DO TRATADO DOS VERMES

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Irmãs e irmãos.

Vejam que coloquei antes, as damas. Me deem seu gáudio e elogios diversos.

Mas, irmãos e irmãs.

Nunca me esqueço que em épocas de exceção, é preciso se posicionar contra o rei e às teses do rei. É preciso.

Nunca me esqueço que Sobral Pinto, advogado, em tudo e por tudo discordando de Luís Carlos prestes, comunista e ser do mal (como diziam à época) ainda assim o defendeu.

Nesta época de pessoas bonitas, feitas de bonitezas, como o cavalheiro de Curitiba, o moço ungido por pastores. Nesta época, quero ter a verve de discordar do tempo e da forma como se desenvolve a flora e a fauna.

Sei lá se vou ser entendido. É um tempo de metalinguagens.

Mas…fede o tempo.

Não fede?

E uma hora a coisa acaba.

BELALUGOSI

 

Até que enfim atravessamos o proverbial Rubicão. Cabou. Finalmente, ‘guentava mais não. Aliviado, não comento mais e mais não falo. Ó, glória! Os patrícios no poder novamente. O povo do meio deve agora ser humilde, relaxar e fazer as oferendas habituais em riba de seus televisores, monitores ou seja lá qual for seu meio de ligação com o invisível. Trevas voltando, o povo de baixo fará o de sempre: comporá sambas, rocks diversos, funks a mancheia, forrós aos borbotões e continuará segurando e mantendo esta utopia chamada Brasilidade (alguém tem que fazer isso). Evoé, Musas, vão tomar cachaça, suas desequilibradas!

O CÁLICE MÍNIMO

POVO POVO

 

O debate mínimo e eterno. Demonstrar a existência não do Brasil, não de Deus, mas desta fantasmagoria chamada Povo.

Haverá maior solidão?

Povo, nós. A putinha sempre enganada.

A Pátria vira de novo o que sempre foi: um Serpentário.

De novo!

Um entreato singelo

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Mas. Então não era?

As pessoas não sabem, então conto o ocorrido.

Ora, o ocorrido? É. Bem, vamos lá.

O caminhão parou defronte à joalheria. Um caminhão-baú, um bauzão. Sua porta traseira foi descida e transformou-se em rampa e pela rampa desceu o hoje famoso elefante. Irado, focado e atrevido.

Não teve dúvida o paquiderme, com a tromba arrebentou o vidro e com a tromba recolheu as joias que pode e com a tromba as atirava para o interior do caminhão. Limpo o mostruário, subiu ao caminhão e daí se evadiu, tomando o caminho para LINS[1].

Mais tarde o planeta girou, os pastores pregaram e algumas plantas foram felizes. Então, chegou a polícia. Assim, no seco. Um inspetor, um investigador, o cara.

E havia o pequeno Anselmo, o guarda-noturno, a testemunha.

“Bem”, disse o inspetor, “conte tudo o que viu”. E disse tudo, Anselmo, o que vira, o elefante do mal, as joias e a tromba do elefante do mal capando as joias.

“Huuummm…”, o inspetor-investigador do bem considerou com seus zíperes[2].

“Diga-me, descreva-me, como era o elefante?”, inquiriu o inspetor, severo e hirto.

“Descrever, como descrever?”, desesperou-se Anselmo. “Um elefante é um elefante!”[3]

“O amigo se engana”, pontuou o homem-da-lei. “Ora, veja o senhor. Existem os elefantes indianos, do subcontinente indiano, bem entendido; bem, os elefantes indianos têm orelhas relativamente pequenas, quer dizer, são enormes, mas comparadas às dos elefantes africanos, são pequenas. Porque os africanos, olha, têm umas putas dumas orelhas. Assim, abano é pouco.”

“Ah…”, e a face estupefata de Anselmo era toda uma história.

“Bem…?”[4].

“Olha, não posso mesmo dizer se era africano ou indiano.”

