UM CAUSO, UMA REFERÊNCIA SAUDOSA (ONDE O AUTOR RELEMBRA UM JOGRAL DE SUAS RELAÇÕES)

St George and the Dragon Sidney Harold Meteyard (1868 –1947)

St. George and the Dragon – Sidney Harold Meteyard

 

Meu pai, homem de bem, era devoto de cordelistas e do cordel. Tinha apreço pelas histórias e amava aos contos de cavaleiros e donzelas sonhosas (Ariano Suassuna falou de um donzel sonhoso no Romance da Pedra do Reino).

Modos que meu pai era por gosto e profissão um medieval.

Grande contador de histórias, soberbo mesmo, nos narrava toda noite uma gesta qualquer, grandiosa e solene.

Me lembro do conto da princesa no castelo situado no meio de uma ilha, situada a ilha no meio de um grande lago, no qual havia um castelo com setenta e sete cômodos, em um dos quais se encontrava prisioneira a princesa. A mesma princesa, claro, que seria resgatada pelos quatro irmãos.

Aqueles, os fabulosos, que por viverem em extrema pobreza decidiram abandonar a casa paterna e a fome e a clássica miséria. E saíram em madrugada fria e desesperançada para o mundo e separaram-se ante a estrada que se subdividia em quatro caminhos.

E cada um escolheu uma senda, onde a cada um caberia aprender um ofício e se tornarem, nele, mestres. E marcaram um encontro para dali há dez anos (meu pai gostava de prazos certos e era fiel a seu ofício de jogral).

E todos os irmãos, fiéis que eram (meu pai os plasmara com cuidado) se apresentaram ao encontro marcado, ocasião que o irmão mais velho determinou que todos informassem a profissão que haviam aprendido.

E foi onde o irmão mais novo disse que aprendera a ser um arqueiro (meu pai o chamava o “brechador”); o segundo, um adivinho (meu pai o chamava o adivinhão). O terceiro um soldador (nunca entendi bem, talvez uma interpolação de meu pai em consideração à modernidade do industrial século vinte). E, vejam só, ao irmão mais velho coube a ocupação de ladrão.

Não obstante, a filha do rei fora raptada pelo perverso Dragão do Mal (que meu pai chamava de a “serpente”).

E compareceram ante o rei, que os convocara, todos os bravos do reino para a porfia suprema de lhe restituírem sua filha, a princesa, sendo prometido o de praxe: fortuna aos valorosos e casamento com a infanta.

Os irmãos, vejam bem, meu pai dizia, eram os mais pobrezinhos, não eram ricos e nem poderosos e nem nada de nadinha de nada. Mas aceitaram o desafio.

Evidente que todos o nobres enfatuados morreram todos na empreitada, fritados de modo desairoso pelo perverso dragão.

Somente sobraram os irmãos pobrezinhos para a tarefa. E para cumprir a demanda foram os irmãos, meu pai contava, ao campo de prova de honra e morte.

Chegaram ao lago, tomaram um barco e atravessaram ao lago.

O adivinhão adivinhou a localização do quarto fatídico onde encontrava-se a jovem; o ladrão, por artes sutis de ladroagem, furtou à chave do quarto que estava na boca do dragão que dormia o sono negro de dragões maldosos em toca soturna.

E recuperaram os irmãos à jovem e tomaram o barco; o dragão  os perseguiu e furou ao casco do barco com um jato de sua chama; o soldador selou ao casco (relevem…) e, finalmente, foi o dragão morto pela seta certeira do arqueiro.

E pronto.

Entretanto, a delícia do conto é que, tão logo entregaram os jovens a princesa ao rei, fez este com que ela se casasse com o mais jovem dos irmãos, em casamento grandioso cuja festa durou sete dias (meu pai gostava dos números cabalísticos).

E então, o mais importante: meu pai nos contou (e não tenho porque duvidar de sua palavra) que meu avô chegou a participar da festa e, inclusive, levou um pedaço do bolo de casamento consigo.

Mas aí seu cavalo corcoveou e o bolo caiu no chão.

Pena.

Sempre me esqueci de perguntar a meu avô qual era o sabor da guloseima.

Papai era meio vago sobre o assunto.

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A POLÊMICA VIAGEM A MARTE DE CEGO ADERALDO

cabra-asimov

Isaac Asimov – Pintura de Rowena, devidamente estoporada num photoshop

 

 

Para quem não conhece, Aderaldo Ferreira de Araújo, o Cego Aderaldo, foi dos maiores poetas populares do Brasil. Um repentista que fez fama tocando sua rabeca por todo o nordeste.

E agora duvidam de sua famosa estada no planeta Marte, atribuindo-a a José Pacheco, outro famoso repentista alagoano.

