O PRIMEIRO BRASILEIRO EM MARTE: novas descobertas

Slide1

 

 

Já havíamos antes reportado, neste espaço, sobre a polêmica viagem de Cego Aderaldo e José Pacheco ao planeta Marte (Ver aqui: https://goo.gl/CzQxMb). Eis que agora temos mais um intrigante indício de que talvez um terceiro brasileiro o tivesse feito antes.

É com certo cuidado que expomos o que segue, mas o expomos, certos de que somente a discussão fecunda poderá trazer novas luzes sobre o caso.

 

Corintiano Voador

 

 

 

O PRIMEIRO BRASILEIRO EM MARTE – PARTE I

(Revista Panta Rhei. Ed. 13, ano 7, p. 13 – Ouroboros Editora)

 

 

É de conhecimento geral o rebuliço causado pela descoberta recente da memória de Sílvio Romero, o insigne jurista sergipano, dando conta de uma suposta primazia brasileira na visita a Marte, o fatídico Planeta Vermelho.

Digo fatídico por não querer dizer mais, dados os mistérios, os acontecimentos inusitados quando não macabros a cercar o ― assim se expressou o Dr. Czermk de Leipzig ― Enigma Marciano[1].

Mas então, o primeiro brasileiro em Marte? Enlouqueceu o autor, ou pior, chegou a tal ponto sua fatuidade? Mas não, é com destemor que jogo à arena o candente assunto, melhor diria candente revelação: sim, o primeiro homem a pisar em solo marciano foi brasileiro, e que brasileiro!

Sei, já prevejo os esgares nas faces doutas. Um brasileiro em Marte? Disparate!

Não foram diferentes as reações ao primeiro pouso de nau feita por homens em solo lunar por Bedford e Cavor, em 1901. Houve quem chamasse ao primeiro de louco fantasista, já que Cavor supostamente permanecera em solo lunar. Foram necessárias as expedições posteriores de 1915 e 1917, onde se estabeleceram relações com os desconfiados selenitas, não fáceis e nem pacíficas. O resultado, o resgate de Cavor, calou as vozes insultuosas.

Mas, e todos sabem, a verdadeira polêmica se deu quanto à primazia do primeiro pouso lunar, vez que americanos e franceses requestaram esta glória para Michel Ardan e Barbicane, do Gun Club, em 1865, ou mais exatamente, para os dois americanos membros do Gun Club e para Ardan.

Ora, se a viagem dos ingleses foi fartamente documentada, pelo menos no que tange ao fato de haver sido Cavor encontrado na Lua e ter este confirmado, inclusive documentalmente, a partida de sua esfera em 1901, não havia a mesma certeza quando ao feito do Gun Club, por muitos considerado como um gigantesco feito de propaganda. Não ajudaram, é claro, as revelações da ex-Mme. Adele Ardan no seu Michel Ardan raconté.

E temos então Marte!

Sim, tivemos uma viagem a Marte. Antes mesmo que à Lua. Não poucos desacreditaram da obra publicada por Edwin, sobrinho do ex-capitão confederado John Carter, com uma compilação de suas memórias (dele, John).

E nada mais natural, dada a ideia de que um, digamos mecanismo, manufaturado por  antiga e avançada civilização, permitisse a que um homem fosse de imediato transportado a Marte[2].

Havia mesmo a sugestão nas entrelinhas que existiriam outros sítios em nosso orbe a guardar mais destes mecanismos fantásticos. Cavernas em ermos inóspitos, quase inacessíveis, somente esperando seus aventurosos descobridores. O encontro de uma estranha relíquia entre os bens deixados pelo espólio do capitão Carter foi mencionada; como mencionado também foi que a relíquia foi prontamente arrebatada pelo governo americano e dela não mais se soube.

Acresce que por esta época houvera a descoberta dos canais marcianos, entrevistos ao telescópio por Percival Lowell, embora este não tivesse ainda publicado suas conclusões, o que só se daria em 1891.

Com o que voltamos ao Brasil e ao primeiro brasileiro em Marte.

