SOBRE MENTORES, MESTRES ESPIRITUAIS E AJUDANTES DE PEDREIRO

PINGA

Começava eu na carreira de homo sapiens e conheci a dois filhos-da-puta: o judeu do mal e o padre russo do mal. Ambos moradores do bairro do Ipiranga, na cidade hoje conspurcada de São Paulo. Onde, aliás, nasci.

Um não sabia do outro, mas eram duas putas véias que pensavam do mesmo jeito. Me disseram.

A mim, a minzinho mesmo. A este vosso criado!

Disseram: seja homem!

E disseram: Eu sei que é difícil, você pode não estar acostumado! Mas tente parecer com um homem!

Em verdade queriam dizer: seja digno! Tenha verve! Mas a época era de machismos diversos.

Modos que. Então. Modos que (entendi somente muitos anos depois: não acredite no sábio e nem em seus escritos e nem nos escritos do pequeno babaca que emula o sábio e nem na revista e nem no jornal e nem no sacerdote e nem no juiz justiceiro e nem em justiceiro algum e nem no jovem lutador pela justiça e nem no blogue e nem na puta que vos pariu).

Disseram-me. Disseram-me… só o básico. Disseram-me, mas não me aconselharam, pois que eram dignos demais para coisa tão primária.

Só me sussurraram: desconfie do sábio, do herói e do douto.

Seja uma puta desconfiada, me disseram!

Inventarei dois nomes para os dois: Ilya e Eliahu.

Obrigado.

Aos dois. Um minúsculo e elétrico. O outro enorme, e calmo como as marés.

A ambos eu agradeço.

E sei que ambos riem de minha tolice.

 

 

 

 

DO TRATADO DOS VERMES

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Irmãs e irmãos.

Vejam que coloquei antes, as damas. Me deem seu gáudio e elogios diversos.

Mas, irmãos e irmãs.

Nunca me esqueço que em épocas de exceção, é preciso se posicionar contra o rei e às teses do rei. É preciso.

Nunca me esqueço que Sobral Pinto, advogado, em tudo e por tudo discordando de Luís Carlos prestes, comunista e ser do mal (como diziam à época) ainda assim o defendeu.

Nesta época de pessoas bonitas, feitas de bonitezas, como o cavalheiro de Curitiba, o moço ungido por pastores. Nesta época, quero ter a verve de discordar do tempo e da forma como se desenvolve a flora e a fauna.

Sei lá se vou ser entendido. É um tempo de metalinguagens.

Mas…fede o tempo.

Não fede?

SOBRE A ANTIGA E FECUNDA ARTE DE NÃO SER UMA PESSOA DO BEM

 

Anjo da morte

 

Sei que todos me acharão superficial e tolo. Dirão, é tão fácil a pessoa não ser uma pessoa do bem! E aí vinde vós e dizeis que nos ensinareis sobre como ser um crápula. Ora, ora. Homessa!

Mas não, peço que me empresteis vossos ouvidos ou vossos olhos. Todo caso, dai-me vós o benefício da dúvida.

Ocorre que não sabeis o que é ser do mal, sois amadores. Achais que é só garatujar a sangue e fogo uma frase na testa de d´algum pequeno ladrãozito? Achais que é só mastigar e decepar o artelho de alguém de quem não gostais?

Tolos!

Amadores é pois o que sois.

Não ser uma pessoa do bem é mais do que perpetrar pequenas covardias para o gáudio de outros tantos pequenos covardes.

Não ser uma pessoa do bem exige mais! Exige comungar com Satanás e com Deus ao mesmo tempo. Exige ser bom para extrair o mais fino licor do mal, na bondade.

Exige mais do que ser apenas um Adolph Hitler qualquer, pessoa inculta (porque não tornada adulta), escrevendo mal e porcamente um Mein Kampf.

Exige mais, vos digo.

Para que se torne alguém uma pessoa que não é do bem se exige entranhas sólidas, ancoradas no mais profundo vazio.

Exige que a pessoinha do mal se creia boa e dona de verdades! Enfim, é um processo.

