EU ME LEMBRO II

RAPOSA VOADORA

 

 

Nos anos oitenta fui o que depois batizei de “comunistinha legal” ou, se vos agradar, o “comunistinha joinha”. De qualquer modo, um comunistinha. Fui levado, é claro.

Meu cooptador foi o mordomo das esferas, o príncipe, o meu querido EBS. Ainda vivo, embora velhusco. Diabos, eu estou velho! As juntas estalando e eu ainda aqui, cuidando da prole e tentando por comida à mesa.

Mas então, “comunistinha legal”. Eu.

Foi uma época fecunda os oitenta, modos que me incomodo com os tempos atuais por exsudarem, vez por outra, um perfume parecido, mas que é só fedor, que os perfumes envelhecem.

Na época, percebia já que a meus colegas comunistinhas faltava senso de humor. Preferiam o velho Karl Marx, com sua cabeçorra preocupada, se inclinando sobre os manuscritos a Jenny von Westphalen ou Jenny Marx, a esposa, que fora uma mulher muito, mas muito bonita.

Preferiam o bom Engels, o pensador, parceiro de Marx, o velho Nick, e esqueciam de Engels, filho de um burguês rico, administrador das empresas do pai na Inglaterra e amante de sua criada.

Digamos que eles viam os escritos e a história e eu preferia o rés-do-chão, os pequenos defeitos e tudo o mais.

Primeiramente, é com certo pudor que informo que meus colegas comunistinhas não liam as bíblias marxistas, mas comentavam assaz.

Segundamente, eu tinha a impressão de que qualquer pessoinha, qualquer serumaninho, poderia fazer a história, mas precisaria perceber que no meio tempo conviria ficar pelado com outra pessoa também pelada, fazer e ler algum poema, beber uns tantos fermentados e destilados e, na miúda miudinha, fazer também a tal da porra da história.

Revolucionário, né não, John Lennon?

Muito estranhamente não me bandeei para o lado direito das coisas, depois dos anos passados, e continuo, me sinto, ainda meio demoníaco, achando o mundo um lugar interessante, achando as pessoas ainda interessantes, mas sempre sentindo o ruído da máquina cada vez mais alto, quase ocultando a conversa no sarau.

A época, é claro. Queria falar da época. E do mau-gosto e dos tempos e das pessoas e da velocidade.

Do modo cego, automático, com que nós todos corremos para ocupar um círculo qualquer no inferno.

Queria, mas falo não.

Volto aos inícios iniciais começantes: eu fui um comunistinha legal e joinha, enquanto também trabalhava como o proverbial garçom no bar lá, da moda.

E confesso, quando me pediam os bons pensantes vodca Wiborowa ou Absolut, eu colocava mesmo era a Vagabundoyeva ou a Esculachakova, que foi como batizei à podríssima vodca “coquinho”.

Minha vingancinha bobinha de comunistinha: sabia que os bons pensantes, os meus irmãos comunistinhas, iriam um dia crescer em riqueza e glória. Vaticinava mesmo que acabariam como comensais dos pequenos ratos morais, os grandes da pátria.

Então à sorrelfa, lhes servia lixo líquido.

 

E como eles bebiam!

EU ME LEMBRO

 

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Yma Sumac

 

 

 

Eu me lembro.

Mas eu dizia?

Ah, claro.

Eram os anos oitenta e haviam coisas misteriosas no ar. Não se caminhava sem se ouvir ao MPB-4 e os portos de Lisboa de Kleiton e Kledir ou Rita Lee e suas canções de transe.

Mas eram os oitenta e eu gastei os meus últimos cobres para ver ao primeiro filme de Star Trek no cinema e paguei as duras penas para voltar para casa às altas horas. Gastei meus últimos cobres e a única coisa que me lembro do filme foram as cenas iniciais do quartel-general da Frota Estelar em San Francisco, com suas multidões de pessoas de todas as cores e todas as roupas e todas as feições, em harmonia, e de como me maravilhei com a promessa latente de que um dia, um dia, sabe?, um dia tudo aquilo acontecesse, aquela catarse, aquela plena aceitação do outro e suas diferenças.

Engraçado não me lembrar muito do resto.

E da primeira vez que eu disse a uma mulher bonita que ela era bonita. Assim, com muito, muito receio e medo, mas sem pose, só pelo prazer de ver uma mulher bonita. E só consigo me lembrar do rosto da menina e de seu perfume e de mais nada. Mas, quase certeza, foi no começo dos oitenta.

E também Engraçado como me lembro de Chan Chan, a canção, mas pouco do documentário Buena Vista Social Club.

Engraçado como me lembro também de poucas coisas do filme Bell, Book and Candle (aqui, Sortilégio de Amor), exceto a maravilhosa e curta aparição do cantor francês Philippe Clay cantando em estilo metralhadora à canção L’ Assassin Ennuyé no night club das bruxas e os peitos de Kim Novak insinuados em decorosos decotes.

E de Sean Connery, mas apenas da atuação de Sean Connery em Zardoz, um obscuro filme de 1974.

E de Frankie Avalon e Annete Funicello atuando na série Beach Party, reprisada ad nauseam pela Globo nos setenta e oitenta e que eu me lembro agora que era brega e tosca, mas que eu adorava.

E que também só agora, no presente atual momento momentoso e hojístico, me dou conta de que só consigo reter lembranças da personagem do motoqueiro trapalhão Erich Von Zipper e da sereia interpretada pela atriz Marta Kristen.

A qual, aliás, também atuou na série Lost in Space, Perdidos No Espaço (como se a batizou em nossa terra), produzida por Irwin Allen.

O mesmo Irwin Allen, produtor de séries das quais só aprecio as de pior qualidade. E que, claro, são as melhores.

E de Ima Sumac. Provavelmente a mais completa (e bela) cantora de todos os tempos e da qual eu duvido que uma em cem pessoas conheçam, mas da qual só consigo lembrar de sua atuação em Secret of The Incas, estrelado por Charlton Heston.

Acho que havia uma atriz americana no filme, no papel principal, mas seu nome e feições me fogem, misericordiosamente, à memória.

E de La Vaca Mariposa, do grande cantor venezuelano Simón Diaz, também autor de Tonada de Luna Llena, canção magnífica que só conheci quando Caetano Veloso nos fez a graça de a replicar em seu Fina Estampa.

Memória seletiva, pois não?

Mas eu dizia?