A PRISÃO DE WILD MARCIONÍLIA

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COSMIC VOYAGE – By Skmoon-d7anzbl – DeviantArt

 

 

No dia em que Wild Marcionília foi presa, eu chorei.

Vozes sem conta comemoraram sua prisão. Oro Bonfá, dono de cinquenta e três luas de mineração e pelo menos dois planetas terrestroides inteiros abriu seu palácio do prazer com mesa farta, prostitutos e prostitutas à mancheia e de graça e um discurso inflamado que terminou com a morte programada de Maatu, o verde, o putinho mais famoso de todos os tempos e que deve ter ganhado ali os seus milhões e remida aposentadoria, assim que revivido.

E havia o Grande Juiz, autor do mandado de prisão, a quem se prodigalizou grandes comendas, com uma ou duas canonizações em mundos de fronteira.

Wild Marcionília, claro, não foi poupada de nada e por ninguém. Perguntaram às multidões reunidas em torno do Templo em Nárnia: Marcionília ou Barrabás? E as massas urraram.

Entretanto (permitam-me o entretanto), Wild Marcionília, a mais nova presa política do século, não pareceu se dar conta de que tinha um papel a cumprir nos planos do Grande Juiz, nos planos da Grande Babilônia, nos planos da Casta Dourada e não se apresentou na hora e dia previstos.

Conta-se que a guarda pretoriana do Templo veio toda paramentada em glória para sua prisão, com direito a holofotes brilhantes, trovões e raios multicores. Um dos discípulos de Marcionília seccionou com sua adaga à orelha de um dos guardas e Wild Marcionília o deteve só com seu olhar e sorriso, para a seguir recompor a orelha.

“Qual o teu nome?”, perguntou o Grande Pretor.

“Meu nome é legião!”, respondeu altivamente Wild Marcionília, reconhecidamente uma das demônias mais combativas e impiedosas de todo o Xeol.

O qual, aliás, não é nome de planeta mas de um específico inferno.

No dia em que Wild Marcionília foi presa eu também ri. Um riso contido, sereno, como compete a um filho-da-puta de escol que sei que sou.

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Sobre o fascismo que habita debaixo de nosso couro

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Dignidad – Ron Vargas – DeviantArt

 

 

Em data incerta de ano incerto passei uma temporada em Ciudad Del Este, aquele grande monumento ao brega dinâmico, aquele mercado Souk plantado no rabo da América do Sul.

Foi das melhores épocas de minha vida. A começar pelo cheiro, presente em todo e qualquer canto, suponho que uma mistura de especiarias da culinária local com as emanações dos corpos, dos deuses também locais e das almas.

E foi lá que aos poucos, aos poucochinhos, nos devagares, que notei os olhares, o conjunto de esgares, as expressões todas confazentes, as periferias dos olhares dos paraguaios, circunvagando meu rosto, não me dando a cortesia sequer do desprezo. Eles se lembravam de outros tempos, onde nossos avós de mãos dadas com avós argentinos fizeram ali coisas, muitas.

Suspeito, acho, que não me tinham qualquer ojeriza pessoal. Me viam, me inspecionavam no geral, não como pessoa, mas como símbolo. O mesmo comportamento que vez em quando nos acode quando nos vemos ante um gringo qualquer, europeu, americano ou japonês, mas mormente mais quando americano e europeu.

Não desgostamos do moço ou da moça. Só temos é gastura, uma reação estomacal de raiva ancestral.

E assim os paraguaios comigo, conosco. Talvez também os bolivianos, de quem tomamos o Acre. Como os mexicanos tiveram tomado a seu Texas.

Mas então o Paraguai e Ciudad Del Este, antes Puerto Presidente Stroessner, em homenagem ao ditador de plantão da época.

Era e acredito que ainda é lugar quente e alegre e triste, ao seu modo tão peculiar de conciliar tristeza com magia.

Povoada com e por pessoas trilíngues, de pedra. Um lugar com partidas de futebol, circo com calendário e todo o mal que se espere, de todas as safadezas mais que esperadas, com seus ódios e tesão.

O fascinante cu de nuestra américa, a capucheta do cão.

Mas os rostos das pessoas, amigas e amigos, os rostos! Velhos, sorridentes e dotados de uma sabedoria que se pressentia quase como dor, se confazendo em gestos de polidez que escondiam mágoa velha.

