Crítica literária: A Bíblia

O primeiro e o maior dos

O primeiro e o maior dos “ghost-writers”?

Atenção: SPOILERS!!!

Este crítico que vos fala leu o livro, a maior sensação literária da temporada e que certamente brilhará na feira de livros de Paraty. O autor, um excêntrico que gosta de ser chamado de Deus, sem sobrenome, se esmerou em criar um calhamaço de mais de mil páginas onde aparentemente se divertiu em passar por quantos gêneros pudesse: do sermão à farsa, do épico à crônica, da poesia à disgressão moral.

Toda obra é dividida em capítulos e já desde o primeiro, chamado de Gênesis, somos surpreendidos no início pela completa ausência de personagens, exceto por uma: Deus. É, Deus. O autor se diverte colocando a si mesmo como o primeiro e único personagem inicial de quem, em fina ironia, fala na terceira pessoa. A partir de agora, quando nos referirmos à personagem, utilizaremos de tipo itálico.

Neste primeiro capítulo optou Deus por nos trazer sua cosmogonia particular, pois sim, a personagem Deus cria, a partir do nada, o mundo. Há fases que se seguem onde aparecem os astros, os rios e oceanos, as plantas e finalmente os animais. Há todo um projeto de construir e deixar pronto um espaço delimitado a que chama o autor de Paraíso. Espaço preparado para a inevitável aparição de Adão, a segunda personagem e, a partir de uma sua costela (é, a costela, não estou brincando…), a terceira, Eva.

Onde Adão é personagem plana, Eva é mais incisiva, curiosa e perguntadora. E é bom que seja assim pois que é a partir de sua desobediência a Deus, que se estende a Adão, que o capítulo ganha em ação e movimento. Ora, Adão é um tolo cheio de boas intenções, mas limitado. Então é com Eva que trata a quarta personagem, chamada simplesmente de A Serpente.

Ponto fulcral do capítulo no qual não nos estenderemos muito para não prejudicar o sabor de uma primeira leitura, mas basta saber que A Serpente convence Eva a provar do fruto de uma árvore mágica, cujo consumo fora interdito por Deus e que supostamente traria a sabedoria ou, mui conpiscuamente (não zombem, por favor), o conhecimento do Ser, da vida, de suas determinações e, portanto, da imortalidade ou, se assim se preferir, do compartilhamento da condição do divino.

Bem, Deus descobre a insubordinação, ralha com os culpados e por fim os expulsa do Paraíso. A história já pode começar. Pois é somente aí que percebemos que todo o livro é nada mais que a narração das peripécias dos descendentes de Adão e Eva.
E então…bem há de tudo um pouco: assassinatos, obsessão, um dilúvio (uma interessante paródia da personagem Utnaphistim, de Gilgamesh, autor que já resenhamos).

Enfim, todos os recursos são utilizados pelo autor nessa fase, o discurso repetitivo típico das narrativas de cosmogonias, a interseção direta de uma divindade no plano material, a abundância de simbolismo e paracitações (A Serpente é claramente decalcada da deusa suméria Tiamat), servirão apenas de movimento introdutório a este que pode ser considerado muito mais que um simples Roman-fleuve.

Aliás, o autor brinca mesmo com a proposição de tratar sua obra em termos de romance-rio. Mas um romance-rio no qual o narrador onisciente também é personagem atuante: eu sou o alfa e o ômega, diz numa encarnação sua num dos capítulos finais do livro.

Interessantíssima, a propósito, é esta aparição da personagem Deus, encarnada no filho de um carpinteiro chamado de Jesus e que é ao mesmo tempo filho do próprio Deus. Há rumores de uma continuação da Bíblia focada em Jesus e que teria o título provisório de Bíblia: o novo testamento.

Em todo caso, uma obra densa, que já atrai legiões de cultores e (prevemos), provavelmente será motivo de disputas e celeumas. De resto, se não temos muitas certezas sobre a obra, temos sobre o autor: é prolífico. É polêmico. Vejamos o que mais sairá de sua pena. Aguardemos.

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Breves considerações sobre a jucunda arte de poetar, assim, a modo internético e fugaz

Iridescências

Iridescências – by Voador

 

 

Rapáizi!

(assim é que os nordestinos se referem a alguém, quando admirados e eu sempre gostei deste “rapáizi!” lá deles. Muito melhor que um “rapaz”.)

Mas, rapáizi!

A coisa é que eu vejo muito dos poetamentos do povo aí na rede. Uns poetam pra dentro, outros poetam em torno do umbigo, o que acaba dificultando e tornando pesada a coisa. Às vezes.

Uns poetam pra cima e somem num zum e aí eu fico aqui embaixo tentando localizar o bólido.

E tem os que poetam pra baixo.

De qualquer maneira, pra dentro ou pra baixo. Prá riba ou pro umbigo, você percebe quando encontraram seu eixo de poetamento. Não tem muito a ver com o texto, nem com a honestidade (que muitos são honestos), tem a ver com o dom de poetar que é uma coisa que se sente.

Mas, rapáizi!

As vezes não consigo achar um rumo, mas sinto um ritmo. Leio e penso: é, a rede acontece e, interneticamente solenes, encontramos aos novos poetas.

Ah, faço questão de mostrar minha gema, meu capitão. E, desculpe, falei que é minha mas né minha não, garimpei:

A solidão acontece a céu aberto.

Claro está que a roubei (Você releve meus hábitos malsãos, Mariana, a Gouveia).

E eu acho que é tudo o que eu tinha a dizer sobre a nova poesia e a internet.

Abraço, povo meu.

POBRE PROTAGONISTA É O POBRE

Imagem 

Indiscutivelmente. Procure, puxe por sua memória e veja se encontra pobres como personagens principais na literatura, no cinema e na televisão. Nas histórias em quadrinhos.

