Crítica literária: A Bíblia

O primeiro e o maior dos

O primeiro e o maior dos “ghost-writers”?

Atenção: SPOILERS!!!

Este crítico que vos fala leu o livro, a maior sensação literária da temporada e que certamente brilhará na feira de livros de Paraty. O autor, um excêntrico que gosta de ser chamado de Deus, sem sobrenome, se esmerou em criar um calhamaço de mais de mil páginas onde aparentemente se divertiu em passar por quantos gêneros pudesse: do sermão à farsa, do épico à crônica, da poesia à disgressão moral.

Toda obra é dividida em capítulos e já desde o primeiro, chamado de Gênesis, somos surpreendidos no início pela completa ausência de personagens, exceto por uma: Deus. É, Deus. O autor se diverte colocando a si mesmo como o primeiro e único personagem inicial de quem, em fina ironia, fala na terceira pessoa. A partir de agora, quando nos referirmos à personagem, utilizaremos de tipo itálico.

Neste primeiro capítulo optou Deus por nos trazer sua cosmogonia particular, pois sim, a personagem Deus cria, a partir do nada, o mundo. Há fases que se seguem onde aparecem os astros, os rios e oceanos, as plantas e finalmente os animais. Há todo um projeto de construir e deixar pronto um espaço delimitado a que chama o autor de Paraíso. Espaço preparado para a inevitável aparição de Adão, a segunda personagem e, a partir de uma sua costela (é, a costela, não estou brincando…), a terceira, Eva.

Onde Adão é personagem plana, Eva é mais incisiva, curiosa e perguntadora. E é bom que seja assim pois que é a partir de sua desobediência a Deus, que se estende a Adão, que o capítulo ganha em ação e movimento. Ora, Adão é um tolo cheio de boas intenções, mas limitado. Então é com Eva que trata a quarta personagem, chamada simplesmente de A Serpente.

Ponto fulcral do capítulo no qual não nos estenderemos muito para não prejudicar o sabor de uma primeira leitura, mas basta saber que A Serpente convence Eva a provar do fruto de uma árvore mágica, cujo consumo fora interdito por Deus e que supostamente traria a sabedoria ou, mui conpiscuamente (não zombem, por favor), o conhecimento do Ser, da vida, de suas determinações e, portanto, da imortalidade ou, se assim se preferir, do compartilhamento da condição do divino.

Bem, Deus descobre a insubordinação, ralha com os culpados e por fim os expulsa do Paraíso. A história já pode começar. Pois é somente aí que percebemos que todo o livro é nada mais que a narração das peripécias dos descendentes de Adão e Eva.
E então…bem há de tudo um pouco: assassinatos, obsessão, um dilúvio (uma interessante paródia da personagem Utnaphistim, de Gilgamesh, autor que já resenhamos).

Enfim, todos os recursos são utilizados pelo autor nessa fase, o discurso repetitivo típico das narrativas de cosmogonias, a interseção direta de uma divindade no plano material, a abundância de simbolismo e paracitações (A Serpente é claramente decalcada da deusa suméria Tiamat), servirão apenas de movimento introdutório a este que pode ser considerado muito mais que um simples Roman-fleuve.

Aliás, o autor brinca mesmo com a proposição de tratar sua obra em termos de romance-rio. Mas um romance-rio no qual o narrador onisciente também é personagem atuante: eu sou o alfa e o ômega, diz numa encarnação sua num dos capítulos finais do livro.

Interessantíssima, a propósito, é esta aparição da personagem Deus, encarnada no filho de um carpinteiro chamado de Jesus e que é ao mesmo tempo filho do próprio Deus. Há rumores de uma continuação da Bíblia focada em Jesus e que teria o título provisório de Bíblia: o novo testamento.

Em todo caso, uma obra densa, que já atrai legiões de cultores e (prevemos), provavelmente será motivo de disputas e celeumas. De resto, se não temos muitas certezas sobre a obra, temos sobre o autor: é prolífico. É polêmico. Vejamos o que mais sairá de sua pena. Aguardemos.

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A PAIXÃO SEGUNDO O CORINTIANO VOADOR

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O Evangelho Segundo São Mateus – Set de filmagem – Pier Paolo Pasolini

 

Reservado, contrito, mas atento, em uma viela de Jerusalém

Eis que Jesus se recolheu (avistara a cavalos e soldados)

Nada demais, soldados e cavalos, eram romanos os cavalos

E eis que havia ainda, devotados, apóstolos mais além

 

Então, eram os cavalos e os soldados e o Senhor

De nome Yeshua ben Yussef, um carpinteiro

Que iria se foder ao fim do dia, o fim certeiro

Era certeza e desfazia-se o enviado em dor.

