SOBRE MENTORES, MESTRES ESPIRITUAIS E AJUDANTES DE PEDREIRO

PINGA

Começava eu na carreira de homo sapiens e conheci a dois filhos-da-puta: o judeu do mal e o padre russo do mal. Ambos moradores do bairro do Ipiranga, na cidade hoje conspurcada de São Paulo. Onde, aliás, nasci.

Um não sabia do outro, mas eram duas putas véias que pensavam do mesmo jeito. Me disseram.

A mim, a minzinho mesmo. A este vosso criado!

Disseram: seja homem!

E disseram: Eu sei que é difícil, você pode não estar acostumado! Mas tente parecer com um homem!

Em verdade queriam dizer: seja digno! Tenha verve! Mas a época era de machismos diversos.

Modos que. Então. Modos que (entendi somente muitos anos depois: não acredite no sábio e nem em seus escritos e nem nos escritos do pequeno babaca que emula o sábio e nem na revista e nem no jornal e nem no sacerdote e nem no juiz justiceiro e nem em justiceiro algum e nem no jovem lutador pela justiça e nem no blogue e nem na puta que vos pariu).

Disseram-me. Disseram-me… só o básico. Disseram-me, mas não me aconselharam, pois que eram dignos demais para coisa tão primária.

Só me sussurraram: desconfie do sábio, do herói e do douto.

Seja uma puta desconfiada, me disseram!

Inventarei dois nomes para os dois: Ilya e Eliahu.

Obrigado.

Aos dois. Um minúsculo e elétrico. O outro enorme, e calmo como as marés.

A ambos eu agradeço.

E sei que ambos riem de minha tolice.

 

 

 

 

SOBRE A ANTIGA E FECUNDA ARTE DE NÃO SER UMA PESSOA DO BEM

 

Anjo da morte

 

Sei que todos me acharão superficial e tolo. Dirão, é tão fácil a pessoa não ser uma pessoa do bem! E aí vinde vós e dizeis que nos ensinareis sobre como ser um crápula. Ora, ora. Homessa!

Mas não, peço que me empresteis vossos ouvidos ou vossos olhos. Todo caso, dai-me vós o benefício da dúvida.

Ocorre que não sabeis o que é ser do mal, sois amadores. Achais que é só garatujar a sangue e fogo uma frase na testa de d´algum pequeno ladrãozito? Achais que é só mastigar e decepar o artelho de alguém de quem não gostais?

Tolos!

Amadores é pois o que sois.

Não ser uma pessoa do bem é mais do que perpetrar pequenas covardias para o gáudio de outros tantos pequenos covardes.

Não ser uma pessoa do bem exige mais! Exige comungar com Satanás e com Deus ao mesmo tempo. Exige ser bom para extrair o mais fino licor do mal, na bondade.

Exige mais do que ser apenas um Adolph Hitler qualquer, pessoa inculta (porque não tornada adulta), escrevendo mal e porcamente um Mein Kampf.

Exige mais, vos digo.

Para que se torne alguém uma pessoa que não é do bem se exige entranhas sólidas, ancoradas no mais profundo vazio.

Exige que a pessoinha do mal se creia boa e dona de verdades! Enfim, é um processo.

Sede então bons e propagai a bondade!

E, por favor, fazei por bem crer que sois o sal da terra.

E a arte de feder até os céus será toda vossa.

Sobre o Tentador e, de um modo geral, sobre o mau-gosto atualmente em voga

Ary Scheffer The Temptation of Christ 1854

Ary Scheffer – Jesus and the devil in the desert

Eu, equidistantemente de domingos

Segundafeiramente  ao descoberto

mesmo a mim, me disse a mim, a descoberto

que não mais sonetos cometeria. Bingo!

Eis-me aqui, de novo no deserto, solto

Quarenta dias de fome me prometo

É um jejum, né não? Então me submeto

Espero o diabo, um Lúcifer qualquer, estoutro

Um, cê sabe, que me eleve a uma montanha

E me tente com as terras e conquistas, um suborno

e prometendo como minhas as terras todas

(e seus ouros)

Que meu será todo o querer, coisa tamanha

se todo este eu…

Ah, foda-se, que tenha eu a grandeza, viu?

