O PRIMEIRO BRASILEIRO EM MARTE: novas descobertas

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Já havíamos antes reportado, neste espaço, sobre a polêmica viagem de Cego Aderaldo e José Pacheco ao planeta Marte (Ver aqui: https://goo.gl/CzQxMb). Eis que agora temos mais um intrigante indício de que talvez um terceiro brasileiro o tivesse feito antes.

É com certo cuidado que expomos o que segue, mas o expomos, certos de que somente a discussão fecunda poderá trazer novas luzes sobre o caso.

 

Corintiano Voador

 

 

 

O PRIMEIRO BRASILEIRO EM MARTE – PARTE I

(Revista Panta Rhei. Ed. 13, ano 7, p. 13 – Ouroboros Editora)

 

 

É de conhecimento geral o rebuliço causado pela descoberta recente da memória de Sílvio Romero, o insigne jurista sergipano, dando conta de uma suposta primazia brasileira na visita a Marte, o fatídico Planeta Vermelho.

Digo fatídico por não querer dizer mais, dados os mistérios, os acontecimentos inusitados quando não macabros a cercar o ― assim se expressou o Dr. Czermk de Leipzig ― Enigma Marciano[1].

Mas então, o primeiro brasileiro em Marte? Enlouqueceu o autor, ou pior, chegou a tal ponto sua fatuidade? Mas não, é com destemor que jogo à arena o candente assunto, melhor diria candente revelação: sim, o primeiro homem a pisar em solo marciano foi brasileiro, e que brasileiro!

Sei, já prevejo os esgares nas faces doutas. Um brasileiro em Marte? Disparate!

Não foram diferentes as reações ao primeiro pouso de nau feita por homens em solo lunar por Bedford e Cavor, em 1901. Houve quem chamasse ao primeiro de louco fantasista, já que Cavor supostamente permanecera em solo lunar. Foram necessárias as expedições posteriores de 1915 e 1917, onde se estabeleceram relações com os desconfiados selenitas, não fáceis e nem pacíficas. O resultado, o resgate de Cavor, calou as vozes insultuosas.

Mas, e todos sabem, a verdadeira polêmica se deu quanto à primazia do primeiro pouso lunar, vez que americanos e franceses requestaram esta glória para Michel Ardan e Barbicane, do Gun Club, em 1865, ou mais exatamente, para os dois americanos membros do Gun Club e para Ardan.

Ora, se a viagem dos ingleses foi fartamente documentada, pelo menos no que tange ao fato de haver sido Cavor encontrado na Lua e ter este confirmado, inclusive documentalmente, a partida de sua esfera em 1901, não havia a mesma certeza quando ao feito do Gun Club, por muitos considerado como um gigantesco feito de propaganda. Não ajudaram, é claro, as revelações da ex-Mme. Adele Ardan no seu Michel Ardan raconté.

E temos então Marte!

Sim, tivemos uma viagem a Marte. Antes mesmo que à Lua. Não poucos desacreditaram da obra publicada por Edwin, sobrinho do ex-capitão confederado John Carter, com uma compilação de suas memórias (dele, John).

E nada mais natural, dada a ideia de que um, digamos mecanismo, manufaturado por  antiga e avançada civilização, permitisse a que um homem fosse de imediato transportado a Marte[2].

Havia mesmo a sugestão nas entrelinhas que existiriam outros sítios em nosso orbe a guardar mais destes mecanismos fantásticos. Cavernas em ermos inóspitos, quase inacessíveis, somente esperando seus aventurosos descobridores. O encontro de uma estranha relíquia entre os bens deixados pelo espólio do capitão Carter foi mencionada; como mencionado também foi que a relíquia foi prontamente arrebatada pelo governo americano e dela não mais se soube.

Acresce que por esta época houvera a descoberta dos canais marcianos, entrevistos ao telescópio por Percival Lowell, embora este não tivesse ainda publicado suas conclusões, o que só se daria em 1891.

