DO TRATADO DOS VERMES

photo

 

Irmãs e irmãos.

Vejam que coloquei antes, as damas. Me deem seu gáudio e elogios diversos.

Mas, irmãos e irmãs.

Nunca me esqueço que em épocas de exceção, é preciso se posicionar contra o rei e às teses do rei. É preciso.

Nunca me esqueço que Sobral Pinto, advogado, em tudo e por tudo discordando de Luís Carlos prestes, comunista e ser do mal (como diziam à época) ainda assim o defendeu.

Nesta época de pessoas bonitas, feitas de bonitezas, como o cavalheiro de Curitiba, o moço ungido por pastores. Nesta época, quero ter a verve de discordar do tempo e da forma como se desenvolve a flora e a fauna.

Sei lá se vou ser entendido. É um tempo de metalinguagens.

Mas…fede o tempo.

Não fede?

Anúncios

Né não?

running_from_the_storm_by_slichoart-db89xws

Running from the storm – by Slichoart-db89xws – DeviantArt

Eu tenho uma conhecida que atende por Maritza e que me enviou a postagem. Nuno, outro conhecido meu, também a recebeu e mandou-me o recado: não se importe. Muito louca a biscate. De pedra.

E disse também Júlia (depois de Maritza) e garatujou em outro e-mêiou:

Não se importe.

E Maritza então mirou-me (eletronicamente) e escolheu ser direta e machucadora, como um médico. E me disse (interneticamente):

“Não sei por que escrever. Se os pequeninos vermes dizem o que deverá ser, e tudo já está programado, então por que devo escrever?

Se os vermes tomaram o poder, escrever por que?

Se os vermes tomam conta do tempo e infectam as cisternas, para que sejam iguais às suas piscinas, escrever por que?

Irmãs e irmãos, não lhe lhes causa vergonha a pena em suas mãos?

Vos convido ao vômito.

De que adianta comentarem sobre o movimento em vossos úteros, sobre as circunvoluções em vossos sacos escrotais, se o mundo está a deriva?”

Ignorei. Afinal, ao fim e ao cabo, esta pessoa era mesmo louca, pois não?

E mentia, não?

Talvez ainda minta.

O CORINTIANO VOADOR VOLTA A PREGAR. LÁ NO DESERTO, EM RIBA DO MONTE.

Ouroboros-dragon-serpent-snake-symbol

 

…e então eu pensei “por que não fazer ela redonda?”. Pronto, tava ali a solução, mas somente eu, euzinho, tinha topado com ela. A bola, o craque, o transporte de massas, tudo veio depois. Até mesmo o Barcelona.

Mas e aí, me elogiaram?, o chefe deu tapinhas no meu ombro?, o xamã da tribo fez sinal de positivo?. Necas. Nada. Faz quinze mil anos e foi justo desse jeito mesmo que aconteceu.

Cumé?…ah, tá, as manifestações…certo. Bons dias, Brasis.

Então tá. As pessoas do bem ganharam as ruas. Viram?. Deveriam ter visto. Vejam a retrospectiva: Ói lá um…viu? Ói lá outro, o de camiseta com slogan. Notou?

No começo eram trevas e o MPL do B só queria…queria, já nem lembro mais. Mas queria. Teve.

Aí entraram outros e outros e outros, lembram do cara ali?, tão vendo?…perto dos nóias e do lado do poste…isso, os que estão babando.

E as coisas continuaram e chegaram os que não gostam de político, os que odiavam a Dilma, os anticorruptos, qualquer um servia, os Black Blocs (assim, em inglês, para pronto entendimento), os…um monte.

E chegaram mais. Era massa. Era movimento.

Falar nisso, vitoriosos, derrubamos a Dilma. Depois fomos prá balada.

O povo. A massa.

Aí, não devolveram o meu porrete ainda!…

Pulhas!

2016, o samba e outras considerações

marc-chagall

Flores de Casamento – Marc Chagall

Uma coisa a que sempre aborreci foram as considerações de fim de ano.

Não quero ofender ninguém, é coisa minha.

É para mim e só para mim que serve.

Querendo aderir, se aprochegue e abra a lata, tome o cálice, dê um tapa na bagana. Mas não é obrigatório.

Mas dizia eu não apreciar as retrospectivas. Vera verdade verdadeira esta minha idiossincrasia. Sempre me incomodaram as contagens finais de segundos. Parece que uma bomba vai explodir.

A coisa é que eu canto samba, por que só assim eu me sinto contente. E vou ao samba, porque longe dele eu não posso viver, se me permitem a paracitação de nosso filósofo maior, o Paulinho.

Paulinho, o da Viola.

O lance, a coisa que me demove do saudosismo é que continuo vivo. Os achaques da vida que acumulo a cada ano, as separações de amigas e amigos diletos, as redefinições do amor, todos têm algo em comum: não me dão tesão. Não penso sequer em os esquecer, faço questão do Caos, da brusca guinada de direção, mas não os maldigo, nem edulcoro.

Estão aí, fazer o que? Mas questão faço de escarnecer e maldizer. Vejam, como sou coerente.

Deus, ó deus!