O mundo editorial brasileiro foi sacudido há três anos pela descoberta do assim chamado Manuscrito Escadafhart, cuja autoria de Sílvio Romero hoje é incontestada, e sua publicação por Célia Loredano.[3]

Para os não iniciados, Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero, Sílvio Romero, foi brilhante jurista sergipano da chamada Geração de 1871 e, juntamente com seu mestre Tobias Barreto, revolucionou o pensamento jurídico e filosófico no Brasil de Dom Pedro II. Ambos foram membros fundadores da assim chamada Escola do Recife, ligada à Faculdade de Direito da cidade homônima.

Pois bem, foi este Tobias Barreto o primeiro brasileiro e talvez o primeiro homem no mundo a pisar em solo marciano. Expliquemos.

Encontrado em documentos avulsos durante pesquisa no Arquivo Nacional, o Manuscrito traz em seu bojo relato tão fantástico que somente as recentes pesquisas levadas a cabo por equipe mista da UFPE e USP  no Lajeiro do Frade, na cidade pernambucana de Escada, puderam separar o mítico do histórico, concedendo ao relatado foros de verdade.

 

A VIAGEM DE TOBIAS BARRETO

 

Em 1873, Albert Wilhelm Heinrich von Preussen, filho daquele que seria o kaiser Frederico III  visitou o Brasil, sendo recebido com honras por Dom Pedro II.

O jovem príncipe viajou, com numerosa comitiva, na corveta Olga, e saindo da Corte estendeu sua viagem até o município de Escada, Pernambuco, onde chegou na data de 03 de maio de 1883. O fato é referido em Himmel und Escadafahrt, artigo escrito por Tobias Barreto, único brasileiro a fazer da comitiva do príncipe imperial.[4]

Ora, tal fato sempre intrigou a historiadores, a não prevista visita do príncipe imperial de uma das mais poderosas nações da época a um esquecido município pernambucano, onde se vê hóspede do Coronel Marcionílio da Silveira Lins, Barão de Utinga, no engenho de Sapucagi.

O manuscrito conta história diferente do artigo de Tobias Barreto, onde este relata emocionado da honra de ter sido convidado para a comitiva imperial para visita à cidade que o escorraçara[5], além de tecer os mais ingênuos encômios à figura do príncipe e à cultura alemã de modo geral (Barreto era conhecido germanófilo).[6]

Não, nada de festas, rapapés, bandas. A visita principesca, assim relata o manuscrito, serviu tão somente para acobertar operação de espionagem sob o comando do Capitão-Tenente von Schwind para investigar a existência de uma “relíquia”, assim primeiramente chamada, sob a posse do coronel Marcionílio. O Manuscrito não deixa dúvidas: tratava-se de um dos “mecanismos de transporte” marciano, encontrado sabe-se lá Deus quando pelos primeiros conquistadores portugueses e arrebatado de uma gruta, evitada a todo transe pelos indígenas que então habitavam a terra.

Sabe-se que a procura por relíquias marcianas, estimuladas pela publicação das memórias de John Carter, virou uma febre a manter ocupado todos os serviços secretos das grandes potências da época.

Mas como chegou aos alemães esta informação, que de outra forma jamais cruzaria o Atlântico?

Segundo o Manuscrito, Tobias Barreto fora a fonte da informação[7].

Quando de sua estada na cidade de Escada, de quem foi deputado provincial e juiz municipal, Tobias manteve estreitos e profundos laços de amizade com o coronel Marcionílio e sua família.

Assim escreveu em seu Himmel und Escadafahrt: “…nos últimos tempos de meu exílio escadense, fora-me a casa do coronel Marcionílio, no engenho Sapucagi, um ponto de passeio e entretenimento, sem que tivesse, nem uma só vez que lá me achei, deixado de conversar sobre a Alemanha e meu fanatismo por ela.”.

