A PRISÃO DE WILD MARCIONÍLIA

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COSMIC VOYAGE – By Skmoon-d7anzbl – DeviantArt

 

 

No dia em que Wild Marcionília foi presa, eu chorei.

Vozes sem conta comemoraram sua prisão. Oro Bonfá, dono de cinquenta e três luas de mineração e pelo menos dois planetas terrestroides inteiros abriu seu palácio do prazer com mesa farta, prostitutos e prostitutas à mancheia e de graça e um discurso inflamado que terminou com a morte programada de Maatu, o verde, o putinho mais famoso de todos os tempos e que deve ter ganhado ali os seus milhões e remida aposentadoria, assim que revivido.

E havia o Grande Juiz, autor do mandado de prisão, a quem se prodigalizou grandes comendas, com uma ou duas canonizações em mundos de fronteira.

Wild Marcionília, claro, não foi poupada de nada e por ninguém. Perguntaram às multidões reunidas em torno do Templo em Nárnia: Marcionília ou Barrabás? E as massas urraram.

Entretanto (permitam-me o entretanto), Wild Marcionília, a mais nova presa política do século, não pareceu se dar conta de que tinha um papel a cumprir nos planos do Grande Juiz, nos planos da Grande Babilônia, nos planos da Casta Dourada e não se apresentou na hora e dia previstos.

Conta-se que a guarda pretoriana do Templo veio toda paramentada em glória para sua prisão, com direito a holofotes brilhantes, trovões e raios multicores. Um dos discípulos de Marcionília seccionou com sua adaga à orelha de um dos guardas e Wild Marcionília o deteve só com seu olhar e sorriso, para a seguir recompor a orelha.

“Qual o teu nome?”, perguntou o Grande Pretor.

“Meu nome é legião!”, respondeu altivamente Wild Marcionília, reconhecidamente uma das demônias mais combativas e impiedosas de todo o Xeol.

O qual, aliás, não é nome de planeta mas de um específico inferno.

No dia em que Wild Marcionília foi presa eu também ri. Um riso contido, sereno, como compete a um filho-da-puta de escol que sei que sou.

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Sobre o fascismo que habita debaixo de nosso couro

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Dignidad – Ron Vargas – DeviantArt

 

 

Em data incerta de ano incerto passei uma temporada em Ciudad Del Este, aquele grande monumento ao brega dinâmico, aquele mercado Souk plantado no rabo da América do Sul.

Foi das melhores épocas de minha vida. A começar pelo cheiro, presente em todo e qualquer canto, suponho que uma mistura de especiarias da culinária local com as emanações dos corpos, dos deuses também locais e das almas.

E foi lá que aos poucos, aos poucochinhos, nos devagares, que notei os olhares, o conjunto de esgares, as expressões todas confazentes, as periferias dos olhares dos paraguaios, circunvagando meu rosto, não me dando a cortesia sequer do desprezo. Eles se lembravam de outros tempos, onde nossos avós de mãos dadas com avós argentinos fizeram ali coisas, muitas.

Suspeito, acho, que não me tinham qualquer ojeriza pessoal. Me viam, me inspecionavam no geral, não como pessoa, mas como símbolo. O mesmo comportamento que vez em quando nos acode quando nos vemos ante um gringo qualquer, europeu, americano ou japonês, mas mormente mais quando americano e europeu.

Não desgostamos do moço ou da moça. Só temos é gastura, uma reação estomacal de raiva ancestral.

E assim os paraguaios comigo, conosco. Talvez também os bolivianos, de quem tomamos o Acre. Como os mexicanos tiveram tomado a seu Texas.

Mas então o Paraguai e Ciudad Del Este, antes Puerto Presidente Stroessner, em homenagem ao ditador de plantão da época.

Era e acredito que ainda é lugar quente e alegre e triste, ao seu modo tão peculiar de conciliar tristeza com magia.

Povoada com e por pessoas trilíngues, de pedra. Um lugar com partidas de futebol, circo com calendário e todo o mal que se espere, de todas as safadezas mais que esperadas, com seus ódios e tesão.

