SOBRE AS CANÇÕES, AS PALAVRAS E OS SONS

rabeca

 

 

Para meu pai e sua viola, minha mãe e seus cantares

 

Vixe, tem a poesia que cresce e viceja à mancheia

Tem os cavalos e as árvores, poéticos e frágeis

Tem as canções que são de outros (como as de Mariana, a Gouveia)

Tem os armênios tocando dubuks e tem meu pai

 

 

Meu pai um dia me apontou o Setestrelo

Onde era o céu todo feito de pretume

E havia o lume de estrelas aos milhões

E havia o medo do escuro como selo

E era meu pai e um instrumento e as canções

E empunhava um instrumento e então cantava

Todo o aparato de uma lua como lume

E era meu pai e era a vida e era o mundo

 

(Meu pai um dia me apontou o Setestrelo)

 

E era meu pai, o violeiro, o autor bissexto

num violão com afinação Paraguaçu, mó de viola

desesquecia desta a vida o rumo, o texto

mas deslembrava que era o mundo, escola

 

(Meu pai um dia me apontou o Setestrelo)

 

E tocava descuidado para a lua cheia

E Era como ouvir a mouros de mil anos, vãos e ágeis

No seu eterno cantochão sem fim, tenazes

Em um sussurro construindo, avó a mãe, a filho, a teia

 

(Meu pai um dia me apontou o Setestrelo)

 

O alaúde que meu pai compunha por capricho

Domando o violão como se fosse um bicho

Tocando ao invertido por viola, amiúde

E sem saber meu pai tocava um alaúde

 

E se acolhia este pai meu em becos da mouraria

Com suas décimas e as décimas que ficaram, os frutos

Compartilhadas por judeus, por mouros e por meus pais

Décimas que vieram por aqueles mesmos aquedutos

 

(Meu pai um dia me apontou o Setestrelo)

 

Os tais romanos, sabe a Lapa?, nos Rios em janeiros?

E se lavrando nos cordéis, nas alegrias e nos lutos

No mesmo compasso que eram tocadas em Karakorum

Quando dez músicos as tocavam como se fossem um

 

(Meu pai um dia me apontou o Setestrelo)

 

mesmo compasso da milonga e do martelo

e de ciganos, de judeus, dos repentistas

como Aderaldo que era vate e era cego

como Vicente, tio meu, bom rabequista

 

(Meu pai um dia me apontou o Setestrelo)

 

Mas não falava de mim, nunca de mim, tão só de música

Como músicos eram e são meu pai e irmãos

Compondo como compunham gestas de criação

Com todo o estranhamento que nos trouxe a música

 

(Meu pai um dia me apontou o Setestrelo)

 

Como todo o estranhamento que me trouxe o som

Somente eu não, de mãos esquerdas, nunca eu não

Como um Aníbal falho, fugido de uma guerra Púnica

Como alguém carente de todo e qualquer dom.

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SOBRE A POESIA E OUTRAS EXCENTRICIDADES

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ANDERSON ANDRADE – DeviantArt

 

Para Mariana, a Gouveia. Arqueóloga de quintais, geógrafa afetiva e tecelã de ritmos.

 

 

Quando era eu ainda um petiz (adoro esta palavra tão antiga dos meus primeiros livros de escola); bem, quando era ainda um moleque, me apresentaram à poesia. Primeiro com meu pai, devoto de cordéis e depois se acomodaram na sala os parnasianos e aí ouvi a música de Bilac e Castro Alves, suas palavras encorpadas, as rimas feitas de matéria diáfana, mas densas, como trovões.

Começo de novo, a poesia.

Bem, amigas e amigos, a poesia para mim que começava eram só as rimas. Não conseguia conceber o poetamento sem a mágica das rimas. Poema para mim, nos começos começantes, eram os rimados.

Na época, todos concordavam comigo. Todos os habitantes do meu mundo social tinham isto claro e soberano: poesia sem rima não era poesia. Daí que desprezavam as poesias não rimadas como imperfeitas, dignas de riso.

Eram os setenta e os oitenta em toda sua falta de glória.

Então, como na canção, se passaram os anos e eu consegui, com certo sucesso, sair do nicho onde me gerei e conheci a outras formas: primeiro os versos brancos, depois os Oswalds e Mários de Andrade, as Cecílias e a Túnica Inconsútil de Jorge de Lima. Depois, os concretistas, as tentativas de tradução de haicais, os franceses, Octávio Paz (e os arcos e as liras de Octávio Paz), Drummond.

Foi aí que eu percebi o que de fato me atraía na poesia. Não eram as rimas. Gregos e romanos, chineses e persas e árabes não rimavam. Mais que tudo, percebi que era o ritmo.

Uma coisa que o poeta mediano não percebe, embora todo poeta, medíocre ou genial, mereça o cognome grandiloquente e vazio: Fulano, o poeta.

Sempre acompanhei com carinho as seções de poesia de pequenos jornais de cidades, os jornais de classe, as revistas de ocasião, onde Beltrana e Beltrano se faziam publicar. Como não entendiam de ritmo, cometiam seus poemas com aquela qualidade que nos trazia a nós, leitores, um pequeno incômodo em nosso ouvido interno.

Mas eram poemas e eu apreciava seus esforços. Ainda aprecio. A única medida sendo se eram honestos ou não em seus esforços.

Houve mesmo uma evolução no gosto médio dos poetas médios. Nos anos setenta e oitenta (e sem dúvida nas décadas anteriores que não vivi) preferiam os meus adorados medianos às rimas, depois perceberam não ser pecado soltarem as suas palavras das grades da metrificação.

Só não percebiam que com rima ou sem rima, os poemas reclamavam uma forma, um andamento, uma pulsação.

Não obstante, minha régua não mudou: honestidade. Sem honestidade não há o poema e, suspeito, nem a prosa e nem o texto. Não estou falando da verdade, estou falando de coerência. Um signo tem que responder a outro signo, um tom a um outro tom.

Exempli Gratia, a música. A música também não pode prescindir da pulsação, do andamento, embora sejam outras, as pulsações e andamentos da música, por existirem dentro de outra pulsação e andamento mais poderosa, imperiosa, que é feição e a necessidade que fazem da música, música.

Você pode ouvir a uma peça serial de Schoenberg ou Alban Berg; a Jackson do pandeiro ou a uma música introdutória em peça do teatro Nô; a Ravi Shankar; a Elis, ao hip-hop, ao funk, ao sertanejo, enfim. E lá você vai reconhecer a música, o balanço e vai saber no ato se está tratando com um criador honesto.

Se não, você vai sentir o ruído da máquina, cada vez mais presente e só.

Também assim com a poesia. Parece ser uma questão não do acorde, mas da mão que dá vida ao acorde. Parece ser uma questão não da palavra, mas da boca e da mão que se preocupa com, em conjugar, em tornar harmônica a palavra e o espaço em branco entre as palavras.

Aliás, não é vazio o espaço entre uma palavra e outra palavra. Talvez nem seja branco, mas está lá.

E era só o que eu tinha a escrever.

Em outra ocasião, reinventaremos a roda. Aguardem.