A HISTÓRIA DE PIJAMAS

Art of Diplomacy III - Michel Cheval

Art of Diplomacy III – Michel Cheval

O fato histórico não precisa ser notável, apenas pode.

Minha ambição: a História como um daqueles almanaques de antigamente, com edição anual e recheados de curiosidades: datas ideais de plantio, conselhos sobre a saúde, calendários, lunários perpétuos. Nada sério.

E as datas e os lugares ganhariam alguma coisa, talvez mais humana, mais real por que descobriríamos que os fatos se dão não tanto pelo general famoso, pelo rei ou imperador, mas antes por uma tempestade imprevista, um grumete de embarcação que deu o tiro preciso, uma prostituta que envenenou um clérigo.

Os fatinhos que geram os fatões, se me perdoam a esculhambação com a língua pátria. A História na contramão, de pijama.

Exempli gratia.

Os Templários não foram totalmente exterminados quando da execução de Jacques de Molay pelo Felipe francês. Enclaves da ordem sobreviveram na Escócia e em Portugal. E foram os Templários de Portugal, sob a denominação de Ordem de Cristo, quem financiaram as caravelas de Cabral.

Este nosso almanaque de insignificâncias continua, não tem fim.

A Espanha continuou poderosíssima após a derrota da Invencível Armada, pelos ingleses e pelas tempestades, por mais que os ingleses gostem de pensar o contrário.

Jesus Cristo, ou ainda Yeshua Ben Youssef, era Galileu. O que em termos modernos, no Brasil, seria o mesmo que ser nordestino e atender por Jesonaldo ou Ademilson. Só samaritanos eram menos considerados que os galileus e o nome de Jesus nada mais era que uma variante (considerada vulgar) de Yoshua,  Josué.

Mas aí aparece a História, com agazão, sisuda, séria, posuda.

Eu sei, sabemos, que para merecer os holofotes da História convinha, convém ser macho, adulto e branco. Senão, vejamos.

Era um homem bom René Descartes? E Sidarta dos Sakhia, e Emanuel Swedenborg e Ludwig da Baviera? E Santos Dumont?

E tantos outros, talvez também bons, e homens, ali, congelados em seus nichos no grande Panteão dos Grandes.

Adulto, macho e branco. O perfil acabado do herói. Sem mênstruo, sem dores, só a glória.

E as mulheres? São historiáveis?

Santa Catarina de Siena não sei se era boa, dizem mesmo que era analfabeta e pervertedora de papas. Siatemi uomo virile, e non timoroso. Rispondete a Dio, che vi chiama che veniate a tenere e possedere il luogo del glorioso pastore Santo Pietro, di cui vicário sete rimasto. E por aí foi, em famosa carta, comendo o rabo papalino de Gregório XI ou LXXV, sei lá.

Teresa de Ávila, santa de minha particular devoção, também era analfabeta, fato nada incomum em quase toda a História humana, mas poeta sublime. Igual aquele João da Cruz com quem levitou junto, em êxtase compartilhado.

Ambas, post mortem, tornaram-se doutoras da Igreja. As únicas. Prêmio de consolação.

Mais mulheres e mais história.

Murasaki Shikibu, também escritora e poeta sublime, fazia parte daquela maravilhosa e hedonista aristocracia japonesa do período Heian, séculos X e XI, cultivadora de clássicos chineses.

Aliás, foram provavelmente as mulheres desta aristocracia que criaram sua própria versão simplificada da escrita chinesa Han, adaptada aos falares japoneses, o Kana.

Autora do primeiro romance, o Genji Monogatari, se desconsiderarmos o Satiricon. Vergonhosamente não há ainda tradução portuguesa que eu saiba.

Cinquenta e quatro volumes tem esta narrativa dos amores do príncipe  Genji, se bem recordo e não, não li senão extratos. Significa que não li. Queria.

Exemplo: A dama da corte termina uma carta endereçada ao herói e vai depois apreciar a neve caindo no jardim. A personagem da dama espanta-se que também ao camponês seja permitido apreciar aquelas delicadezas.

Cinquenta personagens principais, nem sempre chamados por seus nomes, mas também por seus títulos ou apelidos poéticos.

Outra, o Haiku, este metro que prima pela brevidade, também foi criado pelas mulheres japonesas, que os homens estavam ocupados escrevendo tratados confucianos ou poemas em chinês clássico.