O fascinante cu de nuestra américa, a capucheta do cão.

Mas os rostos das pessoas, amigas e amigos, os rostos! Velhos, sorridentes e dotados de uma sabedoria que se pressentia quase como dor, se confazendo em gestos de polidez que escondiam mágoa velha.

A vida se decide é nestes rostos, nos humildementes, nos falares atrás de pilastras, nos cochichos atrás de monumentos de fundadores, foi o que atinei e atino.

Jesus caminhava por Ciudad Del Este, insuspeitado. E disputava o espaço com os espíritos abissais de antigas divindades indígenas destronadas, com quilômetros de extensão.

SOBRE LER, VIVER E O UNIVERSO.

GUERRA

 

 

Sei que entrei para a escola, meu pai me comprou os cadernos e chovia. Minha mãe me acompanhou e me deixou lá, no pátio. E eu tinha muito, muito medo.

Chovia novamente, forçoso é acrescentar, no meu primeiro dia de escola.

Minha primeira professora era severa, grosseira e temperamental. Obrigado, dona Maria de Lourdes (você merece o “dona”, como o sabem todos os que tiveram professoras, mestres ou gurus).

Bem, havia a escola e tive minha primeira prova, onde não percebi que tinha ido tão bem que recebi até elogio. Meus pais eram econômicos nos encômios e nada me disseram.

Naquela época uma vizinha mudou-se e deixou toda uma coleção de livros sob a guarda de minha família, para resgate posterior, mas nunca mais deu as caras. Eu tremia todo dia ante a ameaça, o desidério de que algum dia ela viesse até mim para resgatar aquelas preciosidades, provisoriamente sob minha guarda.

Foram anos mágicos. Houve um mistério no céu (1970?) quando um raio verde e brilhante apareceu, indo de baixo para cima, denso, lento e fatal. Juro que é verdade.

E houve toda uma infância após tudo aquilo, onde eu ouvia um passarinho cantar e me diziam que não era passarinho, que era um anão, fortíssimo, que se descoberto espancaria seu descobridor. Anos depois, Tom, o Jobim, me mostraria que o som que eu ouvia era tão somente o do Matita-Perê.

Ô merda. ‘brigadu, Tom.

Mas tem esse “negoço” aí da leitura.

Sei que eu lia e lia e lia. Primeiro os livros da vizinha, herdados contra a vontade dela. Bem, na verdade vera e verdadinha eu me apaixonei não foi pela leitura, mas pelo fetiche do livro. Me lembro que na casa de meu avô, em épocas pretéritas, me caiu nas mãos um livro encapado em couro castanho-marrom. E eu amava este livro. E havia uma gravura em perfil de um homem barbado na antecapa. Era? Sei não. Era então eu um  analfabeto de cinco anos.

Mas era do meu avô, o paterno, o livro. Aliás, também forçoso dizer, tive dois avós do caralho, assim tipo Filho-da-Puta um e Filho-da-Puta dois. Escrotos, exploradores de pobres, um preto e outro marrano, mas uns caras, assim, como direi…do caralho.

Tá, mas a leitura.

Eu lia, no começo a Bíblia que eu achava que era um livro de aventuras e era. É. Achava um tesão Isaque dando uns amassos em Rebeca, surpreendendo ao rei. Depois, foram os romances de cordel de meu pai, depois Camões, depois os divinais quadrinhos pornográficos de Carlos Zéfiro, e Tolstói e Shakespeare e Ofélia e Narbal Fontes e Machado e o Pasquim e Yukio Mishima e Clarice Lispector Thomas Mann e J. F. de Almeida Prado e Charles Fort e Jacques Bergier e Marguerite Youcernar e a revista Playboy, da qual só lia aos artigos, nunca me preocupando com os seios, as bundas…bem, aquela coisa toda.

E então, eu lia.

E tudo o que eu posso dizer sobre ler, sobre o que eu lia, é muito pouco. Sei que quando lia eu era soberano, senhor absoluto de meu espaço. Egoisticamente, egostisticamente, eu me bastava.