Encontrou? Claro, mas como personagens principais? Eles estão lá, claro, mas sempre no núcleo pobre da novela ou como figurantes.

Há exceções, não nego. Temos a Macabéa de A Hora da Estrela, de Clarice Lispector. O camponês miserável de Levantados do Chão, de Saramago. Os sem-teto de As Vinhas da Ira, de John Steinbeck. No cinema, encontraremos uma ou outra garçonete, uma empregada doméstica, mas mesmo nesses casos há como que uma idealização. São mais tipos, que pessoas.

Mesmo o “cowboy”, um operário do pastoreio, foi provido de armas no coldre e um belo cavalo para assim melhor conquistar o Oeste. Ninguém menciona que os vaqueiros americanos originais eram em sua maioria negros, índios ou mexicanos e que seu meio de transporte estava muito mais para um jumento do que para um garboso cavalo.

As personagens dominantes são ricos ou oriundos de extratos médios da sociedade.

No passado, nem isso. A Ilíada, a Odisséia está cheia de “bravos aqueus de longas melenas”, porém todos vindos da aristocracia. Odisseu era rei em Ítaca. O único, por assim dizer, pobre, era o “néscio Tersites”. Além de néscio, era soldado raso. E feio, imensamente feio.

No cinema americano é nas classes média e alta que nascem e vivem os personagens principais, mas mesmo quando o foco é em profissões, digamos, menos nobres, são profissões idealizadas, que remetem à aventura e ao individualismo: o policial, o já citado cowboy, o detetive, o músico, mas quase nunca o operário.

No Brasil, nossos cinema e teatro não são muito diferentes. Certo, existem as obras que procuram mostrar extratos mais baixos da sociedade. Mas ou recorrem ao filtro de uma obra clássica, caso de Orfeu da Conceição de Vinicius de Moraes ou a uma visão sociologizante, como em Cinco Vezes Favela. Ou, descem à marginália e aparece o traficante, o ladrão, a prostituta.

Não, você ainda não viu muitos operadores de máquinas, ajudantes gerais, faxineiros. Não encontramos muitos Jáquersons da Silva ou Keisyannes de Cássia. O pobre incomoda. A primeira providência a ser tomada com o núcleo pobre da novela é fazer as personagens ascenderam socialmente: pelo casamento ou pela sorte ou pela herança que os redime, os torna mais belos e confiantes. Mais palatáveis.

Também sempre é bom ter em mente que mesmo a burguesia média é recente, uns duzentos anos, se tanto (não confundam com a burguesia podre de rica que ascendeu com o mercantilismo. Estamos falando de Policarpos Quaresmas e não de Cosimo de Medici).

E mesmo esta burguesia média, do pequeno funcionário público, do comerciante menor, a avó da classe média, só passou a ser retratada na literatura e no teatro após sua ascensão com a era industrial. Antes, o burguês era sempre o tolo, o fanfarrão, o de falas e atos ridículos e empolados e fizeram a fortuna de dramaturgo de Moliére.

Talvez a questão se prenda às profissões, aos ofícios típicos do pobre: o operário sem qualificação, o camponês sem terras ou com pouca, a prostituta, o marginal. Ao pobre desgostaria uma personagem que retratasse um meio de onde gostaria de emancipar-se? E o burguês?

Sinopse: diariamente Johnny José da Silva toma o seu trem super-lotado para trabalhar na metalúrgica na gratificante posição de ajudante geral. Namora Perolaine Jennyfer dos Santos, mas somente nos fins de semana. Depois, o baile funk? O boteco e o futebol? Quais as profundezas psicológicas, dramáticas, a que o bom Johnny poderia nos levar? Não, muito poucos se interessarão pelo universo de Johnny e Perolaine.

Ou, sinopse: Micaela Semprum Scuteri, loira e leve, é publicitária. Independente, mora sozinha em seu apartamento decorado com muito bom gosto. Um pouco louquinha, tem um relacionamento com Caio, administrador de empresa e músico bissexto, inteligente, “cool”, engraçado e autossuficiente. No mais, bares da moda, jazz, livrarias, rock and roll. Aí sim, diria o futebolista. E com roteiro da Bruna e direção do Ricelli? Massa!

O pobre ainda é o figurante. Décima-terceira cabeça a esquerda, na cena com a multidão, naquele filme que veremos brevemente.

O trabalho dignifica, os humildes herdarão a terra, bem-aventurados os pobres de espírito, etc., etc. Esqueci alguma coisa?

     

 

SENHOR, BASTA DE PRÓLOGOS NOS BASTIDORES DO CÉU!

a-forma-secreta

“Senhor, basta de prólogos nos bastidores do Céu”. A frase faz parte de um diálogo entre Lúcifer e Deus-Todo-Poderoso no conto (conto? Ensaio?), bem, no conto Lúcifer, um dos muitos, contos ou ensaios ou sermões contidos no livro A Forma Secreta, de Augusto Meyer.

A livro que tenho em mãos é da quarta edição (a primeira foi de 1965), mas não consta o ano e pertence à Francisco Alves.

Bem, Augusto Meyer? Sei lá. Melhor que os interessados procurem aí nos oráculos diversos, do Google ou do Bing, se paciência tiverem.

Mas, Lúcifer. O conto vem logo depois de Doutor Magnífico, sobre Santo Anselmo, o mentor de Santo Agostinho.

Basicamente, Lúcifer é a história da criação primeira, a dos anjos, de como o Senhor os plasmou do nada, ainda antes de Adão. Um proto-Gênesis. O primeiro Bereshit, se me permitem a citação torta do Tanach, a bíblia hebraica.

Deus está só, na sua glória. Mas que glória há se não houver um outro para repercurtir a glória? (Meyer é cruel). O Senhor, só, na Fábrica dos Anjos cria os anjos, dá-lhes um pouco de seu esplendor e de repente temos o coro celestial inteiro, louvando ao Senhor.

