SUBORNO PARA FADAS

Flores para Ming-Liao-Tse - By Voador

ALFABETO ALIEN

ODYSSEUS olhando para o próprio umbigo, sem ciência do nome das coisas, em oração para outro mundo.

e não esqueceremos  p. h. gosse, e padre antônio Vieira, e o padre Brown, também, uma mesma fiada de beatos . E paganismos cheios da palavra de deus para panteões diversos, para parachoques de caminhão.

pedro botelho casado com Perséfone.

Pictografia, plágio criativo, decadentismo, poesia chinesa, possessão.

As primeiras estórias: profecia e profetas. prometeu protagonista do primeiro  protesto, da primeira revolução.

satanismo caseiro e science fiction. sebastianismo e seitas do mal.

submundo de sísifo repleto de tanques de lavar como terapia. Terra devastada e testamento de ULYSSES. ODISSÉIA de  um moço muito branco, de um vilão.

xexéu de bananeira.

zeus

Pálpebra

Borboletas em suco de amora,

talvez vermelhos de xerez sirvam

Coleções de pétalas aninhadas em musgo fino, a perfeita simetria

Cuidados aos milhões

mãos poucas

OS SONHOS PESADOS

Pesaremos o sonho

E com os sonhos construiremos coisas novas

Poemas de homem, sons masculinos que façam

Palavras

precipitações

de coisas que esqueci

tomar cerveja, escrever um poema

dizer à pessoa escondida no arvoredo

à pessoa na noite muito, mas muito fria

dizer

olhar prá outra cidade

na noite muito fria, mas muito fria

e dizer

dizer a palavra, a frase, muito calado

preso

estive preso

deus bebe comigo toda a cerveja

passarinho

TODO ANO É ZERO

Logo

Um marítimo deve tomar a vau

E com determinação

A cada gaivota, a cada pedra do cais,

Um nome deve dar

(para acompanhar, placa pendurada, R.G. cuneiforme)

e palavras devem ser ditas

pela inauguração do sol

tipo

chove, pedra

move-te lua.

Cospe vento, tufão.

Depois, suavidade

bandolim verde na água apaziguada

E nas barbas azuis do céu

Esquecer os oceanos na brancura

A arte de esperar leiteiras vindas pela manhã

(“artes médicas, senhor?”)

ainda que

na manhã do ano zero

este rol por enumerar

ainda careça o dia da etiqueta gris

própria para começos

a matemática nua para o inventário solar

OI, ABADON

Oi, altura e medo

Senhor dos dias

Lodo para chafurdar

Pininfarina, quem era? O Conde Ferrari quem foi?

Qual dos dois falava com os passarinhos?

Qual dos dois levitava como o cara de Copertino?

ABADON, ABADON

Quatro letras do teu nome

E barro

As pedras não confiam em mim

Eu grito e grito

E ainda assim é sexta-feira

PORTO

E chamaremos hélice

A coisa centrífuga por onde escapam partes

Diremos mesmo que é ponto de vista

de pessoas e amor se afastando

diremos também que é espera

como viúvas se despedindo de trirremes

com saudades nascentes da periferia

E manhã também, o céu peregrinando, tonto, baço,

dias onde tudo se constrói, inventa-se,

Universos, tecidos, obras brancas e obras negras, nada

Todo o dia assim, um arrastar de sandálias,

Conversas soltas

O mar.

A SOLIDÃO É ESBRANQUIÇADA E TÊNUE

Eles dizem que a vertigem é só mais uma passagem

Do jade pela abertura, pelo fulcro, pela terra

Eles dirão que a solidão é cinza

E a solidão vem da névoa

E a solidão

Pulso, palma e pão, todas estas palavras

Monte, azagaia, o azul do porão

Todas estas entidades

Todas

O cenário:

A casa na rua tranquila

Equipada com um corredor, um jardim decadente

A aventura, e no entanto a aventura a descoberta

É entrar sabendo que há passagem, uma,

Não localizável, mas lá, uma sobre a qual não se pensa

Entra-se

Sabe-se então pelos sons sussurrantes,

Pelas árvores de mil anos, pela relva onde ao longe pasta um cavalo

Um baio de crinas não tosadas

Os dias, frios e ventosos

Mais a relva ao derredor

No mundo vago

Nas praias de sexta-feira

colares e conchas são benvindos com a maré

SENTADO EM ESTAÇÕES FERROVIÁRIAS

Sentado em estações ferroviárias, esperando o dia e deixando e me esquivando ao seu lento passar para que não me perceba a vida.

Pela manhã, havia sobras do natal na mesa e o telefone tocava, uma voz esquecida falava nestas horas.

O telefone tocava, uma mensagem de 1968, ainda lá, esperando para ser ouvida.

Depois, o interior calmo e cheirando a couro, os bancos enfileirando-se comportadamente até infinitos. Obedientes paisagens me saudando, manhãs de Katmandu, jazz para tardes frias.

É de trabalho honesto que falo, constante, competente e paciente.

O trançar de hora sobre hora, o quilômetro após quilômetro atravessado.

A construção da luz ambarina, o molhe dos travesseiros.  O invernal.

“quão rica é minha vida interior”, penso, e carrego estes mundos planantes comigo por ruas e avenidas, os apresento a pessoas cegas, com elas bebo, com elas converso, o tempo todo uma fornalha de imagens dando voltas pelo lugar em que bebo ou converso.

E ninguém esbarra em mim.

os mundos nem suspeitados passeiam, provocam, riem, pousam no tampo das mesas.