Estávamos lá. Eu e meus livros.

E eles me contavam coisas, me segredavam coisas, me antecipavam coisas.

E, vejam só como são as coisas, nem sabia eu que estava sendo muito, mas muito feliz.

O que pode ser uma coisa muito boa.

Acho.

Acredito.

Sei lá.

Deus é soberano.

Corintiano Voador…pode ir brincar lá fora!

 

Judiarias, coisas de preto e índio e outras antiguidades diversas

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Self Kiss – by Ahermin – DeviantArt

 

E eis que o mundo acaba, se finda. E eis que recomeça o mundo.

Em 1604 Davide de Sande chegou em Olinda, no navio fretado por Salomão Vecino ou Salamon Vecino ou Salamão Vizinho, para tentar a sorte na terra.

Trazia mercancias diversas que seu tio, Abel ou Aboabe, fugido para Veneza, lhe entregara em consignação.

Em 1717, depois de uma epopeia de dores, Habiba, nascida em Daomé, desceu do navio e foi leiloada em São Salvador da Bahia de Todos os Santos e ganhou o nome novo de Honorina, no engenho de propriedade de Antônio de Goes, que era filho de Joaquim, que atendia antes por Habacuque Vecino.

Honorina foi mãe de Gonçalo, o Álvares, dito Alves, o corcunda, que toda sexta-feira percorria as ruas de Recife, o pé direito envolto em trapos, anunciando que haveria missa na esnoga.

Paralelamente, um Francisco, mestre-carpina, foi encarregado do telhamento de uma igreja em Agrestina, Pernambuco, em 1852.

Tinha um sinal de nascença no pescoço, vermelho, em forma de meia-lua.

E havia aquele Sinésio, filho de mãe nenhuma e pai branco que se escondeu, dos Pankararú, que se fez padre e pai de quarenta e sete filhos.

E havia aquele Simão, que apagava rastros, que era filho de Teodósia, que era filha de Abdias, que foi padrinho de crisma de Samuel, marrano doido que tinha por apelido Voador e que morreu numa briga de bodega em 1862 e era sobrinho de Sinésio e descendente de Habiba, que era Honorina.

E havia Samuel. E este Samuel era artesão e fazia oratórios, todos encimados por uma letra hebraica, um shim.

Falo de antiguidades, perdão peço.

Olha pro céu, Frederico

Hoje de manhã, saindo para a labuta, olhei para o céu. O que vi? Reparem que eu estava olhando para o céu, o firmamento, lar dos justos, obra magistral do pincel do Criador (pincel, não caiu bem…), bem eu falava do céu, e foi hoje de manhã, eu saía para a labuta e olhei para o céu. O que vi? Bem, nadra….olhei e, melhor ser franco: vi porra nenhuma. Então, foi isso. É fodra!

Cachorra de imagem espiritual essa, hein?

Cachorra de imagem espiritual essa, hein?

A proverbial postagem de fim de ano

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Autoretrato de Marcelo, o Moreira – by Marcelo Moreira (com permissão do autor)

 

E então temos aí 2018, na curva, dá pra ver?

Tá logo ali, chegandinho.

Tá, 2017 não foi o melhor dos anos, mas imagino que 1929, 1964 devem ter sido anos do mesmo naipe.

Basicamente, um ano medíocre no qual os medíocres prosperaram. Um ano de ódios, propício ao atropelamento de mendigos e ódios diversos, às mulheres, aos não-héteros. Um ano inesquecível para juízes lindos, promotores lindos, policiais lindos. Nos quais, aliás, não votei, embora eles insistam em, em…bem, eles insistem.

Ano em que escrevi minhas babaquices habituais, recheadas de alusões, com muito conteúdo místico, com patrulheiros do tempo que ressuscitei e com menção quase sempre contínua do tempo, que me fascina, e dos tempos, que me aporrinham.

Eu, o escrevinhador.

Um ano em que reli a bíblia somente para renovar minha descrença.

Um ano em que li poemas diversos, com muita coisa bonita saindo deles. Um ano em que descurei das boas maneiras, muitas vezes. Um ano em que não segurei o azedume.