Até outro dia era fora de dúvida a famosa estada de Cego Aderaldo em Marte, na corte do Tarkas, Autocrata de Todos os Martes, em sua Fortaleza da Pirâmide. O próprio Aderaldo contou da grande recepção que inicialmente teve e depois a glória, ovacionado pelas massas após sua vitória no desafio contra o Grande Menestrel de Helium.

Aderaldo contou ainda, na excelente biografia escrita pelo jornalista Fenelon Dantas, que lhe fora oferecida a cura de sua cegueira desde que permanecesse em Marte e na corte do Tarkas. Aderaldo recusou e cantou seu feito em um martelo agalopado hoje famoso:

 

Me perdoe o nobre e ilustre soberano

Diferente que eu sou, eu nunca visto

Carapuça que não serve, do malquisto

E arrenego mais a pecha de ingrato

Mas não posso por a pena neste trato,

Cego sendo, cego sigo, e muito ufano

Preferindo a treva minha, em minha terra

E aceitando desta sina a sorte fera

 

Mas agora temos aí o artigo no Jornal da Paraíba de Novelly Bezerra, pesquisadora pernambucana do cordel, onde se atribui a façanha da primeira visita marciana ao alagoano José Pacheco da Rocha, o José Pacheco.

Novelly descobriu nos arquivos do banco de teses da Universidade Estadual da Paraíba a uma entrevista feita a Pacheco em 1954, poucos meses antes de sua morte, por estudantes da faculdade de letras.

Ali Pacheco relatou sua visita a “um planeta, um orbe fora dess´aqui”, ocorrida bem no ano da “seca do quinze”, ocasião em que foi obrigado a pernoitar no Lajedo do Baltasar, na Paraíba. E como chovesse, se abrigou numa “loca” de pedra. E dali, altas horas, foi levado para “o planeta por meio de artes que não entendo, como numa viração”.

O artigo está disponível na internet, acho.

O argumento de Novelly é forte, pois se José Pacheco foi, digamos, abduzido no ano de 1915, teria de fato a primazia de ser o primeiro brasileiro, se desconsiderarmos o relato algo duvidoso do americano John Carter na voz de seu ghost-writer Edgar Rice Burroughs.

Consta, a acreditarmos no trabalho de Fenelon Dantas, que Cego Aderaldo também foi levado a Marte quando pernoitou em uma caverna em “um lajedo”, em data incerta entre 1916 ou 1917.

Esclareçamos que um lajedo é o termo nordestino para área com grandes pedras ou placas de pedras que as vezes formam verdadeiras cavernas, as “locas”.

Esclareçamos também que Cego Aderaldo jamais especificou em qual lajedo ocorreu sua aventura e nem mesmo em que época. 1916 ou 1917 são estimativas de Fenelon Dantas. A presunção de Novelly que o fato se deu no Lajedo do Baltasar é apenas isso, uma presunção.

Novelly busca fortalecer sua tese com os versos de José Pacheco em seu Grande Debate de Lampião com São Pedro, como uma referência à pioneira estadia marciana:

 

E atravessei os mares

Montado em um planeta

Que ao som de uma trombeta

Vinha descendo dos ares

Visitando aqueles lares

Terra de santos e fadas

Naquela mesma jornada

Encostei no arrebol

Cheguei na Terra do Sol

Na Casa da Madrugada

 

Não quero ser grosseiro com Novelly Bezerra, minha colega de cátedra e de vício, mas reputo como frágil sua tese. E mais, não quero com isso negar a visita extraterrestre de José Pacheco. Quero afirma-la, embora não a Marte.

Minha tese é mais radical: Cego Aderaldo foi sim o primeiro brasileiro a visitar o planeta Marte, mas José Pacheco foi o primeiro brasileiro, talvez o primeiro homem, a visitar Vênus.

Talvez mesmo o primeiro brasileiro a sair de nosso planeta.

Mas, Vênus? Vênus.

Notem que o poeta “atravessou os mares montado em um planeta” em uma terra de “santos e fadas”, “encostou no arrebol e chegou na terra do sol”. Na, observem bem, “casa da Madrugada”.

Gosto de pensar que se refere à Estrela d´Alva, a última estrela que surge pela manhã, o planeta Vênus. Sustento mesmo que as referências aos mares são venusianas, Marte é todo ele um deserto gigantesco cortado pelos canais.

Vênus, ao contrário, é todo ele selvas fumarentas e mares gigantescos. Fato este confirmado pelos relatos de Carson Napier, mais uma vez na voz do nosso já conhecido Edgar Rice Burroughs e confirmada pelas fotografias obtidas (alguns dirão tardiamente) pelas naves russas da Missão Venera.

E, ao contrário de Novelly, acredito que os relatos de José Pacheco aos estudantes paraibanos em 1954, mormente as alusões a mares tempestuosos e ao reino onde permaneceu por meses são indícios de uma aventura venusiana.

