A HISTÓRIA DE PIJAMAS

Art of Diplomacy III - Michel Cheval

Art of Diplomacy III – Michel Cheval

O fato histórico não precisa ser notável, apenas pode.

Minha ambição: a História como um daqueles almanaques de antigamente, com edição anual e recheados de curiosidades: datas ideais de plantio, conselhos sobre a saúde, calendários, lunários perpétuos. Nada sério.

E as datas e os lugares ganhariam alguma coisa, talvez mais humana, mais real por que descobriríamos que os fatos se dão não tanto pelo general famoso, pelo rei ou imperador, mas antes por uma tempestade imprevista, um grumete de embarcação que deu o tiro preciso, uma prostituta que envenenou um clérigo.

Os fatinhos que geram os fatões, se me perdoam a esculhambação com a língua pátria. A História na contramão, de pijama.

Exempli gratia.

Os Templários não foram totalmente exterminados quando da execução de Jacques de Molay pelo Felipe francês. Enclaves da ordem sobreviveram na Escócia e em Portugal. E foram os Templários de Portugal, sob a denominação de Ordem de Cristo, quem financiaram as caravelas de Cabral.

Este nosso almanaque de insignificâncias continua, não tem fim.

A Espanha continuou poderosíssima após a derrota da Invencível Armada, pelos ingleses e pelas tempestades, por mais que os ingleses gostem de pensar o contrário.

Jesus Cristo, ou ainda Yeshua Ben Youssef, era Galileu. O que em termos modernos, no Brasil, seria o mesmo que ser nordestino e atender por Jesonaldo ou Ademilson. Só samaritanos eram menos considerados que os galileus e o nome de Jesus nada mais era que uma variante (considerada vulgar) de Yoshua,  Josué.

Mas aí aparece a História, com agazão, sisuda, séria, posuda.

Eu sei, sabemos, que para merecer os holofotes da História convinha, convém ser macho, adulto e branco. Senão, vejamos.

Era um homem bom René Descartes? E Sidarta dos Sakhia, e Emanuel Swedenborg e Ludwig da Baviera? E Santos Dumont?

E tantos outros, talvez também bons, e homens, ali, congelados em seus nichos no grande Panteão dos Grandes.

Adulto, macho e branco. O perfil acabado do herói. Sem mênstruo, sem dores, só a glória.

E as mulheres? São historiáveis?

Santa Catarina de Siena não sei se era boa, dizem mesmo que era analfabeta e pervertedora de papas. Siatemi uomo virile, e non timoroso. Rispondete a Dio, che vi chiama che veniate a tenere e possedere il luogo del glorioso pastore Santo Pietro, di cui vicário sete rimasto. E por aí foi, em famosa carta, comendo o rabo papalino de Gregório XI ou LXXV, sei lá.

Teresa de Ávila, santa de minha particular devoção, também era analfabeta, fato nada incomum em quase toda a História humana, mas poeta sublime. Igual aquele João da Cruz com quem levitou junto, em êxtase compartilhado.

Ambas, post mortem, tornaram-se doutoras da Igreja. As únicas. Prêmio de consolação.

Mais mulheres e mais história.

Murasaki Shikibu, também escritora e poeta sublime, fazia parte daquela maravilhosa e hedonista aristocracia japonesa do período Heian, séculos X e XI, cultivadora de clássicos chineses.

Aliás, foram provavelmente as mulheres desta aristocracia que criaram sua própria versão simplificada da escrita chinesa Han, adaptada aos falares japoneses, o Kana.

Autora do primeiro romance, o Genji Monogatari, se desconsiderarmos o Satiricon. Vergonhosamente não há ainda tradução portuguesa que eu saiba.

Cinquenta e quatro volumes tem esta narrativa dos amores do príncipe  Genji, se bem recordo e não, não li senão extratos. Significa que não li. Queria.

Exemplo: A dama da corte termina uma carta endereçada ao herói e vai depois apreciar a neve caindo no jardim. A personagem da dama espanta-se que também ao camponês seja permitido apreciar aquelas delicadezas.

Cinquenta personagens principais, nem sempre chamados por seus nomes, mas também por seus títulos ou apelidos poéticos.

Outra, o Haiku, este metro que prima pela brevidade, também foi criado pelas mulheres japonesas, que os homens estavam ocupados escrevendo tratados confucianos ou poemas em chinês clássico.