Com o que voltamos ao Brasil e ao primeiro brasileiro em Marte.

O mundo editorial brasileiro foi sacudido há três anos pela descoberta do assim chamado Manuscrito Escadafhart, cuja autoria de Sílvio Romero hoje é incontestada, e sua publicação por Célia Loredano.[3]

Para os não iniciados, Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero, Sílvio Romero, foi brilhante jurista sergipano da chamada Geração de 1871 e, juntamente com seu mestre Tobias Barreto, revolucionou o pensamento jurídico e filosófico no Brasil de Dom Pedro II. Ambos foram membros fundadores da assim chamada Escola do Recife, ligada à Faculdade de Direito da cidade homônima.

Pois bem, foi este Tobias Barreto o primeiro brasileiro e talvez o primeiro homem no mundo a pisar em solo marciano. Expliquemos.

Encontrado em documentos avulsos durante pesquisa no Arquivo Nacional, o Manuscrito traz em seu bojo relato tão fantástico que somente as recentes pesquisas levadas a cabo por equipe mista da UFPE e USP  no Lajeiro do Frade, na cidade pernambucana de Escada, puderam separar o mítico do histórico, concedendo ao relatado foros de verdade.

 

A VIAGEM DE TOBIAS BARRETO

 

Em 1873, Albert Wilhelm Heinrich von Preussen, filho daquele que seria o kaiser Frederico III  visitou o Brasil, sendo recebido com honras por Dom Pedro II.

O jovem príncipe viajou, com numerosa comitiva, na corveta Olga, e saindo da Corte estendeu sua viagem até o município de Escada, Pernambuco, onde chegou na data de 03 de maio de 1883. O fato é referido em Himmel und Escadafahrt, artigo escrito por Tobias Barreto, único brasileiro a fazer da comitiva do príncipe imperial.[4]

Ora, tal fato sempre intrigou a historiadores, a não prevista visita do príncipe imperial de uma das mais poderosas nações da época a um esquecido município pernambucano, onde se vê hóspede do Coronel Marcionílio da Silveira Lins, Barão de Utinga, no engenho de Sapucagi.

O manuscrito conta história diferente do artigo de Tobias Barreto, onde este relata emocionado da honra de ter sido convidado para a comitiva imperial para visita à cidade que o escorraçara[5], além de tecer os mais ingênuos encômios à figura do príncipe e à cultura alemã de modo geral (Barreto era conhecido germanófilo).[6]

Não, nada de festas, rapapés, bandas. A visita principesca, assim relata o manuscrito, serviu tão somente para acobertar operação de espionagem sob o comando do Capitão-Tenente von Schwind para investigar a existência de uma “relíquia”, assim primeiramente chamada, sob a posse do coronel Marcionílio. O Manuscrito não deixa dúvidas: tratava-se de um dos “mecanismos de transporte” marciano, encontrado sabe-se lá Deus quando pelos primeiros conquistadores portugueses e arrebatado de uma gruta, evitada a todo transe pelos indígenas que então habitavam a terra.

Sabe-se que a procura por relíquias marcianas, estimuladas pela publicação das memórias de John Carter, virou uma febre a manter ocupado todos os serviços secretos das grandes potências da época.

Mas como chegou aos alemães esta informação, que de outra forma jamais cruzaria o Atlântico?

Segundo o Manuscrito, Tobias Barreto fora a fonte da informação[7].

Quando de sua estada na cidade de Escada, de quem foi deputado provincial e juiz municipal, Tobias manteve estreitos e profundos laços de amizade com o coronel Marcionílio e sua família.

Assim escreveu em seu Himmel und Escadafahrt: “…nos últimos tempos de meu exílio escadense, fora-me a casa do coronel Marcionílio, no engenho Sapucagi, um ponto de passeio e entretenimento, sem que tivesse, nem uma só vez que lá me achei, deixado de conversar sobre a Alemanha e meu fanatismo por ela.”.