Mas também um ano de bons vinhos. E com amigos que compartilharam comigo os bons vinhos, a cerveja e o pão.

Um ano em que salvei o Brasil e o mundo na mesa de um boteco, como sói compete a um filho-da-puta sério e compungido que sei que sou.

E este não é um país sério. E este não é um país santo. Mas entrete.

“E eis-me aqui, Corintiano e Voador, e eis-me aqui, filho-da-puta ufano”.

E agora, como me prometi, cometo o discurso inspirado:

Mãe, obrigado pelo natal.

Irmãos, irmãs, cunhado, cunhadas, sobrinhos.

Esposa, obrigado por estar lá e por gestar nosso filho que também estava lá.

Amigos, continuem assim, não se mexam e não mudem nada.

Avós e avôs fantasmas, o negócio é ter fé. Tenham!

2018, tome tento!

— Corintiano Voador?

— Sinhô…?

— Pode ir brincar lá fora!

DE INCOMPETENTE A GÊNIO: MANUAL DE INSTRUÇÃO

Muse - Michael Cheval

Muse – Michel Cheval

 

Se você é um incompetente, mas muito incompetente mesmo, não se desespere, você apenas não encontrou sua verdadeira vocação.

Que, é claro, é ensinar moderníssimas técnicas de administração de empresa numa prestigiada escola de administração de empresa, entre outras muitas oportunidades. Várias, diversas.

E mais, se escrever um livro, tipo “O monge e o executivo”, então nem se fala.

A coisa, o busílis, não é o que é, mas o que parecer. Conteúdo? Não, forma. Escrever? Não, citar.

Mas o melhor de tudo, o saboroso mesmo, é que você pode escrever sobre qualquer coisa e ser reputado como o antenado do momento, o comentador de uma época, desde que utilizadas certas técnicas infalíveis, a saber: esqueça o sentido, o importante é o ritmo.

Ao citar, seja vago e crie uma cumplicidade viciosa com o leitor. Tipo, “você sabe de quem estou falando, não sabe?”, “aquele”, “naquela sua obra, lembra?”.

Exempli gratia:  pegue um trecho de um texto qualquer, tipo uma crônica de Machado de Assis, feito esta, Cherchez la femme, publicada originalmente em 1881:

Antes da sociedade, antes da família, antes das artes e do conforto, antes das belas rendas e sedas que constituem o sonho da leitora assídua deste jornal, antes das valsas de Strauss, dos Huguenotes, de Petrópolis, dos landaus e das luvas de pelica; antes, muito antes do primeiro esboço da civilização, toda a civilização estava em gérmen na mulher.

Feito isto, substitua palavras, atualize os termos, as situações (não seja tímido) e você terá algo como isso:

Antes da sociedade, antes da família, antes das artes e do computador, antes das maravilhosas calças jeans e rendas e sedas que constituem o sonho da periferia assídua do Facebook, antes dos Rolling Stones, dos Beatles, de Liverpool, dos automóveis comprados a perder de vista e dos celulares oniscientes; antes, muito antes do primeiro esboço da civilização, toda a civilização estava, ainda um ovo, representada no desejo.

Viu? Sem esforço e de modo lúdico aí está você contribuindo para as letras pátrias. Machado? Esqueça, ninguém lê Machado. Na verdade, ninguém lê. E se lido, se apontado o seu, digamos, plágio, contemporize, explicando tratar-se de uma (anote a palavra, é supimpa!)…de uma paracitação.

E paracitando sempre, perseverando, você já pode dividir sua verve, a originalidade de sua visão de mundo em qualquer publicação que abrigue iluminados assim feito você. Feito eu. Incompetentes, mas elegantes. Incompetentes, mas limpinhos.

Agora, se além de tudo você ainda for americano, o sucesso lhe acena com mãos ávidas.