De num repente, o mandar à puta que o pariu

O PROVERBIAL TEMPO DO PRANTO E DO RANGER DE DENTES

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O poeta – Egon Schiele

 

 

 

 

, sempre quis começar um texto com uma vírgula. Bem, aí está ela.

Vamos lá, aviso que já preparei o meu aviso profético, furibundo e intenso.

Eis.

Ai de ti, Jerusalém! Ai de ti, Sião, recostada como uma prostituta alugada a preço vil.

Perguntem-me alguma coisa!

Como? Tolice.

Chikamatsu Monzaemon escreveu uma vez que a Arte reside nas fronteiras de sombras entre a realidade e a ilusão. Um poema pode começar com a morte, a chuva ou a aurora, mas o realismo de uma estrofe deve ser compensado pelo ilusório de outra.

Mas aí temos o nosso tempo, onde os aviões voam e logo caem em lugares molhados onde celebridades não conseguem nadar.

Nosso tempo conspiratório, onde não conseguimos despertar do pesadelo do presente. Não admira precisarmos da profecia.

Ergo, eis-me aqui. Ajoelhem-se!

Todo tempo faz referência a outro tempo e é suscetível de ser explicado por outro tempo, como uma longa cadeia de salsichas.

O profeta então é apenas um açougueiro diligente.

Une saison en enfer. Ai de ti, Jerusalém!

A OBRA-PRIMA NA GAVETA

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Um fenômeno é uma descrição de uma intervenção na realidade, entre outras definições possíveis.

O fato é que estou agora, nos atualmentes, lendo e relendo a obra de um de meus escritores prediletos, Philip K. Dick. E tem tudo a ver (acho, não ponho a mão no fogo) com esta postagem, digamos, fenomênica.

Não sou muito de resenhas, tanto que cometi poucas aqui no espaço. Não tenho a verve e a generosidade do blogueiro Valnikson Viana, por exemplo, que mantém lá o seu 1001 LIVROS BRASILEIROS PARA LER ANTES DE MORRER, que recomendo vivamente (aqui: http://tinyurl.com/zymo2tj).

Mudo de hábitos por entender que Philip K. Dick o merece. Você talvez não o conheça mas certamente conhece subprodutos de seus trabalhos. Blade Runner, o filme, lembra?, veio de de seu livro Do androids dream of electric sheep?. Alguma coisa como Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? E Minority Report? Lembra? Tom Cruise, etc, etc. Pois bem, Philip K. Dick. PKD.

Só a titulo de informação, segue abaixo uma relação de filmes e os livros de PKD nos quais foram baseados (extraído do saite Cooltural. Vão lá):

  1. Os Agentes do Destino / The Adjustment Bureau (George Nolfi, EUA, 2011) – Conto: Equipe de Ajuste | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)
  2. Assassinos Cibernéticos / Screamers (Christian Duguay, EUA, 1995) – Conto: Segunda Variedade | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)
  3. Blade Runner: O Caçador de Andróides / Blade Runner (Ridley Scott, EUA, 1982) – Romance: Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (Ed. Aleph, em 2014)
  4. O Homem Duplo / A Scanner Darkly (Richard Linklater, EUA, 2006) – Romance: O Homem Duplo (Ed. Rocco)
  5. Impostor / Idem (Gary Fleder, EUA, 2001) – Conto: Impostor | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)
  6. Minority Report: A Nova Lei / Minority Report (Steven Spielberg, EUA, 2002) – Conto: O Relatório Minoritário | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)
  7. O Pagamento / Paycheck (John Woo, EUA, 2003) – Conto: O Pagamento | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)
  8. O Vidente / Next (Lee Tamahori, EUA, 2007) – Conto: O Homem Dourado | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)
  9. O Vingador do Futuro / Total Recall (Paul Verhoeven, EUA, 1990) – Conto: Lembramos para Você a Preço de Atacado | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)
  10. O Vingador do Futuro / Total Recall (Len Wiseman, EUA, 2012) – Conto: Lembramos para Você a Preço de Atacado | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)

Aviso aos incautos que PKD é escritor considerado menor pelos menos informados, pois que se lhe atribuem escrever obras no gênero da ficção científica, o que gera um handicap negativo, dizem. Alguma coisa parecida com ser corintiano.

No entanto, ninguém mais alheio à discussão de gêneros literários, PKD construiu, solipsisticamente, uma obra incrivelmente coerente e fiel a si mesmo e suas muitas dúvidas e angústias.