E criou o Senhor aos anjos, dividindo-os em castas definidas: Anjos, Arcanjos, Postestades, Virtudes, Dominações, Querubins e Serafins. Bem antes de John Ford já havia o Senhor subdividido o trabalho, já havia o Senhor organizado ao chão-de-fábrica.

Mas, e sempre existiu e existirá o “mas”. Mesmo o Senhor parece ter ficado de saco cheio daquela perfeição louvaminheira. Tá, criara um porrilhão de anjos, mas se sentia só ainda, que lambeção geral de saco é só lambeção geral de saco, não companheirismo e muito menos originalidade. O Senhor sofria.

Foi aí que criou Lúcifer, o mais belo. Samael, a Estrela da Manhã, o Pastor de Sóis.

No momento em que nasce, belo e sereno, mais poderoso e mais sábio que seus colegas, percebe Lúcifer que foi criado para ser o divisor, o rebelde. O pai da sedição.

E sendo Lúcifer, Lúcifer, não era de seu feitio o esperar, o seguir o roteiro até à última letra. Não, Samael-Lúcifer era impaciente e, por assim dizer, resolveu chutar o pau da barraca divina.

Foi direto ao assunto.

Em síntese, disse ao que veio, disse “Senhor, sei que estás até a tampa com a bajulação angélica. Então, vamos adiantar o expediente: ponde no meu rabo de uma vez! Vamos variar as coisas por aqui”.

Não, Augusto Meyer não escreveu estas palavras. É mais uma tradução livre, do seu espírito. Relevem.

Mas eu dizia? Sim, após o delicado esporro luciferino, viu o Senhor que aquilo era bom, isto é, ao mesmo tempo mau e bom.

E maravilhou-se o Senhor da arte com que sabia escrever direito por linhas tortas. O que Lúcifer propiciara ao Senhor era a possibilidade do diálogo, coisa antes impossível.

E não perdeu tempo o Senhor. Após o protocolar chute no rabo de Lúcifer, deu início imediato à conversação:

— Adão, onde estás?

Recomendo o livro. Procurem-no. Vão lá no sebo onde está recolhido, esperando, na segunda fileira de estantes, no quarto nível de prateleiras, contado de baixo para cima.

E é isso.

O filho de uma égua: a história de um tipo ideal

satiricon

Cartaz japonês do filme Satyricon, de Federico Fellini

 

 

E então eu tinha aí uns dezessete, dezoito, dezenove anos. Talvez uns trinta. De qualquer modo faz tempo. Mas eu falava?

Foi aí nos noventa (modos que esqueçam os dezoito e os dezenove) que passei a frequentar o sebo de Maurinho, que era um místico, um sábio, um anacoreta e um agitador cultural. E pernambucano, também.

Pois bem, Maurinho tinha lá o seu sebo e oferecia de brinde uma beberagem mefítica: o conhaque Padre Cícero (a perdição, aliás, de Kamikaze Joe).

Mas não falarei de Maurinho, inda que Maurinho mereça, mas não merecerá hoje. Falarei de Petrônio. Mais exatamente Caius Petronius Arbiter, romano filho-de-uma égua criador de outro filho de uma égua, a primeira personificação do fela-da-puta cósmico, o primeiro cabra da peste: Trimálquio. Ou Trimalcion ou trimalcião, dependendo da tradução. Bem, Trimálquio. Prefiro.

Ora notem que eu percorria as estantes imundas do sebo de Maurinho, escolhendo e zoiando, quando me deparei com Petrônio, ali, solitário e sebento. O livro, o Satiricon (alguém se lembrará aí de Fellini? Não? Deveria), em tradução de Marcos Santarrita, edição de 1981 da editora Abril.

Apiedei-me. Li a orelha e acolhi o abandonado e conheci a Trimálquio.

Era um liberto, um escravo libertado por seu senhor e que depois ascendeu socialmente, mas continuou, como direi?, bem, um Trimálquio. Seria hoje o que chamaríamos de classe média, se não nas posses, no modus.

E notem que Trimálquio foi gestado no primeiro século da assim chamada era cristã. Petrônio, alcunhado de Arbiter Elegantiae, árbitro da elegância, foi contemporâneo e cortesão no reinado de Nero, o imperador, que podia ser um porralouca mas tinha estilo.

O Satiricon será talvez a única obra pela qual será lembrado.

Bem, Trimálquio é só um episódio do Satiricon de Petrônio. Uma festa dada por um liberto milionário para uma plêiade de ex-escravos, compartilhadores de seu antigo status e de certa forma seus involuntários cúmplices.

Trimálquio ostenta sua riqueza, desavergonhadamente, deliciosamente em um jantar que é cena central e fundamental da obra. Ele ri e chora, deblatera e a sua ordem seus escravos tomam parte em pequenos atos teatrais pensados para surpreender e maravilhar seus convidados. E todo festim é tratado como uma peça teatral, inclusive com maquinismos que fazem jorrar do teto que se abre vasos de alabastro contendo perfumes ou fazendo servir falsos ovos de pavão contendo papa-figos imersos em gema de ovo apimentada, entre outras iguarias fantásticas e em grandes quantidades.

Participam da festa, além de Trimálquio e amigos, sua esposa Fortunata e os vagabundos Ascilto, Gitão ou Gíton e Encólpio, o narrador.

Trimálquio é inculto, embora goste de posar de sábio; um glorioso e obeso grosseirão que ostenta a cada instante sua fortuna e sua sorte.

Seriam necessários quinze séculos para que Shakespeare criasse o seu Falstaff, um digno herdeiro da tradição, se desconsideramos o Miles Gloriosus de Plauto (que na modesta opinião deste escriba não faz jus de perfilar-se a seu lado. Falta-lhe o talhe de burguês).