Sede então bons e propagai a bondade!

E, por favor, fazei por bem crer que sois o sal da terra.

E a arte de feder até os céus será toda vossa.

EU ME LEMBRO II

RAPOSA VOADORA

 

 

Nos anos oitenta fui o que depois batizei de “comunistinha legal” ou, se vos agradar, o “comunistinha joinha”. De qualquer modo, um comunistinha. Fui levado, é claro.

Meu cooptador foi o mordomo das esferas, o príncipe, o meu querido EBS. Ainda vivo, embora velhusco. Diabos, eu estou velho! As juntas estalando e eu ainda aqui, cuidando da prole e tentando por comida à mesa.

Mas então, “comunistinha legal”. Eu.

Foi uma época fecunda os oitenta, modos que me incomodo com os tempos atuais por exsudarem, vez por outra, um perfume parecido, mas que é só fedor, que os perfumes envelhecem.

Na época, percebia já que a meus colegas comunistinhas faltava senso de humor. Preferiam o velho Karl Marx, com sua cabeçorra preocupada, se inclinando sobre os manuscritos a Jenny von Westphalen ou Jenny Marx, a esposa, que fora uma mulher muito, mas muito bonita.

Preferiam o bom Engels, o pensador, parceiro de Marx, o velho Nick, e esqueciam de Engels, filho de um burguês rico, administrador das empresas do pai na Inglaterra e amante de sua criada.

Digamos que eles viam os escritos e a história e eu preferia o rés-do-chão, os pequenos defeitos e tudo o mais.

Primeiramente, é com certo pudor que informo que meus colegas comunistinhas não liam as bíblias marxistas, mas comentavam assaz.

Segundamente, eu tinha a impressão de que qualquer pessoinha, qualquer serumaninho, poderia fazer a história, mas precisaria perceber que no meio tempo conviria ficar pelado com outra pessoa também pelada, fazer e ler algum poema, beber uns tantos fermentados e destilados e, na miúda miudinha, fazer também a tal da porra da história.

Revolucionário, né não, John Lennon?

Muito estranhamente não me bandeei para o lado direito das coisas, depois dos anos passados, e continuo, me sinto, ainda meio demoníaco, achando o mundo um lugar interessante, achando as pessoas ainda interessantes, mas sempre sentindo o ruído da máquina cada vez mais alto, quase ocultando a conversa no sarau.

A época, é claro. Queria falar da época. E do mau-gosto e dos tempos e das pessoas e da velocidade.

Do modo cego, automático, com que nós todos corremos para ocupar um círculo qualquer no inferno.

Queria, mas falo não.

Volto aos inícios iniciais começantes: eu fui um comunistinha legal e joinha, enquanto também trabalhava como o proverbial garçom no bar lá, da moda.

E confesso, quando me pediam os bons pensantes vodca Wiborowa ou Absolut, eu colocava mesmo era a Vagabundoyeva ou a Esculachakova, que foi como batizei à podríssima vodca “coquinho”.

Minha vingancinha bobinha de comunistinha: sabia que os bons pensantes, os meus irmãos comunistinhas, iriam um dia crescer em riqueza e glória. Vaticinava mesmo que acabariam como comensais dos pequenos ratos morais, os grandes da pátria.

Então à sorrelfa, lhes servia lixo líquido.

 

E como eles bebiam!

Breves considerações sobre a jucunda arte de poetar, assim, a modo internético e fugaz

Iridescências

Iridescências – by Voador

 

 

Rapáizi!

(assim é que os nordestinos se referem a alguém, quando admirados e eu sempre gostei deste “rapáizi!” lá deles. Muito melhor que um “rapaz”.)

Mas, rapáizi!

A coisa é que eu vejo muito dos poetamentos do povo aí na rede. Uns poetam pra dentro, outros poetam em torno do umbigo, o que acaba dificultando e tornando pesada a coisa. Às vezes.

Uns poetam pra cima e somem num zum e aí eu fico aqui embaixo tentando localizar o bólido.

E tem os que poetam pra baixo.