E mais que a fonte, o intermediário que convenceu Marcionílio a franquear o acesso a cientistas alemães disfarçados de oficiais da corveta Olga, comandados pelo já citado von Schwind.[8]

No Manuscrito há menção de Sílvio Romero a relato de Tobias Barreto, onde se refere ter sido este procurado por Marcionílio quando de sua estada anterior em Escada. E foi nesta ocasião que Marcionílio, temeroso, lhe apresentaria pela primeira vez a relíquia, descrita como um “tubo metálico vermelho do qual escapavam bruxuleios”, quente ao tato e coberto de estranhos glifos que Barreto supôs fosse uma ancestral escrita marciana.

Sim, já nesta época, Barreto nutria suspeitas de uma origem marciana. Supunha, ainda segundo o Manuscrito, ter sido a Terra objeto de expedições do planeta vermelho ainda em eras priscas.

De qualquer maneira cerrou-se o episódio num velo de mistério e conspirações, dado que não sabemos que fim teve a “relíquia”. Teria sido levada pelos alemães? Teria permanecido sob a guarda de Marcionílio ou mesmo de Barreto?

Célia Loredano refere duas hipóteses isonômicas: o artefato teria ficado sob a posse de Marcionílio e/ou Barreto, dado que dificilmente poderiam os alemães tê-lo arrebatado do centro de poder de uma das figuras políticas mais poderosas da região, dispondo de homens e meios  a mancheia.

Ou, tendo sido entregue voluntariamente, fora levado pela comitiva principesca para destino que permaneceu e permanece ignoto.

Sobre esta segunda hipótese, refere Loredano que von Schwind era notório membro da Ordem de Thule, organização iniciática da qual o próprio Hitler teria sido membro. Ora, ainda segundo Loredano, é fato conhecido que no decorrer da Segunda Guerra foram patrocinadas pelo Reich expedições com o fito de encontrar-se ao orifício que levasse ao centro da terra, comandadas por oficiais e cientistas nazistas que eram ao mesmo tempo membros da mesma ordem iniciática. Não seria possível, pergunta-se Loredano, que tais expedições fossem um disfarce para a procura de grutas e cavernas onde poderiam estar escondidos outros tantos artefatos marcianos?

Para nossos propósitos tais considerações são, ao momento, inúteis, dado o conteúdo da segunda parte do Manuscrito. Esta, que nos interessa e sobre a qual nos estenderemos a seguir contém relatos fragmentados de visita ao planeta Marte ocorrida entre os meses de fevereiro a maio de 1878. A ela.

 

O DIÁRIO MARCIANO DE TOBIAS BARRETO

 

Sílvio Romero refere carta de Tobias Barreto datada de 6 de novembro de 1887:

 

[Amigo Sr. Sílvio:

 

Já deve ter recebido a minha última carta, na qual enviei-lhe as notas que me pedira. Creio ter sido completo. Se, porém, carecer de mais algum esclarecimento quanto às datas, escreva-me.

Venho hoje pedir-lhe um favor. Acaba de dar-se na faculdade…]

 

A referida carta pode ser cotejada à página 242 da edição comemorativa de 1991 dos Estudos Alemães.

Voltaremos ao assunto.

 

[1]Os professores Dr. Czermk e Dr. Rosenthal foram escolhidos para dirigir a publicação de uma Biblioteca Científica Internacional, em 1873. A feliz experiência foi erigida com o fito de traduzir ao alemão obras científicas que fossem dignas disso. A referência ao Enigma Marciano pode ser encontrada na obra Uber die Natur der Cometen (Sobre a natureza dos cometas) do grande astrônomo Johann Carl Friedrich Zöllner, publicada em 1872.

[2]Existe uma obra ficcional baseada nas memórias de John Carter, escrita por Edgar Rice Burroughs, a partir do livro de Edwin Carter, chamado A Princesa de Marte.  “um amontoado odioso, deturpante e fétido da jornada heroica de um grande homem”, escreveu Edwin em suas memórias, anos depois.

[3]GRIECO, Célia Maria Loredano. Manuscrito Escadafahrt: uma aventura de Tobias Barreto. Editora UFRJ, Rio de Janeiro, 2013.

