Olha pro céu, Frederico

Hoje de manhã, saindo para a labuta, olhei para o céu. O que vi? Reparem que eu estava olhando para o céu, o firmamento, lar dos justos, obra magistral do pincel do Criador (pincel, não caiu bem…), bem eu falava do céu, e foi hoje de manhã, eu saía para a labuta e olhei para o céu. O que vi? Bem, nadra….olhei e, melhor ser franco: vi porra nenhuma. Então, foi isso. É fodra!

Cachorra de imagem espiritual essa, hein?

Cachorra de imagem espiritual essa, hein?

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E O CORINTIANO SE DESESPERA E APELA, O POBREZINHO

OMULU DA PRAGA

 

Eu não me desespero, juro! Nem fico muito puto, só um pouco cabisbaixo, um tanto meditabundo, borocoxando em lamentos gemedores.

Já passei por tal, por isto e agora e por isso mais e mais acolá e, certamente, por aquilo que nos espera logo ali, mais adiante, na esquina.

Vocês aí, de novo, hein? Conspícuos como uma novela televisiva  e tão inteligentes como.

Pois é, os intuí, os pesadelei deveras. Vocês, os devotos de Jarbas. Vocês, que numa peça Shakespeareana qualquer jamais poderiam inspirar, e nunca, nunca seriam sequer um Yorick, a caveira do Bobo.

(Obrigado, Senhor, por não me fazer um crápula de toga ou um vendido de terno).

Vós.

O Bobo era só um bufão, afinal, um afim de Groucho Marx (eu disse Marx? Cruzes!), um cavalheiro cercado pelo que de melhor há, havia e, Deus permita, o que de melhor haverá de sempre florescer no espírito humano.

A caveira do Bobo, do Bobo Yorick, foi seu último, maravilhoso, teratológico cartão de visita, aí do meu chapa de Stratford-Upon-Avon.

Aí, filho-da-puta!

(Thank You, Bill!)

E, convenhamos, Shakespeare tinha respeito pelos Bobos, confiram lá no Rei Lear.

Ser ou não ser.

Não me desespero, eu disse? Verdade, dou de pronto que não me acreditem, mas juro.

Juradinho!

Só me aborreço.

Mas, então, por conseguinte, vamos lá. Vamos de novo ao antigo, à farsa medíocre mais uma vez em preparativos. Retiro a capa cheia de traças e coloco a mão no meu velho caralho, em desafio.

(mulheres, coloquem as mãos em vossas velhas e jovens bucetas lutadoras, também em desafio).

(viadas, coloquem as mãos em vossas velhas e jovens bucetas lutadoras, também em desafio).

(viados, coloquem as mãos em vossos velhos e jovens caralhos lutadores, também em desafio).

Mas antes de tudo, sobressaiam nossos cus…!!!

Tá, eu sei que nosso peido é fraco, mas o cheiro, amigos, o cheiro…

 

 

 

 

REVELAÇÕES

ANGELITA

 

 

Pouca gente sabe, então aí vai a verdade: Angelina Jolie é pernambucana de Agrestina, distrito de Barra-do-Chata.

É, é verdade.

A pequena Angelita Maria Bezerra nasceu no aprazível local e foi adotada, aos quinze anos, pelo casal dinamarquês Lars e Ulrika Sigbjorsen. Levada aos Estados Unidos, com muito afinco desaprendeu o português nordestino de sua infância e viciou-se no inglês.

Nunca mais disse “Bobônica!” ou “Febre do Rato” ou “Moléstia dos Seiscentos Diabos”. Nunca mais também tapioca, festas juninas, catar pitomba. Outra vida.

Depois da morte do casal Sigbjorsen, dois anos depois, foi adotada por Jon Voight, que, aliás, é cearense do Crato e emigrou para a terra do Tio Sam na década de sessenta ou cinquenta…se me esqueço.

POEMETO DE UM HOMEM CANSADO

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L´INCENDIO DEL SOLE – By l_e_n_t_e_s_c_u_r_a – DeviantArt

 

E então acrescento todos os meus dias!