Nada como ser incompetente e americano: a merda com sotaque inglês é muito saborosa…

BREVES CONSIDERAÇÕES, CAUSOS, BURLAS E OUTRAS MERDAS

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Writer – by Mathiole – DeviantArt

 

O passado que Já foi. Jamais me esquecerei: de “Bonga, a mulher-gorila”; da “mulher-aranha”; da “mulher-cobra” que virou mulher-cobra por ter batido nos pais; do leão que já matara oitenta homens (…meu irmão perdeu a mão nas garras deste leão…). E, finalmente a recordação mais pungente: “rapaz de branco junto à barraca de tiro ao alvo oferece esta canção para moça de vestido azul na fila da roda-gigante como prova de amizade e consideração”. E o “dangle”? Quem não verterá uma lágrima ao lembrar-se?

 

Quatro (4) robustos (fortes prá dedéu) anjos (pessoas com asas) foram vistos sobrevoando a cidade de São Paulo. E armados! Medo.

 

Daí que a polícia militar do templo de Jerusalém prendeu Jesus por formação de quadrilha. Infelizmente os outros doze caras se evadiram e a PM só apresentou Jesus ao Dr. Pôncio Pilatos, delegado de polícia titular do 1. DP de Jerusalém. Evidentemente que foi “caguetagem”, eles tinham um X-9 infiltrado, um tal de Judas. O tratamento não foi dos mais elegantes: “Fala meliante, confessa…”, “pô, eu sou filho de Deus, deixa eu dar um telefonema”…essas coisas que sempre acontecem nas delegacias.

 

Ali estava eu, nesta fotografia de 1941, o viajante do tempo. Reparem em minhas roupas, nos óculos. E há quem não acredite…

 

Daí que eu conheci um cara, mais exatamente um advogado, que nunca dizia “bom dia”, mas sempre “um ótimo dia”. Eu detestava o sujeito…

 

O que, traduzindo, significa que o todo é uma porcentagem da eternidade, uma fração do infinito, o saldo que restou da vida eterna quando Adão olhou prá Eva com maldade no coração e Eva olhou prá Adão com mais maldade ainda no coração ou, mais exatamente, maldade nas virilhas, o que não significa que o tempo é simples, simples é o templo, de Salomão ou não, o importante é contribuir para a construção, vendendo os filhos e alugando a patroa, a qual, aliás, tem menos do que pensa, e acha que precisa de matemática, que é prima-irmã do tempo, que é simples. E não pensa. Elementar, meu caro Vátson!

 

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAIIIIIIIIIIIIIIIIIIOOOOOOOOOOOOOOO, Silver!, disse Joaquim, o cavaleiro solitário. Ou era Batman? Homessa, confundo-me com as identidades secretas.

 

Nós, os que pecamos… Nós, os tartamudos. Nós, os “planos”. Rápido, todos para o cinematographo…!

 

O mundo é um moinho e vai triturar meus sonhos tão mesquinhos, vai reduzir minhas ilusões a pó. Sofro, então queixo-me às rosas, mas que bobagem!, as rosas não falam. Sofro, sinto abalada minha calma, embriagada minh´alma. Mas recupero-me, levanto, sacudo a poeira e dou a volta por cima. Procuro me alegrar. Boemia, aqui me tens de regresso e suplicante te peço a minha nova inscrição. Procurarei por você, meu amor. Sabe o cara que sempre te espera sorrindo, que abre a porta do carro quando você vem vindo, te beija na boca, te abraça feliz, apaixonado te olha e te diz que sentiu sua falta e reclama? Esse cara sou eu.

 

Mas eu falava do amor e sei que incautos e apressadinhos pensarão em “peitos e bundas”. Ledo engano, só o amor é soberano…

 

Pretendo conquistar o mundo. Simples assim. Germinou a ideia em 31 de dezembro de 2012. E a ideia malsã não me abandonou: dominar..o mundo. Tive grandes exemplos, soberbos mestres. Fu Manchu (ninguém conhece), o Doutor Zero. Zeeeeroooo. O Doutor Zero. Esse me conquistou, me deu a pegada, o insight. O mundo. Meu. Chegarei lá.