Três Estigmas de Palmer Eldritch, uma expedição retorna da jornada a outra estrela e traz de contrabando a uma entidade metafísica e a uma nova droga que permite aos usuários criarem sua própria realidade.  Do androids dream of electric sheep?, um novo culto religioso, o Mercerismo, permite aos fiéis não só comungar com Deus mas também sentir as agonias de seu profeta através de uma espécie de internet sensorial.

Budismo, gnose, teologia. Todos estes temas estão presentes em sua obra.

Bráulio Tavares escreveu que Philip K. Dick injetou angústia kafkiana na ficção científica (Artigo de 27/04/2013 na Folha de São Paulo).

E então PKD teve sua própria epifania.

Foi em 1974 quando encomendou medicamentos a uma farmácia. A jovem entregadora que os trouxe galvanizou a atenção de PKD por conta de um pingente em forma de peixe que levava ao pescoço. Perguntou à jovem sobre o berloque e ouviu dela que se tratava de um dos mais antigos símbolos do cristianismo; neste instante (conforme relatou depois) um raio de luz rosa o atingiu e ele soube de tudo o que já havia esquecido, incluindo o fato de que ele e a garota eram membros de uma cristandade secreta.

E que ambos sabiam que o que chamamos de realidade era falso. Inclusive toda a história transcorrida desde o ano setenta da era cristã, nada mais era que uma alucinação em massa.

Eu sei, muito ácido na cabeça. PKD era notório usuário de anfetaminas. Não discuto. Mas não posso me furtar a admirar a coerência do sujeito, sua fidelidade a si mesmo (e vá lá, a sua loucura).

PKD passou escrever um diário a que chamou de Exegese, que por ocasião de sua morte em 1982 já continha mais de dois milhões de palavras e enchia dois arquivos de gaveta.

Na ocasião PKD acreditava que havia entrado em contato com uma entidade a que batizou de VALIS, um acrônimo para Vast Active Living Intelligence System. O mesmo título de um dos três livros que escreveria sobre o assunto ao lado de The Divine Invasion e The Transmigration of Timothy Archer.

No momento leio VALIS, um livro que basicamente replica na personagem Horselover Fat, as vezes também chamado de Phil, a experiência de PKD. Aliás, Horselover nada mais é que a tradução literal de Philip, Filipe, Filo-Hipos, amigo dos cavalos.

Philip K. Dick, o primeiro dos tecnognósticos.

Enfim, é a sugestão do chef para hoje.

 

O CÁLICE MÍNIMO

POVO POVO

 

O debate mínimo e eterno. Demonstrar a existência não do Brasil, não de Deus, mas desta fantasmagoria chamada Povo.

Haverá maior solidão?

Povo, nós. A putinha sempre enganada.

A Pátria vira de novo o que sempre foi: um Serpentário.

De novo!

AS TRÊS IMPORTUNAÇÕES MÍSTICAS DE S

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EARTHEN EMPRESS by Ophelia-Overdose (DevinatArt)

 

 

 

S, como a chamarei, era e sempre seria uma mulher esbelta, alta e de cabelos pretos, mesmo quando havia cinza e depois branco por baixo.

Sua primeira experiência mística se deu aos dezenove anos.

Fora pouco antes das sete da manhã e S estava a menos de uma quadra da tecelagem onde trabalhava[1], quando o tempo parou, todas as coisas pararam e um silêncio de algodão desceu sobre a rua. Ali, com os carros e as pessoas parados, S não teve medo. Depois, pensando melhor sobre o ocorrido não chegou a um acordo sobre o que sentira, como se até seus sentimentos tivessem sido postos em suspenso.

Na rua congelada viu a mulheres e homens vestidos em roupas finas e caras de todos os tipos. Ternos conservadores e ternos modernos, vestidos finos, colares, sapatos, sobretudos, um ou outro até com peles. E ela sabia sem saber como sabia que eram anjos, simples assim[2].

Circulavam pela rua com calma determinação, aproximando-se das pessoas congeladas, abraçando-as, falando a seus ouvidos. Vez por outra tocavam uma pessoa e a faziam movimentar-se em lenta viscosidade.