[4]Himmel und Escadafahrt, página 201 da reedição comemorativa dos Estudos Alemães, de Tobias Barreto, patrocinada pelo governo do estado de Sergipe em 1991. O fato foi também noticiado na edição de 4 de maio de 1883 d’O Diário de Pernambuco.

[5]Tobias Barreto, nos anos de 1879 a 1881, residindo em Escada, por conta de querela não ainda de todo explicada, teve sua casa cercada por jagunços dos grandes da terra que o expulsaram do local.

[6]Primus inter pares, O senhor Barão von Seckendorff é um dos mais belos exemplares, que tenho visto, do homem culto e delicado…. Quanto ao príncipe Heinrich, eu já sabia por informação de uma escritora alemã, que a princesa imperial Vítória dedica-se muito à arte de jardinar, e que o momento ético e cultural deste trabalho se deixa ver claramente na educação de seus filhos. Himmel und Escadafahrt in Estudos Alemães, p. 203.

[7]Célia Loredano localizou uma brochura publicada às expensas próprias por Thomas Maples (?) em tipografia da cidade americana de Philadelphia, provavelmente em 1892, mas sem maiores indicações, na Biblioteca do Congresso: An Extraterrestrial Relic In Brazil? An Inquiry About The Olga’s Expedition.

[8]Provavelmente Ernst Wilhelm Carl von Schwind Zum Hel, desaparecido em 1919, talvez no Báltico, capturado por forças soviéticas estacionadas na Letônia. Segundo Loredano, é quase certo ter pertencido ao serviço secreto da marinha alemã.

Rol de Deus

klimt13

KLIMT. Pintura de Klimt. Certamente não me daria os direitos à imagem o moço. Aliás, detalhe de pintura de Klimt. O que é pior….

 

rol de deus

 

WALPURGISNACHT

WALPURGIS NIGHT

 

DAIMONIA

 

SEPHER YETSIRA

TABULA SMARAGDINA

HERMES TRIMEGISTO

MAHAWANTARA

GILGAMESH/ENKIDU

VAINAMONEN/KALEVALA

MANA/TABU/MU

MOXABUSTÃO/BUSHIDAN

I HAVE FAITH

IN GOTTERDAMMERUNG WE TRUST

LIFT AND LIFTHAISIR

FLY YOU IN SHKIDBLADNNIR? JE SUIS UNE VIELLE OGRE DE DENTS JAUNES

ASKR UND EMBLA/GRETA UND HANS

A POLÊMICA VIAGEM A MARTE DE CEGO ADERALDO

cabra-asimov

Isaac Asimov – Pintura de Rowena, devidamente estoporada num photoshop

 

 

Para quem não conhece Aderaldo Ferreira de Araújo, o Cego Aderaldo, foi dos maiores poetas populares do Brasil. Um repentista que fez fama tocando sua rabeca por todo o nordeste.

E agora duvidam de sua famosa estada no planeta Marte, atribuindo-a a José Pacheco, outro famoso repentista alagoano.

Até outro dia era fora de dúvida a famosa estada de Cego Aderaldo em Marte, na corte do Tarkas, Autocrata de Todos os Martes, em sua Fortaleza da Pirâmide. O próprio Aderaldo contou da grande recepção que inicialmente teve e depois a glória, ovacionado pelas massas após sua vitória no desafio contra o Grande Menestrel de Helium.

Aderaldo contou ainda, na excelente biografia escrita pelo jornalista Fenelon Dantas, que lhe fora oferecido a cura de sua cegueira desde que permanecesse em Marte e na corte do Tarkas. Aderaldo recusou e cantou seu feito em um martelo agalopado hoje famoso:

 

Me perdoe o nobre e ilustre soberano

Diferente que eu sou, eu nunca visto

Carapuça que não serve, do malquisto

E arrenego mais a pecha de ingrato

Mas não posso por a pena neste trato,

Cego sendo, cego sigo, e muito ufano

Preferindo a treva minha, em minha terra

E aceitando desta sina a sorte fera

 

Mas agora temos aí o artigo no Jornal da Paraíba de Novelly Bezerra, pesquisadora pernambucana do cordel, onde se atribui a façanha da primeira visita marciana ao alagoano José Pacheco da Rocha, o José Pacheco.