A vida se decide é nestes rostos, nos humildementes, nos falares atrás de pilastras, nos cochichos atrás de monumentos de fundadores, foi o que atinei e atino.

Jesus caminhava por Ciudad Del Este, insuspeitado. E disputava o espaço com os espíritos abissais de antigas divindades indígenas destronadas, com quilômetros de extensão.

Sobre as mulheres…

HENRI CARTTIER-BRESSON - Postíbulo Espanha

Henri Cartier-Bresson – Prostíbulo, Espanha

 

Nunca entendi muito essa coisa de dia das mulheres e, mudando de hábitos e sendo sincero, nunca gostei muito da coisa.

Nâo me entendam mal (ou entendam, sei lá), mas a coisa, o busílis, é que nunca vi com bons olhos esse negócio aí de homens falarem de feminismo como se feministas fossem. Já escrevi certa ocasião que somente mulheres mulheram bem, com maestria.

Entonces, sei não.

Acredito, suspeito (mas não dou fé), que se mulher fosse ficaria muita puta com cada elogio a min dirigido neste dia aí, Internacional, Gézuiis me guarde, da mulher.

Ficaria virada no capeta, metamorfoseada na pomba-gira, incorporada na madrasta do Jiraya, com cada “guerreira”, com cada “lutadora” que me dissessem ou mesmo visse impressa.

Agora, não me chamem de hipócrita, que é lugar-comum porque só atendo por Senhor Hipócrita-do-Caralho, que não sou um hipócrita amador desses aí. Não senhor, comigo é no gogó. Hipócrita profissional.

Ah, tá, mas eu falava?

Não vejo minha mãe ou minhas irmãs ou esposa ou agregadas como guerreiras, não. Nunca senti esta impressão emanando delas. Só as vi e vejo ali, na delas, respirando, atentas, cientes de serem aprendizes eternas neste negócio de viver a vida (ô frase babaca, meu deus! Escapou).

Modos que, mulheres, pelamôdideus, mulherem!

Vocês, mulheres, que inventaram a conversa de mulheres. Aquela, que sustenta o universo.

Agora, nos finalmente, a minha mais sagrada opinião sobre a caminhada das mulheres é que o tempo e não nós, eventuais homens, este sim, é o melhor dos aliados na caminhada das mulheres.

A mulheres inventaram o tempo, sabem? Os homens o relógio.

E inventaram o tempo por saber que o tempo deforma, muda, faz evoluir, traz o medo, mas também o riso, vira do avesso, conspira e transforma. Para o bem e para o mal o tempo está sempre grávido.

É uma grande parideira de novidades, o tempo, que é feminino, lunar e denso.

Então, vou elogiar vocês não, mulheres. Disculpaí.

É. Acho que é tudo o que eu consigo dizer sobre as mulheres.

Olha pro céu, Frederico

Hoje de manhã, saindo para a labuta, olhei para o céu. O que vi? Reparem que eu estava olhando para o céu, o firmamento, lar dos justos, obra magistral do pincel do Criador (pincel, não caiu bem…), bem eu falava do céu, e foi hoje de manhã, eu saía para a labuta e olhei para o céu. O que vi? Bem, nadra….olhei e, melhor ser franco: vi porra nenhuma. Então, foi isso. É fodra!

Cachorra de imagem espiritual essa, hein?

Cachorra de imagem espiritual essa, hein?

E O CORINTIANO SE DESESPERA E APELA, O POBREZINHO

OMULU DA PRAGA

 

Eu não me desespero, juro! Nem fico muito puto, só um pouco cabisbaixo, um tanto meditabundo, borocoxando em lamentos gemedores.

Já passei por tal, por isto e agora e por isso mais e mais acolá e, certamente, por aquilo que nos espera logo ali, mais adiante, na esquina.

Vocês aí, de novo, hein? Conspícuos como uma novela televisiva  e tão inteligentes como.

Pois é, os intuí, os pesadelei deveras. Vocês, os devotos de Jarbas. Vocês, que numa peça Shakespeareana qualquer jamais poderiam inspirar, e nunca, nunca seriam sequer um Yorick, a caveira do Bobo.

(Obrigado, Senhor, por não me fazer um crápula de toga ou um vendido de terno).

Vós.

O Bobo era só um bufão, afinal, um afim de Groucho Marx (eu disse Marx? Cruzes!), um cavalheiro cercado pelo que de melhor há, havia e, Deus permita, o que de melhor haverá de sempre florescer no espírito humano.