Não há relatos de que Pacheco tenha exercido sua arte no distante Vênus, ao contrário de Cego Aderaldo, cuja imagem foi esculpida na própria superfície marciana, em Cydonia Mensae, e fotografada pela primeira missão Viking.

Não obstante, minha intenção com este artigo não foi movida por mais que o desejo de corrigir o que eu reputo como uma perspectiva algo leviana, que a propósito de rever, acabou por distorcer.

E mais, obnubilar a dois fatos sublimes: a de que dois de nossos maiores poetas, Cego Aderaldo e José Pacheco, visitaram ou foram chamados, pouco importa, para as incríveis e pioneiras primeiras viagens interplanetárias.

Todos temos a certeza (ou tínhamos antes do artigo de Novelly) de ter Aderaldo feito ouvir os primeiros repentes pioneiros no rarefeito ar marciano e a suspeita, esta minha, ainda a procura de novas e melhores fontes que a confirmem, de que o mesmo foi feito por José Pacheco.

Alguns objetarão (e objetam) do porquê das, vamos usar o termo hoje corriqueiro, das abduções de tantas pessoas no final do século dezenove e começo do século vinte. Levadas a outros planetas após a estada em cavernas misteriosas, arrastados por mecanismos ancestrais construídos por civilizações também ancestrais. Temos aí os já citados John Carter e Carson Napier, cujas histórias foram romantizadas por Edgar Burroughs e incendiaram as imaginações de gerações.

Talvez que se nos faltasse um Burroughs nosso, que nos contasse das aventuras de nossos dois bardos. Alguém como Bráulio Tavares, por exemplo, o autor da bela Marco Marciano, cantada por Lenine em 2002 e uma involuntária homenagem a Aderaldo, em cuja honra se esculpiu a face planetária em Cydonia Mensae.

Talvez que Marte e Vênus honrassem mais a nossos poetas, e lhes reconhecendo os méritos inegáveis, os transladasse para, temporariamente, privar de seus repentes imortais.

Não é pouca coisa.

 

Um conto sobre espelhos negros, mulheres de sonho, mistério e predestinação

Cock And Bull Story Tellers - Michael Cheval

Cock And Bull Story Tellers – Michael Cheval

Imagine uma terra com árvores, estradas, florestas com mais árvores e pessoas de todos os tipos, mas sendo outra, a terra, não esta. Agora, imagine esta terra, a nossa, minha e sua, pelos olhos do outro sujeito (da outra) atrás do espelho. O estranhamento, a surpresa e a fascinação com o diferente, com outras maravilhas.

Uma via de muitas mãos, indo e vindo na horizontal, em perpendiculares, diagonais. As muitas visões: nossa, desta outra terra e a deles, nossos irmãos e irmãs nos mirando do outro lado do espelho.

Na casa da Mulher Velha havia um grande espelho negro, sendo  o negro, o metal espelhado encastoado em madeira velha, resinosa e de odor pungente. Constrastava a casa, simples, com o rebuscado do espelho.

A casa, branca, ampla, com poucos móveis, mas cheia de aberturas para que o ar entrasse, a luz entrasse e a Mulher Velha se confundisse com ambos. Ali, no banco de madeira rústica da varanda ela sentava, rodeada de caramanchões com flores risonhas e coquetes que cochichavam entre si naquele dialeto único, resquício emaciado da Primeira Língua.

Havia um jardim cercando outros jardins a se alcançar se o passante insistisse em ser alcançado por jardins, em mirar outros céus e apreciar outras constelações. A volta era o problema, não havia garantias. Nunca houve. Você estava aqui e depois mais adiante via as mulheres lavando roupas à luz da primeira aurora, em conversas eternas de mulheres. As primeiras, as que forneceram todos os motes, todos os assuntos, todas as cores para conversas femininas desde então. As conversas de mulheres, as conversas que sustentam o mundo. E também e ainda, os animais de pelo fulvo que te olhavam, curiosos e se perdiam entre arbustos, atrás de rochas, momentos depois.

No cimo de cada morro circundando em abraço apertado a cidade, adivinhavam-se coisas novas, de mistério, encobertas em névoa azulada do azul mais único porque só ali eram encontradas. Percebia-se que bastava apenas caminhar em direção a quaisquer deles, aceitar o desafio de procurar as veredas que levassem ao topo para que se testemunhasse a acontecimentos sussurrantes em andamento, a obras brancas e obras negras.