Novelly descobriu nos arquivos do banco de teses da Universidade Estadual da Paraíba a uma entrevista feita a Pacheco em 1954, poucos dias antes de sua morte, por estudantes da faculdade de letras.

Ali Pacheco relatou sua visita a “um planeta, um orbe fora dess´aqui”, ocorrida bem no ano da “seca do quinze”, ocasião em que foi obrigado a pernoitar no Lajedo do Baltasar, na Paraíba. E como chovesse, se abrigou numa “loca” de pedra. E dali, altas horas, foi levado para “o planeta por meio de artes que não entendo, como numa viração”.

O artigo está disponível na internet, acho.

O argumento de Novelly é forte, pois se José Pacheco foi, digamos, abduzido no ano de 1915, teria de fato a primazia de ser o primeiro brasileiro, se desconsiderarmos o relato algo duvidoso do americano John Carter na voz de seu ghost-writer Edgar Rice Burroughs.

Consta, a acreditarmos no trabalho de Fenelon Dantas, que Cego Aderaldo também foi levado a Marte quando pernoitou em uma caverna em “um lajedo”, em data incerta entre 1916 ou 1917.

Esclareçamos que um lajedo é o termo nordestino para área com grandes pedras ou placas de pedras que as vezes formam verdadeiras cavernas, as “locas”.

Esclareçamos também que Cego Aderaldo jamais especificou em qual lajedo ocorreu sua aventura e nem mesmo em que época. 1916 ou 1917 são estimativas de Fenelon Dantas. A presunção de Novelly que o fato se deu no Lajedo do Baltasar é apenas isso, uma presunção.

Novelly busca fortalecer sua tese com os versos de José Pacheco em seu Grande Debate de Lampião com São Pedro, como uma referência à pioneira estadia marciana:

 

E atravessei os mares

Montado em um planeta

Que ao som de uma trombeta

Vinha descendo dos ares

Visitando aqueles lares

Terra de santos e fadas

Naquela mesma jornada

Encostei no arrebol

Cheguei na Terra do Sol

Na Casa da Madrugada

 

Não quero ser grosseiro com Novelly Bezerra, minha colega de cátedra e de vício, mas reputo como frágil sua tese. E mais, não quero com isso negar a visita extraterrestre de José Pacheco. Quero afirma-la, embora não a Marte.

Minha tese é mais radical: Cego Aderaldo foi sim o primeiro brasileiro a visitar o planeta Marte, mas José Pacheco foi o primeiro brasileiro, talvez o primeiro homem, a visitar Vênus.

Talvez mesmo o primeiro brasileiro a sair de nosso planeta.

Mas, Vênus? Vênus.

Notem que o poeta “atravessou os mares montado em um planeta” em uma terra de “santos e fadas”, “encostou no arrebol e chegou na terra do sol”. Na, observem bem, “casa da Madrugada”.

Gosto de pensar que se refere à Estrela d´Alva, a última estrela que surge pela manhã, o planeta Vênus. Sustento mesmo que as referências aos mares são venusianas, Marte é todo ele um deserto gigantesco cortado pelos canais.

Vênus, ao contrário, é todo ele selvas fumarentas e mares gigantescos. Fato este confirmado pelos relatos de Carson Napier, mais uma vez na voz do nosso já conhecido Edgar Rice Burroughs e confirmada pelas fotografias obtidas (alguns dirão tardiamente) pelas naves russas da Missão Venera.

E, ao contrário de Novelly, acredito que os relatos de José Pacheco aos estudantes paraibanos em 1954, mormente as alusões a mares tempestuosos e ao reino onde permaneceu por meses são indícios de uma aventura venusiana.

Não há relatos de que Pacheco tenha exercido sua arte no distante Vênus, ao contrário de Cego Aderaldo, cuja imagem foi esculpida na própria superfície marciana, em Cydonia Mensae, e fotografada pela primeira missão Viking.