Um grupo, duas mulheres e um homem, empurraram um jovem raquítico para frente de um carro agora imóvel, mas antes em alta velocidade. Uma mulher vestindo jeans passou por S e parou um momento a sua frente e endereçou-lhe um riso estranho, como que desconcertada.

E então tudo acabou e o mundo voltou a correr e o garoto magro foi atropelado.

Talvez não seja comum, mas o fato era que S era extremamente inteligente, apesar do meio em que nascera e vivia. Então S, que não era limitada, soube no mesmo instante que passara por uma experiência mística.

Claro, não fora como esperava. Não tivera quaisquer dos sinais que sempre associara a tais experiências, tais como iluminação ou um sentimento de eternidade. Fora mais como uma olhada na casa de máquinas do real.

Não obstante, S não saiu incólume da experiência.

Naquele mesmo dia, talvez duas horas depois, teve um acidente de trabalho que quase esmagou-lhe a mão esquerda (S era destra), foi levada ao hospital, medicada e liberada para que fosse para casa.

No caminho S passou uma loja de música e comprou um long play de Thelonious Monk[3].

 

[1] S era filha de um metalúrgico vindo do Paraná e de uma doméstica nascida em Alagoas e, acreditem, o emprego na Tecelagem Gaol fora até ali sua maior conquista profissional. 
[2] Anjos vestidos com casacos de pele! Não se pode confiar em anjos, não mesmo.

[3] De uma coleção chamada Os Gigantes do Jazz. S gostava especialmente de Monk´s Dream. 

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Foi durante os sete meses de sua convalescença que S voltou a estudar e nunca mais parou. Depois demitiu-se da empresa, levou diversas surras de seu pai, suportou diversas cenas chorosas de sua mãe e decidiu não mais se casar com o rapazinho que frequentava a mesma igreja que ela e fora seu colega de escola.

Expulsa de casa, conseguiu moradia temporária na casa de uma amiga, prestou concurso, passou e tornou-se policial militar. Pouco antes de tomar posse submeteu-se a um aborto (não, o pai não era seu ex-noivo) e, para sua grande surpresa, não morreu e nem teve sequelas.

Também não quis se casar com o publicitário loiro e bem apessoado que pensava ser o pai da criança, pois o tinha na conta de um idiota[4].

Teimosamente, começou e terminou uma faculdade de direito para depois descobrir que odiava a coisa toda, apesar de uma brilhante atuação acadêmica.

Desligou-se da polícia, na qual tivera uma passagem discreta, jamais se envolvendo com ninguém e, mais intrigante, passando indene por toda a lavagem cerebral que lhe fora despejada pela instituição e por seus superiores.

Por esta época sua mãe a chamara para que visse que seu pai estava louco e andava nu pela casa, defecando em todos os cantos. S não atendeu a seu chamado.

E foi no hospital, onde aguardava que seus irmãos saíssem do quarto coletivo onde aquela mesma mãe finalmente alcançara o maior desejo de sua vida, morrer lacrimosamente[5], que S teve sua segunda experiência mística.

O mesmo anjo que parara a sua frente na rua congelada, a mulher de jeans, saiu do quarto da enferma e sentou-se a seu lado no banco duro de ardósia do corredor.

“Quarto 616, sexto andar. O elevador é por ali”. Disse.

O tempo parado. De novo. E S pensou em mandar a mulher para a puta-que-o-pariu, mas não o fez. O anjo-mulher ria suavemente, de modo que S achou melhor fazer alguma coisa, já que estava ali mesmo,  tendo uma experiência mística e o caralho e sem ter muito mais o que fazer.

“Tá”, disse e foi até o quarto de Benny[6].

[4] O que ele de fato era. 
[5] Mas não morreu. A mãe de S sobreviveria ao marido, um filho e morreria dormindo em 2018 (como eu sei? Isto é ficção, idiota!). 
[6] Por que Benny? As desculpas eram interessantes: o apelido teria sido dado por uma tia que vivera em Nova York. S achava era que era frescura de classe média mesmo e sempre chamou Benny de Beja.

 

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Nunca soube como chegou lá, nem como reuniu coragem para entrar, mas o fato é que ficou até às dez da noite conversando com um jovem de barba e cabelos ruivos, até se apaixonar por ele, isto por volta de 09:52 ou 09:53.

Ignorou, e Benny também, aos parentes que se iam chegando e saindo ao perceberem que não era lhes dada atenção.