Faço coisas então, ou melhor, eu deixo coisas passarem, acontecerem. Minha atenção distante, as coisas começam, fluidamente, a serem.

Do modo mais casual: borboletas azuis saem do vinho também azul, facas planam em movimento viscoso, denso de significado, de coisas por dizer.

É POSSÍVEL

É possível

Sherringford Holmes em algum lugar

Uma tarde fria no Clube Diogenes

É sempre bom lembrar que Mycroft

Era o gênio da família

Holmes era mais como Gene Kelly

Um operário esforçado

TEOLOGIA APLICADA

Que  novas maneiras de provar o sal podem ser inventadas?

(pausa respeitosa)

Ouve, Israel. Ouve.

Os sobreviventes da última tribo:

Sussurrando para o teu coração está uma multidão de orixás

(amaldiçoados e livres)

As faces abençoadas e ocultas (mas corajosas ante o rei)

Os secretários bons e eleitos:

Vasos prontos para o preenchimento é o que são

Com sua própria prata

(Para o uso de Deus)

As presilhas de minha alma

As presilhas de nossa alma

Para teu uso deixo

Os sobreviventes da última tribo:

Desafios de parecer honesto. Dizer e cantar

Somos correnteza, somos rio agora

O que era desde o princípio

Os secretários bons e eleitos (interferindo):

O que ouvimos quando nos assentamos?

Quando julgamos, julgamos. Somos a luz do céu e da terra

Luz sobre luz. Pilar. Palavra

Os prestigitadores e magos de feira:

Somos o Iman escondido, o jardim construído para o Renga

E para o banho de Suzana

Somos o Um, mãe e pai das incertezas. Somos os doze

Somos a sabedoria se prostituindo nas ruas

Para comprar sua carta de alforria

Somos o último dia, os diálogos e os silêncios entre a devoção e o gelo

Somos a chama aprisionada no gelo

Somos charlatães

O CORINTIANO PAIRANTE

Ao largo do castelo, defronte à janela

E a sobremesa do rei

Viagem cerebral no tempo com magias escolhidas, manhãs

Toda a tépida substância de seda

Todos os olhares, os nomes em estase

A sala de luz, pé direito de légua

E meia

A poltrona para gigantes onde

Finalmente pousa

DIÁRIO DE DRAGÃO

Ora, era dragão e voava

(uma construção não passiva de sangue e asas)

Tinha óleos e escamas e razões para voar

Um dia quis saber o que o fazia ser alado

E resolveu se consagrar ao céu

Usou das muitas palavras e ficou por demais pesado

Os dragões lexicógrafos o convocaram a seu labirinto

DOIS OBITUÁRIOS: UM PEQUENO E UM GRANDE

Tomás de Aquino morreu gordo e imenso

Quebraram uma parede para trazê-lo à luz do dia

Meu avô mantinha um diário no qual registrava negócios e nascimentos de filhos

Espancava com regularidade minha avó

Prático, final e conciso

Meu pai, enregelado, saía para o trabalho

Não tinha agasalho e nem se dava conta

Era irmão de Marieta e genro de Luisa, domesticada e atenta

Luisa salvou um rato do afogamento

Tanta coisa junta

A família vista do alto

O LILÁS É UMA COR QUE NÃO SE DÁ AO RESPEITO

O lilás é uma cor que não se dá ao respeito

Vem mundo,

Ninho de corvo de marujo velho

Amontoado de pequenas patifarias atlânticas

Vem,

Golfinho-mor

Tertúlia de ultrassom entre a rede e o peixe

Vem,

Visitante e consulente

Ao gnômon de jaipur

Loas, coração

Loas ao rajá

Ao rajá adormecido na pedra

Loas, mundo

Loas à doçura do caminho

Ao espinho do aprendizado

Rasgando camada após camada

Vem, mundo,

Rir com a aventura.

CABUM DADÁ

Piroga, lêndea, espiroqueta

Anões de bagdá e Giordano bruno

Larvas querendo-se sutis

Lá onde Bagdad Jones deixou grávida a Keely Smith

Lá onde os irmãos da Neide, a bat-puta, navegavam

Com carta de corso da rainha

A mando de lady Urubú

(pássaro esculpido em sussurro

Untado com os vermelhos de seu passado)

As novas:

O casamento de Karl Marx e da Princesa Zaira

Psicobum, disseram

Urubú dadá

Cabum, repetiram, nada

O atrevido Quetzacoatl teve o seu passa-moleque.

Luba Luft disse:

Dadabum, rapaxepa!

Os garotos que riem saíram de noite,

Pressurosos, preocupados, curtidos de bemóis

A música escorrendo de seus ouvidos

Ameaçaram:

Punhais, fiquem presos na pedra!

Canções douradas refulgiram, Foram trabalhadas e teleportadas para o sol

Os serviçais embutidos no ambarino da tarde

Trouxeram as cartomantes

presas ao caule de suas palavras

(Marilyn Monroe era nossa agora

exposta no sudário lilás, na meseta negra ao luar)

O cambiante Sir Richard, vindo das Montanhas da Lua

Besta de carga com QI de gênio

(os sutras roubados na algibeira)

na palha trançada onde deitou-se

Confidenciou-me:

Sob uma casa onde o tatami sonhava com o sal na rocha

E com o sol no estio

Uma casa onde o tempo era aprisionado no vão de escadas

Eu me aperfeiçoei

Nada mais, nada menos

Soube tudo.

Ah, os segredos do rei!

Lightbulb by Sjerz

Lightbulb by Sjerz

 

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2 comentários em “SUBORNO PARA FADAS

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