Terra Brasilis. A ciranda, se não foi criada por Lia de Itamaracá, foi por ancestral não nomeada.

História. E Bashô, François Villon, Vergílio, Dante, valha-me deus, eram homens bons? Grandes, tudo bem, mas bons?

Na coisa toda, o que me enche os pacovares, é essa grande lista de homens, como se toda a cultura fosse criada apenas por homens e homens ricos, poderosos. E Adão gerou Set que gerou Enós que gerou Cainan que gerou Malaleel que gerou Jared que gerou Henoc. Nenhum útero deu sua cara. Nenhum faxineiro, nenhuma doméstica.

Nâo, não estou cultivando feminismos, que devem em minha modesta opinião ser cultivados por feministas. E se mulheres, as feministas, melhor.

Não, falo somente da invisibilidade de algumas personagens e de algumas circunstâncias. E da História e de sua grandiloquência.

Então, sendo a História muito mais do que bustos de heróis enfileirados, por que não enfileirar uma coleção de coisas miúdas, cotidianas? A História no diminutivo?

Oremos.

E vamos aos microfatos:

Já notaram que as pessoas eram magras e esbeltas nos filmes dos anos setenta e mesmo oitenta? Para não falar das décadas anteriores? Menos fast food, menos dietas esquizofrênicas e mais comida caseira, imagino. História.

E assistir a um documentário como Doces Bárbaros e se maravilhar com os Baianos de plástico, maleáveis, rodopiantes, de quarenta anos atrás? Distinguir os maneirismos de uma época: gente assumindo cultuar religiões afro-brasileiras (e não se diga que nada mudou. Hoje será considerada vulgar a pessoa vulgar que o admitir, já que rodou a História junto com a Lusitana e voltamos à Idade Média).

Doces Bárbaros. Gente com pouca roupa no corpo, esparramada em tapetes, almofadas, espreguiçando-se como felinos (o tempo hoje é de urgências, velocidade. O tempo hoje é dinâmico e as pessoas são dinâmicas, dúcteis, urgentes e velozes demais para caberem em almofadas).

Doces Bárbaros. Gal, Bethania, Gil e Caetano. Toda uma série de músicas com temas afro, roupas e adereços com motivos afro, árabes ou indianos. Havia leveza ali. História.

E Betty Davis apagando seus cigarros em um prato no restaurante? Eu vi o filme e estranhei a cena. Não estranharia há alguns anos. Fosse hoje, Betty seria expulsa do lugar, acompanhada por um coro de faces desaprovadoras deplorando sua abominável conduta. História.

E ouvir a música brasileira, dita de vanguarda, dos insossos anos de 1970 a 1980? Uma delícia de estranhamento, com aquela metalinguagem que originalmente fora um meio de driblar à censura e depois tornou-se um fim em si. Um patois para uso exclusivo da classe média. Confiram Panema Leblon na voz de  Cláudia (hoje, Claudya) ou Com Mais de Trinta, de Marcos Valle. Tão disponíveis lá no YouToba e está tudo lá: juventude banhada em sol e rebeldia de butique.

Enfim, a micro-história, pequenininha, doméstica.

A casa da História é lugar onde os Grandes Homens descansam seus fígados e posam para a eternidade. A casa da micro-história só serve à marginalia, é nota de rodapé.

A História clama. A micro-história não, no máximo emite alguns borborigmos.

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MANUELZÃO E MIGUILIM: resenha suspeitosa

monge

 

Primeiramente, nos comecins, gostaria, não de acautelar aos incautos, mas de os tranquilizar. Não pretendo posar de erudito e as referências cheias de frescuras só tomam dois ou três parágrafos e se houver alguma coisa em inglês não se impressionem, que o inglês é língua de índio de filmes como bem sarrava Tom Jobim, que privava com os nativos, os anglófonos.

Então, vou no levinho, na maciota, no sapatinho. Prometo.

Bem, começo.

De Guimarães Rosa queria falar, ao sabor da cachaça, a propósito de um deslumbramento meu por conta de uma obra sua.

Manuelzão e Miguilin começa com citação de Plotino, filósofo neoplatônico do século II: “Num círculo, o centro é naturalmente imóvel; mas, se a circunferência também o fosse, não seria ela senão um centro imenso”.