O fato é que Benny morria.

De alguma forma se casaram, meses depois, sendo importante ressaltar que em nenhum momento S considerou se converter ao judaísmo. E não se converteu.

Outro fato é que Benny levou outros dois anos para morrer e mesmo ante a essa moratória do Divino não deu S qualquer importância, conforme comunicou a Nossa Senhora da Conceição durante uma visita a uma igreja de bairro[7].

Foram os anos mais felizes de S e de Benny, também.

Mais que esposos, eram cúmplices. Sem pressa alguma construíram um relacionamento, transformaram sua paixão em amor e saíram para a vida.

S descobriu que gostava de escrever e Benny voltou ao teatro. E S escreveu a peça e Benny a montou, depois veio a outra peça e quando se deu conta S estava também dirigindo, traduzindo, pintando e produzindo[8]. Sem outra desculpa por dar, teve por fim que se tornar uma agitadora cultural, fosse lá o que isso fosse.[9]

Nesse meio tempo nasceu Geoffroy, que S queria que fosse Lucas, mas aceitou o Geoffroy porque a alternativa era o nome do avô de Benny[10].

 

[7] S nunca explicara bem para si por qual razão levantara cedo e resolvera ir até a igreja, mas o fato é que o fez. Entrou no lugar pela manhã (sete horas…?), sentou no primeiro banco e fez sua primeira oração em anos. Fato estranho se considerarmos que S nunca fora religiosa (embora não comentasse o fato com ninguém), bem como que sua família sempre fora protestante. 
[8] S pintou uma cena da Natividade com uma virgem Maria vestindo bata de hospital em uma cama de hospital, tendo ao lado um José vestido como um rabino ortodoxo. S nunca conseguiu conquistar a família de Benny e nem mesmo fez muito esforço. 
[9] S sempre teve as mais cínicas opiniões sobre agitadores culturais, produtores e quejandos e durante todo o período “Benny” nunca os levou ou a si mesma a sério. “Você é daquelas que negam sua genialidade para ser deixada em paz fazendo suas ‘genices’”, dissera-lhe Benny em conversa de cama. “Genialidade é coisa de babaca, Benjamim Rosenblatt. E minha avó era preta e nordestina, daí que não posso ser ‘gênia’”. “e então…precisa do que prá ser gênio?”, Benny beijou-lhe um seio. “Sei lá, talvez uma profissão…vou pensar numa”. “Você tem problemas…” Benny, carinhoso. “Hum…problemas…é, pode ser. Para ser ‘gênia’ eu preciso ser, muito, problemática”. E por aí ia S. 
[10] O avô atendia por Samuel. Mais frescura de classe média, segundo S (embora S tenha gostado de Geoffroy, mas nunca o iria admitir).

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Cabalisticamente, no cemitério onde Benny estava sendo enterrado, S teve sua terceira e última experiência mística. Deixara o bebê com a irmã de Benny e fora sofrer no jardim quando o rabino apareceu.

“Não gosta de Rosenblatt?”. Gordo, baixo e com uma barba branca caindo no peito, o velhinho sentou-se a seu lado no banco.

“Como?”

“Rosenblatt, você não adotou o sobrenome de seu marido. Não gosta?”

S se lembrava de ter dado um pulo. O velhinho, educadamente, fingiu não notar. Usava um capote preto e um chapéu de copa alta.

“Jesus, ai meu Jesuzinho, de novo né? Tá acontecendo, não tá. O tempo parado e os anjos. Me diz que você não é um anjo!”

“Anjos gentios não podem entrar aqui. Questão de jurisdição. E eu não sou anjo, já antecipo, para sua tranquilidade.”

O jardim do cemitério fervilhava de senhores e senhoras, jovens, meninos e meninas, que S não tinha certeza se eram anjos ou fantasmas ou alucinações[11].

“E então…?”.

“Plá já é um sobrenome complicado o bastante…não acha?”

“Como é?”. O velhinho aproximou os ouvidos da boca de S.

“Plá. Meu sobrenome”, e pensativa: “escuta, cê é algum enviado de alguém com uma puta mensagem edificante ou alguma outra coisa babaca assim?”

“Ah, não. Sou parente do finado. tetra-tetra-tio-avô…ou mais um tetra”.