 

Jesus amava a inteireza, sabia que sabia todo o enredo

Não lhe importavam judas, o sinédrio ou Pedro

Sobre este último, interessa, dizer que era Pedra de apelido

De nascimento, o pedra, o Kephas, o remido

 

Shimon bar Ionah, negador profissional, três vezes

(apenas aos melhores convocava o nazareno)

e cada pedra da cidade segredava o ai supremo,

morrerás, Jesus, mas olha, os teus revezes

 

servirão para consolidar, serão fecundos

será de glória vossa morte, em prol do mundo

terás a via dolorosa e turistas em disputas

uns por adorarem o deus uno iracundo

outros por irem mais além, e resolutas

outros por teu gesto de amigo às putas

 

as massas ocuparão o paredão do templo

e colocarão mil orações em suas fendas

e quando não restar alento ou mesmo tempo

 

de modo calmo, firme e lento,  em meiga dança

como convém a tão gentil messias, ei-lo

repartirão as rendas vossas, teu dinheiro

e irão mercadejar teus gestos e teus dias

 

e Jesus não será mais Jesus, o desenredo

não mais que uma pintura em uma folhinha

um inventado homem em uma folhinha

e, claro, uma cadeira doirada para Pedro

TEÓPOLIS

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Artificial Sun – by Ahermin / DeviantArt

 

E NA ALA VIP DO CÉU

OS TURISTAS CORREM COM OS DENTES

EM SANGUE

POIS É

EU ESTOU LÁ, SORRINDO!

 

FOTOGRAFO DEUS

PROTEGIDO POR QUERUBINS

E ESPERO O ARMAGEDON

ATRASANDO O EMBARQUE

 

É. DEUS DE MANHÃ

QUASE NÃO RECONHECI

SEM O RAY-BAN

SOBRE MENTORES, MESTRES ESPIRITUAIS E AJUDANTES DE PEDREIRO

PINGA

Começava eu na carreira de homo sapiens e conheci a dois filhos-da-puta: o judeu do mal e o padre russo do mal. Ambos moradores do bairro do Ipiranga, na cidade hoje conspurcada de São Paulo. Onde, aliás, nasci.

Um não sabia do outro, mas eram duas putas véias que pensavam do mesmo jeito. Me disseram.

A mim, a minzinho mesmo. A este vosso criado!

Disseram: seja homem!

E disseram: Eu sei que é difícil, você pode não estar acostumado! Mas tente parecer com um homem!

Em verdade queriam dizer: seja digno! Tenha verve! Mas a época era de machismos diversos.

Modos que. Então. Modos que (entendi somente muitos anos depois: não acredite no sábio e nem em seus escritos e nem nos escritos do pequeno babaca que emula o sábio e nem na revista e nem no jornal e nem no sacerdote e nem no juiz justiceiro e nem em justiceiro algum e nem no jovem lutador pela justiça e nem no blogue e nem na puta que vos pariu).

Disseram-me. Disseram-me… só o básico. Disseram-me, mas não me aconselharam, pois que eram dignos demais para coisa tão primária.

Só me sussurraram: desconfie do sábio, do herói e do douto.

Seja uma puta desconfiada, me disseram!

Inventarei dois nomes para os dois: Ilya e Eliahu.

Obrigado.

Aos dois. Um minúsculo e elétrico. O outro enorme, e calmo como as marés.

A ambos eu agradeço.

E sei que ambos riem de minha tolice.

 

 

 

 

SOBRE A ANTIGA E FECUNDA ARTE DE NÃO SER UMA PESSOA DO BEM

 

Anjo da morte

 

Sei que todos me acharão superficial e tolo. Dirão, é tão fácil a pessoa não ser uma pessoa do bem! E aí vinde vós e dizeis que nos ensinareis sobre como ser um crápula. Ora, ora. Homessa!

Mas não, peço que me empresteis vossos ouvidos ou vossos olhos. Todo caso, dai-me vós o benefício da dúvida.

Ocorre que não sabeis o que é ser do mal, sois amadores. Achais que é só garatujar a sangue e fogo uma frase na testa de d´algum pequeno ladrãozito? Achais que é só mastigar e decepar o artelho de alguém de quem não gostais?

Tolos!

Amadores é pois o que sois.

Não ser uma pessoa do bem é mais do que perpetrar pequenas covardias para o gáudio de outros tantos pequenos covardes.