 

Pronto prá ficar puto qui nem homi macho masculino. Não tecerei loas a Themis e nem ao Parquet e nem aos Togados e nem aos capitães-do-mato, mas já posso mandar à merda com verve. Meu mote: me respeita, mundo!

 

A lua cheia gerou jiboias paranoicas que infestaram os planetas circundantes. As jiboias geraram triângulos, sendo que cada um deles era uma catástrofe inteiramente evitável. Os triângulos geraram ametistas falsificadas para os brincos das embaixatrizes e das cafetinas.

 

Dúvida feicebuquiana: qual mais importante: meu rabo (e minhas “angústrias” postadas minuto a minuto) ou o rabo da pátria?

 

Vou m´mbora prá Passárgada, lá não sou amigo do rei que esse negócio de ser amigo do rei é coisa de safado. Enfim, serei Feliciano, digo, feliz. P.S.: felicidade também é coisa de safado.

 

Quando eu tinha vinte e poucos anos e era (ou pensava que era) crítico de cinema, pensava de vez em quando que algumas das melhores críticas de filmes que eu já tinha lido eram as sátiras da revista Mad…

 

Quem sou? Oras, sou um homem que respondeu, ao ser perguntado por que veio ao mundo: Ah, vim pelo clima…e pelas mulheres.

 

Quando dizemos: Que antipático é fulano, devíamos dizer: A abstinência torna-se estéril quando ditada pela fraqueza do corpo ou pelo vício da avareza ou então O absurdo é a razão lúcida que constata os seus limites ou O prazer do amor é amar e sentirmo-nos mais felizes pela paixão que sentimos do que pela que inspiramos ou Não há papéis pequenos, só atores pequenos ou quem sabe Tudo tem alguma beleza, mas nem todos são capazes de ver. Ou seja, não entendi nada mas que ficou bonito ficou.

 

A mó de parecer fino. A mó de parecer antenado. A mó de ser pernóstico (que é o sujeito que comercia com pernas).

 

E vendo as multidões, meus olhos passeando por meu povo sofrido e carente de perfume que irá votar no vindouro ano, só me resta, vendo, repito, as multidões, repetir a pergunta trágica de Lope de Vega: ¿DÓNDE ESTÁ WALLY?

 

Deve-se postar bêbedo ou sob o efeito de substâncias exóticas? Tenho prá mim que sim: talvez fique ininteligível, mas sempre se terá a desculpa de que se está sendo verdadeiro.

 

A pedidos: a amizade feminina. E eu sei? Sei não, de nada não. Agora, vou dizer a única coisa que eu sei, que é o seguinte: já sei da conspiração planetária de vocês! Vocês nunca me enganaram! Nunca me enganei quando dizem que vão até o toillete; conversa, vão é conspirar. Vejo vocês trocando as mensagens cifradas: “a gente se fala depois tá?”, “mas você está linda!”, por exemplo. O que será que quer dizer? Preocupo-me. E preocupo-me principalmente porque eu durmo com uma conspiradora. O que reserva ela para mim quando tomarem o poder? Irá me por uma coleira e exibir pras amigas? Besteira, isso ela já faz. A amizade feminina. A masculina é fácil de entender: uma coisa tribal, um ajuntamento de moleques discutindo o cosmos e o futebol, o que é quase um pleonasmo. A amizade feminina, este mistério a perturbar e a pesar sobre minha idosa cabeça Voadora. Voltarei ao assunto.

 

Hoje estou me sentido especialmente bem, alegre e confiante na vida. Prometo que até o fim do dia vou tomar vergonha na cara e voltar a minha pestilencial e taciturna natureza habitual.

 

Bom dia, Alfa do Centauro.

SOBRE CRIATURAS MÁGICAS, SANTOS E SANTAS.

 

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Jovem como eu era, trabalhava na mesma tecelagem que Selma Plá, a moça que teve as já conhecidas visões místicas. Que ela não procurou, não queria e, aliás, desdenhava.

Mas, outra época, outros feitios, outra feição do universo palpável.

Acordava muito cedo, muito, muito cedo. Havia um trem infecto, um ônibus superlotado e depois a rua, onde andava os seiscentos ou mil metros necessários até nossa senzala.

