Olha pro céu, Frederico

Hoje de manhã, saindo para a labuta, olhei para o céu. O que vi? Reparem que eu estava olhando para o céu, o firmamento, lar dos justos, obra magistral do pincel do Criador (pincel, não caiu bem…), bem eu falava do céu, e foi hoje de manhã, eu saía para a labuta e olhei para o céu. O que vi? Bem, nadra….olhei e, melhor ser franco: vi porra nenhuma. Então, foi isso. É fodra!

Cachorra de imagem espiritual essa, hein?

Cachorra de imagem espiritual essa, hein?

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E O CORINTIANO SE DESESPERA E APELA, O POBREZINHO

OMULU DA PRAGA

 

Eu não me desespero, juro! Nem fico muito puto, só um pouco cabisbaixo, um tanto meditabundo, borocoxando em lamentos gemedores.

Já passei por tal, por isto e agora e por isso mais e mais acolá e, certamente, por aquilo que nos espera logo ali, mais adiante, na esquina.

Vocês aí, de novo, hein? Conspícuos como uma novela televisiva  e tão inteligentes como.

Pois é, os intuí, os pesadelei deveras. Vocês, os devotos de Jarbas. Vocês, que numa peça Shakespeareana qualquer jamais poderiam inspirar, e nunca, nunca seriam sequer um Yorick, a caveira do Bobo.

(Obrigado, Senhor, por não me fazer um crápula de toga ou um vendido de terno).

Vós.

O Bobo era só um bufão, afinal, um afim de Groucho Marx (eu disse Marx? Cruzes!), um cavalheiro cercado pelo que de melhor há, havia e, Deus permita, o que de melhor haverá de sempre florescer no espírito humano.

A caveira do Bobo, do Bobo Yorick, foi seu último, maravilhoso, teratológico cartão de visita, aí do meu chapa de Stratford-Upon-Avon.

Aí, filho-da-puta!

(Thank You, Bill!)

E, convenhamos, Shakespeare tinha respeito pelos Bobos, confiram lá no Rei Lear.

Ser ou não ser.

Não me desespero, eu disse? Verdade, dou de pronto que não me acreditem, mas juro.

Juradinho!

Só me aborreço.

Mas, então, por conseguinte, vamos lá. Vamos de novo ao antigo, à farsa medíocre mais uma vez em preparativos. Retiro a capa cheia de traças e coloco a mão no meu velho caralho, em desafio.

(mulheres, coloquem as mãos em vossas velhas e jovens bucetas lutadoras, também em desafio).

(viadas, coloquem as mãos em vossas velhas e jovens bucetas lutadoras, também em desafio).

(viados, coloquem as mãos em vossos velhos e jovens caralhos lutadores, também em desafio).

Mas antes de tudo, sobressaiam nossos cus…!!!

Tá, eu sei que nosso peido é fraco, mas o cheiro, amigos, o cheiro…

 

 

 

 

DO TRATADO DOS VERMES

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Irmãs e irmãos.

Vejam que coloquei antes, as damas. Me deem seu gáudio e elogios diversos.

Mas, irmãos e irmãs.

Nunca me esqueço que em épocas de exceção, é preciso se posicionar contra o rei e às teses do rei. É preciso.

Nunca me esqueço que Sobral Pinto, advogado, em tudo e por tudo discordando de Luís Carlos prestes, comunista e ser do mal (como diziam à época) ainda assim o defendeu.

Nesta época de pessoas bonitas, feitas de bonitezas, como o cavalheiro de Curitiba, o moço ungido por pastores. Nesta época, quero ter a verve de discordar do tempo e da forma como se desenvolve a flora e a fauna.

Sei lá se vou ser entendido. É um tempo de metalinguagens.

Mas…fede o tempo.

Não fede?

Né não?

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Running from the storm – by Slichoart-db89xws – DeviantArt

Eu tenho uma conhecida que atende por Maritza e que me enviou a postagem. Nuno, outro conhecido meu, também a recebeu e mandou-me o recado: não se importe. Muito louca a biscate. De pedra.

E disse também Júlia (depois de Maritza) e garatujou em outro e-mêiou:

Não se importe.

E Maritza então mirou-me (eletronicamente) e escolheu ser direta e machucadora, como um médico. E me disse (interneticamente):

“Não sei por que escrever. Se os pequeninos vermes dizem o que deverá ser, e tudo já está programado, então por que devo escrever?

Se os vermes tomaram o poder, escrever por que?

Se os vermes tomam conta do tempo e infectam as cisternas, para que sejam iguais às suas piscinas, escrever por que?

Irmãs e irmãos, não lhe lhes causa vergonha a pena em suas mãos?

Vos convido ao vômito.

De que adianta comentarem sobre o movimento em vossos úteros, sobre as circunvoluções em vossos sacos escrotais, se o mundo está a deriva?”

Ignorei. Afinal, ao fim e ao cabo, esta pessoa era mesmo louca, pois não?

E mentia, não?

Talvez ainda minta.

O CORINTIANO VOADOR VOLTA A PREGAR. LÁ NO DESERTO, EM RIBA DO MONTE.