“Como não, as orelhas…é só me descrever…”

“É  que ele usava uma meia de mulher na cabeça”.

 

[1] Local Incerto e Não Sabido.

[2] Era moderno demais para considerar com meros botões o inspetor.

[3] O que só mostra o quão terríveis são as pessoas práticas, de pés no chão.

[4] O inspetor era todo cheio de “bens” como se vê.

JARBAS E A PÁTRIA

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“É um Hermitage, não é?”

Olheira deu uma cafungada grande na taça com o que, suponho eu, ele achava um gesto elegante.

“Perdão?”

“Hermitage…é um Hermitage, não?”

“É claro, Hermitage…”, disse do modo mais escandido possível para que não se notasse meu constrangimento. Vá lá saber que zurrapa da serra gaúcha Dona Jivoneide despejara nas taças.

“Eu sabia. Existem Hermitages e Hermitages.”

“Sem dúvida”, apressei-me em concordar.

Não me irritei com a atitude de Dona Jivoneide, pois como meu finado pai sempre dizia, não se deve estragar um bom vinho com um pateta. Ou um medíocre. Ou um chato. Olheira era todas essas coisas. Um parvenu irritante.

Mas que diabos, tinha que despejar a maldita beberagem na minha taça também?

Olheira sacudiu a taça num gesto esnobe, um cliché visual de filmes americanos retratando nobres que há anos o infectara. O cinema americano ainda teria que pagar por seus pecados!

“Jarbas está preocupado,” disse num tom que fazia crer que era uma novidade e não o óbvio.

Comecei a preparar um Partagas Selección Privada (para escapar do vinho, admito), ante o olhar desaprovador de Olheira. O imbecil confundia degustar charutos com tabagismo.

“Mesmo?”, e a primeira nuvem azulada subiu ao teto.

Na nova ordem capenga de Jarbas o Olheira fora premiado com uma sinecura que lhe permitia espalhar suas parlapatices verbais em outras terras.

“Mesmo! Jarbas, eu, nós, não estamos gostando das atitudes da Pátria!”

Ajeitou-se na poltrona com azedume e despejou mais do mijo escuro em sua taça (eu tinha que conversar seriamente com Dona Jivoneide. O Jarbas, o Olheira, tudo bem, mas um dia um convidado menos limitado iria perceber o insulto).

“Andando por aí, fazendo passeatas, reuniões, enxovalhando nosso nome e…”, quase não podendo se conter, “enxovalhando…não só aqui. Lá fora!”

Aguardou uns momentos, olhando para o alto (o lorpa amava os gestos canastrões), e a seguir me encarou, irado.

“Isto tem que acabar! Sei que você é íntimo da Pátria. Vocês já foram casados. Vamos, fale com ela, diga a ela que tudo tem limite. Diga a ela que os tempos são outros. Diga a ela que ela agora não tem ninguém que a proteja. Seja claro, ameace! Deixe bem claro que nós somos legião!”

Comecei a me entediar. Pensava que Jarbas e Olheira me viessem com algo mais original. Aliás, Jarbas sabia que Olheira conspirava?

Claro que sabia. Só não levava a sério a competência do Olheira e seus amigos.

“Verei o que posso fazer, Olheira. Vou…ah, conversar com a menina”, e tentei  minha melhor imitação de um sorriso confiante.

Continuei com o Partagas ainda por alguns minutos após a saída de Olheira (que estava de partida para pregar o verbo em algum outro país infeliz).

Dona Jivoneide veio à sala, recolheu as taças e já saindo me mimoseou com um riso sarcástico.

“Botei foi Sangue-de-Boi, mas da próxima vai é São Tomé mesmo ”

O pensamento, segundo o Professor Fofinho

tucano

By Lo Cole

Disse o Professor Fofinho, o gato, copo de conhaque e um charuto em cada mão, ao Senhor Coelhinho, o…bem, coelho:

“Existem dois pensamentos autoexcludentes, Coelhinho: o paranoico/conspiracionista e o pensamento em si mesmo.