Feios que sejam, penserosos, fundos.

E então acrescento todos eles, os meus ais,

Meus microscópicos momentos e significados

E me traio em tons de medo solidificados

E me distraio com pequenas dores de algo mais,

E me comprazo com o passar silente destes dias

Como se o mundo fosse lodo, lodo os mundos

Como se a tarde fosse peregrina e tudo

Como se ao final de tudo o mundo só restasse, cru

A minha estrada peregrina costurada ao sonho

A todo transe da manhã que me desperta nu

A todo estar, a todo êxtase, a todo estase mudo

A todo choro, a todo riso e o sentir bisonho

Como se a vida, densa, em dó, dúctil e indócil

Conspirasse ante meus olhos, à mais triste revelia

Como se o rosto meu já vincado e absorto

Como a esperança tola, a lágrima, fosse um porto

Como se fosse o tempo e a vida nada mais que tempo

Como se fosse o caos um meu compadre torto

Como se o dia, os ais, as dores, as dores e o momento

Como se o tempo…

Poemeto para um dia histórico

formula of autocracy michel cheval

Formula of Autocracy – Michel Cheval

 

Ai de ti, Curitiba, já foste tão bela, modernosa

Hoje és província, quintal de bacharéis

E todo caldo malcheiroso que a toga entorna

E toda a verborragia oca nos papéis

 

Ai, Curitiba, tu não merecias, bela como és

A hospedagem de tão triste sina,

Atravessando este dia de través

Não és mais palco, és latrina

 

Ai, Curitiba, se maldade mais há que regre

De roldão levaste Porto Alegre

Sobre Ezra Pound, um poema de Ezra Pound e uma tentativa de Tradução

Michael Cheval - Division of Prime Cause

Michael Cheval – Division of Prime Cause

 

Ezra Pound publicou seu poema The Alchemist: Chant for the Transmutation of Metals em 1920 (Collected Early Poems of Ezra Pound), com uma nota dando a entender que dele havia uma primeira versão, não publicada, em 1912.  O poema sempre me fascinou pela sua economia, no sentido da justeza como suas partes se fundem em harmonia, como pelo seu tema.

É tanto um canto quanto um mantra, escreveu Timothy Materer em seu ensaio Ezra Pound and the Alchemy of the Word.

Desconheço se há outra tradução em português.

Todo caso, é poema difícil pela matéria que traz, a alquimia. Pound tinha cultura enciclopédica e assim o poema oferece diversas dificuldades, como por exemplo o verso “Under night, The peacock-throated”. O pavão, em termos alquímicos, representa tanto a retorta onde o alquimista calcina e revolve, cauda pavonis, como também a sua cauda é uma metáfora para a aurora. Assim garganta-do-pavão é uma metáfora para a noite.

Do mesmo modo, “larches of Paradise”, literalmente seria os “lariços do paraiso”. Um opção pomposa (lariços, um tipo de pinheiro, só faz sentido a leitores de climas temperados) que preferi omitir, optando pelo genérico “pinheiro”; quando não pela possibilidades aliterativas de PI-nheiROS e PA-RAI-sos.

E ainda, as citações-invocações de damas com nomes de sabores provençais tirados da literatura cortesã medieval, Saîl of Claustra, Aelis, Azalais, Raimona, Tibors, Berangèrë, figuram como se o poeta as estivesse conclamando às invocações para as operações alquímicas. São também um símbolo para a figura onipresente da donzela, tão cara ao cancioneiro da época (Midonz, evocação presente no poema: contração do provençal para “minha donzela”).

Tentei, no melhor dos possíveis, manter os jogos fônicos originais, no que fui, admito, pouco feliz. Então, vejam que há soluções que não se traduzem na fidelidade fiel e canina, pois que ao contrário a mim parecem que seriam traições à intenção original e talvez grandes traições. Modos que prefiro as traições menores. Assim, transcriei com a safadeza que se me acudiu para preservar a harmoniosa escansão do original. Sempre lembrando que as línguas têm ritmos próprios, diferentes, e nós (de quando em quando e com sorte) podemos até conseguir reproduzi-los, em outro eco.