Terra Brasilis. A ciranda, se não foi criada por Lia de Itamaracá, foi por ancestral não nomeada.

História. E Bashô, François Villon, Vergílio, Dante, valha-me deus, eram homens bons? Grandes, tudo bem, mas bons?

Na coisa toda, o que me enche os pacovares, é essa grande lista de homens, como se toda a cultura fosse criada apenas por homens e homens ricos, poderosos. E Adão gerou Set que gerou Enós que gerou Cainan que gerou Malaleel que gerou Jared que gerou Henoc. Nenhum útero deu sua cara. Nenhum faxineiro, nenhuma doméstica.

Nâo, não estou cultivando feminismos, que devem em minha modesta opinião ser cultivados por feministas. E se mulheres, as feministas, melhor.

Não, falo somente da invisibilidade de algumas personagens e de algumas circunstâncias. E da História e de sua grandiloquência.

Então, sendo a História muito mais do que bustos de heróis enfileirados, por que não enfileirar uma coleção de coisas miúdas, cotidianas? A História no diminutivo?

Oremos.

E vamos aos microfatos:

Já notaram que as pessoas eram magras e esbeltas nos filmes dos anos setenta e mesmo oitenta? Para não falar das décadas anteriores? Menos fast food, menos dietas esquizofrênicas e mais comida caseira, imagino. História.

E assistir a um documentário como Doces Bárbaros e se maravilhar com os Baianos de plástico, maleáveis, rodopiantes, de quarenta anos atrás? Distinguir os maneirismos de uma época: gente assumindo cultuar religiões afro-brasileiras (e não se diga que nada mudou. Hoje será considerada vulgar a pessoa vulgar que o admitir, já que rodou a História junto com a Lusitana e voltamos à Idade Média).

Doces Bárbaros. Gente com pouca roupa no corpo, esparramada em tapetes, almofadas, espreguiçando-se como felinos (o tempo hoje é de urgências, velocidade. O tempo hoje é dinâmico e as pessoas são dinâmicas, dúcteis, urgentes e velozes demais para caberem em almofadas).

Doces Bárbaros. Gal, Bethania, Gil e Caetano. Toda uma série de músicas com temas afro, roupas e adereços com motivos afro, árabes ou indianos. Havia leveza ali. História.

E Betty Davis apagando seus cigarros em um prato no restaurante? Eu vi o filme e estranhei a cena. Não estranharia há alguns anos. Fosse hoje, Betty seria expulsa do lugar, acompanhada por um coro de faces desaprovadoras deplorando sua abominável conduta. História.

E ouvir a música brasileira, dita de vanguarda, dos insossos anos de 1970 a 1980? Uma delícia de estranhamento, com aquela metalinguagem que originalmente fora um meio de driblar à censura e depois tornou-se um fim em si. Um patois para uso exclusivo da classe média. Confiram Panema Leblon na voz de  Cláudia (hoje, Claudya) ou Com Mais de Trinta, de Marcos Valle. Tão disponíveis lá no YouToba e está tudo lá: juventude banhada em sol e rebeldia de butique.

Enfim, a micro-história, pequenininha, doméstica.

A casa da História é lugar onde os Grandes Homens descansam seus fígados e posam para a eternidade. A casa da micro-história só serve à marginalia, é nota de rodapé.

A História clama. A micro-história não, no máximo emite alguns borborigmos.

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Crítica literária: A Bíblia

O primeiro e o maior dos

O primeiro e o maior dos “ghost-writers”?

Atenção: SPOILERS!!!

Este crítico que vos fala leu o livro, a maior sensação literária da temporada e que certamente brilhará na feira de livros de Paraty. O autor, um excêntrico que gosta de ser chamado de Deus, sem sobrenome, se esmerou em criar um calhamaço de mais de mil páginas onde aparentemente se divertiu em passar por quantos gêneros pudesse: do sermão à farsa, do épico à crônica, da poesia à disgressão moral.

Toda obra é dividida em capítulos e já desde o primeiro, chamado de Gênesis, somos surpreendidos no início pela completa ausência de personagens, exceto por uma: Deus. É, Deus. O autor se diverte colocando a si mesmo como o primeiro e único personagem inicial de quem, em fina ironia, fala na terceira pessoa. A partir de agora, quando nos referirmos à personagem, utilizaremos de tipo itálico.