Não obstante, minha intenção com este artigo não foi movida por mais que o desejo de corrigir o que eu reputo como uma perspectiva algo leviana, que a propósito de rever, acabou por distorcer.

E mais, obnubilar a dois fatos sublimes: a de que dois de nossos maiores poetas, Cego Aderaldo e José Pacheco, visitaram ou foram chamados, pouco importa, para as incríveis e pioneiras primeiras viagens interplanetárias.

Todos temos a certeza (ou tínhamos antes do artigo de Novelly) de ter Aderaldo feito ouvir os primeiros repentes pioneiros no rarefeito ar marciano e a suspeita, esta minha, ainda a procura de novas e melhores fontes que a confirmem, de que o mesmo foi feito por José Pacheco.

Alguns objetarão (e objetam) do porquê das, vamos usar o termo hoje corriqueiro, das abduções de tantas pessoas no final do século dezenove e começo do século vinte. Levadas a outros planetas após a estada em cavernas misteriosas, arrastados por mecanismos ancestrais construídos por civilizações também ancestrais. Temos aí os já citados John Carter e Carson Napier, cujas histórias foram romantizadas por Edgar Burroughs e incendiaram as imaginações de gerações.

Talvez que se nos faltasse um Burroughs nosso, que nos contasse das aventuras de nossos dois bardos. Alguém como Bráulio Tavares, por exemplo, o autor da bela Marco Marciano, cantada por Lenine em 2002 e uma involuntária homenagem a Aderaldo, em cuja honra se esculpiu a face planetária em Cydonia Mensae.

Talvez que Marte e Vênus honrassem mais a nossos poetas, e lhes reconhecendo os méritos inegáveis, os transladasse para, temporariamente, privar de seus repentes imortais.

Não é pouca coisa.

 

LEITOR PROFISSIONAL

CHERUBS ON AISLE 7 - by Brian Wallace

CHERUBS ON AISLE 7 – by Brian Wallace

What thoughts I have of you tonight, Walt Whitman, for I walked down the sidestreets under the trees with a headache self-conscious looking at the full moon… 

Allen Ginsberg – A supermarket in California

Leitor Profissional.

Não, não, nada assim tão final, tão eloqüente, pensei antes no sentido etimológico. Ler como profissão…de fé. Talvez. Mas Leitor Profissional, não obstante. O encanecido buscador, o desbravador de estantes, o freguês de sebos. O cretino de óculos.

O problema é que envelheço, os dentes amolecem e minha paciência diminui, míngua e por fim. Por fim.

O Leitor Profissional. Eu.

Já não leio resenhas, nem orelhas, desconfio delas, traidoras ou pior, nadadoras de superfície, navegadoras de cabotagem: generalistas, fúteis, práticas.

E livrarias também, delas e nelas compartilho em desavim, alimento para urticárias do espírito.

Livrarias. Prenhes de nada. Dezenas de metros quadrados de autores anglosaxões. James, John, Ivy. Adolescentes apaixonadas por vampiros, por anjos ou por magos. Crepúsculos. Ou livros cheios de seriedade, de autores anglófonos, monoglotas, com bibliografias em língua inglesa que é a única que existe, senão por que Deus escreveria a Bíblia nesta língua?

Adoráveis solipsistas. Mas até aí os romanos, os gregos, os chineses, os novaiorquinos sempre deploraram do patois dos bárbaros. Que somos nós, ainda que Profissionais.

O Leitor Profissional. O empregadinho de armarinho desconfiado de tudo e de todos, nunca satisfeito. Desconfiado de Chefs ingleses ensinadores de culinária francesa, caribenha, etíope. Desconfiado de filósofos que transcrevem a algaravia dos tempos em linguagem modernosa em revistas efêmeras, em nichos de jornais walkingdeadianos. Os autores do momento com selo de qualidade provando que são jovens ou se não pelo menos novos, indispensáveis.

Impenetráveis, profundos escrevinhadores. Melífluos e sérios, doutrinando, desfrutando de intimidade não outorgada com os que os lêem.