Se chegarmos a tanto, se conseguirmos, é toda transparência que nos cabe, é toda ambição que nos é possível.

Dito isto, sem modéstia mas com cagaço, segue minha tentativa de transcriação do poema.

Vale!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

THE ALCHEMIST

“Chant for the Transmutation of Metals”

Ezra Pound

 

 

Saîl of Claustra, Aelis, Azalais,

As you move among the bright trees;

As your voices, under the larches of Paradise

Make a clear sound,

Saîl of Claustra, Aelis, Azalais,

Raimona, Tibors, Berangèrë,

‘Neath the dark gleam of the sky;

Under night, The peacock-throated,

Bring The saffron-coloured shell,

Bring the red gold of the maple,

Bring the light of the birch tree in autumn

Mirals, Cembelins, Audiarda,

Remember this fire.

 

Elain, Tireis, Alcmena

‘Mid the silver rustling of wheat,

Agradiva, Anhes, Ardenca,

From the plum-coloured lake, in stillness,

From the molten dyes of the water

Bring the burnished nature of fire;

Briseis, Lianor, Loica,

From the wide earth and the olive,

From the poplars Weeping their amber,

By the bright flame of the fishing torch

Remember this fire.

 

Midonz, with the gold of the sun, the leaf of the poplar,

by the light of the amber,

Midonz, daughter of the sun, shaft of the tree, silver of the leaf, light of the yellow of the amber,

Midonz, gift of the Gold, gift of the light, gift of the amber of the sun,

Give light to the metal.

Anhes of Rocacoart, Ardenca, Aemelis,

From the power of grass,

From the white, alive in the seed,

From the heat of the bud,

From the copper of the leaf in autumn,

From the bronze of the maple, from the sap in the bough;

Lianor, Ioanna, Loica,

By the stir of the fin,

By the trout asleep in the gray-green of water;

Vanna, Mandetta, Viera, Alodetta, Picarda, Manuela

From the red gleam of copper,

Ysaut, Ydone, slight rustling of leaves,

Vierna, Jocelynn, daring of spirits,

By the mirror of burnished copper,

O Queen of  Cypress,

Out of Erebus, the flat-lying breadth,

Breath that is stretched out beneath the world:

Out of Erebus, out of the flat waste of air, lying beneath the world;

Out of the brown leaf-brown colourless

Bring the imperceptible cool.

Elain, Tireis, Alcmena,

Quiet this metal!

Let the manes put off their terror, let them put off their aqueous bodies with fire.

Let them assume the milk-white bodies of agate.

Let them draw together the bones of the metal.

 

Selvaggia, Guiscarda, Mandetta,

Rain flakes of gold on the water

Azure and flaking silver of water,

Alcyon, Phaetona, Alcmena,

Pallor of silver, pale lustre of Latona,

By these, from the malevolence of the dew

By these, from the malevolence of the dew

Guard this alembic.

Elain, Tireis, Allodetta

Quiet this metal.

 

 

 

(The New Pocket Anthology of American Verse. Washington Square Press : New York)

 

 

 

 

O ALQUIMISTA

“Canto para a transmutação dos metais”

Ezra Pound

Sail de Claustra, Aelis, Azalais

Como vos moveis por entre árvores de luz

Como vossas vozes, sob pinheiros do paraíso

Fazem soar som cristalino

Sail de Claustra, Aelis, Azalais, Raimona, Tibors, Berangèrë,

Abaixo do escuro fulgor do céu;

sob a noite, a garganta do pavão:

Tragam a cobertura de açafrão,

Tragam o ouro vermelho do bordo,

Tragam a luz da bétula no outono,

Mirals, Cembelins, Audiarda,

Façam recordar este fogo.

 

Elian, Tireis, Alcmena,

Em meio ao sussurro de prata no trigo,

Agradiva, Anhes, Ardenca,

Do lago em cores de ameixa, em quietude

Do Matiz derretido da água

Tragam o calcinado gênio do fogo,

 

Briseis, Lianor, Loica

Da Terra em amplidão e da oliva

Dos choupos chorando seus âmbares,

Pela brilhante flama de lanternas de pesca,

façam recordar este fogo.