S abriu e fechou a boca, mas não conseguiu dizer o que queria dizer. Em vez disso: “olha, eu gostaria de ficar sozinha, agora, tá bem?”

Os homens e mulheres, anjos ou que fossem, começaram a circular pelo cemitério todo, abordando pessoas congeladas, exatamente como na primeira experiência mística de S.

“Sem problema, querida. Vim apenas transmitir um recado, coisa rápida”. O velhinho ria um riso leve de Bonzo.

“Qual o teu nome? Aliás, estamos falando em que língua?”

O velhinho sentou-se a seu lado.

“Para efeitos práticos, nenhuma ou todas. Para mim, por exemplo, você está falando em excelente alemão[12]. Meu nome é Lazar.”

[11] S era racionalista empedernida e desenvolvera teoria de que suas experiências místicas eram fruto de alguma mescalina natural produzida por seu cérebro. E era briguenta também, S. 
[12] O chamado efeito Pentecostes, muito útil na ficção para não emperrar os diálogos. Há muitas variações: na ficção científica serão culpados os tradutores universais, a telepatia ou então a extrema inteligência do alienígena. Nas ficções de fantasia podemos culpar a magia. No caso de Lazar, não pensamos ainda em nada de muito original. Sei lá é a melhor resposta até agora, mas estamos trabalhando em algo melhor.

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Lazar tinha uma voz linda, quente e profunda.

“Sei…Lazar Rosenblatt?”

“Chemboim. Lazar Chemboim. Pode me chamar de Senhor.”

“E qual é a mensagem, Lazar?”

O velhinho repreendeu, mudo e sorridente, com um dedo encarquilhado apontando diversas vezes para o rosto de S.

“Muito bem. A mensagem é…aviso, se preferir…conselho, é que você é capaz de, de quando em vez, perceber aos anjos fazendo das suas, a cada vez que resolvem “penetrar” entre um segundo e outro…”

“Você  os danadinhos mexendo com as vidas humanas, fazendo mudanças aqui e acolá, interferindo nas mentes…trocando peças. E isto é um dom raro. Deixa-os furiosos, aos filhos-da-puta, por não poderem fazer o mesmo com você. A não ser diretamente, como o anjo que lhe falou de Benny.[13]”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[13] Lazar, depois de morto, passou a não mais confiar em anjos, gentios ou não. Nunca se recuperara da descoberta de que os anjos não davam a mínima para o Livre Arbítrio. S também passou a nutrir certa ojeriza aos mensageiros do Senhor. Eis uma pequena amostra de um conto seu na revista Femina, edição de março de 2009 (a parte mais suave e família):

“ ‘Ele vem aí, você sabe…’, disse-me planando a poucos passos de mim, o rosto um tanto preocupado, um tanto já começando a denotar angústia. ‘Não é que eu não tenha passado por isso antes’, e aí mordeu uma unha, “mas é que…”, sei, sei muito bem. Ou melhor, sei nada, mas já aí é outra história.

                ‘Mesmo com tudo o que… quer dizer, com tudo o que possamos fazer, nos preparar, essas coisas, nunca é o bastante, nunca…e de qualquer modo’.

                Flutuou para perto de mim, o rosto sério, a boca em repouso.

                ‘Sei o que você vai dizer, sei o que pensa. Pensa que não sei? Pensa em mim como uma putinha, fútil’. Começou a elevar-se, alguns centímetros por segundo, ‘tenho certeza, sei como é. Imagino mesmo que tudo que você pensa agora é em levantar minha túnica e me enrabar’.

                O que é verdade, muita, mas não deixo as coisas assim tão fáceis prá ele.

‘Pelamordedeus, seja mais digno! Você é um anjo, porra! Um filho da puta aí com seus bilhões de anos. Dê-se ao respeito!’

Uma leve rotação e ele mostrou-me as costas, mas foi pior porque aí não resisti e nem vi porque deveria para dizer a verdade, aí então meti as duas mãozonas na bunda daquele safado, baixei ele mesmo até o chão e levantei a túnica branquíssima, pascal, arrepanhei-a em sua cintura e ali a sustive, e peguei sua mão branquíssima e pascal e fi-la segurar meu pau e deixei que o puto tomasse a iniciativa.