As parteiras da vila eram formadas ali, todos sabiam, embora não fosse o assunto objeto de comentários. Um dia uma moça descia de um morro, uma moça que conhecíamos antes, uma companheira antiga de brincadeiras, uma nossa amante de juventude. E sabíamos que a parteira antiga estava por morrer e acorríamos a sua casa para presenciar a troca de cajados e depois as deixávamos sós para que trocassem confidências arcanas e pueris.  “Eu já fui moça, assim…com tetas atrevidas”, “naquela árvore ali eu me deixei encostar pelo filho do coureiro”, “ a melhor forma de colher a mil-em-rama é esperar o começo de um verão, depois de uma chuvada…”, “nunca se deve dizer o próprio nome a ninguém em meio de mata fechada”.

E havia a Mulher Velha que podia ser uma jovenzinha ou uma avó, dependendo de há quantos anos estivesse no cargo. Os caminhos para sua casa, entretanto, eram pouco frequentados. As terrinas com seu almoço e jantar eram depositadas em pedras, na vereda-que-era-a-mais-velha. Evidentemente que se procedia assim por uma questão de cautela. O problema todo eram os caminhos em volta da habitação da Mulher Velha, que não só eram muitos, mas potencialmente infinitos. Uma questão técnica.

As Mulheres Velhas não pertenciam à vila. Simplesmente chegavam um dia, de carona em qualquer carroça, levando consigo nada mais que uma faca curva de poda e uma bolsa de couro. Nada de celulares, relógios ou afins. Confesso que jamais vi uma delas sequer dar a entender que conhecia computadores. No mais, usavam a mesma maquilagem que qualquer outra mulher, as mesma calças jeans marcadas por calcinhas cavadas.

Os espelhos negros passavam de uma para outra e uma delas, Valenciana, por alguma razão nunca explicada, me encontrou um dia junto do riacho e passou a mão em minha cabeça. E daí em diante, sempre que me encontrava, sorria para mim e as vezes me convidava a sua casa. Foi lá que pela primeira vez vi o espelho. Vetusto, indiferente, do tamanho de um homem grande e fixado na parede do fundo, antes da varanda.

Valenciana esperou que eu crescesse, então me ensinou a fazer amor e não me cobrou nada por isso. Foi até minha casa, cumprimentou polidamente a meu pai e ele, também polido, a ignorou como obrigam os bons costumes. Sorriu para mim e para minha mãe, com quem conversou por longas horas.

Ela me ensinou muitas coisas que me ajudariam na vida por viver. A arte de sentar-se, de dormir e de rir com vagar. A arte de cheirar constelações, de apascentar unicórnios e de afiar facas. As noventa e nove formas de segurar um seio, a arte de depositar a língua na flor-da-mulher, a arte de se deixar acariciar por mãos femininas em suas três versões: por mãos ávidas, por mãos calmas e por mãos inexperientes. A arte de aprender a aprender. A arte de tocar um instrumento de cordas no meio da floresta e a arte de esperar o vento certo para começar a tocar. A arte de falar as palavras de homem com voz baixa e quente para qualquer mulher e a arte de falar as palavras de homem com voz baixa e quente para ela. A arte de fazer malabares e a arte de furtar.

Depois me tomou pelas mãos e me apresentou à outra Mulher Velha que estava atrás do espelho negro e me levou para os jardins de sexta-feira, e para o lugar onde aconteceu a convenção das sereias, e para o lugar de esperar as conchas trazidas pela maré, e para o lugar onde havia a cidade de grandes prédios e os aviões orgânicos e quirópteros que voavam por sobre os prédios, e para a terra sussurrante onde mulheres teciam uma seda azulada e macia. E até mesmo para a terra onde as cobras sofismavam à tarde e terminavam suas noites com amenos pesadelos.

Me tornei homem e pedi permissão a meu pai para a primeira barba. Valenciana me presenteou então com um barbeador a bateria, recarregável.

Segui para Silvaplana, pois que não me restava mais nada que ser um músico. Meu pai amaldiçoou Valenciana, pois sonhava com um analista de sistemas.

Voltei para a vila e conheci muitas mulheres. Me apaixonei por Estela, a de olhos voltados para a lua, e nos unimos em grande festa, patrocinada pelas duas famílias.

No dia de meu casamento, já na mesa de convidados ao ar livre, vi Valenciana encostada ao salgueiro, ao longe.

Não quisera participar da festa e nós a entendíamos. Me lembro de seu rosto ainda jovem, firme, anguloso, mas belo. E me lembro de seu olhar perdido, como de uma mocinha.

Eu vivi para me tornar um mestre-cantador e compus minha cota de canções para que entrassem na lenda ou não, mas muitas entraram. E privei e duelei com Aderaldo e conheci a Moça Caetana, que só é vista uma vez pela maioria das pessoas. E criei meu filho e minha filha e os vi partir. E Amei Estela e com ela ri e com ela briguei que até as pedras acabam por se incomodar e também por se acomodar. E vi Estela sair de minha vida, com muita dor no meio.

Na velhice abandonei tudo e todos e tomei o caminho da vereda-que-era-a-mais-velha, onde era esperado.