 

Midonz, com o ouro do sol, a folha do choupo, pela luz do âmbar,

Midonz, filha do sol, seta da árvore, prata da folha,

Luz do amarelo do âmbar,

Midonz, dádiva do deus, dádiva da luz, dádiva do âmbar, do sol,

concede luz ao metal.

 

Anhes de Rocacoart, Ardenca, Aemelis,

Do poder da relva,

Do branco, vivo na semente,

Do calor do broto em florescência,

Do cobre da folha no outono,

Do bronze da bétula, da seiva no galho,

Lianor, Ioanna, Loica,

Pelo mover da barbatana,

Pela truta adormecida no verde-cinza da água,

Vana, Mandetta, Viera, Alodetta, Picarda, Manuela

Do fulgor rubro do cobre,

Ysaut, Ydone, leve sussurrar de folhas,

Vierna, Jocelynn, ousadia de éteres,

Pelo espelho de cobre calcinado,

Ó, rainha do cipreste

Ao largo do érebo, a plana largura,

Cujo hálito dilata-se abaixo do mundo:

Ao largo do érebo, ao largo da planura deserta de ar,

deitada abaixo do mundo;

Ao largo de folhas incolores castanho-pardas,

Tragam o imperceptível frio

Elain, Tires, Alcmena

Apazigüem este metal!

Extraiam os manes de seu terror, extraiam-nos

Seus aquosos corpos com fogo.

Façam-nos assumir os branco-leitosos corpos de ágata.

Façam-nos extrair os ossos do metal.

 

Selvaggia, Guiscarda, Mandetta,

Chuva de flocos áureos sobre a água

Cerúlea e floculada prata da água,

Alcyon, Phaeton, Alcmena,

Palor de prata, pálido lustro de Latona,

Por isso, da malignidade do orvalho,

Resguarda este alambique.

Elain, Tireis, Allodetta,

Serenem este metal.

 

A proverbial postagem de fim de ano

frios

Autoretrato de Marcelo, o Moreira – by Marcelo Moreira (com permissão do autor)

 

E então temos aí 2018, na curva, dá pra ver?

Tá logo ali, chegandinho.

Tá, 2017 não foi o melhor dos anos, mas imagino que 1929, 1964 devem ter sido anos do mesmo naipe.

Basicamente, um ano medíocre no qual os medíocres prosperaram. Um ano de ódios, propício ao atropelamento de mendigos e ódios diversos, às mulheres, aos não-héteros. Um ano inesquecível para juízes lindos, promotores lindos, policiais lindos. Nos quais, aliás, não votei, embora eles insistam em, em…bem, eles insistem.

Ano em que escrevi minhas babaquices habituais, recheadas de alusões, com muito conteúdo místico, com patrulheiros do tempo que ressuscitei e com menção quase sempre contínua do tempo, que me fascina, e dos tempos, que me aporrinham.

Eu, o escrevinhador.

Um ano em que reli a bíblia somente para renovar minha descrença.

Um ano em que li poemas diversos, com muita coisa bonita saindo deles. Um ano em que descurei das boas maneiras, muitas vezes. Um ano em que não segurei o azedume.

Mas também um ano de bons vinhos. E com amigos que compartilharam comigo os bons vinhos, a cerveja e o pão.

Um ano em que salvei o Brasil e o mundo na mesa de um boteco, como sói compete a um filho-da-puta sério e compungido que sei que sou.

E este não é um país sério. E este não é um país santo. Mas entrete.

“E eis-me aqui, Corintiano e Voador, e eis-me aqui, filho-da-puta ufano”.

E agora, como me prometi, cometo o discurso inspirado:

Mãe, obrigado pelo natal.

Irmãos, irmãs, cunhado, cunhadas, sobrinhos.

Esposa, obrigado por estar lá e por gestar nosso filho que também estava lá.

Amigos, continuem assim, não se mexam e não mudem nada.

Avós e avôs fantasmas, o negócio é ter fé. Tenham!