Não há indicação ou referência da citação a Plotino, mas acredito que possa ser localizada no Segundo Tratado, Enéadas, no item primeiro do Circuito dos Céus. Minha referência vem de Great Books of The Western World, Plotinus, em uma edição sebenta, de capa dura, que tento manter longe das traças.

Há também uma citação de Jan van Ruysbroeck, chamado “o Admirável”, um místico belga do século XIII: “Vede, eis a pedra brilhante dada ao contemplativo; ela traz um nome novo, que ninguém conhece, a não ser aquele que a recebe”.

Não localizei a referência.

Todo esse introito aí é só para lembrar que João Guimarães Rosa era um monstro, “caba virado no capeta, transfigurado no setenta e metamorfoseado no Jiraya”. Sabia brincar não, o mineiro. Poliglota às próprias custas, aprendeu suas doze línguas de seu próprio labor, sem nenhum “Yázigi”, “Cambridge”, qualquer escola ou o escambau.

(Obrigado, Plínio Marcos, pelo “escambau”).

Pois bem, esse João Rosa aí era leitor das antiguidades, das gnoses, das filosofias, das místicas e tudo o mais. E como não sabia brincar, deu à luz, pariu a maravilha que é Manuelzão e Miguilim, que sempre releio ante um oratório, vestido de sacos, com cinto de pregos, em piedosa penitência.

São duas novelas, Miguilim primeiro e Manuelzão depois.

Pois, ora, vejam bem. Miguilim é um texto que consuma a ambição maior de todo escritor, que é conseguir dar voz a um outro. Um outro totalmente diferente dele, o que escreve, um outro vivendo em outro universo. No caso, uma criança, o Miguilim.

No texto, o mundo só é mundo através de Miguilim. Miguilim é narrado e narra. Narra aquelas coisas que nós, que já fomos crianças, sabíamos e depois esquecemos. As pequenas coisas, os detalhes, o miudim que falam do cosmos e Deus e da vida e da morte e do mistério.

O conto começa com Miguilim em viagem, com seu tio Terêz, voltando para casa, no Mutum. E no Mutum chovia sobremaneira e a mãe de Miguilim se condoía, sofria com a chuva onipresente.

O texto descrevendo a dor da mãe de Miguilim se torna úmido, escuro e nós conseguimos o milagre de partilhar a dor da existência da mãe de Miguilim.

Mas então Miguilim vem de viagem e traz um presente para a mãe. Um presente que lhe adoça a boca e o faz feliz por antecipação. Ora, e não é que um estranho tinha a dito a Miguilim que o mutum era um lugar bonito?

Então é que Miguilim traz o dito e pretende fazê-lo de presente à mãe. A mãe, quando ouvisse essa certeza, havia de se alegrar, ficava consolada.

Não riam, vocês já trataram com o invisível, com os átomos das coisas quando eram crianças e sabiam de seus altos valores.

As pequenezas, os quase não vistos, são esses os materiais que tecem a trama que cria e sustenta a eternidade e Miguilim é deusinho particular que os reúne.

Já Manuelzão é de outro naipe, o oposto.

Ali é a vida, os acontecimentos são apresentados virados em longas e intermináveis sequências, como uma boiada passando e passando e passando.

Manuelzão é vaqueiro, já idoso, com a vida repleta de lembranças, sejam mágoas, sejam alegrias.

E no inverno de seus dias se estabeleceu, montou o seu sítio em área inculta, trouxe a mãe, velhinha, e o filho que o odeia (e Manuelzão sabe).

E ali Manuelzão erigiu uma capela, a fez consagrar.

O conto é sobre a festa promovida por Manuelzão para a primeira missa na capela, dedicada à Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.

Acorrem todos, moradores da região, os poderosos e os loucos.

O conto, circular, talvez mais pra helicoidal, foca em Manuelzão e daí discorre, se espalha, colhe sensações, desce ao íntimo das pessoas e volta para o exterior e sobrevoa a procissão da santa em andamento.

Trata da intimidade dos bois com o mesmo respeito que a dos loucos ali presentes, dos pobres sem qualquer arrimo, das coisas, volta, rodeia e torna a Manuelzão e assim, em circuitos que se repetem.