Trimálquio mesmo impõe a seus convivas que compartilhem consigo seus projetos para sua pós-morte, narrando-lhes como será construída sua tumba e obrigando-os a ouvir seu epitáfio:

Aqui repousa Gaio Pompeu Trimálquio, digno êmulo de mecenas; em sua ausência foi nomeado um dos seis; poderia ter pertencido a todas as decúrias de Roma, mas recusou esta honra; piedoso, valente, fiel, nasceu pobre e conseguiu depois uma grande fortuna; deixou trinta milhões de sestércios e jamais assistiu às lições dos filósofos. Passante, desejo-te a mesma sorte.

Não, não consigo pensar em outra criação que personifique tão maravilhosamente a pequenez e a grandeza, o pequeno milagre e o grande paradoxo da criatura humana.

E é isso.

A OBRA-PRIMA NA GAVETA

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Um fenômeno é uma descrição de uma intervenção na realidade, entre outras definições possíveis.

O fato é que estou agora, nos atualmentes, lendo e relendo a obra de um de meus escritores prediletos, Philip K. Dick. E tem tudo a ver (acho, não ponho a mão no fogo) com esta postagem, digamos, fenomênica.

Não sou muito de resenhas, tanto que cometi poucas aqui no espaço. Não tenho a verve e a generosidade do blogueiro Valnikson Viana, por exemplo, que mantém lá o seu 1001 LIVROS BRASILEIROS PARA LER ANTES DE MORRER, que recomendo vivamente (aqui: http://tinyurl.com/zymo2tj).

Mudo de hábitos por entender que Philip K. Dick o merece. Você talvez não o conheça mas certamente conhece subprodutos de seus trabalhos. Blade Runner, o filme, lembra?, veio de de seu livro Do androids dream of electric sheep?. Alguma coisa como Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? E Minority Report? Lembra? Tom Cruise, etc, etc. Pois bem, Philip K. Dick. PKD.

Só a titulo de informação, segue abaixo uma relação de filmes e os livros de PKD nos quais foram baseados (extraído do saite Cooltural. Vão lá):

  1. Os Agentes do Destino / The Adjustment Bureau (George Nolfi, EUA, 2011) – Conto: Equipe de Ajuste | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)
  2. Assassinos Cibernéticos / Screamers (Christian Duguay, EUA, 1995) – Conto: Segunda Variedade | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)
  3. Blade Runner: O Caçador de Andróides / Blade Runner (Ridley Scott, EUA, 1982) – Romance: Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (Ed. Aleph, em 2014)
  4. O Homem Duplo / A Scanner Darkly (Richard Linklater, EUA, 2006) – Romance: O Homem Duplo (Ed. Rocco)
  5. Impostor / Idem (Gary Fleder, EUA, 2001) – Conto: Impostor | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)
  6. Minority Report: A Nova Lei / Minority Report (Steven Spielberg, EUA, 2002) – Conto: O Relatório Minoritário | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)
  7. O Pagamento / Paycheck (John Woo, EUA, 2003) – Conto: O Pagamento | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)
  8. O Vidente / Next (Lee Tamahori, EUA, 2007) – Conto: O Homem Dourado | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)
  9. O Vingador do Futuro / Total Recall (Paul Verhoeven, EUA, 1990) – Conto: Lembramos para Você a Preço de Atacado | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)
  10. O Vingador do Futuro / Total Recall (Len Wiseman, EUA, 2012) – Conto: Lembramos para Você a Preço de Atacado | Antologia: Realidades Adaptadas (Ed. Aleph)

Aviso aos incautos que PKD é escritor considerado menor pelos menos informados, pois que se lhe atribuem escrever obras no gênero da ficção científica, o que gera um handicap negativo, dizem. Alguma coisa parecida com ser corintiano.

No entanto, ninguém mais alheio à discussão de gêneros literários, PKD construiu, solipsisticamente, uma obra incrivelmente coerente e fiel a si mesmo e suas muitas dúvidas e angústias.

Três Estigmas de Palmer Eldritch, uma expedição retorna da jornada a outra estrela e traz de contrabando a uma entidade metafísica e a uma nova droga que permite aos usuários criarem sua própria realidade.  Do androids dream of electric sheep?, um novo culto religioso, o Mercerismo, permite aos fiéis não só comungar com Deus mas também sentir as agonias de seu profeta através de uma espécie de internet sensorial.

Budismo, gnose, teologia. Todos estes temas estão presentes em sua obra.

Bráulio Tavares escreveu que Philip K. Dick injetou angústia kafkiana na ficção científica (Artigo de 27/04/2013 na Folha de São Paulo).

E então PKD teve sua própria epifania.

Foi em 1974 quando encomendou medicamentos a uma farmácia. A jovem entregadora que os trouxe galvanizou a atenção de PKD por conta de um pingente em forma de peixe que levava ao pescoço. Perguntou à jovem sobre o berloque e ouviu dela que se tratava de um dos mais antigos símbolos do cristianismo; neste instante (conforme relatou depois) um raio de luz rosa o atingiu e ele soube de tudo o que já havia esquecido, incluindo o fato de que ele e a garota eram membros de uma cristandade secreta.

E que ambos sabiam que o que chamamos de realidade era falso. Inclusive toda a história transcorrida desde o ano setenta da era cristã, nada mais era que uma alucinação em massa.

Eu sei, muito ácido na cabeça. PKD era notório usuário de anfetaminas. Não discuto. Mas não posso me furtar a admirar a coerência do sujeito, sua fidelidade a si mesmo (e vá lá, a sua loucura).

PKD passou escrever um diário a que chamou de Exegese, que por ocasião de sua morte em 1982 já continha mais de dois milhões de palavras e enchia dois arquivos de gaveta.

Na ocasião PKD acreditava que havia entrado em contato com uma entidade a que batizou de VALIS, um acrônimo para Vast Active Living Intelligence System. O mesmo título de um dos três livros que escreveria sobre o assunto ao lado de The Divine Invasion e The Transmigration of Timothy Archer.