E aí eu brincava, indicando a A e a B, irmãs e amigas na ocasião, onde estavam, onde se escondiam os duendes, os elfos e as fadinhas, também de ocasião. Havia Saulo, gnomo feio e rugoso, pouco dado ao contato. E Sálvia, fada pequenina, inapropriada aos bons costumes por lasciva e fútil e cruel até a medula. E os Irmãos, também batizados por mim de Demoninhos Assassinos Mauzinhos canibais e que eram, forçoso concordar, demônios pequenos com tendências homicidas, com poucas restrições quanto ao alimento que consumiam, além de serem maus, muito maus.

Escapava de suas maquinações, de suas pequenas armadilhas e ódios por conhecer as canções certas, os enredos, as pequenas magias e estendia esta proteção a A e a B. Eu me achava, me via, me cria, à época, como o precoce herói seminal das histórias. Enfim, um tolo novel e bobinhão.

A e B se casaram e saíram, saem agora desta história, mas eu continuei, digo, continuo.

As pessoas pensam pouco sobre a magia ou mesmos sobre os seres mágicos, embora o assunto nos rodeie nos quadrinhos, livros e filmes.

Engano comum o de algumas pessoas acreditarem que a magia não existe. Falo de “algumas pessoas” por saber que a grande maioria das pessoas é crente fervorosa na realidade das operações mágicas.

A maior parte das pessoas (dá uma coceirinha mental em dizer todos) realiza diariamente pequenos rituais de magia simpática: trocar de caminho para evitar a repetição de um evento; fazer promessas dirigidas a seus santos preferidos; orar mentalmente e coisas outras do mesmo naipe.

Ou surpreender a seres mágicos, os elementais, por dá cá aquela palha. Como eu fazia.

E, outro erro comum, o de algumas pessoinhas acharem que os elementais, os seres mágicos, sejam também pessoinhas boinhas, do bem.  São não. Nem também são do mal, vale também dizer. São, eles, os povinhos mágicos, o que são. Nem PT e nem do PSDB. E nem nada no meio ou além. Só o que são.

Exú, por exemplo, que conheci deveras, é só um cavalheiro magro, escuríssimo, usando jaquetão e gravata. Elegantíssimo. Ou um cavalheiro de tez parda usando um terno de dois botões. Ou um cavalheiro de tez clara, loiro. Mas sempre, sempre elegante. Cem mil anos de idade (ou mais. Suspeito que ele já aporrinhava aos Australopithecus) e ainda por aí, disfarçado de malandro, de pastor, de padre, de analista de sistemas. Mulheres, cuidado!

E dona Janaína. E dona Oxum e os cento e vinte e sete Zé Pelintras.

Sei, existem por aí os meus amigos cristãos modernos que dizem que todos, todos os elementais, são nada mais, nada menos, que encarnações ou servos do Tinhoso.

Estão certos, claro. Não polemizo, comento.

Então foi que em 1986 fui parado no meio da rua por Santa Catarina de Sena.

E aí, ó meu deusinho, lembro porra nenhuma do que ela me falou. Mas foi alguma coisa sublime.

Acho.

A SULTILEZA DA BESTA OU COMO O APOCALIPSE NÃO VEM, MAS SEGUE

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Tired – by Natalia Ciobanu – DeviantArt

 

Estamos em uma época de queda, similar a todas as outras épocas de queda que começaram com a queda dos primeiros anjos e de Lúcifer e o estabelecimento daquele valiosíssimo imóvel psíquico: o Inferno.

Esta nossa época de queda pode ser reconhecida como uma, bem, época de queda, por não ser trágica, mas farsesca. Sem muito conteúdo que não aquele que apela ao fígado e não ao cérebro.

A volta de um moralismo tacanho para substituir o afastamento das pessoas da atuação política, o incremento da demência e da fatuidade nas redes sociais, a preferência do receptor pela imagem, em detrimento do texto e, se inevitável o texto, que seja curto.