Bem na pontinha, o cu angélico me tocou, ele começou a chorar baixinho enquanto encaixava, acomodava, o pescoço num movimento lânguido e sofrido deixou uma massa dourada de cabelos perfumados me entrar pelo nariz.

‘Não disse?, uma putinha.’

‘É tudo o que você é prá mim, RafaelAmielbundabel, biscate cósmica, anjinho chupa-rola.’

Finalmente o empurrei contra a parede, empurrando ao mesmo tempo o meu pinto nas suas entranhas perfumadas, doces.

‘Eis aqui toda a substância ígnea de que você precisa.’ “.

O conto lhe rendeu certos dissabores. Rowena Castro, a editora, fez-lhe observar do desnecessário do texto, uma relação de amor e ódio entre um anjo e um ateu sádico. E, não sem razão, reclamou do anjo submisso e efeminado sendo abusado por um demente machista. S rebateu dizendo que a coisa era uma metáfora e ninguém entendeu nada. “Metáfora do que?”, perguntara a aflita Rowena. “Tá, então é pornografia e pronto!”. S nunca primou pela sutileza.

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S levantou-se.

“Se não fosse pelo anjo eu não teria conhecido o Beja!”

Lazar cruzou os braços por sobre os joelhos, numa irritação bonachona.

“É e veja no que deu. Benny casou-se com uma goy![14]”

E rapidamente acenou, como que para desfazer o comentário.

“Não, não entenda mal. Não dou tanta importância assim ao ocorrido. A morte nos dá novas perspectivas. Só estava querendo lhe apontar que o dom de ver aos anjos significa que você pode escapar de sua influência, o que pode ser bom”

“Beja foi bom…”.

“Bennys não acontecem todo dia, menina teimosa!”

S não podia objetar a isto.

“Escuta, eu vou esquecer tudo isso, você, os anjos e o caralho?”

“Não, você pegou os safados de surpresa. Muito embora eu não aconselhe a ficar espalhando por aí, se é que me entende.”

Uma mulher de uns sessenta anos, touca branca e avental, se aproximou e cutucou Lazar com cara de poucos amigos para S.

“Ah, minha esposa. Tenho que ir…bem, tchau.”

Na opinião de S a saída de Lazar e esposa pecou no quesito estético, por muito abrupta. Ela teria esperado pelo menos uma intervenção da velhota, depois mais um papo místico cheio de sabedora (o “tchau” não pegou legal, também), mas não rolou.

Aliás, S sempre associaria a esposa fantasmal e azeda de Lazar à atriz que interpretava Fruma Sarah no Violinista no Telhado. O filme, esclareço.[15]

E S saiu de novo para a vida.

Entrando com teimosia e garbo na sua nova fase de viúva, S ficou com o apartamento que dividira com Benny, recusando com uma insanidade toda especial a receber qualquer outros bens do falecido (ela nunca tocou nas contas correntes e recusou-se a comparecer às audiências do inventário).

Por esta época resolveu voltar à universidade.

Paralelamente, exerceu miríade de outras atividades, sobrando ainda tempo para criar o pequeno Geoffroy, arranjar e desafazer relacionamentos, criar e fechar revistas, formar-se, iniciar bem sucedida carreira acadêmica na área de Estudos da Linguagem, dirigir um filme e, finalmente, morrer.

[14] Antes de ser goy ou viúva de Benny S era corintiana e isso sim, fazia uma puta diferença. Lazar, por outro lado, era tão alheio ao futebol como um vegetal ao sexo.
[15] Interpretada por Ruth Madoc no filme de Norman Jewison. Após o encontro com Lazar, S passou a chamar a sua esposa, mentalmente, de biscate-com-lixa-no-cu.

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Nunca mais teve transportes místicos, embora tivesse certeza de ter visto novamente à “anja” de jeans no fundo de uma classe onde dava aulas e, duas vezes, no ônibus.[16]

Estranhamente, jamais perdeu o sono por conta das ocorrências angélicas e nunca guardou segredo como lhe aconselhara Lazar, o que muito contribuiu para sua persistente reputação de porralouca.

“qual a conclusão, o que é que você…sei lá…aprendeu com a coisa toda?”, lhe perguntara certa vez Rowena.

“Conclusão? Prá ser sincera, porra nenhuma.”

E deu por encerrado o assunto.