A caveira do Bobo, do Bobo Yorick, foi seu último, maravilhoso, teratológico cartão de visita, aí do meu chapa de Stratford-Upon-Avon.

Aí, filho-da-puta!

(Thank You, Bill!)

E, convenhamos, Shakespeare tinha respeito pelos Bobos, confiram lá no Rei Lear.

Ser ou não ser.

Não me desespero, eu disse? Verdade, dou de pronto que não me acreditem, mas juro.

Juradinho!

Só me aborreço.

Mas, então, por conseguinte, vamos lá. Vamos de novo ao antigo, à farsa medíocre mais uma vez em preparativos. Retiro a capa cheia de traças e coloco a mão no meu velho caralho, em desafio.

(mulheres, coloquem as mãos em vossas velhas e jovens bucetas lutadoras, também em desafio).

(viadas, coloquem as mãos em vossas velhas e jovens bucetas lutadoras, também em desafio).

(viados, coloquem as mãos em vossos velhos e jovens caralhos lutadores, também em desafio).

Mas antes de tudo, sobressaiam nossos cus…!!!

Tá, eu sei que nosso peido é fraco, mas o cheiro, amigos, o cheiro…

 

 

 

 

Poemeto para um dia histórico

formula of autocracy michel cheval

Formula of Autocracy – Michel Cheval

 

Ai de ti, Curitiba, já foste tão bela, modernosa

Hoje és província, quintal de bacharéis

E todo caldo malcheiroso que a toga entorna

E toda a verborragia oca nos papéis

 

Ai, Curitiba, tu não merecias, bela como és

A hospedagem de tão triste sina,

Atravessando este dia de través

Não és mais palco, és latrina

 

Ai, Curitiba, se maldade mais há que regre

De roldão levaste Porto Alegre

A proverbial postagem de fim de ano

frios

Autoretrato de Marcelo, o Moreira – by Marcelo Moreira (com permissão do autor)

 

E então temos aí 2018, na curva, dá pra ver?

Tá logo ali, chegandinho.

Tá, 2017 não foi o melhor dos anos, mas imagino que 1929, 1964 devem ter sido anos do mesmo naipe.

Basicamente, um ano medíocre no qual os medíocres prosperaram. Um ano de ódios, propício ao atropelamento de mendigos e ódios diversos, às mulheres, aos não-héteros. Um ano inesquecível para juízes lindos, promotores lindos, policiais lindos. Nos quais, aliás, não votei, embora eles insistam em, em…bem, eles insistem.

Ano em que escrevi minhas babaquices habituais, recheadas de alusões, com muito conteúdo místico, com patrulheiros do tempo que ressuscitei e com menção quase sempre contínua do tempo, que me fascina, e dos tempos, que me aporrinham.

Eu, o escrevinhador.

Um ano em que reli a bíblia somente para renovar minha descrença.

Um ano em que li poemas diversos, com muita coisa bonita saindo deles. Um ano em que descurei das boas maneiras, muitas vezes. Um ano em que não segurei o azedume.

Mas também um ano de bons vinhos. E com amigos que compartilharam comigo os bons vinhos, a cerveja e o pão.

Um ano em que salvei o Brasil e o mundo na mesa de um boteco, como sói compete a um filho-da-puta sério e compungido que sei que sou.

E este não é um país sério. E este não é um país santo. Mas entrete.

“E eis-me aqui, Corintiano e Voador, e eis-me aqui, filho-da-puta ufano”.

E agora, como me prometi, cometo o discurso inspirado:

Mãe, obrigado pelo natal.

Irmãos, irmãs, cunhado, cunhadas, sobrinhos.

Esposa, obrigado por estar lá e por gestar nosso filho que também estava lá.

Amigos, continuem assim, não se mexam e não mudem nada.

Avós e avôs fantasmas, o negócio é ter fé. Tenham!

2018, tome tento!

— Corintiano Voador?

— Sinhô…?

— Pode ir brincar lá fora!

A SULTILEZA DA BESTA OU COMO O APOCALIPSE NÃO VEM, MAS SEGUE

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Tired – by Natalia Ciobanu – DeviantArt

 

Estamos em uma época de queda, similar a todas as outras épocas de queda que começaram com a queda dos primeiros anjos e de Lúcifer e o estabelecimento daquele valiosíssimo imóvel psíquico: o Inferno.

