TEÓPOLIS

artificial_sun_by_ahermin

Artificial Sun – by Ahermin / DeviantArt

 

E NA ALA VIP DO CÉU

OS TURISTAS CORREM COM OS DENTES

EM SANGUE

POIS É

EU ESTOU LÁ, SORRINDO!

 

FOTOGRAFO DEUS

PROTEGIDO POR QUERUBINS

E ESPERO O ARMAGEDON

ATRASANDO O EMBARQUE

 

É. DEUS DE MANHÃ

QUASE NÃO RECONHECI

SEM O RAY-BAN

O CORINTIANO VOADOR VOLTA A PREGAR. LÁ NO DESERTO, EM RIBA DO MONTE.

Ouroboros-dragon-serpent-snake-symbol

 

…e então eu pensei “por que não fazer ela redonda?”. Pronto, tava ali a solução, mas somente eu, euzinho, tinha topado com ela. A bola, o craque, o transporte de massas, tudo veio depois. Até mesmo o Barcelona.

Mas e aí, me elogiaram?, o chefe deu tapinhas no meu ombro?, o xamã da tribo fez sinal de positivo?. Necas. Nada. Faz quinze mil anos e foi justo desse jeito mesmo que aconteceu.

Cumé?…ah, tá, as manifestações…certo. Bons dias, Brasis.

Então tá. As pessoas do bem ganharam as ruas. Viram?. Deveriam ter visto. Vejam a retrospectiva: Ói lá um…viu? Ói lá outro, o de camiseta com slogan. Notou?

No começo eram trevas e o MPL do B só queria…queria, já nem lembro mais. Mas queria. Teve.

Aí entraram outros e outros e outros, lembram do cara ali?, tão vendo?…perto dos nóias e do lado do poste…isso, os que estão babando.

E as coisas continuaram e chegaram os que não gostam de político, os que odiavam a Dilma, os anticorruptos, qualquer um servia, os Black Blocs (assim, em inglês, para pronto entendimento), os…um monte.

E chegaram mais. Era massa. Era movimento.

Falar nisso, vitoriosos, derrubamos a Dilma. Depois fomos prá balada.

O povo. A massa.

Aí, não devolveram o meu porrete ainda!…

Pulhas!

SENHOR, BASTA DE PRÓLOGOS NOS BASTIDORES DO CÉU!

a-forma-secreta

“Senhor, basta de prólogos nos bastidores do Céu”. A frase faz parte de um diálogo entre Lúcifer e Deus-Todo-Poderoso no conto (conto? Ensaio?), bem, no conto Lúcifer, um dos muitos, contos ou ensaios ou sermões contidos no livro A Forma Secreta, de Augusto Meyer.

A livro que tenho em mãos é da quarta edição (a primeira foi de 1965), mas não consta o ano e pertence à Francisco Alves.

Bem, Augusto Meyer? Sei lá. Melhor que os interessados procurem aí nos oráculos diversos, do Google ou do Bing, se paciência tiverem.

Mas, Lúcifer. O conto vem logo depois de Doutor Magnífico, sobre Santo Anselmo, o mentor de Santo Agostinho.

Basicamente, Lúcifer é a história da criação primeira, a dos anjos, de como o Senhor os plasmou do nada, ainda antes de Adão. Um proto-Gênesis. O primeiro Bereshit, se me permitem a citação torta do Tanach, a bíblia hebraica.

Deus está só, na sua glória. Mas que glória há se não houver um outro para repercurtir a glória? (Meyer é cruel). O Senhor, só, na Fábrica dos Anjos cria os anjos, dá-lhes um pouco de seu esplendor e de repente temos o coro celestial inteiro, louvando ao Senhor.

E criou o Senhor aos anjos, dividindo-os em castas definidas: Anjos, Arcanjos, Postestades, Virtudes, Dominações, Querubins e Serafins. Bem antes de John Ford já havia o Senhor subdividido o trabalho, já havia o Senhor organizado ao chão-de-fábrica.