2018, tome tento!

— Corintiano Voador?

— Sinhô…?

— Pode ir brincar lá fora!

UM MAPA DOS SONHOS, COM MUITA DOUTRINA E MORAL E UMA VISÃO DO MUNDO SUBTERRÂNEO

IGNOTO SCIFI COVER

 

 

 

Ano de 2006

Neste ano fatídico fui amarrado aos trilhos do trem pelo perverso vilão de fraque e cartola, Tião Gavião, enquanto minha então doce noiva Desilú era seviciada pelos Irmãos Bacalhau. Foi enquanto chorava uma raiva pura e vingadora, dada a inversão da ordem natural, que ambos fomos salvos pelo agente da patrulha do tempo.

 

 

Ano de 2030

Já com emprego garantido na Patrulha do Tempo me desloquei para o ano de 1870, onde entretive breve conversa com o Padre Cícero defronte ao Colégio Ibiapina em Crato, Ceará. Espantei-me com sua revelação dos sonhos proféticos que lhe aterrorizavam as noites, bem como das importunas visitas que lhe fazia Lúcifer. Não era ao demônio, em si, que Cícero temia, mas a sua eloquência que sentia que o minava por dentro.

 

 

Ano de 12138

Em visita ao ano 12138 (2227 da era civil iniciada pela corte de Fredrico Silvassen em Alfa do Centauro) foi-se-me apresentado pela Padra Pomona, pároca de Argalau, ao próprio Lúcifer, então administrador de Marte. De prosa amena e afável, permitiu-se breves digressões sobre suas aventuras de mocidade.

“Um homem que poderia ser melhor se não o deformasse o péssimo gosto na escolha de suas batinas”, respondeu-me quando lhe perguntei sobre Cícero, obscuro religioso de nosso conhecimento.

 

 

Anos de 22217

Em MichelTemer III, planeta orbitante da estrela primária de Delta Pavonis, obtive relativo sucesso em espinhosa missão de evitar a um atentado terrorista em BeataMocinha, a capital. Subsidiou-me com auxílios de grande bravura o Padre Cícero que, ó surpresa, descobri ser também agente da Patrulha do tempo.

 

 

Ano de 1970

Em missão no Rio de Janeiro conheci a Vicente Sesso, ocasião em que sugeri a ele, em amistosa tarde no Boteco de Adalberto em Jacarepaguá, o título Pigmalião 70 para a novela cuja sinopse me apresentara, encomendada a ele pela Rede Globo.

 

 

Ano de 1969

Visitei-me no passado, incógnito. E assisti a mim mesmo, com os meus doces sete anos a olhar para o céu, vendo a faixa verde iridescente, como um meteoroide escroto em rumo contrário, subindo para o céu. Meu pai nos disse então que era apenas e tão somente uma coisa de Deus, ao qual um nosso vizinho objetou que eram os astronautas indo pra Lua. (meu pai, respeitosamente, aceitou a hipótese tosca, pois que era de bons bofes, apesar de católico medroso).

 

 

Ano de 1973

Vi os assombrosos seios de Dona Rosa, minha professora, sobressaindo em seu indecoroso decote. Fingi que não eram meus os seus perfumes, mas mentia.

 

 

Ano de 1971

Ouvi pela primeira vez a Borsalino Blues, de Claude Bolling, no comercial televisivo das camisetas Hering.

 

 

Ano de 1984

Meu primeiro artigo como crítico de cinema. O filme era Zelig, de Woody Allen e a revista foi a efêmera Cinemin. No mesmo ano fui apresentado a Yukio Mishima por meu amigo A. S. O.

 

 

Ano de 7818

Lisboa, no que restou do cais da Almada. Recuperei a mensagem do extraterrestre envolta em resina antiga, dentro da noz fóssil que a continha em seu emaranhado proteico de bilhões de enzimáticos caminhos.