E mais que a fonte, o intermediário que convenceu Marcionílio a franquear o acesso a cientistas alemães disfarçados de oficiais da corveta Olga, comandados pelo já citado von Schwind.[8]

No Manuscrito há menção de Sílvio Romero a relato de Tobias Barreto, onde se refere ter sido este procurado por Marcionílio quando de sua estada anterior em Escada. E foi nesta ocasião que Marcionílio, temeroso, lhe apresentaria pela primeira vez a relíquia, descrita como um “tubo metálico vermelho do qual escapavam bruxuleios”, quente ao tato e coberto de estranhos glifos que Barreto supôs fosse uma ancestral escrita marciana.

Sim, já nesta época, Barreto nutria suspeitas de uma origem marciana. Supunha, ainda segundo o Manuscrito, ter sido a Terra objeto de expedições do planeta vermelho ainda em eras priscas.

De qualquer maneira cerrou-se o episódio num velo de mistério e conspirações, dado que não sabemos que fim teve a “relíquia”. Teria sido levada pelos alemães? Teria permanecido sob a guarda de Marcionílio ou mesmo de Barreto?

Célia Loredano refere duas hipóteses isonômicas: o artefato teria ficado sob a posse de Marcionílio e/ou Barreto, dado que dificilmente poderiam os alemães tê-lo arrebatado do centro de poder de uma das figuras políticas mais poderosas da região, dispondo de homens e meios  a mancheia.

Ou, tendo sido entregue voluntariamente, fora levado pela comitiva principesca para destino que permaneceu e permanece ignoto.

Sobre esta segunda hipótese, refere Loredano que von Schwind era notório membro da Ordem de Thule, organização iniciática da qual o próprio Hitler teria sido membro. Ora, ainda segundo Loredano, é fato conhecido que no decorrer da Segunda Guerra foram patrocinadas pelo Reich expedições com o fito de encontrar-se ao orifício que levasse ao centro da terra, comandadas por oficiais e cientistas nazistas que eram ao mesmo tempo membros da mesma ordem iniciática. Não seria possível, pergunta-se Loredano, que tais expedições fossem um disfarce para a procura de grutas e cavernas onde poderiam estar escondidos outros tantos artefatos marcianos?

Para nossos propósitos tais considerações são, ao momento, inúteis, dado o conteúdo da segunda parte do Manuscrito. Esta, que nos interessa e sobre a qual nos estenderemos a seguir contém relatos fragmentados de visita ao planeta Marte ocorrida entre os meses de fevereiro a maio de 1878. A ela.

 

O DIÁRIO MARCIANO DE TOBIAS BARRETO

 

Sílvio Romero refere carta de Tobias Barreto datada de 6 de novembro de 1887:

 

[Amigo Sr. Sílvio:

 

Já deve ter recebido a minha última carta, na qual enviei-lhe as notas que me pedira. Creio ter sido completo. Se, porém, carecer de mais algum esclarecimento quanto às datas, escreva-me.

Venho hoje pedir-lhe um favor. Acaba de dar-se na faculdade…]

 

A referida carta pode ser cotejada à página 242 da edição comemorativa de 1991 dos Estudos Alemães.

Voltaremos ao assunto.

 

[1]Os professores Dr. Czermk e Dr. Rosenthal foram escolhidos para dirigir a publicação de uma Biblioteca Científica Internacional, em 1873. A feliz experiência foi erigida com o fito de traduzir ao alemão obras científicas que fossem dignas disso. A referência ao Enigma Marciano pode ser encontrada na obra Uber die Natur der Cometen (Sobre a natureza dos cometas) do grande astrônomo Johann Carl Friedrich Zöllner, publicada em 1872.

[2]Existe uma obra ficcional baseada nas memórias de John Carter, escrita por Edgar Rice Burroughs, a partir do livro de Edwin Carter, chamado A Princesa de Marte.  “um amontoado odioso, deturpante e fétido da jornada heroica de um grande homem”, escreveu Edwin em suas memórias, anos depois.