O Leitor Profissional, desconfiando dos que escrevem. Ainda que gostando ainda de Glauco Mattoso. Ainda que gostando de Cego Aderaldo.

O Profissional.

Conto agora um segredo: não há mais escrita por não haver mais o que escrever. O Século não se nos esconde. Pior, não há Século para ser mapeado e a palavra se não morre, está fraca, tísica como Marguerite Gautier e tão puta quanto.

Então escrevo, agora, a tecla premindo meus dedos.

Um profissional.

Um conto sobre espelhos negros, mulheres de sonho, mistério e predestinação

Cock And Bull Story Tellers - Michael Cheval

Cock And Bull Story Tellers – Michael Cheval

Imagine uma terra com árvores, estradas, florestas com mais árvores e pessoas de todos os tipos, mas sendo outra, a terra, não esta. Agora, imagine esta terra, a nossa, minha e sua, pelos olhos do outro sujeito (da outra) atrás do espelho. O estranhamento, a surpresa e a fascinação com o diferente, com outras maravilhas.

Uma via de muitas mãos, indo e vindo na horizontal, em perpendiculares, diagonais. As muitas visões: nossa, desta outra terra e a deles, nossos irmãos e irmãs nos mirando do outro lado do espelho.

Na casa da Mulher Velha havia um grande espelho negro, sendo  o negro, o metal espelhado encastoado em madeira velha, resinosa e de odor pungente. Constrastava a casa, simples, com o rebuscado do espelho.

A casa, branca, ampla, com poucos móveis, mas cheia de aberturas para que o ar entrasse, a luz entrasse e a Mulher Velha se confundisse com ambos. Ali, no banco de madeira rústica da varanda ela sentava, rodeada de caramanchões com flores risonhas e coquetes que cochichavam entre si naquele dialeto único, resquício emaciado da Primeira Língua.

Havia um jardim cercando outros jardins a se alcançar se o passante insistisse em ser alcançado por jardins, em mirar outros céus e apreciar outras constelações. A volta era o problema, não havia garantias. Nunca houve. Você estava aqui e depois mais adiante via as mulheres lavando roupas à luz da primeira aurora, em conversas eternas de mulheres. As primeiras, as que forneceram todos os motes, todos os assuntos, todas as cores para conversas femininas desde então. As conversas de mulheres, as conversas que sustentam o mundo. E também e ainda, os animais de pelo fulvo que te olhavam, curiosos e se perdiam entre arbustos, atrás de rochas, momentos depois.

No cimo de cada morro circundando em abraço apertado a cidade, adivinhavam-se coisas novas, de mistério, encobertas em névoa azulada do azul mais único porque só ali eram encontradas. Percebia-se que bastava apenas caminhar em direção a quaisquer deles, aceitar o desafio de procurar as veredas que levassem ao topo para que se testemunhasse a acontecimentos sussurrantes em andamento, a obras brancas e obras negras.

As parteiras da vila eram formadas ali, todos sabiam, embora não fosse o assunto objeto de comentários. Um dia uma moça descia de um morro, uma moça que conhecíamos antes, uma companheira antiga de brincadeiras, uma nossa amante de juventude. E sabíamos que a parteira antiga estava por morrer e acorríamos a sua casa para presenciar a troca de cajados e depois as deixávamos sós para que trocassem confidências arcanas e pueris.  “Eu já fui moça, assim…com tetas atrevidas”, “naquela árvore ali eu me deixei encostar pelo filho do coureiro”, “ a melhor forma de colher a mil-em-rama é esperar o começo de um verão, depois de uma chuvada…”, “nunca se deve dizer o próprio nome a ninguém em meio de mata fechada”.

E havia a Mulher Velha que podia ser uma jovenzinha ou uma avó, dependendo de há quantos anos estivesse no cargo. Os caminhos para sua casa, entretanto, eram pouco frequentados. As terrinas com seu almoço e jantar eram depositadas em pedras, na vereda-que-era-a-mais-velha. Evidentemente que se procedia assim por uma questão de cautela. O problema todo eram os caminhos em volta da habitação da Mulher Velha, que não só eram muitos, mas potencialmente infinitos. Uma questão técnica.