Não ser uma pessoa do bem exige mais! Exige comungar com Satanás e com Deus ao mesmo tempo. Exige ser bom para extrair o mais fino licor do mal, na bondade.

Exige mais do que ser apenas um Adolph Hitler qualquer, pessoa inculta (porque não tornada adulta), escrevendo mal e porcamente um Mein Kampf.

Exige mais, vos digo.

Para que se torne alguém uma pessoa que não é do bem se exige entranhas sólidas, ancoradas no mais profundo vazio.

Exige que a pessoinha do mal se creia boa e dona de verdades! Enfim, é um processo.

Sede então bons e propagai a bondade!

E, por favor, fazei por bem crer que sois o sal da terra.

E a arte de feder até os céus será toda vossa.

Sobre o Tentador e, de um modo geral, sobre o mau-gosto atualmente em voga

Ary Scheffer The Temptation of Christ 1854

Ary Scheffer – Jesus and the devil in the desert

Eu, equidistantemente de domingos

Segundafeiramente  ao descoberto

mesmo a mim, me disse a mim, a descoberto

que não mais sonetos cometeria. Bingo!

Eis-me aqui, de novo no deserto, solto

Quarenta dias de fome me prometo

É um jejum, né não? Então me submeto

Espero o diabo, um Lúcifer qualquer, estoutro

Um, cê sabe, que me eleve a uma montanha

E me tente com as terras e conquistas, um suborno

e prometendo como minhas as terras todas

(e seus ouros)

Que meu será todo o querer, coisa tamanha

se todo este eu…

Ah, foda-se, que tenha eu a grandeza, viu?

De num repente, o mandar à puta que o pariu

HUMILDADE

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Dificilmente haverá algo menos humano que o santo.

 

Nada é mais soberbo que a humildade.

As pessoas deveriam envergonhar-se ao dizer “eu sou humilde”.

Mas, bondoso e amoroso que sou, a todos perdoo.

Exceto ao criador das montanhas-russas, que me dão enjoo.

O PROVERBIAL TEMPO DO PRANTO E DO RANGER DE DENTES

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O poeta – Egon Schiele

 

 

 

 

, sempre quis começar um texto com uma vírgula. Bem, aí está ela.

Vamos lá, aviso que já preparei o meu aviso profético, furibundo e intenso.

Eis.

Ai de ti, Jerusalém! Ai de ti, Sião, recostada como uma prostituta alugada a preço vil.

Perguntem-me alguma coisa!

Como? Tolice.

Chikamatsu Monzaemon escreveu uma vez que a Arte reside nas fronteiras de sombras entre a realidade e a ilusão. Um poema pode começar com a morte, a chuva ou a aurora, mas o realismo de uma estrofe deve ser compensado pelo ilusório de outra.

Mas aí temos o nosso tempo, onde os aviões voam e logo caem em lugares molhados onde celebridades não conseguem nadar.

Nosso tempo conspiratório, onde não conseguimos despertar do pesadelo do presente. Não admira precisarmos da profecia.

Ergo, eis-me aqui. Ajoelhem-se!

Todo tempo faz referência a outro tempo e é suscetível de ser explicado por outro tempo, como uma longa cadeia de salsichas.

O profeta então é apenas um açougueiro diligente.

Une saison en enfer. Ai de ti, Jerusalém!

A OBRA-PRIMA NA GAVETA

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Um fenômeno é uma descrição de uma intervenção na realidade, entre outras definições possíveis.

O fato é que estou agora, nos atualmentes, lendo e relendo a obra de um de meus escritores prediletos, Philip K. Dick. E tem tudo a ver (acho, não ponho a mão no fogo) com esta postagem, digamos, fenomênica.

Não sou muito de resenhas, tanto que cometi poucas aqui no espaço. Não tenho a verve e a generosidade do blogueiro Valnikson Viana, por exemplo, que mantém lá o seu 1001 LIVROS BRASILEIROS PARA LER ANTES DE MORRER, que recomendo vivamente (aqui: http://tinyurl.com/zymo2tj).

Mudo de hábitos por entender que Philip K. Dick o merece. Você talvez não o conheça mas certamente conhece subprodutos de seus trabalhos. Blade Runner, o filme, lembra?, veio de de seu livro Do androids dream of electric sheep?. Alguma coisa como Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? E Minority Report? Lembra? Tom Cruise, etc, etc. Pois bem, Philip K. Dick. PKD.