Mas, e sempre existiu e existirá o “mas”. Mesmo o Senhor parece ter ficado de saco cheio daquela perfeição louvaminheira. Tá, criara um porrilhão de anjos, mas se sentia só ainda, que lambeção geral de saco é só lambeção geral de saco, não companheirismo e muito menos originalidade. O Senhor sofria.

Foi aí que criou Lúcifer, o mais belo. Samael, a Estrela da Manhã, o Pastor de Sóis.

No momento em que nasce, belo e sereno, mais poderoso e mais sábio que seus colegas, percebe Lúcifer que foi criado para ser o divisor, o rebelde. O pai da sedição.

E sendo Lúcifer, Lúcifer, não era de seu feitio o esperar, o seguir o roteiro até à última letra. Não, Samael-Lúcifer era impaciente e, por assim dizer, resolveu chutar o pau da barraca divina.

Foi direto ao assunto.

Em síntese, disse ao que veio, disse “Senhor, sei que estás até a tampa com a bajulação angélica. Então, vamos adiantar o expediente: ponde no meu rabo de uma vez! Vamos variar as coisas por aqui”.

Não, Augusto Meyer não escreveu estas palavras. É mais uma tradução livre, do seu espírito. Relevem.

Mas eu dizia? Sim, após o delicado esporro luciferino, viu o Senhor que aquilo era bom, isto é, ao mesmo tempo mau e bom.

E maravilhou-se o Senhor da arte com que sabia escrever direito por linhas tortas. O que Lúcifer propiciara ao Senhor era a possibilidade do diálogo, coisa antes impossível.

E não perdeu tempo o Senhor. Após o protocolar chute no rabo de Lúcifer, deu início imediato à conversação:

— Adão, onde estás?

Recomendo o livro. Procurem-no. Vão lá no sebo onde está recolhido, esperando, na segunda fileira de estantes, no quarto nível de prateleiras, contado de baixo para cima.

E é isso.

TRAMA e trama e no final é REDE

 

arve

 

a rede

 

 

Viu,

viu?

Faça um poema.

A estrada de concreto crú entre a boca e o papel

escreva um conto e deixe a boca para fora para que grite

navegue com drusos sonhadores de areia

algo que te lembre de noites despreocupadas aos pés do Ararat

algo que lembre fenícios ao rés da proa apontando para praias prenhes de clientes potenciais

 

no meio do teu bairro

e agora confesso:

Quando eu pensava que tinha perdido o caminho para a fonte, foi aí que os pensamentos crús, despreocupados na aurora que é palavra tão que queima na língua com aquela quentura doce que antecede um presente ou o amor que às vezes vem e você não espera.

Pois é, o amor e as palavras que vêm de manhã, trazendo as boas novas.

Como tudo que é novo ou reformulado, vêem num jato, ou qualquer outra metáfora mais elaborada como por exemplo os caules exsudando verdes de encontro à mágica de dias cinzentos e nús.

De qualquer maneira, com cor e sensações que já vêem junto de si e de per si. Como o catatau sinistro de Leminsky ou as circunvolutantes meditações de Marco Aurélio, enfim, estas estranhas vias cheias de baleias orbitando júpiter à espera de uma morte não menos necessária que digna, não menos pensada.

Pois se há alguma coisa há que seja mais suspeita é a morte elaborada.

Essa feita de pequenos módulos que se encaixam.

Uma das muitas alegrias enfim que se permite àqueles que esqueceram de não penetrar muito fundo nos mistérios que matam como casas assassinas ou viúvas de calcinhas cavadas ou sei lá. Pois bem

de novo bem,

eu escrevi uma vez a respeito de Katmandu ou Nínive ou sobre Sidarta meditando sobre a figueira ou bananeira, sei lá, e é tudo a mesma coisa e o que eu sei de certo é que não interessa a ninguém mas interessa sim por que alguém alguma vez já deverá ter lido e talvez por Deus que me habita quem sabe eu digo tenha até entendido.