A imagem no altar sorria sem tamanho e desajeitada, uma Nossa Senhora feia…Manuelzão, ali perante, vigiava…blocos de cristais de quartzo róseo ou aqualvo…mesmo tinha viajado de vir ali, estúrdio, um homem-bicho, para vislumbrar a festa! O João Urúgem, que nunca ninguém enxergava no normal…passou-se resvés de um curral, donde se escutava o sopro surdo dos zebus, o bater de suas imensas cartilagens.

E a procissão caminhando, ladeira acima, no corpo da noite, a dupla fila de gente, a voz deles, todos adorando o que não viam.

Não atoamente o nosso João Guimarães Rosa nos dá o mote, a pista, ao citar o filósofo e o místico na epígrafe em seu opus, em seu par de romances alquímicos. Rosa nos adejou a mão, moveu o lenço em saudação (e creio que sorriu).

Manuelzão e Miguilim: um dos poucos e vicinais textos metafísicos de nossa novel literatura. A vida, o Ser, o mistério, está tudo lá.

Tremo em deferência, com matizes de biliosa inveja.

 

P.S.: Manuelzão existiu de fato, talvez não tão completo e no exato.

 

 

MUNDO, MUNDANO MUNDO.

ELEPHAS PRIMUS

 

Tudo é uma questão de escrever sem ter nada para dizer. Agora, arte mesmo é não dizer nada e escrever muito. Tipo eu, sujeito comum, péssimo bebedor de cerveja, opiniático e asqueroso. Tipo eu, aqui, bestando. Usando uma régua de cinquenta centímetros para coçar a frieira e pensando. Bestando. E pensando que tudo é uma questão de escrever sem ter nada pra dizer. De um tudo.

SOBRE A POESIA E OUTRAS EXCENTRICIDADES

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ANDERSON ANDRADE – DeviantArt

 

Para Mariana, a Gouveia. Arqueóloga de quintais, geógrafa afetiva e tecelã de ritmos.

 

 

Quando era eu ainda um petiz (adoro esta palavra tão antiga dos meus primeiros livros de escola); bem, quando era ainda um moleque, me apresentaram à poesia. Primeiro com meu pai, devoto de cordéis e depois se acomodaram na sala os parnasianos e aí ouvi a música de Bilac e Castro Alves, suas palavras encorpadas, as rimas feitas de matéria diáfana, mas densas, como trovões.

Começo de novo, a poesia.

Bem, amigas e amigos, a poesia para mim que começava eram só as rimas. Não conseguia conceber o poetamento sem a mágica das rimas. Poema para mim, nos começos começantes, eram os rimados.

Na época, todos concordavam comigo. Todos os habitantes do meu mundo social tinham isto claro e soberano: poesia sem rima não era poesia. Daí que desprezavam as poesias não rimadas como imperfeitas, dignas de riso.

Eram os setenta e os oitenta em toda sua falta de glória.

Então, como na canção, se passaram os anos e eu consegui, com certo sucesso, sair do nicho onde me gerei e conheci a outras formas: primeiro os versos brancos, depois os Oswalds e Mários de Andrade, as Cecílias e a Túnica Inconsútil de Jorge de Lima. Depois, os concretistas, as tentativas de tradução de haicais, os franceses, Octávio Paz (e os arcos e as liras de Octávio Paz), Drummond.

Foi aí que eu percebi o que de fato me atraía na poesia. Não eram as rimas. Gregos e romanos, chineses e persas e árabes não rimavam. Mais que tudo, percebi que era o ritmo.

Uma coisa que o poeta mediano não percebe, embora todo poeta, medíocre ou genial, mereça o cognome grandiloquente e vazio: Fulano, o poeta.

Sempre acompanhei com carinho as seções de poesia de pequenos jornais de cidades, os jornais de classe, as revistas de ocasião, onde Beltrana e Beltrano se faziam publicar. Como não entendiam de ritmo, cometiam seus poemas com aquela qualidade que nos trazia a nós, leitores, um pequeno incômodo em nosso ouvido interno.

Mas eram poemas e eu apreciava seus esforços. Ainda aprecio. A única medida sendo se eram honestos ou não em seus esforços.

Houve mesmo uma evolução no gosto médio dos poetas médios. Nos anos setenta e oitenta (e sem dúvida nas décadas anteriores que não vivi) preferiam os meus adorados medianos às rimas, depois perceberam não ser pecado soltarem as suas palavras das grades da metrificação.