De qualquer maneira, pra dentro ou pra baixo. Prá riba ou pro umbigo, você percebe quando encontraram seu eixo de poetamento. Não tem muito a ver com o texto, nem com a honestidade (que muitos são honestos), tem a ver com o dom de poetar que é uma coisa que se sente.

Mas, rapáizi!

As vezes não consigo achar um rumo, mas sinto um ritmo. Leio e penso: é, a rede acontece e, interneticamente solenes, encontramos aos novos poetas.

Ah, faço questão de mostrar minha gema, meu capitão. E, desculpe, falei que é minha mas né minha não, garimpei:

A solidão acontece a céu aberto.

Claro está que a roubei (Você releve meus hábitos malsãos, Mariana, a Gouveia).

E eu acho que é tudo o que eu tinha a dizer sobre a nova poesia e a internet.

Abraço, povo meu.

Sobre família e outras magias e doenças várias

sobre ela _ marc chagall

Sobre ela – Marc Chagall

 

 

DOIS OBITUÁRIOS: UM PEQUENO E UM GRANDE

 

 

Tomás de Aquino morreu gordo e imenso

Quebraram uma parede para trazê-lo à luz do dia

Meu avô mantinha um diário no qual registrava negócios e nascimentos de filhos

Espancava com regularidade minha avó

Prático, final e conciso

Meu pai, enregelado, saía para o trabalho

Não tinha agasalho e nem se dava conta

Era irmão de Marieta e genro de Luisa, domesticada e atenta

Luisa salvou um rato do afogamento

Tanta coisa junta

A família vista do alto

POBRE PROTAGONISTA É O POBRE

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Indiscutivelmente. Procure, puxe por sua memória e veja se encontra pobres como personagens principais na literatura, no cinema e na televisão. Nas histórias em quadrinhos.

Encontrou? Claro, mas como personagens principais? Eles estão lá, claro, mas sempre no núcleo pobre da novela ou como figurantes.

Há exceções, não nego. Temos a Macabéa de A Hora da Estrela, de Clarice Lispector. O camponês miserável de Levantados do Chão, de Saramago. Os sem-teto de As Vinhas da Ira, de John Steinbeck. No cinema, encontraremos uma ou outra garçonete, uma empregada doméstica, mas mesmo nesses casos há como que uma idealização. São mais tipos, que pessoas.

Mesmo o “cowboy”, um operário do pastoreio, foi provido de armas no coldre e um belo cavalo para assim melhor conquistar o Oeste. Ninguém menciona que os vaqueiros americanos originais eram em sua maioria negros, índios ou mexicanos e que seu meio de transporte estava muito mais para um jumento do que para um garboso cavalo.

As personagens dominantes são ricos ou oriundos de extratos médios da sociedade.

No passado, nem isso. A Ilíada, a Odisséia está cheia de “bravos aqueus de longas melenas”, porém todos vindos da aristocracia. Odisseu era rei em Ítaca. O único, por assim dizer, pobre, era o “néscio Tersites”. Além de néscio, era soldado raso. E feio, imensamente feio.

No cinema americano é nas classes média e alta que nascem e vivem os personagens principais, mas mesmo quando o foco é em profissões, digamos, menos nobres, são profissões idealizadas, que remetem à aventura e ao individualismo: o policial, o já citado cowboy, o detetive, o músico, mas quase nunca o operário.

No Brasil, nossos cinema e teatro não são muito diferentes. Certo, existem as obras que procuram mostrar extratos mais baixos da sociedade. Mas ou recorrem ao filtro de uma obra clássica, caso de Orfeu da Conceição de Vinicius de Moraes ou a uma visão sociologizante, como em Cinco Vezes Favela. Ou, descem à marginália e aparece o traficante, o ladrão, a prostituta.

Não, você ainda não viu muitos operadores de máquinas, ajudantes gerais, faxineiros. Não encontramos muitos Jáquersons da Silva ou Keisyannes de Cássia. O pobre incomoda. A primeira providência a ser tomada com o núcleo pobre da novela é fazer as personagens ascenderam socialmente: pelo casamento ou pela sorte ou pela herança que os redime, os torna mais belos e confiantes. Mais palatáveis.