As Mulheres Velhas não pertenciam à vila. Simplesmente chegavam um dia, de carona em qualquer carroça, levando consigo nada mais que uma faca curva de poda e uma bolsa de couro. Nada de celulares, relógios ou afins. Confesso que jamais vi uma delas sequer dar a entender que conhecia computadores. No mais, usavam a mesma maquilagem que qualquer outra mulher, as mesma calças jeans marcadas por calcinhas cavadas.

Os espelhos negros passavam de uma para outra e uma delas, Valenciana, por alguma razão nunca explicada, me encontrou um dia junto do riacho e passou a mão em minha cabeça. E daí em diante, sempre que me encontrava, sorria para mim e as vezes me convidava a sua casa. Foi lá que pela primeira vez vi o espelho. Vetusto, indiferente, do tamanho de um homem grande e fixado na parede do fundo, antes da varanda.

Valenciana esperou que eu crescesse, então me ensinou a fazer amor e não me cobrou nada por isso. Foi até minha casa, cumprimentou polidamente a meu pai e ele, também polido, a ignorou como obrigam os bons costumes. Sorriu para mim e para minha mãe, com quem conversou por longas horas.

Ela me ensinou muitas coisas que me ajudariam na vida por viver. A arte de sentar-se, de dormir e de rir com vagar. A arte de cheirar constelações, de apascentar unicórnios e de afiar facas. As noventa e nove formas de segurar um seio, a arte de depositar a língua na flor-da-mulher, a arte de se deixar acariciar por mãos femininas em suas três versões: por mãos ávidas, por mãos calmas e por mãos inexperientes. A arte de aprender a aprender. A arte de tocar um instrumento de cordas no meio da floresta e a arte de esperar o vento certo para começar a tocar. A arte de falar as palavras de homem com voz baixa e quente para qualquer mulher e a arte de falar as palavras de homem com voz baixa e quente para ela. A arte de fazer malabares e a arte de furtar.

Depois me tomou pelas mãos e me apresentou à outra Mulher Velha que estava atrás do espelho negro e me levou para os jardins de sexta-feira, e para o lugar onde aconteceu a convenção das sereias, e para o lugar de esperar as conchas trazidas pela maré, e para o lugar onde havia a cidade de grandes prédios e os aviões orgânicos e quirópteros que voavam por sobre os prédios, e para a terra sussurrante onde mulheres teciam uma seda azulada e macia. E até mesmo para a terra onde as cobras sofismavam à tarde e terminavam suas noites com amenos pesadelos.

Me tornei homem e pedi permissão a meu pai para a primeira barba. Valenciana me presenteou então com um barbeador a bateria, recarregável.

Segui para Silvaplana, pois que não me restava mais nada que ser um músico. Meu pai amaldiçoou Valenciana, pois sonhava com um analista de sistemas.

Voltei para a vila e conheci muitas mulheres. Me apaixonei por Estela, a de olhos voltados para a lua, e nos unimos em grande festa, patrocinada pelas duas famílias.

No dia de meu casamento, já na mesa de convidados ao ar livre, vi Valenciana encostada ao salgueiro, ao longe.

Não quisera participar da festa e nós a entendíamos. Me lembro de seu rosto ainda jovem, firme, anguloso, mas belo. E me lembro de seu olhar perdido, como de uma mocinha.

Eu vivi para me tornar um mestre-cantador e compus minha cota de canções para que entrassem na lenda ou não, mas muitas entraram. E privei e duelei com Aderaldo e conheci a Moça Caetana, que só é vista uma vez pela maioria das pessoas. E criei meu filho e minha filha e os vi partir. E Amei Estela e com ela ri e com ela briguei que até as pedras acabam por se incomodar e também por se acomodar. E vi Estela sair de minha vida, com muita dor no meio.

Na velhice abandonei tudo e todos e tomei o caminho da vereda-que-era-a-mais-velha, onde era esperado.