Breves considerações sobre a jucunda arte de poetar, assim, a modo internético e fugaz

Iridescências

Iridescências – by Voador

 

 

Rapáizi!

(assim é que os nordestinos se referem a alguém, quando admirados e eu sempre gostei deste “rapáizi!” lá deles. Muito melhor que um “rapaz”.)

Mas, rapáizi!

A coisa é que eu vejo muito dos poetamentos do povo aí na rede. Uns poetam pra dentro, outros poetam em torno do umbigo, o que acaba dificultando e tornando pesada a coisa. Às vezes.

Uns poetam pra cima e somem num zum e aí eu fico aqui embaixo tentando localizar o bólido.

E tem os que poetam pra baixo.

De qualquer maneira, pra dentro ou pra baixo. Prá riba ou pro umbigo, você percebe quando encontraram seu eixo de poetamento. Não tem muito a ver com o texto, nem com a honestidade (que muitos são honestos), tem a ver com o dom de poetar que é uma coisa que se sente.

Mas, rapáizi!

As vezes não consigo achar um rumo, mas sinto um ritmo. Leio e penso: é, a rede acontece e, interneticamente solenes, encontramos aos novos poetas.

Ah, faço questão de mostrar minha gema, meu capitão. E, desculpe, falei que é minha mas né minha não, garimpei:

A solidão acontece a céu aberto.

Claro está que a roubei (Você releve meus hábitos malsãos, Mariana, a Gouveia).

E eu acho que é tudo o que eu tinha a dizer sobre a nova poesia e a internet.

Abraço, povo meu.

Sobre o Tentador e, de um modo geral, sobre o mau-gosto atualmente em voga

Ary Scheffer The Temptation of Christ 1854

Ary Scheffer – Jesus and the devil in the desert

Eu, equidistantemente de domingos

Segundafeiramente  ao descoberto

mesmo a mim, me disse a mim, a descoberto

que não mais sonetos cometeria. Bingo!

Eis-me aqui, de novo no deserto, solto

Quarenta dias de fome me prometo

É um jejum, né não? Então me submeto

Espero o diabo, um Lúcifer qualquer, estoutro

Um, cê sabe, que me eleve a uma montanha

E me tente com as terras e conquistas, um suborno

e prometendo como minhas as terras todas

(e seus ouros)

Que meu será todo o querer, coisa tamanha

se todo este eu…

Ah, foda-se, que tenha eu a grandeza, viu?

De num repente, o mandar à puta que o pariu

POLUÇÕES

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Key to my heart – Wesley Souza

 

POLUÇÕES

E a lembrança, Peregrino?

Do sutil momento e a labareda

Da mais tênue mágoa de menino

Micro-histórias do vapor mais fino

(sim, ainda sinto vergonha

Por ter visto os seios proibidos

De minha professora)

Rosa, Lourdes, Aldônia, Leda?

POEMETO II SEM MÉTRICA (para se ouvir ao som de “o último tango em Vila Parisi”)

death-and-the-maiden-lo-res

O mundo do mais estranho, a caixa de pandora,

O tremedal do medo, o caos, a tunda

Nada mais será do que preâmbulo, moda

Onde todos baixam as cabeças e erguem a bunda

Feito assim um Brasil, desses aí, à roda

Feito um Brasil, assim, um macambúzio

Como se um babalaô cantasse

A predição adormecida no interior do búzio

Ó tempos, ó estações, ó descalabro

Onde todos os animais que peidam

onde todo Jesus que é babujado

Onde o quadrilátero dos sicofantas

Onde todos os profetas com cajado

Prosperam, escrevem, arrotam, beijam

Ai, eis que me ufano destas plantas

Pois temos nesta terra os fortes cus

Mui penetrados, uns sangrando, uns

As pregas excitadas e retráteis, de truz

Ó meu país, o mundo…o mundo

Ó rosa dos ventos, ó meu pão sírio

Aqui deste lado é mundo e é escuro

Mesmo assim, até por isso, contudo

POEMETO 1

Orisha Iansan - by Marhiao - Deviantart

Orisha Iansan – by Marhiao – Deviantart

 

ORIXÁ TAMBÉM É GENTE, SINHÁ

Sempre tive a esperança

De um dia chegar o bom ano

de ter um despacho de rico

disse o orixá aflito

fumando um charuto baiano

de ter espumante famoso

e não sidra vagabunda

de ter um faisão saboroso

e não frango de macumba