Só não percebiam que com rima ou sem rima, os poemas reclamavam uma forma, um andamento, uma pulsação.

Não obstante, minha régua não mudou: honestidade. Sem honestidade não há o poema e, suspeito, nem a prosa e nem o texto. Não estou falando da verdade, estou falando de coerência. Um signo tem que responder a outro signo, um tom a um outro tom.

Exempli Gratia, a música. A música também não pode prescindir da pulsação, do andamento, embora sejam outras, as pulsações e andamentos da música, por existirem dentro de outra pulsação e andamento mais poderosa, imperiosa, que é feição e a necessidade que fazem da música, música.

Você pode ouvir a uma peça serial de Schoenberg ou Alban Berg; a Jackson do pandeiro ou a uma música introdutória em peça do teatro Nô; a Ravi Shankar; a Elis, ao hip-hop, ao funk, ao sertanejo, enfim. E lá você vai reconhecer a música, o balanço e vai saber no ato se está tratando com um criador honesto.

Se não, você vai sentir o ruído da máquina, cada vez mais presente e só.

Também assim com a poesia. Parece ser uma questão não do acorde, mas da mão que dá vida ao acorde. Parece ser uma questão não da palavra, mas da boca e da mão que se preocupa com, em conjugar, em tornar harmônica a palavra e o espaço em branco entre as palavras.

Não é vazio o espaço entre uma palavra e outra palavra. Talvez nem seja branco, mas está lá.

E era só o que eu tinha a escrever.

Em outra ocasião, reinventaremos a roda. Aguardem.

 

DIRETO COMO UM CONFESSOR, O CORINTIANO VOADOR PREGA SOBRE A VAIDADE. A SUA.

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Alegoria da Vaidade – Antonioi de Pereda

 

Dia destes um bom amigo me trouxe o balsâmico conforto de uma alisada na fachada torpe de minha vaidade: “li lá o teu último texto, lá do blogue. Viu, não pense que não leio o que você escreve, não”.

Bom e fiel amigo, (e ao escrever isto sinto uma coceirinha mental, uma vontade de reler o parágrafo sobre o amigo discursando a beira do túmulo de Braz Cubas. Obrigado, Machado de Assis. Não tem nada a ver com você, amigo).

De qualquer maneira, também em outro dia destes (na verdade, foi em outro ano destes, mas não resisto às dualidades fáceis); bem, como dizia eu, em outro e pretérito “outro dia destes” ouvi, desta vez não de um amigo, mas tão somente de um, vamos dizer assim, colega temporário de percurso, outra alisada no meu ego: “rapaz, li lá o teu blogue. Cê escreve umas coisas do caralho! Muito bom! Não entendi a maioria das coisas lá, mas achei, olha, fodaço! ”.

Obrigado, bom e fiel colega de percurso.

Os parágrafos acima vieram a propósito de um tema que me é caro: a vaidade.

Mais especificamente, a minha.

Minha reação aos comentários dos dois, o amigo e o colega, como foi? Uma pergunta candente que ninguém fez, mas o meu ego inflável e profissional providencia.

Então, como foi?

Bem, é com a alma em transe e coração em frangalhos que digo: foi nada. Não senti nada, nem o proverbial efeito balsâmico da alisada no ego (e olha que eu tenho um daqueles egos bem grandes. E tanto que é quase translúcido, uma espécie de superquindão (sabe o quindão, o doce?)).

Ainda não analisei a fundo minhas razões, mas sei que as tenho, as minhas razões. O que me falta é somente a peruca, digo, a análise.

E então aqui estou, o moço que mantém um blogue onde escreve sobre cordelistas e juristas que foram a Marte; sobre traficantes de drogas que se expressam em português arcaico; que faz uso da melhor pedagogia de idiotas para ensinar como transformar a incompetência em arte; que comete uma pequena biografia de Satanás; que faz resenhas de livros obscuros (quanto mais obscuros, melhor) ou de livros inventados; que escreve sobre mordomos que se transformaram em mandatários da nação; que comete poemetos rimados só pelo pueril prazer de introduzir palavrões nos poemetos rimados (defeito meu, adoro contrabandear “cus” para um poemeto parnasiano).

Enfim, eu. O moço que adotou este esquisito nom-de-plume: Corintiano Voador.

(Nom-de-plume. Não esperavam esta, não? Cachorro de homem culto, eu!)