Digo, entendido e aí todos devem entender. Pois talvez demore outra vida até Katmandú e o Thamel e os acampamentos à base do Everest.

que o percurso da água, inconcluso, vago de qualquer modo, nos traga algum verde.

Eis a má qualidade, essa característica do sonho e da idade de pedra de que me trago

caminho para a morte mineral, esse mármore

assim eu escrevo o primeiro capítulo:

derreto máscaras de cera minhas e não lhes

falei ainda do que é difícil de entender

interessante no entanto lhes falar de mim

essas coisas de quem chora, de quem reclama ao pai tempo

pois em verdade:  é de um destino de singraduras que falo

labirinto de abelhas em migração

as vezes penso, potente e implacável senhor

eu, ainda crente  na metafísica da risada sou só assim?

Esse orifício no teu momento cuja hora de se ir

ninguém suspeita?

Eu, comum e pobre como todos?

 

paciente pensar bonito

 

amo, amo e amo

cada pássaro e cada pedra tem nome próprio

a obra visível que se deixa é um beijo de há pouco

 

posso dizer que ainda não falei do que é difícil?

Pessoas buscam um lápis e as palavras uma pá

veja a dificuldade: roubei o bilhete carmesim

e pulei para o viver e o esquecimento que vem à tiracolo.

Podia ter nascido de tudo um pouco

um editor de um YIDISCHE ZEITUNG ou teólogo cainita

e mesmo assim haveria o tempo, ainda que eu escorregasse pelos momentos, ainda que viesse colado à parede.

Oh, eternidade

Eu estou. Frase melhor que esta não acho. VIVA A VIDA

 

eu poderia me chamar Abulgualid Muhammad Ibn Ahmad Ibn Muhammad Ibn Rushd

e a vida ainda assim balançaria com lenta segurança

 

da direita para a esquerda

 

 

EXTRATO DE DIÁLOGO ENTRE DEUS E JUAN

william-blake-ancient

The Ancient Of Days – William Blake

 

 

 

“Bem, o que temos prá hoje?”, perguntou Deus-Todo-Poderoso.

“Não existe hoje, Vossa Divindade…”, balbuciou meigamente o místico louco recém saído de uma Longa e Escura Noite da Alma.

“Ah…é”. Cofiou a barba ou ajeitou as madeixas ou os dreadlocks, dependendo de qual face de Deus estejamos a falar.

Deus é máscara. Uma para cada ocasião.

Existe um Deus marciano, mas seu aspecto quase não é mais visto, ou melhor, não é mais visto. Ou ainda, só será visto mais uma última vez quando a pessoa que dorme na pirâmide acordar.

“Fico preocupado, Divindade, digo, a pessoa que dorme na pirâmide em Marte é seu último adorador naquele orbe. Então, se e quando ela acordar e se e quando ela morrer após acordar, significa que um aspecto Vosso irá fenecer?”

“Não tenho adoradores, Juan. O próprio conceito é ofensivo”. Juan aguardou, expectante.

“O que eu tenho são dependentes, inquilinos”. E Deus sorriu, matreiro.

“Senhor…?”

Neste momento Deus ficará irritado com o teor deste texto, com suas importunas referências, com suas incongruências, com o nonsense, enfim, de misturar misticismo e marcianidade.

“Paga o que me deves!”

“Senhor, não entendi…”. E João da Cruz, inquilino de Deus, derreteu-se em um amálgama de medo e êxtase e deixou de existir. Provisoriamente.

“Este texto acaba agora”, disse o Senhor e eu tremo, mas ainda continuo a existir.

Seja feita tua vontade, Ó Senhor.

Foder, comer, foder de novo, broxar, comer, amar.

Jesus Returns - Kleverton Monteiro

Jesus Returns – Kleverton Monteiro

Foder, comer, foder de novo, broxar, comer, amar. A vida é mais que isso e o mundo é um emaranhado de mistérios não revelados. Ainda. Sigam-me.

É uma bola a terra, redonda.

Uma bola de excremento, pensavam os egípcios, rolada por um escaravelho por toda a eternidade.