No momento leio VALIS, um livro que basicamente replica na personagem Horselover Fat, as vezes também chamado de Phil, a experiência de PKD. Aliás, Horselover nada mais é que a tradução literal de Philip, Filipe, Filo-Hipos, amigo dos cavalos.

Philip K. Dick, o primeiro dos tecnognósticos.

Enfim, é a sugestão do chef para hoje.

 

O LEGADO DE DEUS A SEU PASTOR: uma resenha

o legado II

O livro é quase desconhecido e seu autor, Antônio Frey Duques, talvez ainda mais. A edição que tenho em mãos é de 2007, comemorativa, por conta dos oitenta da primeira, a original de 1927. Me chegou ainda um informe de tradução de Kenneth Maxwell em 1984, que não consegui ainda encontrar.

Bem, e só pode começar a escrever sobre Frey Duques com esta ressalva, o livro foi e continua sendo visceral, no sentido de seu destemor e das fissuras que abriu e ainda abre na literatura brasileira. É…o que? Romance, poema em prosa, farsa?

Hebe Marins Duques Valverde, sobrinha-neta do autor com quem troquei correspondência, referiu um poema e me remeteu, de Tácito Rodrigues, em homenagem a seu tio-avô que veio a lume nas páginas hoje inencontradas de Truebas, uma efêmera revista argentina de 1927, em tradução canhestra do então cônsul no Rio de Janeiro Ignacio Marverde Castro:

Frey Duques, serás siempre donde lo pises!

El Virgilio imaginado en el hambre y el dolor

Y que nos importa, se hecho a  miedo

Con tu nombre reflexivo, el hablar tuyo

Con este polen, tu semen entrenador

Tengas descrito, en el infierno, el sucio amor

 

!Tú autor!, y tus grimorios locuaces

Que con tenebras compuseste, oh Duques, los plasmastes

Permanecen, están y cláman

Ah, Duques, te bendigo:

 

Aborto de Perséfone y su rebaño, Imago,

larva, feto expresionista, trazgo

La confianza de Dios a Dios, brujo  aziago

 

Mas e então, por que, se tão pouco conhecida, a obra nos obseda? Por que, se obscura, foi livro de cabeceira de toda uma geração?

Manuel Bandeira encontrou a Frey Duques uma única vez, em 1921, em tertúlia informal no salão carioca de Maria Teodora Werneck, mas foi o quanto bastou para se deixar de todo impressionar pelo “moço quieto, de semblante congelado por uma lua só sua, inventada e atenta”.

O certo, a única certeza que temos, é que a obra veio a lume em 1927, em edição do autor distribuída aos amigos. Entretanto, a fortuna da obra se revelaria tortuosa, cheia de caprichos. Se conta que alguém, “atiçado por seu daemon” (Alceu Amoroso Lima) a remeteu a um seu correspondente francês e acabou nas mãos de André Gide que, aparentemente, nunca se dignou a lhe virar uma página, mas a utilizava como peso de papel (há uma fotografia famosa com o livro exposto no cume de uma resma).

Mas, a obra.

“Aqui começa a gesta onde Deus comandou a seu arauto Boaventura, presidindo-lhe os destinos, dando-lhe compostura e forma e por fim fazendo-o ter morte morrida e honesta no leito de Aramanda, que para tanto se fez adúltera.”

Assim começa o livro, com o texto acima como subtítulo. Por essas e por outras estranhas linhas vai ainda navegar, caudaloso, como uma sopa fervente de estilos desencontrados. Átila Baldaquim nos é apresentado logo a seguir, um Demiurgo desempregado (?) que desce à terra para pregar aos homens e, para sobreviver, consegue modesto emprego de faxineiro na casa paroquial de uma igreja dedicada a São Domingos.

Cínico, amoral e louco, torna-se amante de Dona Drusila, também amante do pároco e, através dela, conhece e conquista a Artêmio Piedade, jovem escritor em crise por conta da perda de sua fé.

Desde o início deixa-se claro que Átila é um enviado de Deus da mais alta hierarquia, não apenas um anjo, mas o divino ditador do Sétimo Céu.  Um cargo que divide com mais seis Demiurgos, encarregados por Deus, verdadeiros empreiteiros celestes, pela criação deste universo. “Me chamaram já de Pastor de Sóis, mas não já alimenta mais este apodo a minha vaidade”, diz Átila durante cópula com Drusila.

Artêmio, por sua vez, teve infância problemática, toda ela povoada por visões de santos e por estigmas que lhe nasciam pelo corpo. Apaixonado por Maria de Lacerda, pura e virginal, apresenta-a ao Demiurgo, que “conquista e conspurca a virgem, ensinando-lhe modos devassos e com ela praticando toda sorte de vilanias na cama.”.

Foi em certa tarde de verão que Artêmio surpreendeu ao casal em uma de tais “vilanias”.

“E viu aos dois, em abandono no colchão de palha encimado pelo pequeno oratório de cedro, coleando suas nudezes, os dois. E atroz, a visão de Maria em êxtase, sodomizada com demoníaca precisão por Átila, seráfico e atento como se rezasse…”.

Mesmo ante aos gritos de Artêmio o casal não se desatrela. Artêmio grita mais e mais, até que se abre a porta e adentra o padre Boaventura. Artêmio foge e, mais tarde, considera a hipótese do suicídio, mas se contém, momentaneamente, ao considerar a deselegância do gesto.

Boaventura, tomado de fúria, tenta espancar ao casal mas é detido por Átila e depois levado ao estupor quando Maria lhe “toma a verga à boca e com ela comunga”. Drusila também acorre ao cômodo mas, estranhamente, ao ver a cena cai em êxtase e levita. Átila se retira, discreto.