Neste primeiro capítulo optou Deus por nos trazer sua cosmogonia particular, pois sim, a personagem Deus cria, a partir do nada, o mundo. Há fases que se seguem onde aparecem os astros, os rios e oceanos, as plantas e finalmente os animais. Há todo um projeto de construir e deixar pronto um espaço delimitado a que chama o autor de Paraíso. Espaço preparado para a inevitável aparição de Adão, a segunda personagem e, a partir de uma sua costela (é, a costela, não estou brincando…), a terceira, Eva.

Onde Adão é personagem plana, Eva é mais incisiva, curiosa e perguntadora. E é bom que seja assim pois que é a partir de sua desobediência a Deus, que se estende a Adão, que o capítulo ganha em ação e movimento. Ora, Adão é um tolo cheio de boas intenções, mas limitado. Então é com Eva que trata a quarta personagem, chamada simplesmente de A Serpente.

Ponto fulcral do capítulo no qual não nos estenderemos muito para não prejudicar o sabor de uma primeira leitura, mas basta saber que A Serpente convence Eva a provar do fruto de uma árvore mágica, cujo consumo fora interdito por Deus e que supostamente traria a sabedoria ou, mui conpiscuamente (não zombem, por favor), o conhecimento do Ser, da vida, de suas determinações e, portanto, da imortalidade ou, se assim se preferir, do compartilhamento da condição do divino.

Bem, Deus descobre a insubordinação, ralha com os culpados e por fim os expulsa do Paraíso. A história já pode começar. Pois é somente aí que percebemos que todo o livro é nada mais que a narração das peripécias dos descendentes de Adão e Eva.
E então…bem há de tudo um pouco: assassinatos, obsessão, um dilúvio (uma interessante paródia da personagem Utnaphistim, de Gilgamesh, autor que já resenhamos).

Enfim, todos os recursos são utilizados pelo autor nessa fase, o discurso repetitivo típico das narrativas de cosmogonias, a interseção direta de uma divindade no plano material, a abundância de simbolismo e paracitações (A Serpente é claramente decalcada da deusa suméria Tiamat), servirão apenas de movimento introdutório a este que pode ser considerado muito mais que um simples Roman-fleuve.

Aliás, o autor brinca mesmo com a proposição de tratar sua obra em termos de romance-rio. Mas um romance-rio no qual o narrador onisciente também é personagem atuante: eu sou o alfa e o ômega, diz numa encarnação sua num dos capítulos finais do livro.

Interessantíssima, a propósito, é esta aparição da personagem Deus, encarnada no filho de um carpinteiro chamado de Jesus e que é ao mesmo tempo filho do próprio Deus. Há rumores de uma continuação da Bíblia focada em Jesus e que teria o título provisório de Bíblia: o novo testamento.

Em todo caso, uma obra densa, que já atrai legiões de cultores e (prevemos), provavelmente será motivo de disputas e celeumas. De resto, se não temos muitas certezas sobre a obra, temos sobre o autor: é prolífico. É polêmico. Vejamos o que mais sairá de sua pena. Aguardemos.

A PAIXÃO SEGUNDO O CORINTIANO VOADOR

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O Evangelho Segundo São Mateus – Set de filmagem – Pier Paolo Pasolini

 

Reservado, contrito, mas atento, em uma viela de Jerusalém

Eis que Jesus se recolheu (avistara a cavalos e soldados)

Nada demais, soldados e cavalos, eram romanos os cavalos

E eis que havia ainda, devotados, apóstolos mais além

 

Então, eram os cavalos e os soldados e o Senhor

De nome Yeshua ben Yussef, um carpinteiro

Que iria se foder ao fim do dia, o fim certeiro

Era certeza e desfazia-se o enviado em dor.

 

Jesus amava a inteireza, sabia que sabia todo o enredo

Não lhe importavam judas, o sinédrio ou Pedro

Sobre este último, interessa, dizer que era Pedra de apelido

De nascimento, o pedra, o Kephas, o remido

 