Tamos aí, amigo, mas pega leve.

E só o meu jeito de cantar, ninguém precisa entrar no coro.

Modos que, ora veja o senhor, Seu Coronel, ora veja a senhora, Sinhá, acabei por retrospectar, o que é só outro modo de dizer que sou infiel até a mim. Graças ao deus dos agnósticos.

Há um céu, quero que saibam, onde meu tataravô africano toma uma cachaça, feita pelo meu tataravô bugre, com meu tataravô judeu e o tataravô mouro. E as tataravós cozinham boa comida que, aliás, não é Kosher. Ou talvez seja, meus contatos com o além não foram muito informativos.

E elas conversam, estas minhas avós vindas de todo o planeta, e com esta conversa sustentam o mundo.

E nem mesmo contei aos avós mortos que logo terão companhia de outras avós e avôs japoneses e espanhóis, que a família aumentou.

Meu tio avô pernambucano, Vicente, tocava rabeca, meu tatara-tatara judeu, marrano com batistério e tudo o mais, Davide de Sande, tocava o shofar, escondido, nas sextas-feiras quando enxergava as Três Marias.

Meus avós africanos fabricavam pífanos.

Sua bênção, mãe.

CONVENHAMOS, SOU DE BONS BOFES (Hilda Hilst – in FLUXO)

pagliaccio-che-ride

E aí dizem, pô, tu diz que é o Corintiano Voador, só que você não tem cara! E aí eu digo, porra, sou eu, o Corintiano Voador! Aí dizem, tá vendo?, você é igual a esses aí, os covardes, que não mostram a cara.

E aí dizem:

você escreve, e fala mal, e chama o cara de Jarbas. Só que não aparece a tua cara!

E aí dizem, você é um daqueles, um grande, imenso covarde.

E aí eu digo, não, eu sou legal, eu converso com os “povos”, elogio os “povo”, falo coisas. Cito. Cito para “caráleo”.

Digo tudo de música, digo. Cito. Tudo. Arrigo Boito e seu Mefistofele, Gonzaga e Lenine. E falo do Jackson, que é do Pandeiro. E falo.

Cito, digo, me inflamo. E dizem, Ráaaaa. E…aaaaarrá, sabia que tu era um frouxo, um fake, um furibundo.

Aí me dizem. Me dizem.

Eu.

Aí eu falo, digo mesmo agorinha. Sou daqueles. Dos que nadam nos Lagos Euphraticos, logo abaixo das cúpulas de Marte.

E ninguém me liga. Necas de pitibiriba.

Falo de novo.

E digo…digo. Né?

Digo.

Gosto não do tempo d´agora. É salgado, amargo e me lembra o sabor de antanho.

Problema não. Nenhum. Níquites (dizia lá o Wuspes, no Grande Sertão cheio de veredas lá do Riobaldo).

Posso conversar com um montão de pessoas: posso.

Então, oi Mariéis, Souzaesteres, Lauborés diversos!

Oi.

Saibam que o tempo é álacre, que o verbo foi capado. Então.

Então.

Então, vos conclamo ao riso.

Passará o tempo.

Ah, sem dúvida, passará o tempo e as coisas se encaminharão para outros escaninhos. Mais belos, mais suaves, mais férteis.

E o medíocre mijará na sombra.

Será um tempo de cachaça, claro.

E uma hora a coisa acaba.

BELALUGOSI

 

Até que enfim atravessamos o proverbial Rubicão. Cabou. Finalmente, ‘guentava mais não. Aliviado, não comento mais e mais não falo. Ó, glória! Os patrícios no poder novamente. O povo do meio deve agora ser humilde, relaxar e fazer as oferendas habituais em riba de seus televisores, monitores ou seja lá qual for seu meio de ligação com o invisível. Trevas voltando, o povo de baixo fará o de sempre: comporá sambas, rocks diversos, funks a mancheia, forrós aos borbotões e continuará segurando e mantendo esta utopia chamada Brasilidade (alguém tem que fazer isso). Evoé, Musas, vão tomar cachaça, suas desequilibradas!

JARBAS E A PÁTRIA

nosferatu

“É um Hermitage, não é?”

Olheira deu uma cafungada grande na taça com o que, suponho eu, ele achava um gesto elegante.

“Perdão?”

“Hermitage…é um Hermitage, não?”

“É claro, Hermitage…”, disse do modo mais escandido possível para que não se notasse meu constrangimento. Vá lá saber que zurrapa da serra gaúcha Dona Jivoneide despejara nas taças.

“Eu sabia. Existem Hermitages e Hermitages.”

“Sem dúvida”, apressei-me em concordar.

Não me irritei com a atitude de Dona Jivoneide, pois como meu finado pai sempre dizia, não se deve estragar um bom vinho com um pateta. Ou um medíocre. Ou um chato. Olheira era todas essas coisas. Um parvenu irritante.

Mas que diabos, tinha que despejar a maldita beberagem na minha taça também?

Olheira sacudiu a taça num gesto esnobe, um cliché visual de filmes americanos retratando nobres que há anos o infectara. O cinema americano ainda teria que pagar por seus pecados!