[3]GRIECO, Célia Maria Loredano. Manuscrito Escadafahrt: uma aventura de Tobias Barreto. Editora UFRJ, Rio de Janeiro, 2013.

[4]Himmel und Escadafahrt, página 201 da reedição comemorativa dos Estudos Alemães, de Tobias Barreto, patrocinada pelo governo do estado de Sergipe em 1991. O fato foi também noticiado na edição de 4 de maio de 1883 d’O Diário de Pernambuco.

[5]Tobias Barreto, nos anos de 1879 a 1881, residindo em Escada, por conta de querela não ainda de todo explicada, teve sua casa cercada por jagunços dos grandes da terra que o expulsaram do local.

[6]Primus inter pares, O senhor Barão von Seckendorff é um dos mais belos exemplares, que tenho visto, do homem culto e delicado…. Quanto ao príncipe Heinrich, eu já sabia por informação de uma escritora alemã, que a princesa imperial Vítória dedica-se muito à arte de jardinar, e que o momento ético e cultural deste trabalho se deixa ver claramente na educação de seus filhos. Himmel und Escadafahrt in Estudos Alemães, p. 203.

[7]Célia Loredano localizou uma brochura publicada às expensas próprias por Thomas Maples (?) em tipografia da cidade americana de Philadelphia, provavelmente em 1892, mas sem maiores indicações, na Biblioteca do Congresso: An Extraterrestrial Relic In Brazil? An Inquiry About The Olga’s Expedition.

[8]Provavelmente Ernst Wilhelm Carl von Schwind Zum Hel, desaparecido em 1919, talvez no Báltico, capturado por forças soviéticas estacionadas na Letônia. Segundo Loredano, é quase certo ter pertencido ao serviço secreto da marinha alemã.

A PRIMEIRA ENTREVISTA DE SELMA PLÁ FEITA APÓS SUA MORTE

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ATO I

 

Sala de entrevista – hora incerta

 

I

 

─ Oi, é Selma, não é? ─ Senhora de seus trinta anos e pele escuríssima, a simpática conselheira remexeu em alguns papéis em sua mesa.

Lá fora caia uma chuva fina e constante molhando o jardim de contos-de-fada da sede.

─ É. Selma.

A conselheira colocou duas mãos em seu rosto jovial e sorridente.

─ Nome completo, por favor.

─ Pensei que estivesse tudo aí, cês devem ter arquivos né não?

A conselheira acenou para um aparelho ao lado.

─ Só para registro. Formalidades, querida.

E depois de algum tempo de expressão de saco cheio.

─ Burocracia. Até no pós-morte a chatice continua… ─ e se recompondo.

─ Tá. Selma Regina Monteiro Plá.

─ Melhor…vamos lá…─ e passou a ditar para o aparelho. ─ Selma, paciente recém-saída do Umbral. Fase um de readaptação.

─ Escuta, já que eu tô morta, será que não dava para agendar uma visita aí com o Beja?

Expressão de interrogação no rosto da conselheira.

─ Benjamin Rosenblatt.

─ Ah, desculpe, seu marido no mundo da carne. Desculpe, mas não. Outra jurisdição. Talvez com tempo, consigamos negociar com pessoal judeu, mas não é garantido.

─ E já que começamos oficialmente as sessões, por favor me chame de Jaira. ─ E Jaira sorriu, balançando a cabeça.

─ Vamos lá, o que eu espero de você? ─ As mãos continuavam a se apoiar nos maxilares.

─ Quero um relato dos seus tempos no Umbral. Do jeito que quiser e levando o tempo que você quiser e no estilo que você quiser.

 

 

 

II

 

“Posso fumar?” Um cigarro nanocut se materializou entre os dedos de Selma que o deixou cair, o recolheu e levou à boca e uma brasa vinda de lugar nenhum apareceu na ponta e ela deu sua primeira tragada em anos.