Entregue por um condenado à inquisição a seu carcereiro. Dizia em sua introdução: “nós, os que compartilhamos a morte e uma missão de morte, informamos a nossos Primeiros…”

 

 

Ano de 28

Após a prisão de Yeshua ben Youssef, o Jesus, dito o Cristo, dirigi-me ao pátio do palácio do sumo-sacerdote onde fui confrontado por uma criada que me reconheceu o sotaque galileu.

 

 

Ano de 1543

Neste ano, em missão na Espanha, desposei Doña Leonor de Cortinas, que fiz infeliz e senhora de grandes preocupações. Nosso filho Miguel me disse aos quinze anos que “Deus iluminava tudo o que encontrava no seu caminho com alegre indiferença”.  Tornou-se soldado da aventura após desilusão amorosa com certa camponesa de El Toboso e escreveu-lhe um poema hoje perdido: no dejes de mirarme.

 

 

Ano de 3761 AC

Breve interlúdio, onde trabalhei como copista do Arcanjo Gabriel, transpondo sua narrativa do início dos tempos: Bereshit ou o Gênesis. Um crítico salientou a liberdade de ação das personagens, duvidando e hesitando diante de decisões. Entretanto, acrescento que se tratou apenas de quebra estilística das falas em detrimento do ritmo, do enredo. Na mesma época aconselhei Eva a abandonar a discussão teórica e colocar Adão diante de um fato consumado: então, o Fruto Proibido.

 

 

Ano de 1203 AC

Náufrago em uma ilha do mar Jônico, em missão de resgate da agente Calypso, vi em um crepúsculo inesquecível, ao longe, a passagem da nau esfrangalhada de Odisseu.

 

 

 

DE INCOMPETENTE A GÊNIO: MANUAL DE INSTRUÇÃO

Muse - Michael Cheval

Muse – Michel Cheval

 

Se você é um incompetente, mas muito incompetente mesmo, não se desespere, você apenas não encontrou sua verdadeira vocação.

Que, é claro, é ensinar moderníssimas técnicas de administração de empresa numa prestigiada escola de administração de empresa, entre outras muitas oportunidades. Várias, diversas.

E mais, se escrever um livro, tipo “O monge e o executivo”, então nem se fala.

A coisa, o busílis, não é o que é, mas o que parecer. Conteúdo? Não, forma. Escrever? Não, citar.

Mas o melhor de tudo, o saboroso mesmo, é que você pode escrever sobre qualquer coisa e ser reputado como o antenado do momento, o comentador de uma época, desde que utilizadas certas técnicas infalíveis, a saber: esqueça o sentido, o importante é o ritmo.

Ao citar, seja vago e crie uma cumplicidade viciosa com o leitor. Tipo, “você sabe de quem estou falando, não sabe?”, “aquele”, “naquela sua obra, lembra?”.

Exempli gratia:  pegue um trecho de um texto qualquer, tipo uma crônica de Machado de Assis, feito esta, Cherchez la femme, publicada originalmente em 1881:

Antes da sociedade, antes da família, antes das artes e do conforto, antes das belas rendas e sedas que constituem o sonho da leitora assídua deste jornal, antes das valsas de Strauss, dos Huguenotes, de Petrópolis, dos landaus e das luvas de pelica; antes, muito antes do primeiro esboço da civilização, toda a civilização estava em gérmen na mulher.

Feito isto, substitua palavras, atualize os termos, as situações (não seja tímido) e você terá algo como isso:

Antes da sociedade, antes da família, antes das artes e do computador, antes das maravilhosas calças jeans e rendas e sedas que constituem o sonho da periferia assídua do Facebook, antes dos Rolling Stones, dos Beatles, de Liverpool, dos automóveis comprados a perder de vista e dos celulares oniscientes; antes, muito antes do primeiro esboço da civilização, toda a civilização estava, ainda um ovo, representada no desejo.

Viu? Sem esforço e de modo lúdico aí está você contribuindo para as letras pátrias. Machado? Esqueça, ninguém lê Machado. Na verdade, ninguém lê. E se lido, se apontado o seu, digamos, plágio, contemporize, explicando tratar-se de uma (anote a palavra, é supimpa!)…de uma paracitação.