Só a titulo de informação, segue abaixo uma relação de filmes e os livros de PKD nos quais foram baseados (extraído do saite Cooltural. Vão lá):

  1. Os Agentes do Destino / The Adjustment Bureau (George Nolfi, EUA, 2011) – Conto: Equipe de Ajuste | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)
  2. Assassinos Cibernéticos / Screamers (Christian Duguay, EUA, 1995) – Conto: Segunda Variedade | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)
  3. Blade Runner: O Caçador de Andróides / Blade Runner (Ridley Scott, EUA, 1982) – Romance: Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (Ed. Aleph, em 2014)
  4. O Homem Duplo / A Scanner Darkly (Richard Linklater, EUA, 2006) – Romance: O Homem Duplo (Ed. Rocco)
  5. Impostor / Idem (Gary Fleder, EUA, 2001) – Conto: Impostor | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)
  6. Minority Report: A Nova Lei / Minority Report (Steven Spielberg, EUA, 2002) – Conto: O Relatório Minoritário | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)
  7. O Pagamento / Paycheck (John Woo, EUA, 2003) – Conto: O Pagamento | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)
  8. O Vidente / Next (Lee Tamahori, EUA, 2007) – Conto: O Homem Dourado | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)
  9. O Vingador do Futuro / Total Recall (Paul Verhoeven, EUA, 1990) – Conto: Lembramos para Você a Preço de Atacado | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)
  10. O Vingador do Futuro / Total Recall (Len Wiseman, EUA, 2012) – Conto: Lembramos para Você a Preço de Atacado | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)

Aviso aos incautos que PKD é escritor considerado menor pelos menos informados, pois que se lhe atribuem escrever obras no gênero da ficção científica, o que gera um handicap negativo, dizem. Alguma coisa parecida com ser corintiano.

No entanto, ninguém mais alheio à discussão de gêneros literários, PKD construiu, solipsisticamente, uma obra incrivelmente coerente e fiel a si mesmo e suas muitas dúvidas e angústias.

Três Estigmas de Palmer Eldritch, uma expedição retorna da jornada a outra estrela e traz de contrabando a uma entidade metafísica e a uma nova droga que permite aos usuários criarem sua própria realidade.  Do androids dream of electric sheep?, um novo culto religioso, o Mercerismo, permite aos fiéis não só comungar com Deus mas também sentir as agonias de seu profeta através de uma espécie de internet sensorial.

Budismo, gnose, teologia. Todos estes temas estão presentes em sua obra.

Bráulio Tavares escreveu que Philip K. Dick injetou angústia kafkiana na ficção científica (Artigo de 27/04/2013 na Folha de São Paulo).

E então PKD teve sua própria epifania.

Foi em 1974 quando encomendou medicamentos a uma farmácia. A jovem entregadora que os trouxe galvanizou a atenção de PKD por conta de um pingente em forma de peixe que levava ao pescoço. Perguntou à jovem sobre o berloque e ouviu dela que se tratava de um dos mais antigos símbolos do cristianismo; neste instante (conforme relatou depois) um raio de luz rosa o atingiu e ele soube de tudo o que já havia esquecido, incluindo o fato de que ele e a garota eram membros de uma cristandade secreta.

E que ambos sabiam que o que chamamos de realidade era falso. Inclusive toda a história transcorrida desde o ano setenta da era cristã, nada mais era que uma alucinação em massa.

Eu sei, muito ácido na cabeça. PKD era notório usuário de anfetaminas. Não discuto. Mas não posso me furtar a admirar a coerência do sujeito, sua fidelidade a si mesmo (e vá lá, a sua loucura).

PKD passou escrever um diário a que chamou de Exegese, que por ocasião de sua morte em 1982 já continha mais de dois milhões de palavras e enchia dois arquivos de gaveta.

Na ocasião PKD acreditava que havia entrado em contato com uma entidade a que batizou de VALIS, um acrônimo para Vast Active Living Intelligence System. O mesmo título de um dos três livros que escreveria sobre o assunto ao lado de The Divine Invasion e The Transmigration of Timothy Archer.

No momento leio VALIS, um livro que basicamente replica na personagem Horselover Fat, as vezes também chamado de Phil, a experiência de PKD. Aliás, Horselover nada mais é que a tradução literal de Philip, Filipe, Filo-Hipos, amigo dos cavalos.

Philip K. Dick, o primeiro dos tecnognósticos.

Enfim, é a sugestão do chef para hoje.

 

O CÁLICE MÍNIMO

POVO POVO

 

O debate mínimo e eterno. Demonstrar a existência não do Brasil, não de Deus, mas desta fantasmagoria chamada Povo.

Haverá maior solidão?

Povo, nós. A putinha sempre enganada.

A Pátria vira de novo o que sempre foi: um Serpentário.

De novo!