E porque, perguntarão? (Ninguém perguntou, eu sei, mas a porra do meu ego, etc., etc…).

Bem, como já informei a uma simpática blogueira aí, tem nada a ver não. Poderia ser Atleticano das Alturas ou o Flamenguista Alado, mas acontece que sou corintiano. Então é uma questão de coerência.

Bem, na verdade verdadinha informo que o adjetivo Voador vem de minha infância querida que os tempos não trazem mais. Ocorre ou melhor, ocorreu, que em meus anos de meninice eu adorava ler os quadrinhos do Fantasma, lembram, aquele que andava com o cachorro Capeto e era eterno noivo da sempre virgem Diana Palmer?

Pois bem, quando de suas primeiras publicações em jornais aqui no Brasil, por alguma razão que desconheço, os tradutores insistiam em chamar ao herói de, ói só, de Fantasma Voador.

Aquilo ficou na minha cabeça. Como eu soube? Oras, além de fanático quadrinheiro era eu também um obsessivo de escol, modos que fui às fontes.

E assim foi que os anos passaram e quando uns amigos de bar tropeçaram na ideia de criar um blogue para nosso gáudio e divertimento, adotei pela primeira vez o gentil pseudônimo. Se calhar, ainda está por aí, o espectro digital de nosso finado blogue.

Sim, sim, tem ainda a história de minha vaidade.

Ela vai bem, obrigado.

UM CAUSO, UMA REFERÊNCIA SAUDOSA (ONDE O AUTOR RELEMBRA UM JOGRAL DE SUAS RELAÇÕES)

St George and the Dragon Sidney Harold Meteyard (1868 –1947)

St. George and the Dragon – Sidney Harold Meteyard

 

Meu pai, homem de bem, era devoto de cordelistas e do cordel. Tinha apreço pelas histórias e amava aos contos de cavaleiros e donzelas sonhosas (Ariano Suassuna falou de um donzel sonhoso no Romance da Pedra do Reino).

Modos que meu pai era por gosto e profissão um medieval.

Grande contador de histórias, soberbo mesmo, nos narrava toda noite uma gesta qualquer, grandiosa e solene.

Me lembro do conto da princesa no castelo situado no meio de uma ilha, situada a ilha no meio de um grande lago, no qual havia um castelo com setenta e sete cômodos, em um dos quais se encontrava prisioneira a princesa. A mesma princesa, claro, que seria resgatada pelos quatro irmãos.

Aqueles, os fabulosos, que por viverem em extrema pobreza decidiram abandonar a casa paterna e a fome e a clássica miséria. E saíram em madrugada fria e desesperançada para o mundo e separaram-se ante a estrada que se subdividia em quatro caminhos.

E cada um escolheu uma senda, onde a cada um caberia aprender um ofício e se tornarem, nele, mestres. E marcaram um encontro para dali há dez anos (meu pai gostava de prazos certos e era fiel a seu ofício de jogral).

E todos os irmãos, fiéis que eram (meu pai os plasmara com cuidado) se apresentaram ao encontro marcado, ocasião que o irmão mais velho determinou que todos informassem a profissão que haviam aprendido.

E foi onde o irmão mais novo disse que aprendera a ser um arqueiro (meu pai o chamava o “brechador”); o segundo, um adivinho (meu pai o chamava o adivinhão). O terceiro um soldador (nunca entendi bem, talvez uma interpolação de meu pai em consideração à modernidade do industrial século vinte). E, vejam só, ao irmão mais velho coube a ocupação de ladrão.

Não obstante, a filha do rei fora raptada pelo perverso Dragão do Mal (que meu pai chamava de a “serpente”).

E compareceram ante o rei, que os convocara, todos os bravos do reino para a porfia suprema de lhe restituírem sua filha, a princesa, sendo prometido o de praxe: fortuna aos valorosos e casamento com a infanta.

Os irmãos, vejam bem, meu pai dizia, eram os mais pobrezinhos, não eram ricos e nem poderosos e nem nada de nadinha de nada. Mas aceitaram o desafio.

Evidente que todos o nobres enfatuados morreram todos na empreitada, fritados de modo desairoso pelo perverso dragão.

Somente sobraram os irmãos pobrezinhos para a tarefa. E para cumprir a demanda foram os irmãos, meu pai contava, ao campo de prova de honra e morte.