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…e então eu pensei “por que não fazer ela redonda?”. Pronto, tava ali a solução, mas somente eu, euzinho, tinha topado com ela. A bola, o craque, o transporte de massas, tudo veio depois. Até mesmo o Barcelona.

Mas e aí, me elogiaram?, o chefe deu tapinhas no meu ombro?, o xamã da tribo fez sinal de positivo?. Necas. Nada. Faz quinze mil anos e foi justo desse jeito mesmo que aconteceu.

Cumé?…ah, tá, as manifestações…certo. Bons dias, Brasis.

Então tá. As pessoas do bem ganharam as ruas. Viram?. Deveriam ter visto. Vejam a retrospectiva: Ói lá um…viu? Ói lá outro, o de camiseta com slogan. Notou?

No começo eram trevas e o MPL do B só queria…queria, já nem lembro mais. Mas queria. Teve.

Aí entraram outros e outros e outros, lembram do cara ali?, tão vendo?…perto dos nóias e do lado do poste…isso, os que estão babando.

E as coisas continuaram e chegaram os que não gostam de político, os que odiavam a Dilma, os anticorruptos, qualquer um servia, os Black Blocs (assim, em inglês, para pronto entendimento), os…um monte.

E chegaram mais. Era massa. Era movimento.

Falar nisso, vitoriosos, derrubamos a Dilma. Depois fomos prá balada.

O povo. A massa.

Aí, não devolveram o meu porrete ainda!…

Pulhas!

2016, o samba e outras considerações

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Flores de Casamento – Marc Chagall

Uma coisa a que sempre aborreci foram as considerações de fim de ano.

Não quero ofender ninguém, é coisa minha.

É para mim e só para mim que serve.

Querendo aderir, se aprochegue e abra a lata, tome o cálice, dê um tapa na bagana. Mas não é obrigatório.

Mas dizia eu não apreciar as retrospectivas. Vera verdade verdadeira esta minha idiossincrasia. Sempre me incomodaram as contagens finais de segundos. Parece que uma bomba vai explodir.

A coisa é que eu canto samba, por que só assim eu me sinto contente. E vou ao samba, porque longe dele eu não posso viver, se me permitem a paracitação de nosso filósofo maior, o Paulinho.

Paulinho, o da Viola.

O lance, a coisa que me demove do saudosismo é que continuo vivo. Os achaques da vida que acumulo a cada ano, as separações de amigas e amigos diletos, as redefinições do amor, todos têm algo em comum: não me dão tesão. Não penso sequer em os esquecer, faço questão do Caos, da brusca guinada de direção, mas não os maldigo, nem edulcoro.

Estão aí, fazer o que? Mas questão faço de escarnecer e maldizer. Vejam, como sou coerente.

Deus, ó deus!

Tamos aí, amigo, mas pega leve.

E só o meu jeito de cantar, ninguém precisa entrar no coro.

Modos que, ora veja o senhor, Seu Coronel, ora veja a senhora, Sinhá, acabei por retrospectar, o que é só outro modo de dizer que sou infiel até a mim. Graças ao deus dos agnósticos.

Há um céu, quero que saibam, onde meu tataravô africano toma uma cachaça, feita pelo meu tataravô bugre, com meu tataravô judeu e o tataravô mouro. E as tataravós cozinham boa comida que, aliás, não é Kosher. Ou talvez seja, meus contatos com o além não foram muito informativos.

E elas conversam, estas minhas avós vindas de todo o planeta, e com esta conversa sustentam o mundo.

E nem mesmo contei aos avós mortos que logo terão companhia de outras avós e avôs japoneses e espanhóis, que a família aumentou.

Meu tio avô pernambucano, Vicente, tocava rabeca, meu tatara-tatara judeu, marrano com batistério e tudo o mais, Davide de Sande, tocava o shofar, escondido, nas sextas-feiras quando enxergava as Três Marias.

Meus avós africanos fabricavam pífanos.

Sua bênção, mãe.

CONVENHAMOS, SOU DE BONS BOFES (Hilda Hilst – in FLUXO)

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E aí dizem, pô, tu diz que é o Corintiano Voador, só que você não tem cara! E aí eu digo, porra, sou eu, o Corintiano Voador! Aí dizem, tá vendo?, você é igual a esses aí, os covardes, que não mostram a cara.

E aí dizem:

você escreve, e fala mal, e chama o cara de Jarbas. Só que não aparece a tua cara!

E aí dizem, você é um daqueles, um grande, imenso covarde.

E aí eu digo, não, eu sou legal, eu converso com os “povos”, elogio os “povo”, falo coisas. Cito. Cito para “caráleo”.

Digo tudo de música, digo. Cito. Tudo. Arrigo Boito e seu Mefistofele, Gonzaga e Lenine. E falo do Jackson, que é do Pandeiro. E falo.

Cito, digo, me inflamo. E dizem, Ráaaaa. E…aaaaarrá, sabia que tu era um frouxo, um fake, um furibundo.

Aí me dizem. Me dizem.