Na mesma tarde Boaventura se dirige, em “branda loucura”, até os trilhos do trem para aguardar morte com hora marcada e encontra ali a Artêmio, sangrando por diversas feridas, estigmas em forma de cruz que lhe tomam todo o corpo.

Boaventura lhe toca o corpo e, miraculosamente, as feridas se curam. O padre foge e deixa Artêmio dormitando em paz no leito dos trilhos e não mais se ouve falar da personagem, exceto nos delírios que atacam ao padre toda a noite.

Boaventura perde a noção de si e acorda no hospital das freiras, sendo velado por Aramanda, a esposa do presidente perpétuo da irmandade sediada em sua paróquia.

Na igreja, Átila assume funções sacerdotais sem que com isso pareça incomodar aos fiéis ou mesmo às autoridades eclesiásticas.

Em certo sábado, após a missa, convoca Drusila e Maria de Lacerda a seu quarto e, desnudando-as, profere ao Sermão da Dúvida, ponto fulcral do livro. “As sete páginas mais intrigantes que já li”, escreveu Drummond a Mário de Andrade.

Findo o sermão, Átila Baldaquim, o Demiurgo, se alça aos céus. Drusila se veste, abandona suas funções na casa paroquial e abre um comércio de armarinho, enriquece, e constrói para si mansão opulenta. Por fim, adota uma menina e piamente a educa até a idade adulta, deixa-lhe todos os bens e muda-se para cidadezinha do interior onde abre um bordel.

Maria de Lacerda conclui seus estudos, casa-se com “rapaz ordeiro e bem posto na vida”, a quem ensina as “torpezas” de cama que aprendera com o Demiurgo. Torna-se cidadã benemérita, acudindo a todos os desvalidos e por fim morrendo em santidade, jamais traindo  a seu esposo e também jamais fazendo qualquer menção a Átila ou Artêmio.

Boaventura larga a batina e ganha a vida como jardineiro na mansão de Aramanda.

A seu pedido, Aramanda abre uma exceção e trai seu marido com o jovem tísico Onofre, copeiro da casa prestes a morrer, dando-lhe uma última noite de prazer.

Também a seu pedido, Aramanda, piedosamente, passa a frequentar sua cama.

Boaventura morre com a cabeça pousada no monte de vênus de Aramanda.

O autor e a obra do autor.

Antônio da Costa Cavendish Frey Duques nasceu em 19 de abril de 1896, em Santos, em abastada família de origem pernambucana. O pai, Aniceto Rodrigues Frey Duques, era corretor de café e mantinha em sua casa, sob o comando de sua esposa Maria Luísa da Costa Cavendish, um salão literário de certo renome.

Autor de uma única obra, escreveu-me Hebe, sobrinha-neta de Duques, que este foi profícuo autor de inúmeras outras obras nunca publicadas (Hebe me escreveu de um projeto no sentido de publicar estes inéditos, a maior parte em seu poder. Ignoro em que estágio se encontra).

A mesma Hebe refere correspondência de Duques a sua irmã Luísa, em 1921, dando conta de um seu projeto de escrever um romance “planificado”, obedecendo a um “esqueleto temático” dentro do qual se desenvolveria. E tal romance, ainda Duques, deveria ser o primeiro, senão único, romance “gnóstico-alquímico”.

Se antes eu já estranhava o feitio do “Legado”, mais ainda me preocupei ante a informação de Hebe sobre sua concepção. Ora, só depois desta revelação é que fui me dar conta de que já o havia intuído antes. Sim, trata-se de um romance construído segundo um plano “gnóstico”, ou alquímico.

Nada de novo nisso. James Joyce escreveu o Ulisses nos mesmos moldes, ambiciosamente colocando em sua estrutura, planeada de antemão, toda uma “agenda” do século Vinte. Ouso dizer que Duques foi além, pois ambicionou construir uma “gesta”, um conto de criação.

E que romance este, que o diferencia, logo à primeira vista, não só dos textos de sua época, mas dos autores de sua época!

Duques não tem parelha, seu interior não se abre, mas, transmite, decididamente, a embriaguez sangrenta de todo um tempo, não menos cruel que esperançoso.

Gnóstico o romance e tripartite, e alquímico. Fica claro desde o início que Átila, o Demiurgo, o “deusinho construtor de Deus” conhece de antemão toda a história e todo o destino humano. Não tem poder da previsão, nem sabe com antecipação, mas simplesmente sabe. É um operário que “desce” ao porão para por em ação a caldeira do navio.

Faço aqui pequeno parêntesis para comentar sobre que a Alquimia buscava, através das sucessivas operações (Nigredo, Albedo e Rubedo), reproduzir as etapas de criação do cosmos. Na visão Gnóstica, o universo não é criação de Deus incognoscível, mas de, digamos assim, um deus menor: o Demiurgo. Este operário divino é que tomou da matéria bruta e a plasmou, elevando-a do estado de ignorância (onde se lavra a pedra bruta) para estágios superiores de consciência (onde se obtém o ouro alquímico).

A alquimia emula ao ato do Demiurgo.

Certo, sei que as poucas críticas que já li sobre o romance sempre focaram na linguagem inovadora, no enredo corajoso que não acedia ao puritanismo da época e tudo o mais. Entretanto, por mais que a obra destoe de sua época (e destoa, daí vários cortes pudicos feitos nos extratos da obra coligidos por Adolfo Coelho, em artigo na Revista Lusitana – número 23), o que a acentua, a torna única, ainda que somente no quintal local, luso-brasileiro, está em sua infernal coragem e habilidade de criar um romance metafísico a partir de personagens conspicuamente comuns, banais, típicas: a virgem, o padre, a alcoviteira, o poeta. E o Demiurgo Átila Baldaquim, o interventor mágico, parente do Ashaverus, personagem de microconto em forma de peça teatral e do “maestro-demônio” que compôs o mundo, contado pelo cantor de ópera Marcolini (personagem citado por Bentinho, no  Dom Casmurro, ambos de Machado de Assis).