O Feicebúqui e suas frases de parachoque de caminhão, suas citações malucas atribuindo a Mahatma Gandhi o que foi de Groucho Marx (considerando que o usuário feicebuquiano saiba quem foram Gandhi e Marx).

O WhatsApp.

Nos anos trinta foi criado Dick Tracy, uma tira de jornal sobre um detetive de queixo quadrado, anglossaxão até a medula, que combatia o crime usando uma tecnologia delirante na qual pontuava, ora vejam, um relógio-videofone, que lhe permitia também ver e não apenas falar com seus colegas policiais. O WhatsApp já faz isto e todos nós somos potenciais participantes do delírio que a tira apenas antecipava.

Nós hoje falamos pouco, lemos quase nada e escrevemos menos ainda. Mas, vemos, olhamos, quase fanaticamente. Olhamos, absorvemos imagens como quem come em um fast-food, de forma rápida, acrítica, sequencialmente.

Natural que seja comum a indisposição estomacal.

No último livro da bíblia cristã, o Apocalipse, há a narrativa final da ascensão do Anticristo, da Besta; onde a Besta providencia um sinal para que se identifiquem seus seguidores: um número. Não sei se com ironia o autor (João de Patmos, Steven Spielberg, tanto faz) nos informa que é um número de homem.

Não, não estou fazendo ilações entre o livro e nossos tempos (O atento pastor ou o gárrulo padre fazem e farão melhor), apenas gosto da imagem literária.

E então o nosso tempo, não apenas de queda, mas uma queda que se eterniza no tempo e com isso se torna um paradoxo, pois que se é eterna a queda, tem-se então uma queda estática (uma queda teria que ser dinâmica, pois não?).

E então o nosso tempo, de anestesias diversas para que não percebamos…o que? Tenho diversas teorias conspiratórias a disposição:

  1. Somos cobaias em uma grande experiência cósmica destinada a conhecer até onde vai nossa disposição de, enquanto gado, permanecer gado?
  2. Somos cobaias em uma grande experiência, controlada pelos senhores do universo, destinada a conhecer até onde vai nossa disposição de, enquanto gado, permanecer gado?
  3. Somos cobaias em uma grande experiência, controlada pelos senhores do capital, destinada a conhecer até onde vai nossa disposição de, enquanto gado, permanecer gado?
  4. Somos cobaias em uma grande experiência, controlada por um deus menor, um demiurgo, destinada a conhecer até onde vai nossa disposição de, enquanto gado, permanecer gado?

 

Não levem a sério, é claro que isto não existe. E mesmo a ideia de um tempo de pranto e ranger de dentes sequer é original. Sabe bastante àquela antiga e persistente doença da psique humana, a saudade da Idade de Ouro, de que já sofreram gregos e romanos, hindus e chineses.

Não, falo e escrevo apenas de eventos locais, circunscritos, brasílicos, nossos. Nosso tempo e nossa sina. Mas não posso evitar de lembrar a previsão do destino humano dada pelo agente O´Brien em 1984, de George Orwell: uma bota pressionando, eternamente, um rosto humano.

É claro que se trata de uma obra de ficção, com as liberdades que às obras de ficção se dá. Por exemplo: O´Brien é pessoa culta. Não me parece que as atuais botas o sejam.

Disse Jesus (ou escreveram que Jesus o disse, o que dá no mesmo) que os humildes herdariam a terra.

Pode ser verdade, mas por enquanto me parece que o quinhão quase total da terra foi dado e é gerido pelo medíocre.

Reconheço a força dos atuais dominadores, mas não consigo ter muito respeito por seus intelectos.

Bem, talvez sejam só os capatazes.

Talvez ocorra que seus senhores, eles sim, sejam os sofisticados, os que escreveram as bíblias diversas, os que projetaram os ritos, os que construíram Babilônia e a partir dela, governam.

E eu acho que era tudo o que eu tinha a demonstrar sobre a arte de escrever como sói escreve uma pessoa cansada. Trabalhei demais ontem, vejam bem. Como eu sempre escrevo e peço: relevem.

Mas, fato: a sutileza sem par da Besta ainda me comove.

Vale.