E paracitando sempre, perseverando, você já pode dividir sua verve, a originalidade de sua visão de mundo em qualquer publicação que abrigue iluminados assim feito você. Feito eu. Incompetentes, mas elegantes. Incompetentes, mas limpinhos.

Agora, se além de tudo você ainda for americano, o sucesso lhe acena com mãos ávidas.

Nada como ser incompetente e americano: a merda com sotaque inglês é muito saborosa…

BREVES CONSIDERAÇÕES, CAUSOS, BURLAS E OUTRAS MERDAS

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Writer – by Mathiole – DeviantArt

 

O passado que Já foi. Jamais me esquecerei: de “Bonga, a mulher-gorila”; da “mulher-aranha”; da “mulher-cobra” que virou mulher-cobra por ter batido nos pais; do leão que já matara oitenta homens (…meu irmão perdeu a mão nas garras deste leão…). E, finalmente a recordação mais pungente: “rapaz de branco junto à barraca de tiro ao alvo oferece esta canção para moça de vestido azul na fila da roda-gigante como prova de amizade e consideração”. E o “dangle”? Quem não verterá uma lágrima ao lembrar-se?

 

Quatro (4) robustos (fortes prá dedéu) anjos (pessoas com asas) foram vistos sobrevoando a cidade de São Paulo. E armados! Medo.

 

Daí que a polícia militar do templo de Jerusalém prendeu Jesus por formação de quadrilha. Infelizmente os outros doze caras se evadiram e a PM só apresentou Jesus ao Dr. Pôncio Pilatos, delegado de polícia titular do 1. DP de Jerusalém. Evidentemente que foi “caguetagem”, eles tinham um X-9 infiltrado, um tal de Judas. O tratamento não foi dos mais elegantes: “Fala meliante, confessa…”, “pô, eu sou filho de Deus, deixa eu dar um telefonema”…essas coisas que sempre acontecem nas delegacias.

 

Ali estava eu, nesta fotografia de 1941, o viajante do tempo. Reparem em minhas roupas, nos óculos. E há quem não acredite…

 

Daí que eu conheci um cara, mais exatamente um advogado, que nunca dizia “bom dia”, mas sempre “um ótimo dia”. Eu detestava o sujeito…

 

O que, traduzindo, significa que o todo é uma porcentagem da eternidade, uma fração do infinito, o saldo que restou da vida eterna quando Adão olhou prá Eva com maldade no coração e Eva olhou prá Adão com mais maldade ainda no coração ou, mais exatamente, maldade nas virilhas, o que não significa que o tempo é simples, simples é o templo, de Salomão ou não, o importante é contribuir para a construção, vendendo os filhos e alugando a patroa, a qual, aliás, tem menos do que pensa, e acha que precisa de matemática, que é prima-irmã do tempo, que é simples. E não pensa. Elementar, meu caro Vátson!

 

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAIIIIIIIIIIIIIIIIIIOOOOOOOOOOOOOOO, Silver!, disse Joaquim, o cavaleiro solitário. Ou era Batman? Homessa, confundo-me com as identidades secretas.

 

Nós, os que pecamos… Nós, os tartamudos. Nós, os “planos”. Rápido, todos para o cinematographo…!

 

O mundo é um moinho e vai triturar meus sonhos tão mesquinhos, vai reduzir minhas ilusões a pó. Sofro, então queixo-me às rosas, mas que bobagem!, as rosas não falam. Sofro, sinto abalada minha calma, embriagada minh´alma. Mas recupero-me, levanto, sacudo a poeira e dou a volta por cima. Procuro me alegrar. Boemia, aqui me tens de regresso e suplicante te peço a minha nova inscrição. Procurarei por você, meu amor. Sabe o cara que sempre te espera sorrindo, que abre a porta do carro quando você vem vindo, te beija na boca, te abraça feliz, apaixonado te olha e te diz que sentiu sua falta e reclama? Esse cara sou eu.