Também sempre é bom ter em mente que mesmo a burguesia média é recente, uns duzentos anos, se tanto (não confundam com a burguesia podre de rica que ascendeu com o mercantilismo. Estamos falando de Policarpos Quaresmas e não de Cosimo de Medici).

E mesmo esta burguesia média, do pequeno funcionário público, do comerciante menor, a avó da classe média, só passou a ser retratada na literatura e no teatro após sua ascensão com a era industrial. Antes, o burguês era sempre o tolo, o fanfarrão, o de falas e atos ridículos e empolados e fizeram a fortuna de dramaturgo de Moliére.

Talvez a questão se prenda às profissões, aos ofícios típicos do pobre: o operário sem qualificação, o camponês sem terras ou com pouca, a prostituta, o marginal. Ao pobre desgostaria uma personagem que retratasse um meio de onde gostaria de emancipar-se? E o burguês?

Sinopse: diariamente Johnny José da Silva toma o seu trem super-lotado para trabalhar na metalúrgica na gratificante posição de ajudante geral. Namora Perolaine Jennyfer dos Santos, mas somente nos fins de semana. Depois, o baile funk? O boteco e o futebol? Quais as profundezas psicológicas, dramáticas, a que o bom Johnny poderia nos levar? Não, muito poucos se interessarão pelo universo de Johnny e Perolaine.

Ou, sinopse: Micaela Semprum Scuteri, loira e leve, é publicitária. Independente, mora sozinha em seu apartamento decorado com muito bom gosto. Um pouco louquinha, tem um relacionamento com Caio, administrador de empresa e músico bissexto, inteligente, “cool”, engraçado e autossuficiente. No mais, bares da moda, jazz, livrarias, rock and roll. Aí sim, diria o futebolista. E com roteiro da Bruna e direção do Ricelli? Massa!

O pobre ainda é o figurante. Décima-terceira cabeça a esquerda, na cena com a multidão, naquele filme que veremos brevemente.

O trabalho dignifica, os humildes herdarão a terra, bem-aventurados os pobres de espírito, etc., etc. Esqueci alguma coisa?

     

 

Né não?

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Running from the storm – by Slichoart-db89xws – DeviantArt

Eu tenho uma conhecida que atende por Maritza e que me enviou a postagem. Nuno, outro conhecido meu, também a recebeu e mandou-me o recado: não se importe. Muito louca a biscate. De pedra.

E disse também Júlia (depois de Maritza) e garatujou em outro e-mêiou:

Não se importe.

E Maritza então mirou-me (eletronicamente) e escolheu ser direta e machucadora, como um médico. E me disse (interneticamente):

“Não sei por que escrever. Se os pequeninos vermes dizem o que deverá ser, e tudo já está programado, então por que devo escrever?

Se os vermes tomaram o poder, escrever por que?

Se os vermes tomam conta do tempo e infectam as cisternas, para que sejam iguais às suas piscinas, escrever por que?

Irmãs e irmãos, não lhe lhes causa vergonha a pena em suas mãos?

Vos convido ao vômito.

De que adianta comentarem sobre o movimento em vossos úteros, sobre as circunvoluções em vossos sacos escrotais, se o mundo está a deriva?”

Ignorei. Afinal, ao fim e ao cabo, esta pessoa era mesmo louca, pois não?

E mentia, não?

Talvez ainda minta.

FILHO MEU

paint job

 

Tudo o que é escrito em português não é sério, e pode ser entendido sem medo como piada e tudo bem. Do mesmo modo, tudo o que se passar em terras lusófonas, mais exatamente em terras lusófonas do Brasil, não é digno de nota. Toda canção para ser canção tem que ser gemida em inglês (obvious), de modo que da lista telefônica até o cardápio de motel vagabundo, tudo se nos pareçerá poesia em estado puro, desde que garatujado em inglês. Entendeu agora, filho meu, porque o Fantástico só procura o especialista americano em vez dos bundões locais?