sem alarde

para toda ambiguidade que eram as tardes

e as tardes que eram tardes se bastavam

 

 

 

 

 

HOMOTELEUTO CACOFÔNICO

Olavo-Bilac

Confabulando, cinco sílabas conto

de metrificações não tanto tântricas

mas não resisto, aspiro ao dodeca,

não ergo a lira ó Safo e canto?( Um deca?)

 

Não, minha ambição sempre é o alexandrino

São só doze sílabas, dois hemistíquios

Claro, não consigo, falho ao duplo hexacanto

Claro, não consigo foder dois orifícios

 

Ou bem faço coisa incerta ou rimo

Trimegisto, Hermes, ditirambos, merdas,

É cesura feminina amancebada em anapesto

é dispondeu então? romancilho entrecoberto?

 

Não lavro a lira ó Safo e canto? (tu cantas?)

Incertas e ao aberto. São só palavras, certo?

E mais de um céu é descoberto ao pranto

 

E Douto

E perniaberto

 

Ai, Maldição, cadê o verso másculo?

Perniaberto, douto, ó tema vagabundo

A mestria ao caralho, eu queria doze sílabas!

 

mas não desisto: ergástulo, báculo, mundo

Trissílabas, dissílabas, então redundo?

“fulge em nuvens, no poente, o Olimpo, o céu delira”

Obrigado, Olavo Braz, pela lira.

INTERNETÍADA

JOÃO MARTINS ATHAYDE - By Mendonça


Para Dom Mariel Fernandes. Poeta, trovador e soldado da fortuna. 
Emissário Del-Rey em nossas províncias do Sul

Do fero tempo o afã internético

O fantasmal espaço, a expansão

O pasto digital, o céu sintético

Incondicionalmente, o imagético

O solitário vão, a escrotidão

(

)

Oh, solário feicebuquiano

Oh, caos mais que atroador

E eis-me aqui, corintiano

E voador

e eis-me aqui, filho-da-puta ufano

(

)

Oh, bundas matizadas de açafrão

Oh, carnaval de peitos, cintaralhos

Vos buscarão os blogues em baralho

Vos buscarão na casa do caralho

Colecionados cús em suspensão

(

)

Oh, Fecundíssimo e fugaz puteiro

Oh, Felicíssima Thule de deleites

manando mel diáfano, apanhei-te

Do verbo iracundo de Bill Gates

(

)

E ria o Zuckerberg, doce e terno

E clame a voz novel do internauta

E voem os Archivos sempiternos

Verão fugaz a não se dar por falta

BORGEANA, COM MOTE DE SUASSUNA

armorial

 

 

Salve ó Senhor. Sou marinheiro

Coroado por números, inteiro

E ainda assim é noite, tempestade

Farto de bondade, mas a tenho

 

Não sei sorrir, o duro cenho

Tenho a pena e meu sangue

Por tinteiro

 

O último e perverso Hassidin

Israel Baal Shem pensava assim?

E ainda assim, inteiro?