Não estou montando frases só pelo prazer do estilo. Fato é que os dois modos de construir uma reflexão são mesmo antípodas: o pensamento paranoico é próprio das épocas de crise e é focal e autorreferente.

É como a serpente que morde a própria cauda, o ouroboros da simbologia alquímica.

No pensamento paranoico nada há mais para fazer, já que toda a realidade é controlada por “eles”, todos os esquemas já foram montados e nossas reações serão previsíveis e pueris, já que sempre seremos previstos em nossas ações. Aliás, não mais agimos, só atuamos.

Para o bem e para o mal o pensamento paranoico nos convida a que desistamos, nos convence que somos irrelevantes.

É um modelo de pensamento típico das épocas de crise e assume várias feições, a depender de quem o esposa: sofisticado e complexo se criado e mantido por intelectuais; raso, simples e finalista em caso contrário.

Mas é sempre redutor e em seus desdobramentos tende ao niilismo.

E existe o pensamento.

Que é incerto, especulativo e dá muito, muito trabalho.

E usar do pensamento em época de crise é coisa de uma teimosia toda especial, audácia para poucos.

Então, é com certo cuidado que eu penso, porque dói.

Mas tento e, nos meus melhores dias, acho que até penso.”.

O Senhor Coelhinho mirou sonhadoramente a tarde caindo. E ponderou.

TODO JARBAS TEM O JARBAS QUE MERECE

JARBAS 2

 

Dona Jivoneide, a face pétrea de sempre, me apareceu hoje pela manhã. Em uma mão a estatueta do buda tailandês e uma flanela e na outra o telefone.

“Seu Zuca. Quer falar com o senhor.”

Ia ser um dia difícil. Dona Jivoneide ainda sem falar comigo e agora essa coisa do Zuca me ligando. E não gostei da brincadeira da Selma Plá, me gozando, “fica feliz dela não colocar cicuta no teu vinho”.

“A senhora disse que eu estava em casa?”, perguntei retoricamente, bestamente, ao rosto sexagenário, contrariado, de gárgula, de Dona Jivoneide.

Saiu sem nem mesmo o refrigério de um xingamento em resposta.

“Alô?…Robério? Tudo bem aí…?”, tentei ser diplomático.

“Bem tá o teu rabo, seu filho da puta!”. Eu perdoava tais arroubos a Robério, sabendo de suas origens no patriarcado agrário.

“Robério Zuca, vigie seus modos!!!”. Peremptório e direto como um médico, dizia meu pai, é assim que devemos tratar nossos serviçais.

“Meus modos, teu cú! Viu a porra da gravação? Vai, não mente…que eu sei que você sabe quem foi o corno que liberou…! Vai…fala!”

Servi-me de dose generosa da capitosa Cachaça Baroa, presente do Zózimo.

“Robério…façamos o seguinte. Vamos nos encontrar pessoalmente. Ninguém mais que você tem que ter receio destes malditos aparelhos…”

Gosto de pensar que sou leal com meus consorciados. Amicus certus in re incerta cernitur.

Continuei.

“Na casa do ministro, pode ser? Três horas?”

“Eu vou tá lá…e é melhor você também tá lá…eu posso te foder!!! Teu telhado é de vidro!”, estertorou por fim, desligando.

Ri-me a socapa. Quando será que aprenderiam, Deus meu? Quando será que aprenderiam que gente de minha estirpe não tinha que ter medo do “sistema”. Nós sempre fomos o “sistema”!

Mais tarde ligaria para Jarbas para passar-lhe um pito.

Ora, a audácia do mordomo do mordomo!

 

PALHAÇARIA

clown

Gabriel Cromer – French clown with mandolin – 1920

 

 

Ah, e eu ficando velho!

E meu país ficando cada vez mais novo!

Meu país é único. Como todo país é único.

Meu país com sua cor, que é só dele e não tua. Você é inquilino!