Chegaram ao lago, tomaram um barco e atravessaram ao lago.

O adivinhão adivinhou a localização do quarto fatídico onde encontrava-se a jovem; o ladrão, por artes sutis de ladroagem, furtou à chave do quarto que estava na boca do dragão que dormia o sono negro de dragões maldosos em toca soturna.

E recuperaram os irmãos à jovem e tomaram o barco; o dragão  os perseguiu e furou ao casco do barco com um jato de sua chama; o soldador selou ao casco (relevem…) e, finalmente, foi o dragão morto pela seta certeira do arqueiro.

E pronto.

Entretanto, a delícia do conto é que, tão logo entregaram os jovens a princesa ao rei, fez este com que ela se casasse com o mais jovem dos irmãos, em casamento grandioso cuja festa durou sete dias (meu pai gostava dos números cabalísticos).

E então, o mais importante: meu pai nos contou (e não tenho porque duvidar de sua palavra) que meu avô chegou a participar da festa e, inclusive, levou um pedaço do bolo de casamento consigo.

Mas aí seu cavalo corcoveou e o bolo caiu no chão.

Pena.

Sempre me esqueci de perguntar a meu avô qual era o sabor da guloseima.

Papai era meio vago sobre o assunto.

SOBRE MENTORES, MESTRES ESPIRITUAIS E AJUDANTES DE PEDREIRO

PINGA

Começava eu na carreira de homo sapiens e conheci a dois filhos-da-puta: o judeu do mal e o padre russo do mal. Ambos moradores do bairro do Ipiranga, na cidade hoje conspurcada de São Paulo. Onde, aliás, nasci.

Um não sabia do outro, mas eram duas putas véias que pensavam do mesmo jeito. Me disseram.

A mim, a minzinho mesmo. A este vosso criado!

Disseram: seja homem!

E disseram: Eu sei que é difícil, você pode não estar acostumado! Mas tente parecer com um homem!

Em verdade queriam dizer: seja digno! Tenha verve! Mas a época era de machismos diversos.

Modos que. Então. Modos que (entendi somente muitos anos depois: não acredite no sábio e nem em seus escritos e nem nos escritos do pequeno babaca que emula o sábio e nem na revista e nem no jornal e nem no sacerdote e nem no juiz justiceiro e nem em justiceiro algum e nem no jovem lutador pela justiça e nem no blogue e nem na puta que vos pariu).

Disseram-me. Disseram-me… só o básico. Disseram-me, mas não me aconselharam, pois que eram dignos demais para coisa tão primária.

Só me sussurraram: desconfie do sábio, do herói e do douto.

Seja uma puta desconfiada, me disseram!

Inventarei dois nomes para os dois: Ilya e Eliahu.

Obrigado.

Aos dois. Um minúsculo e elétrico. O outro enorme, e calmo como as marés.

A ambos eu agradeço.

E sei que ambos riem de minha tolice.

 

 

 

 

DO TRATADO DOS VERMES

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Irmãs e irmãos.

Vejam que coloquei antes, as damas. Me deem seu gáudio e elogios diversos.

Mas, irmãos e irmãs.

Nunca me esqueço que em épocas de exceção, é preciso se posicionar contra o rei e às teses do rei. É preciso.

Nunca me esqueço que Sobral Pinto, advogado, em tudo e por tudo discordando de Luís Carlos prestes, comunista e ser do mal (como diziam à época) ainda assim o defendeu.

Nesta época de pessoas bonitas, feitas de bonitezas, como o cavalheiro de Curitiba, o moço ungido por pastores. Nesta época, quero ter a verve de discordar do tempo e da forma como se desenvolve a flora e a fauna.

Sei lá se vou ser entendido. É um tempo de metalinguagens.

Mas…fede o tempo.

Não fede?

SOBRE A ANTIGA E FECUNDA ARTE DE NÃO SER UMA PESSOA DO BEM

 

Anjo da morte

 

Sei que todos me acharão superficial e tolo. Dirão, é tão fácil a pessoa não ser uma pessoa do bem! E aí vinde vós e dizeis que nos ensinareis sobre como ser um crápula. Ora, ora. Homessa!

Mas não, peço que me empresteis vossos ouvidos ou vossos olhos. Todo caso, dai-me vós o benefício da dúvida.