Shimon bar Ionah, negador profissional, três vezes

(apenas aos melhores convocava o nazareno)

e cada pedra da cidade segredava o ai supremo,

morrerás, Jesus, mas olha, os teus revezes

 

servirão para consolidar, serão fecundos

será de glória vossa morte, em prol do mundo

terás a via dolorosa e turistas em disputas

uns por adorarem o deus uno iracundo

outros por irem mais além, e resolutas

outros por teu gesto de amigo às putas

 

as massas ocuparão o paredão do templo

e colocarão mil orações em suas fendas

e quando não restar alento ou mesmo tempo

 

de modo calmo, firme e lento,  em meiga dança

como convém a tão gentil messias, ei-lo

repartirão as rendas vossas, teu dinheiro

e irão mercadejar teus gestos e teus dias

 

e Jesus não será mais Jesus, o desenredo

não mais que uma pintura em uma folhinha

um inventado homem em uma folhinha

e, claro, uma cadeira doirada para Pedro

Receita para um golpe de estado

Já que estamos na fase de publicar “receitas” aqui no Blogue Voador, segue outra, que encontrei pelaí…na rede.

Conatus

cartaz

1. Escolha um evento esportivo que terá repercussão na mídia internacional.

2. Selecione uma pauta para reivindicar por meio de passeatas e manifestações.

3. Divulgue o movimento “apartidário” e “apolítico”  nas redes sociais.

4. Mobilize simultaneamente uma juventude classista e elitista (extrema direita) e uma juventude radicalista e ideologizada (extrema esquerda).

5. Conquiste o patrocínio da imprensa cartelizada e oligopolizada externado nas opiniões de jornalistas conservadores e reacionários.

6. Proteste veementemente contra o governo federal através de faixas, cartazes e palavras de ordem.

7. Vandalize o espaço público com o consentimento da policia militar.

8. Construa um clima insustentável de instabilidade política e desordem social.

9. Demonstre orgulho patriótico cantando o hino nacional em frente ao prédio capitalista da Fiesp.

10. Encampe a derrubada arbitrária de um governo democraticamente eleito através de posts no Facebook.

Quem não tem cão caça com gato.

Quem não tem força política para vencer nas…

Ver o post original 8 mais palavras

RECEITA PARA DOMINAR O MUNDO

TIRANO

Não é fácil, esclareço de pronto. Existem concorrentes de peso conhecidos e, pior, os desconhecidos (sempre tem um maluco para competir com você). Mas, é possível. Para ser um bom dominador do mundo é preciso primeiramente atender a certos requisitos, não necessariamente todos e não necessariamente excludentes:

1- Você pode ser um cientista maluco, por exemplo. Um cientista genial a frente de seu tempo, com tendências paranoides acentuadas. E se você for obsessivo ao extremo,  sempre ajuda, mas convém tomar cuidado com os ajudantes. Principalmente se atenderem por Ígor;

2 – Ou, quem sabe, um mago dotado de poderes malignos que tenha algum objeto de poder mágico (uma joia mística que só funcione com o alinhamento dos planetas, um livro misterioso, essas coisas). Mais uma vez, também é preciso ter cuidados com os ajudantes;

3 – Existe uma variante do mago, que é a de pertencer a uma seita secreta com milhares de anos de existência cheia de segredos místicos e planos de dominação deste simplório plano físico. Também conhecida como variante Ctulhu (leia H. P. Lovecraft).

No caso de uma seita, é importante a presença de um líder com acesso a objeto mágico de manipulação do meio físico em nível planetário. É ainda necessário que a seita em questão seja antiga, com mitologias particulares bem sedimentadas de domínio e a crença num destino manifesto maior, conjugada a crença na sua superior capacidade de ditar os destinos humanos;

4 – ou você pode optar pela promissora profissão de Tirano Extragalático Do Mal Com Vontade De Estuporar O Planeta. Darth Vader; Ming, o impiedoso, você sabe.

Ainda no que tange ao tirano em potencial, também é possível que seja ele uma entidade supranormal ou, mais idealmente, uma entidade com capacidades super-humanas (Ver PROLEGÔMENOS PARA DOMINAÇÃO PLANETÁRIA, Dr. Gori, 1987).

Neste espectro de possibilidades poder-se-ia especular a título de exemplo, a ocorrência de entidades parafísicas com capacidades de manipulação mágica, tais como: demônios associados a maldições cósmicas, obscuros deuses(as) de culturas antigas e seus sacerdotes com expertise em magia negra, necromancia, teurgia, goecia, pactuação demoníaca de nível I, manipulação de planos extrafísicos, etc, etc.

Já foi inclusive provado que através do uso intensivo de hipnose telepática e preces fervorosas, torna-se factível, possível, influenciar às correntes históricas-padrão (Ver PSICO-HISTÓRIA COMO APLICAÇÃO, Jurgens, 2000), se consideradas como vetores Riemannianos em um sistema em retroalimentação.