Esta nossa época de queda pode ser reconhecida como uma, bem, época de queda, por não ser trágica, mas farsesca. Sem muito conteúdo que não aquele que apela ao fígado e não ao cérebro.

A volta de um moralismo tacanho para substituir o afastamento das pessoas da atuação política, o incremento da demência e da fatuidade nas redes sociais, a preferência do receptor pela imagem, em detrimento do texto e, se inevitável o texto, que seja curto.

O Feicebúqui e suas frases de parachoque de caminhão, suas citações malucas atribuindo a Mahatma Gandhi o que foi de Groucho Marx (considerando que o usuário feicebuquiano saiba quem foram Gandhi e Marx).

O WhatsApp.

Nos anos trinta foi criado Dick Tracy, uma tira de jornal sobre um detetive de queixo quadrado, anglossaxão até a medula, que combatia o crime usando uma tecnologia delirante na qual pontuava, ora vejam, um relógio-videofone, que lhe permitia também ver e não apenas falar com seus colegas policiais. O WhatsApp já faz isto e todos nós somos potenciais participantes do delírio que a tira apenas antecipava.

Nós hoje falamos pouco, lemos quase nada e escrevemos menos ainda. Mas, vemos, olhamos, quase fanaticamente. Olhamos, absorvemos imagens como quem come em um fast-food, de forma rápida, acrítica, sequencialmente.

Natural que seja comum a indisposição estomacal.

No último livro da bíblia cristã, o Apocalipse, há a narrativa final da ascensão do Anticristo, da Besta; onde a Besta providencia um sinal para que se identifiquem seus seguidores: um número. Não sei se com ironia o autor (João de Patmos, Steven Spielberg, tanto faz) nos informa que é um número de homem.

Não, não estou fazendo ilações entre o livro e nossos tempos (O atento pastor ou o gárrulo padre fazem e farão melhor), apenas gosto da imagem literária.

E então o nosso tempo, não apenas de queda, mas uma queda que se eterniza no tempo e com isso se torna um paradoxo, pois que se é eterna a queda, tem-se então uma queda estática (uma queda teria que ser dinâmica, pois não?).

E então o nosso tempo, de anestesias diversas para que não percebamos…o que? Tenho diversas teorias conspiratórias a disposição:

  1. Somos cobaias em uma grande experiência cósmica destinada a conhecer até onde vai nossa disposição de, enquanto gado, permanecer gado?
  2. Somos cobaias em uma grande experiência, controlada pelos senhores do universo, destinada a conhecer até onde vai nossa disposição de, enquanto gado, permanecer gado?
  3. Somos cobaias em uma grande experiência, controlada pelos senhores do capital, destinada a conhecer até onde vai nossa disposição de, enquanto gado, permanecer gado?
  4. Somos cobaias em uma grande experiência, controlada por um deus menor, um demiurgo, destinada a conhecer até onde vai nossa disposição de, enquanto gado, permanecer gado?

 

Não levem a sério, é claro que isto não existe. E mesmo a ideia de um tempo de pranto e ranger de dentes sequer é original. Sabe bastante àquela antiga e persistente doença da psique humana, a saudade da Idade de Ouro, de que já sofreram gregos e romanos, hindus e chineses.

Não, falo e escrevo apenas de eventos locais, circunscritos, brasílicos, nossos. Nosso tempo e nossa sina. Mas não posso evitar de lembrar a previsão do destino humano dada pelo agente O´Brien em 1984, de George Orwell: uma bota pressionando, eternamente, um rosto humano.

É claro que se trata de uma obra de ficção, com as liberdades que às obras de ficção se dá. Por exemplo: O´Brien é pessoa culta. Não me parece que as atuais botas o sejam.

Disse Jesus (ou escreveram que Jesus o disse, o que dá no mesmo) que os humildes herdariam a terra.

Pode ser verdade, mas por enquanto me parece que o quinhão quase total da terra foi dado e é gerido pelo medíocre.

Reconheço a força dos atuais dominadores, mas não consigo ter muito respeito por seus intelectos.

Bem, talvez sejam só os capatazes.

Talvez ocorra que seus senhores, eles sim, sejam os sofisticados, os que escreveram as bíblias diversas, os que projetaram os ritos, os que construíram Babilônia e a partir dela, governam.