Disse tripartite o romance, mas deveria ter dito que é tripartite como a obsessão alquímica: a grande obra que só pode acontecer se obedecer aos necessários estágios de evolução: Nigredo (enegrecimento): o caos primário da indiferenciação. Albedo (embranquecimento): o caos é estabilizado, imobilizado em um estado ideal, mas abstrato. Rubedo (enrubescimento): nesse estado em estase é injetado o fluído solar, a transformação final para a iluminação.

Minhas suspeitas sobre a intencional “marcha” gnóstica do livro começaram ao observar as primeiras palavras que abrem cada um dos três capítulos do livro: “Negro. Não mais que negro era o sonho de onde despertava agora o Demiurgo…”. E, “Alva de alabastro, a face virginal de Maria…”.Finalmente, “Rubra, a facies do novo pároco contorcia-se conforme avançava o sermão…”.

Também as personagens obedecem a tipos ideais de personae alquímica. Átila, por óbvio, o Demiurgo. Mas também Maria de Lacerda, a sabedoria, Sophia, abandonada na lama do mundo físico onde se prostitui. E Artêmio, o Louco de Deus, reduzido à loucura ao presenciar uma operação esotérica, a coniunctio, a cópula sagrada entre Atila e Maria.

Finalmente, Boaventura, o padre, tornado mensageiro e profeta contra sua vontade.

Me referi acima ao Sermão da Dúvida, ponto fulcral do livro.

“Primeiro entendam que tudo é Pleroma, mesmo eu, mesmo Deus. A diferença é que o Pleroma em Deus é informe e inconsciente, vez que a consciência é criatura. Comunguem! (Elas comungaram).

Entendam que aí onde estão, nuas, aviltando-se, é lugar tornado sacro. E sagradas também as vilanias que perpetram, pois que são orações, são fermento para iluminação. Osculem-se!

(Elas beijaram-se).

Entendam que este cômodo é Atanor onde se calcina toda e qualquer ilusão do Eu.

(Elas tremeram).”

A intersecção, o texto, lembra um pouco um opúsculo de juventude de Carl Gustav Jung: Septem Sermones Ad Mortuos, com sua rica simbologia.

Em carta de resposta de Hebe a mim, disse ela acreditar que Duques tenha escrito o Sermão da Dúvida primeiro, e só depois, construído o romance. Também nisso, ainda Hebe, haveria simbolismo embutido: o romance envolvendo ao sermão seria decalcado na Rosa Vermelha alquímica, com suas pétalas em camadas velando o segredo da Grande Obra.

Pode ser. Deve ser.

Em todo caso, uma obra única na literatura brasileira, difícil de obter talvez (os sebos, vamos ao sebos!), difícil de digerir, mas que vale cada esforço feito para a apreciar.

Recomendo com fervor.

Em tempo, Antônio Frey Duques suicidou-se em 1954, atirando-se  sobre os trilhos de um trem em movimento.

E é isto.

CALSE: a sugestão do “chef” para hoje

Sinceramente, não achei a autoria. Aberto a penitências com silício e cinzas e/ou a evntuais retificações ou pedidos de perdão

Sinceramente, não achei a autoria. Aberto a penitências com cilício e cinzas e/ou a eventuais retificações ou pedidos de perdão

http://calse.wordpress.com/.

Anote, vá lá e veja. Descobri dia desses o blog e não sei sinceramente a que veio o Eldas, o blogueiro. Mas recomendo uma visita e uma vista d´olhos nos textos, sempre caóticos, sem nenhuma preocupação com estilo ou quejandos. Mas, tem alguma coisa ali. Não sei o que é, mas tem. No meio da coisa toda, vez por outra, tem umas sacadas, talvez que lisérgicas ou sob o efeito de substância exótica outra. Mas estão lá. Vejam lá, irmãs e irmãos e comentem comigo, dividam comigo.

É a sugestão do “chef” prá hoje. O blog do herbonauta. O caos embalado em papel de bala.

http://calse.wordpress.com/

É isso.

ARCHIVO AVOADOR: MODO DE USAR

 
Dragon Writer - by 25kartinok - DEVIANTART

Dragon Writer – by 25kartinok – DEVIANTART

Para que serve o Archivo Avoador?

Basicamente, para nada. Tem a vantagem de ser fantasmal e não enche o saco, não perturba ninguém com uma materialidade, assim, importuna.

Mas serve. Prá alguma coisa. Para testes, serve para testes. Testes com gêneros textuais, para esticá-los, inverter sinais, usar o jargão de uns em outros, ver se é possível reinventar a roda.

Certa vez, quando Jesus ainda andava pelo mundo, abri uma edição da Paixão Segundo GH, de Clarice e lá estava ela, citada na orelha: “gênero não me pega mais”. Não vou discutir aqui se Clarice conseguiu ou não, talvez quase.

A coisa é que o mal-estar do gênero é preocupação de todos os que algum dia vão escrever, inclusive eu e você.

O romance tem saída? O conto? Alguma coisa virá em seu lugar? Existem gêneros menores? E a poesia? O que significa, hoje, deixar-se levianamente ler um poema? É quase obsceno. É obsceno. Antinatural a coisa toda, a palavra impressa, para ser lida.

Não é discussão nova. Guimarães Rosa testou os limites dos gêneros e já lá se vão décadas. Convido a uma leitura atenta de Cara-de-Bronze, conto do No Urubuquaquá No Pinhém. Na primeira edição Rosa apresentou o conto (é um conto?) como poema. Mas também, um tratado filosófico sobre o tempo e um relato mítico sobre a demanda da palavra e da criação poética, como escreveu Benedito Nunes, referência obrigatória para a obra de Rosa.