Tal domínio, evidentemente, pressupõe uma vontade focal, vastos conhecimentos de Teurgia Pura, não se desconsiderando mesmo o uso da Goecia Quimbândica. Todo processo deve ser cuidadosamente velado, de tal forma que os agentes sociais e, principalmente, Deus, não encetem tentativas de frustrar as ações do dominador em potencial.

Entretanto, convém ao dominador do mundo novel ter sempre em mente que os dominadores de mundos geralmente se dão mal no final. Fu Manchu especula que tal tendência de queda abrupta na curva de domínio deva-se a uma lei ainda não adequadamente formulada que preveja o equilíbrio cósmico (Ver “O MAL COMO ECONOMIA: Um estudo de Atuações Maléficas como Vetores de Realidade – Fu Manchu, 1976).

Não, esse negócio de dominar o mundo não é uma boa ideia. Trabalhoso é pouco.

Certo, esqueça, torne-se um consultor ou uma consultora Jequiti e seja feliz de outro jeito.

MANUELZÃO E MIGUILIM: resenha suspeitosa

monge

 

Primeiramente, nos comecins, gostaria, não de acautelar aos incautos, mas de os tranquilizar. Não pretendo posar de erudito e as referências cheias de frescuras só tomam dois ou três parágrafos e se houver alguma coisa em inglês não se impressionem, que o inglês é língua de índio de filmes como bem sarrava Tom Jobim, que privava com os nativos, os anglófonos.

Então, vou no levinho, na maciota, no sapatinho. Prometo.

Bem, começo.

De Guimarães Rosa queria falar, ao sabor da cachaça, a propósito de um deslumbramento meu por conta de uma obra sua.

Manuelzão e Miguilin começa com citação de Plotino, filósofo neoplatônico do século II: “Num círculo, o centro é naturalmente imóvel; mas, se a circunferência também o fosse, não seria ela senão um centro imenso”.

Não há indicação ou referência da citação a Plotino, mas acredito que possa ser localizada no Segundo Tratado, Enéadas, no item primeiro do Circuito dos Céus. Minha referência vem de Great Books of The Western World, Plotinus, em uma edição sebenta, de capa dura, que tento manter longe das traças.

Há também uma citação de Jan van Ruysbroeck, chamado “o Admirável”, um místico belga do século XIII: “Vede, eis a pedra brilhante dada ao contemplativo; ela traz um nome novo, que ninguém conhece, a não ser aquele que a recebe”.

Não localizei a referência.

Todo esse introito aí é só para lembrar que João Guimarães Rosa era um monstro, “caba virado no capeta, transfigurado no setenta e metamorfoseado no Jiraya”. Sabia brincar não, o mineiro. Poliglota às próprias custas, aprendeu suas doze línguas de seu próprio labor, sem nenhum “Yázigi”, “Cambridge”, qualquer escola ou o escambau.

(Obrigado, Plínio Marcos, pelo “escambau”).

Pois bem, esse João Rosa aí era leitor das antiguidades, das gnoses, das filosofias, das místicas e tudo o mais. E como não sabia brincar, deu à luz, pariu a maravilha que é Manuelzão e Miguilim, que sempre releio ante um oratório, vestido de sacos, com cinto de pregos, em piedosa penitência.

São duas novelas, Miguilim primeiro e Manuelzão depois.

Pois, ora, vejam bem. Miguilim é um texto que consuma a ambição maior de todo escritor, que é conseguir dar voz a um outro. Um outro totalmente diferente dele, o que escreve, um outro vivendo em outro universo. No caso, uma criança, o Miguilim.

No texto, o mundo só é mundo através de Miguilim. Miguilim é narrado e narra. Narra aquelas coisas que nós, que já fomos crianças, sabíamos e depois esquecemos. As pequenas coisas, os detalhes, o miudim que falam do cosmos e Deus e da vida e da morte e do mistério.

O conto começa com Miguilim em viagem, com seu tio Terêz, voltando para casa, no Mutum. E no Mutum chovia sobremaneira e a mãe de Miguilim se condoía, sofria com a chuva onipresente.

O texto descrevendo a dor da mãe de Miguilim se torna úmido, escuro e nós conseguimos o milagre de partilhar a dor da existência da mãe de Miguilim.