E eu acho que era tudo o que eu tinha a demonstrar sobre a arte de escrever como sói escreve uma pessoa cansada. Trabalhei demais ontem, vejam bem. Como eu sempre escrevo e peço: relevem.

Mas, fato: a sutileza sem par da Besta ainda me comove.

Vale.

O POBRE, ESTE EMPREENDEDOR NATO.

lampada

 

O Brasileiro é um empreendedor nato. Mas só o pobre.

Guardem minha afirmação enfática, arquivem-na, dissequem-na e sobre ela reflitam.

Sim, considerem o tráfico de entorpecentes.

Todo um negócio de venda de entorpecentes para, majoritariamente, atender às classes desfavorecidas, com toda sua complexidade em termos de logística: a aquisição de matéria-prima, seu beneficiamento, sua distribuição e a contabilização necessária dos valores auferidos.

Não, não estranhem quando falo que o principal mercado consumidor dos entorpecentes sejam as classes baixas e médias. É. O lucro advindo da venda para as classes altas é marginal, parte ínfima do lucro geral e muito mais cara em termos de operação, pois que o entorpecente deve ser mais puro e as condições de entrega e consumo mais seguras.

Modos que esqueçam Meu nome não É Johnny, é só um ponto fora da curva.

Enfim, o traficante-empreendedor só fornece às classes altas por uma questão de sobrevivência política.

Com as classes baixas e médias, não; por “causo” que aí sim é que vem o verdadeiro lucro. Ora vejam, o empreendedor do bagulho pode diluir o entorpecente com outras substâncias para maximizar seus ganhos e sem nem sequer precisar dar grande importância à qualidade do produto.

Modos que na cocaína e na maconha vendidas aqui na terra tem até, em sua composição, alguma cocaína e alguma maconha.

Houvessem headhunters de verdade atuando e os principais cargos na administração das empresas seriam ocupados por ex-funcionários do lucrativo ramo do tráfico de entorpecente.

Vera verdade.

Eis.

Mas falava de empreendedorismo e talvez me perguntarão do porquê de minha opinião de só ser ele exercido por pobres.

Ora.

Ora, de novo.

Pra comecim de conversa ninguém com bom senso acredita nesta parlanda vendida por aí da meritocracia. A ascensão, natural, da competência. Pobre não é idiota e não acredita na meritocracia.

O pobre não só sabe que o buraco é mais embaixo, ele vive a situação. E não se engana com filhos de empresários sendo empresários, filhos de juízes, filhos de promotores, continuando a juizar e a promotorar como seus ancestrais.

O pobre sabe que ninguém será por ele, daí considerar o Estado somente um ruído de fundo inconveniente que lhe enche o saco.

Daí que não espera bondades o pobre.

E daí que o pobre que prefere se manter do lado, digamos, legal da coisa, crie do nada suas fontes de renda: os salões de beleza de periferia, os camelódromos informais, os botecos microscópicos, as pequenas igrejas vendedoras de milagres et alia.

Quando Deus é servido, quando dá, o pobre trabalha na metalúrgica, labuta no comércio, dá o sangue na construção civil.

Quando não dá, empreende.

O que é só uma maneira edulcorada de dizer que pobre pratica a mais alta magia conhecida: sobreviver.

É.

Acho que é tudo o que eu tinha a dizer sobre o empreendedorismo.

Finalmente, a entrevista do Corintiano Voador a Satanás (curta e pouco informativa)

shaitan

 

Sessenta mil homicídios por ano grassaram aqui na terra.

Brasil, vos amo de tesão sádico.

Satanás: Mas, vede, nobre Corintiano Voador, não serão os próprios criminosos se matando, bestas-feras que são?

Sessenta mil homicídios por ano.

Corintiano Voador: Devo discordar, valoroso Príncipe Imundo das Trevas. Creio ser tão somente o resultado de uma classe social humilhando e executando aos recalcitrantes de outra classe social. Uma questão do tamanho do porrete à disposição. Quem tiver os melhores capitães-do-mato…

Satanás: Mas então…dizeis que temos luta de classes?

Corintiano Voador: Mas então…e portanto…assim é.

Satanás: Mas quem mata quem?

Corintiano Voador (enxugando uma teimosa lágrima): E sabeis, não sabeis? Que és, que estás obsoleto? Perdão, não respondi a vossa pergunta.

Não é?

São os tempos.