“Verdadeira síntese da concepção de mundo de Guimarães Rosa, onde certas possibilidades extremas de sua técnica de ficcionista se concretizam”. Nunes.

O conto: Segisberto Jéia, o Cara de Bronze, ordena a Grivo, seu vaqueiro, que saía pelo mundo e retorne trazendo os nomes das coisas.

Então, um campo de testes para gêneros o Archivo Avoador. Não precisa muito: o sujeito atrás do teclado com o nickname ridículo (já disse a uma blogueira que poderia ser também Flamenguista Voador ou Atleticano das Alturas, mas certas idiossincrasias devem ser respeitadas).  E o campo, também vasto, de trabalhos de outros tantos blogueiros ao alcance do olho.

É, tenho vos observado, vos lido assazmente, blogueiros outros, irmãs e irmãos meus.  Vi certos escritos, certos modus operandi, certos usos. Alguns mesmo, mesclando, esticando, torcendo os limites dos gêneros.  Opinei, vez por outra. Não opinei, quase sempre, quando não sentia o escrito, quando não o entendia. Vez por outra me pego invejando.

Quem é esse, que escreve? Ele é daqui? É da família do dono?

Estou escutando a sede de vocês. Irmãs e irmãos de pena eletrônica na mão.

Archivo Avoador.

Sei não do autor

Sei não do autor

UM MOÇO MUITO BRANCO

VIA_LACTEA

Um moço muito branco

Guimarães Rosa era poliglota autodidata e o que se poderia chamar de um polímata. Grande leitor de obras filosóficas, mormente os Gnósticos e os Neoplatônicos, era um erudito generalista. Aquilo, que no século XIX e parte do XX, se chamava um Homem de Espírito.

Já se escreveu muito (mas não demais) sobre sua obra, não apenas o Grande Sertão, mas também os contos.

Me interessa aqui um seu conto, Um Moço Muito Branco, da coletânea Primeiras Estórias.

Na noite de 11 de novembro de 1872, na comarca do Serro Frio, em Minas Gerais, deram-se fatos de pavoroso suceder, referidos nas folhas da época e exarados nas Efemérides.  Assim começa o conto, aliás, as ocorrências de 11 de novembro de 1872 realmente ocorreram e de suas anotações conclui-se pela ocorrência de uma fantástica chuva de meteoros que se estendeu até a madrugada do dia 13.

Rosa usou a referência como ponto de partida para o conto.

Um rapaz de pele bem clara, Tão branco; mas não branquicelo, senão que de um branco leve, semidourado de luz, aparece do nada, sem história e sem passado e fascina as pessoas. José Kakende, negro com problemas mentais alega ter visto uma aparição na véspera de sua chegada. Hilário Cordeiro abriga ao rapaz.

De todos, somente Duarte Dias não simpatizou com o recém-chegado. Tem uma filha, Viviana, moça depressiva e triste que pelo moço se apaixona e é curada após o toque da mão do rapaz em seu corpo.

Hilário Cordeiro prospera, como se recompensado pelo bem que fizera acolhendo ao desgarrado.

Duarte Dias tenta levar o rapaz consigo, alegando parentesco, mas não recebe o consentimento de Hilário Cordeiro. Para surpresa de todos, após uma missa, o mesmo Duarte se põe diante do rapaz e lhe implora o perdão. O rapaz o toma pela mão e dali o leva, diz-se que para local de maravilhas onde estava guardado um tesouro.

Duarte Dias transformou-se a partir dali em um homem bom, contido e equilibrado.

Finalmente, o rapaz vai-se, auxiliado por José Kakende, que acende nove fogueiras como o rapaz havia pedido.

Com a primeira luz do sol, o moço se fora, tidas asas.

Bem, minha tese não é muito original, mas lá vai: trata-se de um conto de ficção científica e Rosa sabia muito bem que tratava de um conto de ficção científica. O exercício do gênero é claro. Todos os elementos estão lá: as alterações no céu, o possível terremoto e daí a aparição do ser misterioso, sem passado e sem história.

Evidente que Rosa, escritor de verve que era, não se comprazeria no gênero limitando-se a seus clichês, como infelizmente se vê hoje na pletora de obras de autores nacionais que enveredaram pelo tema. Ao conto ajuntou elementos do mito: o louco de Deus, a quem é dada a honra de o reconhecer; o homem bom que acolhe ao peregrino e o homem egoísta centrado em si mesmo que ao mesmo tempo é atraído e repelido pelo emissário divino. Não faltou nem a donzela sonhosa.

E ao moço, tanto uma origem divina como extraterrestre lhe podem ser atribuídas. Mas a inserção dos abalos, a menção ainda que indireta ao comportamento estranho dos céus, a meu ver, indicam mais a segunda hipótese (ainda que Rosa confunda, entrelaçando referências ora a um emissário divino angélico, tidas asas, ora a um extraterrestre).

Sem história, mas também sem ódios, sem apegações, o rapaz vai pouco a pouco afetando a vida de todos a sua volta. Finalmente, o arremate do conto, sua partida, pouco clara, enevoada, sob a propulsão simbólica das nove fogueiras cabalísticas acesas por José Kakende, o louco de Deus.

E agora, o conto. Sustento que trata-se, e Rosa assim também pensou tratar-se, de um conto do gênero dito menor da ficção científica.

Há quem sustente que certos gêneros, que tiveram sua fortuna em terras anglo-saxãs e, em menor escala, na Europa, seriam impraticáveis ou pouco praticáveis no Brasil. A ficção de mistério, policial e a ficção científica ela mesma. Questão a discutir, não adentro mais no assunto por hipossuficiência ou por preguiça .

Mas o fato é que Rosa, de todo modo alheio a gêneros por conhecer bem seu ofício, e as ferramentas de seu ofício, utilizou-se do formato e o transcendeu. Ou, outra leitura possível, limitou-se apenas a fazer bem o que fazia.

E é isso.