Mas então Miguilim vem de viagem e traz um presente para a mãe. Um presente que lhe adoça a boca e o faz feliz por antecipação. Ora, e não é que um estranho tinha a dito a Miguilim que o mutum era um lugar bonito?

Então é que Miguilim traz o dito e pretende fazê-lo de presente à mãe. A mãe, quando ouvisse essa certeza, havia de se alegrar, ficava consolada.

Não riam, vocês já trataram com o invisível, com os átomos das coisas quando eram crianças e sabiam de seus altos valores.

As pequenezas, os quase não vistos, são esses os materiais que tecem a trama que cria e sustenta a eternidade e Miguilim é deusinho particular que os reúne.

Já Manuelzão é de outro naipe, o oposto.

Ali é a vida, os acontecimentos são apresentados virados em longas e intermináveis sequências, como uma boiada passando e passando e passando.

Manuelzão é vaqueiro, já idoso, com a vida repleta de lembranças, sejam mágoas, sejam alegrias.

E no inverno de seus dias se estabeleceu, montou o seu sítio em área inculta, trouxe a mãe, velhinha, e o filho que o odeia (e Manuelzão sabe).

E ali Manuelzão erigiu uma capela, a fez consagrar.

O conto é sobre a festa promovida por Manuelzão para a primeira missa na capela, dedicada à Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.

Acorrem todos, moradores da região, os poderosos e os loucos.

O conto, circular, talvez mais pra helicoidal, foca em Manuelzão e daí discorre, se espalha, colhe sensações, desce ao íntimo das pessoas e volta para o exterior e sobrevoa a procissão da santa em andamento.

Trata da intimidade dos bois com o mesmo respeito que a dos loucos ali presentes, dos pobres sem qualquer arrimo, das coisas, volta, rodeia e torna a Manuelzão e assim, em circuitos que se repetem.

A imagem no altar sorria sem tamanho e desajeitada, uma Nossa Senhora feia…Manuelzão, ali perante, vigiava…blocos de cristais de quartzo róseo ou aqualvo…mesmo tinha viajado de vir ali, estúrdio, um homem-bicho, para vislumbrar a festa! O João Urúgem, que nunca ninguém enxergava no normal…passou-se resvés de um curral, donde se escutava o sopro surdo dos zebus, o bater de suas imensas cartilagens.

E a procissão caminhando, ladeira acima, no corpo da noite, a dupla fila de gente, a voz deles, todos adorando o que não viam.

Não atoamente o nosso João Guimarães Rosa nos dá o mote, a pista, ao citar o filósofo e o místico na epígrafe em seu opus, em seu par de romances alquímicos. Rosa nos adejou a mão, moveu o lenço em saudação (e creio que sorriu).

Manuelzão e Miguilim: um dos poucos e vicinais textos metafísicos de nossa novel literatura. A vida, o Ser, o mistério, está tudo lá.

Tremo em deferência, com matizes de biliosa inveja.

 

P.S.: Manuelzão existiu de fato, talvez não tão completo e no exato.

 

 

MUNDO, MUNDANO MUNDO.

ELEPHAS PRIMUS

 

Tudo é uma questão de escrever sem ter nada para dizer. Agora, arte mesmo é não dizer nada e escrever muito. Tipo eu, sujeito comum, péssimo bebedor de cerveja, opiniático e asqueroso. Tipo eu, aqui, bestando. Usando uma régua de cinquenta centímetros para coçar a frieira e pensando. Bestando. E pensando que tudo é uma questão de escrever sem ter nada pra dizer. De um tudo.

EU ME LEMBRO III

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Lullaby for Butterfly King II – Michel Cheval

 

NINGUÉM TE SALVARÁ,

BÉTULA SEM CAULE,

NADA DE VENDAS HOJE

ZERO, PÁTINA EM MINHA BÍBLIA

 

(FOI EM ABU SIMBEL)

 

 

NINGUÉM TE RECITARÁ O CADISH

CAMPÂNULA CARENTE DE CARNE, SEDA PLANTADA EM CINZENTO, NAUFRÁGIO

TRAMASTE O FIM, SÓ ME  RESTOU A MEDUSA DO TEU CABELO

 

LEMBRAS?