Eu.

Aí eu falo, digo mesmo agorinha. Sou daqueles. Dos que nadam nos Lagos Euphraticos, logo abaixo das cúpulas de Marte.

E ninguém me liga. Necas de pitibiriba.

Falo de novo.

E digo…digo. Né?

Digo.

Gosto não do tempo d´agora. É salgado, amargo e me lembra o sabor de antanho.

Problema não. Nenhum. Níquites (dizia lá o Wuspes, no Grande Sertão cheio de veredas lá do Riobaldo).

Posso conversar com um montão de pessoas: posso.

Então, oi Mariéis, Souzaesteres, Lauborés diversos!

Oi.

Saibam que o tempo é álacre, que o verbo foi capado. Então.

Então.

Então, vos conclamo ao riso.

Passará o tempo.

Ah, sem dúvida, passará o tempo e as coisas se encaminharão para outros escaninhos. Mais belos, mais suaves, mais férteis.

E o medíocre mijará na sombra.

Será um tempo de cachaça, claro.

E uma hora a coisa acaba.

BELALUGOSI

 

Até que enfim atravessamos o proverbial Rubicão. Cabou. Finalmente, ‘guentava mais não. Aliviado, não comento mais e mais não falo. Ó, glória! Os patrícios no poder novamente. O povo do meio deve agora ser humilde, relaxar e fazer as oferendas habituais em riba de seus televisores, monitores ou seja lá qual for seu meio de ligação com o invisível. Trevas voltando, o povo de baixo fará o de sempre: comporá sambas, rocks diversos, funks a mancheia, forrós aos borbotões e continuará segurando e mantendo esta utopia chamada Brasilidade (alguém tem que fazer isso). Evoé, Musas, vão tomar cachaça, suas desequilibradas!

JARBAS E A PÁTRIA

nosferatu

“É um Hermitage, não é?”

Olheira deu uma cafungada grande na taça com o que, suponho eu, ele achava um gesto elegante.

“Perdão?”

“Hermitage…é um Hermitage, não?”

“É claro, Hermitage…”, disse do modo mais escandido possível para que não se notasse meu constrangimento. Vá lá saber que zurrapa da serra gaúcha Dona Jivoneide despejara nas taças.

“Eu sabia. Existem Hermitages e Hermitages.”

“Sem dúvida”, apressei-me em concordar.

Não me irritei com a atitude de Dona Jivoneide, pois como meu finado pai sempre dizia, não se deve estragar um bom vinho com um pateta. Ou um medíocre. Ou um chato. Olheira era todas essas coisas. Um parvenu irritante.

Mas que diabos, tinha que despejar a maldita beberagem na minha taça também?

Olheira sacudiu a taça num gesto esnobe, um cliché visual de filmes americanos retratando nobres que há anos o infectara. O cinema americano ainda teria que pagar por seus pecados!

“Jarbas está preocupado,” disse num tom que fazia crer que era uma novidade e não o óbvio.

Comecei a preparar um Partagas Selección Privada (para escapar do vinho, admito), ante o olhar desaprovador de Olheira. O imbecil confundia degustar charutos com tabagismo.

“Mesmo?”, e a primeira nuvem azulada subiu ao teto.

Na nova ordem capenga de Jarbas o Olheira fora premiado com uma sinecura que lhe permitia espalhar suas parlapatices verbais em outras terras.

“Mesmo! Jarbas, eu, nós, não estamos gostando das atitudes da Pátria!”

Ajeitou-se na poltrona com azedume e despejou mais do mijo escuro em sua taça (eu tinha que conversar seriamente com Dona Jivoneide. O Jarbas, o Olheira, tudo bem, mas um dia um convidado menos limitado iria perceber o insulto).

“Andando por aí, fazendo passeatas, reuniões, enxovalhando nosso nome e…”, quase não podendo se conter, “enxovalhando…não só aqui. Lá fora!”

Aguardou uns momentos, olhando para o alto (o lorpa amava os gestos canastrões), e a seguir me encarou, irado.

“Isto tem que acabar! Sei que você é íntimo da Pátria. Vocês já foram casados. Vamos, fale com ela, diga a ela que tudo tem limite. Diga a ela que os tempos são outros. Diga a ela que ela agora não tem ninguém que a proteja. Seja claro, ameace! Deixe bem claro que nós somos legião!”

Comecei a me entediar. Pensava que Jarbas e Olheira me viessem com algo mais original. Aliás, Jarbas sabia que Olheira conspirava?

Claro que sabia. Só não levava a sério a competência do Olheira e seus amigos.

“Verei o que posso fazer, Olheira. Vou…ah, conversar com a menina”, e tentei  minha melhor imitação de um sorriso confiante.

Continuei com o Partagas ainda por alguns minutos após a saída de Olheira (que estava de partida para pregar o verbo em algum outro país infeliz).

Dona Jivoneide veio à sala, recolheu as taças e já saindo me mimoseou com um riso sarcástico.

“Botei foi Sangue-de-Boi, mas da próxima vai é São Tomé mesmo ”