Antes de morrer, S viu Geoffroy crescer em sabedoria e graça aos olhos do Senhor.[17]

[16] S nunca aprendeu a dirigir.
[17] Os parentes de Benny insistiram  junto a S para Geoffroy fazer sua Bar-Miztvah, ao que ela nunca objetou, sendo o único problema sua antipatia em deixar “cortarem o pinto do garoto”, mas acabou concordando.

EXTRATO DE DIÁLOGO ENTRE DEUS E JUAN

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The Ancient Of Days – William Blake

 

 

 

“Bem, o que temos prá hoje?”, perguntou Deus-Todo-Poderoso.

“Não existe hoje, Vossa Divindade…”, balbuciou meigamente o místico louco recém saído de uma Longa e Escura Noite da Alma.

“Ah…é”. Cofiou a barba ou ajeitou as madeixas ou os dreadlocks, dependendo de qual face de Deus estejamos a falar.

Deus é máscara. Uma para cada ocasião.

Existe um Deus marciano, mas seu aspecto quase não é mais visto, ou melhor, não é mais visto. Ou ainda, só será visto mais uma última vez quando a pessoa que dorme na pirâmide acordar.

“Fico preocupado, Divindade, digo, a pessoa que dorme na pirâmide em Marte é seu último adorador naquele orbe. Então, se e quando ela acordar e se e quando ela morrer após acordar, significa que um aspecto Vosso irá fenecer?”

“Não tenho adoradores, Juan. O próprio conceito é ofensivo”. Juan aguardou, expectante.

“O que eu tenho são dependentes, inquilinos”. E Deus sorriu, matreiro.

“Senhor…?”

Neste momento Deus ficará irritado com o teor deste texto, com suas importunas referências, com suas incongruências, com o nonsense, enfim, de misturar misticismo e marcianidade.

“Paga o que me deves!”

“Senhor, não entendi…”. E João da Cruz, inquilino de Deus, derreteu-se em um amálgama de medo e êxtase e deixou de existir. Provisoriamente.

“Este texto acaba agora”, disse o Senhor e eu tremo, mas ainda continuo a existir.

Seja feita tua vontade, Ó Senhor.

Como se darão os fatos, como serão as cousas

Weeping Angels Versus The Doctor - DeviantArt - Tratamento de imagem de Severino Pelvelso

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É…

Contratei os anjos no terceiro dia, não esperei que se confirmasse que eram mesmo, de fato, os anos de praga. Fui expedito e precavido. Previsto o pior, passei à ação.

Três anjos contratei. Caros, mas nada assim tão caro como um anjo de primeira linha, cantor de coros celestiais, um daqueles de seis asas, por exemplo. Mas bons empregados, não obstante.

Experientes, obstinados e totalmente leais.

“Algum problema na contratação? Quero dizer, foi fácil, sem problemas?”

Fácil. Mas veja que eram ‘bagrinhos’, sem sindicato e os contratos saíram em nome dos grandões da estiva, os caras cheios de “El” no nome. Fácil.

“Sinteticamente. Serão usados no que e para que?”

Controle de multidão, principalmente. Antevejo uma época de profunda desagregação a qual apelidei de “Parúsia”, quando começarão os arrebatamentos, os sinais, as pragas, o choro e o ranger de dentes. E, por favor, perceba o detalhe, todas as operações se concentrarão na Jerusalém Celestial. Isso facilita em muito o planejamento das ações de contenção e proteção.

“E usarão o que? Espadas de fogo, armaduras e rotinas do tipo ‘Miguel Arcanjo’?”

Não, não, não. Automáticas, granadas, até mesmo aqueles adoráveis mísseis de curta distância. Resolvemos modernizar em todos os setores.

Usando de sua palavras, será uma rotina do tipo “Do trono emanavam relâmpagos, vozes e trovões”. Percebe?

“Alguma ideia da opinião dos agentes do Cordeiro?”

Sei que não se envolverão, embora…é…não seja de sua natureza aceitar as ações autônomas. Mesmo ações como a nossa, apoiadas por nove em cada dez ‘homens de Deus’.

“E quem serão os preferenciais, digo, os que receberão os ‘relâmpagos e trovões’?”

O basicão. Livre-pensadores, ateus, comunistas, juízes de futebol, editores-chefes…todos os pecadores, assim…ah, de modo geral.

“Teremos pranto, então?”

E alguma pipoca, não pode faltar.