Ou uma placa redonda, sustentada por quatro elefantes apoiados no dorso de uma tartaruga descomunal, como sói pensavam os criativos chineses.

Enganados todos estavam em um ou outro detalhe, pois somente a mim foi dada a oportunidade de conferir as coisas de fora, com vista privilegiada, concessão que me fez o Altíssimo.

“Se eu puder falar com Deus”. Besteira, eu falo. Todo o tempo. Deus e eu somos assim, ó, muito chegados. Ele fala, eu escuto. Eu argumento, ele faz milagres. Eu subo o monte, ele providencia as nuvens.

Moisés, todos os que leram o Livro Santo sabem, também privou com o Todo-Poderoso. Feito eu, Moisés faz parte de uma confraria de poucos, de papeadores com o divino. Mas Moisés teve privilégios que não tenho, claro. Via Deus, não só falava com o Senhor das esferas. Teve mesmo a honra de ver ao traseiro de Javé, confiram lá no Êxodo 33:20-23.

 E, havendo eu tirado a minha mão, me verás pelas costas; mas a minha face não se verá.

E então, Deus. Ainda na infância sentia sua presença e depois de algum tempo, sua voz. Me dando conselhos, me soprando as respostas erradas nas provas de matemáticas, me moldando que Deus é dos que fazem isso: sempre mexendo no barro humano.

E então Deus, chapa meu, me fez este mimo, de mostrar o real, a Terra vista ao alto. Bondoso que sou, transmito a vós, povo de dura cerviz, o que aprendi em visão a mim proporcionada. Em high-definition, aliás. Então lá vai:

A Terra não é redonda, é plana, como todo mundo sempre suspeita mas tem vergonha de falar prá que não pensem que é uma anta. Esqueçam a conquista da Lua, foi tudo feito em estúdio. Aliás, com Stanley Kubrick dirigindo a coisa toda. Segredo que ele levou para o túmulo, ajudado, claro, pelas constantes ameaças que recebia do serviço secreto americano.

Não existem outros planetas e nem outras estrelas, Deus colocou aquelas luzinhas lá em cima para confundir a nós, néscios. Telescópios, astronomia? A irrelevância das irrelevâncias.

Evolução? Piada. Deus criou o mundo do nada e, só prá sacanear, criou os fósseis de dinossauros, australopitecos, neandertais e preguiças gigantes que nunca existiram[i]. Há mais ou menos uns seis mil anos[ii], para não ser exato.

Concepção? Nada de espermatozoides e óvulos, esta a vera verdade verdadeira e veraz. Deus, o Altíssimo, ouviram?, ele é que anima e dá forma ao gérmen da vida.

Agora, Inferno, Purgatório, Limbo, realidades são, como já nos tinham informado Dante Alighieri e Vergílio.

Que mais me disse Deus? Coisas. Deus me disse e me diz muitas coisas, além de excelente cantor, Deus, arrasando na interpretação de Bohemian Rhapsody. E fazendo todas as vozes. Deus é Queen, digo, cool.

Foder, comer, foder de novo, broxar, comer, amar. Bem, Deus foi taxativo. Pecados são. Tudo bem, perguntei a Deus a causa de sua preocupação excessiva com nossas fodelanças e nossa gula, coisas tão comezinhas em relação a sua grandeza.

“Nada escapa ao meu olhar”, disse-me Deus, o Voyeur das Alturas, pontuando tudo com uns trovões e raios. Calei-me, claro. Vou lá eu encher ao Saco Divino com tais questiúnculas?

Ah, Adão não tinha umbigo

E finalmente, todos foram e estão sendo enganados: o rádio não existe, mesmo o modelo digital novinho no seu carro. Tem um hominho lá dentro.


[i] Philip Henry Gosse, naturalista inglês, publicou em 1857 o seu  Omphalos, onde postula exatamente isto, a saber: Deus criou os animais já adultos, as árvores já crescidas (as sequoias, inclusive) e, mais importante, os fósseis e as camadas geológicas indicando datas de milhões de anos.

[ii] Como já tinha calculado James Ussher, bispo de Armagh.