“Jarbas está preocupado,” disse num tom que fazia crer que era uma novidade e não o óbvio.

Comecei a preparar um Partagas Selección Privada (para escapar do vinho, admito), ante o olhar desaprovador de Olheira. O imbecil confundia degustar charutos com tabagismo.

“Mesmo?”, e a primeira nuvem azulada subiu ao teto.

Na nova ordem capenga de Jarbas o Olheira fora premiado com uma sinecura que lhe permitia espalhar suas parlapatices verbais em outras terras.

“Mesmo! Jarbas, eu, nós, não estamos gostando das atitudes da Pátria!”

Ajeitou-se na poltrona com azedume e despejou mais do mijo escuro em sua taça (eu tinha que conversar seriamente com Dona Jivoneide. O Jarbas, o Olheira, tudo bem, mas um dia um convidado menos limitado iria perceber o insulto).

“Andando por aí, fazendo passeatas, reuniões, enxovalhando nosso nome e…”, quase não podendo se conter, “enxovalhando…não só aqui. Lá fora!”

Aguardou uns momentos, olhando para o alto (o lorpa amava os gestos canastrões), e a seguir me encarou, irado.

“Isto tem que acabar! Sei que você é íntimo da Pátria. Vocês já foram casados. Vamos, fale com ela, diga a ela que tudo tem limite. Diga a ela que os tempos são outros. Diga a ela que ela agora não tem ninguém que a proteja. Seja claro, ameace! Deixe bem claro que nós somos legião!”

Comecei a me entediar. Pensava que Jarbas e Olheira me viessem com algo mais original. Aliás, Jarbas sabia que Olheira conspirava?

Claro que sabia. Só não levava a sério a competência do Olheira e seus amigos.

“Verei o que posso fazer, Olheira. Vou…ah, conversar com a menina”, e tentei  minha melhor imitação de um sorriso confiante.

Continuei com o Partagas ainda por alguns minutos após a saída de Olheira (que estava de partida para pregar o verbo em algum outro país infeliz).

Dona Jivoneide veio à sala, recolheu as taças e já saindo me mimoseou com um riso sarcástico.

“Botei foi Sangue-de-Boi, mas da próxima vai é São Tomé mesmo ”

TODO JARBAS TEM O JARBAS QUE MERECE

JARBAS 2

 

Dona Jivoneide, a face pétrea de sempre, me apareceu hoje pela manhã. Em uma mão a estatueta do buda tailandês e uma flanela e na outra o telefone.

“Seu Zuca. Quer falar com o senhor.”

Ia ser um dia difícil. Dona Jivoneide ainda sem falar comigo e agora essa coisa do Zuca me ligando. E não gostei da brincadeira da Selma Plá, me gozando, “fica feliz dela não colocar cicuta no teu vinho”.

“A senhora disse que eu estava em casa?”, perguntei retoricamente, bestamente, ao rosto sexagenário, contrariado, de gárgula, de Dona Jivoneide.

Saiu sem nem mesmo o refrigério de um xingamento em resposta.

“Alô?…Robério? Tudo bem aí…?”, tentei ser diplomático.

“Bem tá o teu rabo, seu filho da puta!”. Eu perdoava tais arroubos a Robério, sabendo de suas origens no patriarcado agrário.

“Robério Zuca, vigie seus modos!!!”. Peremptório e direto como um médico, dizia meu pai, é assim que devemos tratar nossos serviçais.

“Meus modos, teu cú! Viu a porra da gravação? Vai, não mente…que eu sei que você sabe quem foi o corno que liberou…! Vai…fala!”

Servi-me de dose generosa da capitosa Cachaça Baroa, presente do Zózimo.

“Robério…façamos o seguinte. Vamos nos encontrar pessoalmente. Ninguém mais que você tem que ter receio destes malditos aparelhos…”

Gosto de pensar que sou leal com meus consorciados. Amicus certus in re incerta cernitur.

Continuei.

“Na casa do ministro, pode ser? Três horas?”

“Eu vou tá lá…e é melhor você também tá lá…eu posso te foder!!! Teu telhado é de vidro!”, estertorou por fim, desligando.

Ri-me a socapa. Quando será que aprenderiam, Deus meu? Quando será que aprenderiam que gente de minha estirpe não tinha que ter medo do “sistema”. Nós sempre fomos o “sistema”!

Mais tarde ligaria para Jarbas para passar-lhe um pito.

Ora, a audácia do mordomo do mordomo!

 

PÔ, PÁTRIA!

1931_Dracula_img1

 

O Brasil acordou lindo hoje.

As borboletas, conforme ordenei, borboletearam com graça e doçura. Os ternos besourinhos besouraram à mancheia, do mesmo modo os trêfegos colibris corresponderam a nossas expectativas, em sua azáfama de colorir aos céus da Pátria.

Jarbas nem me ligou, mas um seu assessor, um macho branco de boa cepa, mandou-me um e-mail: o Líder agradece!

Por nada, Jarbas.

A Pátria, por outro lado, rancorosa, fútil e infantil, ainda não retorna minhas ligações.

Pô, Pátria!