Ocorre que não sabeis o que é ser do mal, sois amadores. Achais que é só garatujar a sangue e fogo uma frase na testa de d´algum pequeno ladrãozito? Achais que é só mastigar e decepar o artelho de alguém de quem não gostais?

Tolos!

Amadores é pois o que sois.

Não ser uma pessoa do bem é mais do que perpetrar pequenas covardias para o gáudio de outros tantos pequenos covardes.

Não ser uma pessoa do bem exige mais! Exige comungar com Satanás e com Deus ao mesmo tempo. Exige ser bom para extrair o mais fino licor do mal, na bondade.

Exige mais do que ser apenas um Adolph Hitler qualquer, pessoa inculta (porque não tornada adulta), escrevendo mal e porcamente um Mein Kampf.

Exige mais, vos digo.

Para que se torne alguém uma pessoa que não é do bem se exige entranhas sólidas, ancoradas no mais profundo vazio.

Exige que a pessoinha do mal se creia boa e dona de verdades! Enfim, é um processo.

Sede então bons e propagai a bondade!

E, por favor, fazei por bem crer que sois o sal da terra.

E a arte de feder até os céus será toda vossa.

EU ME LEMBRO II

RAPOSA VOADORA

 

 

Nos anos oitenta fui o que depois batizei de “comunistinha legal” ou, se vos agradar, o “comunistinha joinha”. De qualquer modo, um comunistinha. Fui levado, é claro.

Meu cooptador foi o mordomo das esferas, o príncipe, o meu querido EBS. Ainda vivo, embora velhusco. Diabos, eu estou velho! As juntas estalando e eu ainda aqui, cuidando da prole e tentando por comida à mesa.

Mas então, “comunistinha legal”. Eu.

Foi uma época fecunda os oitenta, modos que me incomodo com os tempos atuais por exsudarem, vez por outra, um perfume parecido, mas que é só fedor, que os perfumes envelhecem.

Na época, percebia já que a meus colegas comunistinhas faltava senso de humor. Preferiam o velho Karl Marx, com sua cabeçorra preocupada, se inclinando sobre os manuscritos a Jenny von Westphalen ou Jenny Marx, a esposa, que fora uma mulher muito, mas muito bonita.

Preferiam o bom Engels, o pensador, parceiro de Marx, o velho Nick, e esqueciam de Engels, filho de um burguês rico, administrador das empresas do pai na Inglaterra e amante de sua criada.

Digamos que eles viam os escritos e a história e eu preferia o rés-do-chão, os pequenos defeitos e tudo o mais.

Primeiramente, é com certo pudor que informo que meus colegas comunistinhas não liam as bíblias marxistas, mas comentavam assaz.

Segundamente, eu tinha a impressão de que qualquer pessoinha, qualquer serumaninho, poderia fazer a história, mas precisaria perceber que no meio tempo conviria ficar pelado com outra pessoa também pelada, fazer e ler algum poema, beber uns tantos fermentados e destilados e, na miúda miudinha, fazer também a tal da porra da história.

Revolucionário, né não, John Lennon?

Muito estranhamente não me bandeei para o lado direito das coisas, depois dos anos passados, e continuo, me sinto, ainda meio demoníaco, achando o mundo um lugar interessante, achando as pessoas ainda interessantes, mas sempre sentindo o ruído da máquina cada vez mais alto, quase ocultando a conversa no sarau.

A época, é claro. Queria falar da época. E do mau-gosto e dos tempos e das pessoas e da velocidade.

Do modo cego, automático, com que nós todos corremos para ocupar um círculo qualquer no inferno.

Queria, mas falo não.

Volto aos inícios iniciais começantes: eu fui um comunistinha legal e joinha, enquanto também trabalhava como o proverbial garçom no bar lá, da moda.

E confesso, quando me pediam os bons pensantes vodca Wiborowa ou Absolut, eu colocava mesmo era a Vagabundoyeva ou a Esculachakova, que foi como batizei à podríssima vodca “coquinho”.

Minha vingancinha bobinha de comunistinha: sabia que os bons pensantes, os meus irmãos comunistinhas, iriam um dia crescer em riqueza e glória. Vaticinava mesmo que acabariam como comensais dos pequenos ratos morais, os grandes da pátria.

Então à sorrelfa, lhes servia lixo líquido.

 

E como eles bebiam!