 

Mas eu falava do amor e sei que incautos e apressadinhos pensarão em “peitos e bundas”. Ledo engano, só o amor é soberano…

 

Pretendo conquistar o mundo. Simples assim. Germinou a ideia em 31 de dezembro de 2012. E a ideia malsã não me abandonou: dominar..o mundo. Tive grandes exemplos, soberbos mestres. Fu Manchu (ninguém conhece), o Doutor Zero. Zeeeeroooo. O Doutor Zero. Esse me conquistou, me deu a pegada, o insight. O mundo. Meu. Chegarei lá.

 

Pronto prá ficar puto qui nem homi macho masculino. Não tecerei loas a Themis e nem ao Parquet e nem aos Togados e nem aos capitães-do-mato, mas já posso mandar à merda com verve. Meu mote: me respeita, mundo!

 

A lua cheia gerou jiboias paranoicas que infestaram os planetas circundantes. As jiboias geraram triângulos, sendo que cada um deles era uma catástrofe inteiramente evitável. Os triângulos geraram ametistas falsificadas para os brincos das embaixatrizes e das cafetinas.

 

Dúvida feicebuquiana: qual mais importante: meu rabo (e minhas “angústrias” postadas minuto a minuto) ou o rabo da pátria?

 

Vou m´mbora prá Passárgada, lá não sou amigo do rei que esse negócio de ser amigo do rei é coisa de safado. Enfim, serei Feliciano, digo, feliz. P.S.: felicidade também é coisa de safado.

 

Quando eu tinha vinte e poucos anos e era (ou pensava que era) crítico de cinema, pensava de vez em quando que algumas das melhores críticas de filmes que eu já tinha lido eram as sátiras da revista Mad…

 

Quem sou? Oras, sou um homem que respondeu, ao ser perguntado por que veio ao mundo: Ah, vim pelo clima…e pelas mulheres.

 

Quando dizemos: Que antipático é fulano, devíamos dizer: A abstinência torna-se estéril quando ditada pela fraqueza do corpo ou pelo vício da avareza ou então O absurdo é a razão lúcida que constata os seus limites ou O prazer do amor é amar e sentirmo-nos mais felizes pela paixão que sentimos do que pela que inspiramos ou Não há papéis pequenos, só atores pequenos ou quem sabe Tudo tem alguma beleza, mas nem todos são capazes de ver. Ou seja, não entendi nada mas que ficou bonito ficou.

 

A mó de parecer fino. A mó de parecer antenado. A mó de ser pernóstico (que é o sujeito que comercia com pernas).

 

E vendo as multidões, meus olhos passeando por meu povo sofrido e carente de perfume que irá votar no vindouro ano, só me resta, vendo, repito, as multidões, repetir a pergunta trágica de Lope de Vega: ¿DÓNDE ESTÁ WALLY?

 

Deve-se postar bêbedo ou sob o efeito de substâncias exóticas? Tenho prá mim que sim: talvez fique ininteligível, mas sempre se terá a desculpa de que se está sendo verdadeiro.

 

A pedidos: a amizade feminina. E eu sei? Sei não, de nada não. Agora, vou dizer a única coisa que eu sei, que é o seguinte: já sei da conspiração planetária de vocês! Vocês nunca me enganaram! Nunca me enganei quando dizem que vão até o toillete; conversa, vão é conspirar. Vejo vocês trocando as mensagens cifradas: “a gente se fala depois tá?”, “mas você está linda!”, por exemplo. O que será que quer dizer? Preocupo-me. E preocupo-me principalmente porque eu durmo com uma conspiradora. O que reserva ela para mim quando tomarem o poder? Irá me por uma coleira e exibir pras amigas? Besteira, isso ela já faz. A amizade feminina. A masculina é fácil de entender: uma coisa tribal, um ajuntamento de moleques discutindo o cosmos e o futebol, o que é quase um pleonasmo. A amizade feminina, este mistério a perturbar e a pesar sobre minha idosa cabeça Voadora. Voltarei ao assunto.

 

Hoje estou me sentido especialmente bem, alegre e confiante na vida. Prometo que até o fim do dia vou tomar vergonha na cara e voltar a minha pestilencial e taciturna natureza habitual.

 

Bom dia, Alfa do Centauro.