E é meu país e não teu.

Você. Te arrenego.

Você! desconheço.

Você! Você é doença que já conheço.

Você.

E eu falo de país quando devia falar de estado de espírito!

País meu, não. Lugar. Coração.

E o mundo é tão bonito!

Que época boa onde o medíocre se abre e se permite, e faz contraste com a alegria e com a rosa e com o dia.

PÔ, PÁTRIA!

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O Brasil acordou lindo hoje.

As borboletas, conforme ordenei, borboletearam com graça e doçura. Os ternos besourinhos besouraram à mancheia, do mesmo modo os trêfegos colibris corresponderam a nossas expectativas, em sua azáfama de colorir aos céus da Pátria.

Jarbas nem me ligou, mas um seu assessor, um macho branco de boa cepa, mandou-me um e-mail: o Líder agradece!

Por nada, Jarbas.

A Pátria, por outro lado, rancorosa, fútil e infantil, ainda não retorna minhas ligações.

Pô, Pátria!

JARBAS, JARBAS

JARBAS

 

Jarbas ascendeu ao poder lá pelas onze horas e já me ligava, untuoso e gozador.

“Viu? Fácil não, né? Vai, fala mal de mim agora.”

Não me dignei a responder que Jarbas podia ser irritante quando queria. Mas que diabos, por que estrilava? É claro que tive de o demitir. Nada pessoal, mas com o tempo se percebe que um mordomo é como um nariz sobressalente.

Desliguei e voltei a me enfronhar nas deliciosas memórias de Carlos Lacerda. Ainda tenho comigo o exemplar puído, editora Nova Fronteira, coleção Brasil Século 20, edição de 1978. A transcrição de entrevista de trinta e quatro horas, justamente um mês antes de sua morte. Uma preciosidade.

O celular novamente.

Preocupado que fosse nova tentativa de Jarbas, atendi com receio. Era a Pátria.

“Tudo isso acontecendo e você aí na praça, dando milho aos pombos”, reclamou, chorosa.

“Na verdade estou em casa, querida. Sem Pombos”.

“Não me chama de querida! Seu, seu…merda”.

“Pátria, baby, não faça assim…”.

“Faço! Como não fazer? Hein? Ele já se abancou por aqui, parecendo meu dono. Me faz propostas. E se fosse só ele…já viu os amigos que ele trouxe?”.

Levei os dedos ao septo e comprimi meus olhos cansados. Entendia o transe pelo qual passava a Pátria. Jarbas estava eufórico e somente eu sabia o quanto podia ser inconveniente em tais ocasiões.

“Escute…querida. Pátria, amor, me ouça! Me dê algum tempo para raciocinar e te ligo em seguida, ok?”.

Li um mais um trecho inspirado das memórias de Lacerda. Justamente onde ele relata os fatos que se passaram após o suicídio de Getúlio. Meus Deus, o homem era um visionário!

O celular.

“Sim, Jarbas?”.

“Agora eu sou imortal, viu? imortal! Escreva aí. Já entrei para a história…”.

Suspiro profundo, dedos massageando as têmporas. Calma, muita calma…”.

“Imoral, você disse?”.

“Imortal! Imortal!”.

A imoralidade eu conhecia. A imortalidade não podia julgar. Enfim!

Dona Jivoneide me trouxe o chá de camomila e as Memórias Improvisadas de Alceu Amoroso Lima, Editora Vozes, edição de 2000. Leitura perfeita quando no banheiro, poderoso laxante. Não comentou sobre o dia nem sobre Jarbas.

Não pude me conter.

“Vai, fala…diz que me avisou!”.

Não passou recibo.

Saia já da sala quando se virou, a face pétrea.

“Dona Pátria ligou de novo, pro fixo. Falou que seu Jarbas passou a mão na bunda dela.”

Deixei passar.

Essa não é de modo nenhum a atitude de um bom católico, pensei.

Jarbas, Jarbas…