EU VINHA COM AQUELE AMIGO EM UM DIA DE PEDRA

DRÁCULA NOS ESPERAVA NA BANCA DE JORNAL MAIS PRÓXIMA

NAVIOS ESPANHÓIS

BUCANEIROS À MESA RASGANDO MEU CORAÇÃO INGLÊS

E O NATAL ADIVINHADO NO BARCO ANCORADO NO CORREDOR DE PEDRA

SALVIA

DRAM-ISTABRACADIM

KHIAMAMADRA

FLASH GORDON

 

NO RELÓGIO DA TUA CABEÇA

TECEMOS O TEMPO EM TORNO DE MARGARIDAS

 

AH, EU AMAVA O COBRE VENTUROSO DO CAMINHO

O TELEVISOR SAGRADO, A COPA DO MUNDO

AS MANHÃS JAPONESAS

E O RISO DE MEU PAI VINDO PARA ME DIZER DO DIA

 

FRAGÂNCIA PRESA AO MEU NARIZ DE PEDRA

EU COLOCAVA UM AMIGO DEPOIS DO OUTRO EM CIMA DA MESA

E OS RECONTAVA

E OS AMOLGAVA NA MOENDA DE MINHA TREVA

CHICO EM MINHA CASA

EXPEDITO EM MINHA CASA

ALVIM AO MEIO-DIA

AS ESTRELAS NO FRIO DA MANHÃ

 

ERA DE NOVO O QUE ERA

KOMUSO COM A TIGELA

O GATO EM TRANSE

 

A TARDE E A NOITE

DOS VERÕES DE DEZEMBRO ME COLOCAVAM

ME SUSTINHAM

PENDENTE

 

AS MANHÃS FRAGANTES

UMA GESTA, UMA AVENTURA

 

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Owl and the Pussycat – by Debbie Bell

 

Já faz algum tempo, meu Gabriel

Meu Gabrielzinho feito de bochechas e sorrisos

 

Já lá vai algum, olha como foge! Tempo

 

Minha última palavra ainda está lá, descansando

Para ser perturbada por trivialidades que teceremos

Como o gavião tece seu vôo na economia das termais

Como Deus à mesa, vinho no copo,

Como tua mãe no jardim (a tarde fria)

 

 

A MANSÃO SECRETA

 

Como tua mãe no jardim (a tarde fria)

 

 

( Neste momento existe o verde)

chegamos ao labirinto, Gabriel

 

Cai garoa, pára tempo,

Meu olho finalmente está só!, aproveitem!

 

Aproveita Gabriel,

põe tua mão em  minha mão

Mais um riso, por favor, olha a tarde peregrina

(como eu te falei, lembra? O momento ambarino aprisionado no gelo)

o tempo cai por uma fenda

e aí à nossa frente aquela poça se transmuta, água de prata domada pelo silêncio

e aí, neste lago no ventre da poça, vem a trirreme,

olha a marinhagem que nos saúda!

 

às margens (Um pé ficaria preso em seu tamanho diminuto, mas um navio não),

 

movimentos inesperados, suspiros de seda,

(é o dia que passa em sussurros)

desembarcam mercancias em nossa casa no verde da margem, feita de pedra e segredo, à espera

 

um Gabriel a verá

e verá também a este poema e o achará tolo, como deve ser

e não saberá então que fiz doação às fadas de um segundo de seu riso

e este sorriso estará esperando por Gabriel que crescerá e será sábio ou não

montará ou não em camelos azuis, verá ou não verá o Kilimanjaro

será herói ou não de um mundo essencial que carregar em seu coração

 

comporá ou não música em noites de júbilo

(verá ou não verá)

 

não é importante

para além dos símbolos, Gabriel é azul

e é infinito o jardim

 

eu até mesmo já encomendei de todas as regiões da terra

o tom de verde e segredo que o jardim esconderá

para o deleite de meu filho

para o deleite de meu Gabriel

que na Lua é principezinho

 

Não é natural então que eu ria?

 

 

 

TEÓPOLIS

artificial_sun_by_ahermin

Artificial Sun – by Ahermin / DeviantArt

 

E NA ALA VIP DO CÉU

OS TURISTAS CORREM COM OS DENTES

EM SANGUE

POIS É

EU ESTOU LÁ, SORRINDO!

 

FOTOGRAFO DEUS

PROTEGIDO POR QUERUBINS

E ESPERO O ARMAGEDON

ATRASANDO O EMBARQUE

 

É. DEUS DE MANHÃ

QUASE NÃO RECONHECI

SEM O RAY-BAN