Rapaz…!!!” foi só o que conseguiu articular.”

─  E?

“Bem. Eu de repente estava lá, na Cidade, na casa em lugar nenhum que eu não eu não sabia que ficava em lugar nenhum. Era sempre dia, ou quase sempre, porque as vezes tinha noites também, mas sempre, sempre nublado. Sol, nem pensar. Era só aquela coisa da casa, e eu dentro da casa, de vez em quando saía pra fora, mas no resto, na maior parte do tempo era só a casa.

E como eu dormia, meu deus, todo o tempo. Casa, andar pela casa um tempo e depois dormir, dormir e todo o tempo não tinha ninguém ali, mas eu sabia que tinha um mundo lá fora. Só não me interessava por ele.”

─ Nunca estranhou aquela solidão toda e a casa e todo o resto?

“Não. Era só a casa e eu não estranhava nada. ”

─ Entendo. Fome, medo, vontade de ir ao banheiro?

“Vontade de cagar?” Selma provocou. Não. E nem fome e nem sede e nem sequer apreensão. Eu te disse, entorpecida.

Não sei quanto tempo durou esta fase. Me pareceram anos. Mas, gradativamente foi me dando no saco e eu comecei a sair para o quintal da casa…”

─ Havia um quintal?

“Havia. E uma rua assim bem calma. Caralho!, tinha que ser calma. Não tinha um puto ali.”

─ Você estava só. ─ E era uma constatação e não uma pergunta.

“Só e não me tocava que estava só. Eu acho que a palavra nem cabia ali: solidão. Não tinha nada.

E os dias vinham e iam (sei. Falei que só tinha uma ou outra noite, mas os dias iam e viam, isto eu sabia).”

Jaira estimulou-a a continuar.

“E então eu desci pela rua defronte à casa e entrei nas avenidas e conheci à Cidade. Foi num dia como qualquer outro, nenhuma diferença.

E eu andei pela Cidade e havia lá aquelas coisas todas de uma cidade. As lojas, os restaurantes, tudo funcionando.”

─ Funcionando como?

“Só funcionando. Não me pergunte como, só sei que eu sabia. Mas era estranho. Você entrava num restaurante e havia comida ainda fumegante sobre a mesa, entrava numa loja e estavam lá os mostruários, todos limpos e…funcionais. Só não havia pessoas. Parecia que todas tinham acabado de sair, sei lá, pruma mijada ou para outro cômodo.”

─ Solidão?

“Não, só saco cheio. E dali eu peguei outra rua e depois mais outra e acabei na rua principal.”

─ Rua principal?

“Olha, não enche. Era a rua principal, tá bem? E aí, e foi aí que eu vi os ônibus, lotados de gente e os carros com insulfilm pretos, pretíssimos e você nem via quem tava dentro. Mas o que chamava a atenção eram os ônibus. Massudos, só com uma entrada, na frente, pintados em faixas de amarelo e azul e prata. E tinha aquele povo todo dentro dele, ninguém de pé, só tinha gente sentada. E eles olhavam pra mim e pareciam que tavam indo pra algum lugar (bem, certamente que estavam indo pralgum lugar).”

─ O que sentia quando viu aos ônibus?

“Era estranho, isto eu posso dizer. Pareciam familiares, como alguma coisa do passado. Era olhar pra eles e eu sentia uma infinidade de reminiscências, não lembranças completas, só flashes. Mas eram intensos.”

─ E mais ninguém fora os passageiros dos ônibus?

“Isso veio depois. Eu continuei a caminhar e cheguei no centro da Cidade e ali as coisas começaram a ficar meio malucas. Os prédios ficaram maiores e eu tive certeza de que não conseguiria mais voltar para a casa. Então, continuei andando.”

─ Me fale das sensações táteis, auditivas, dos cheiros.

“Hein? Sei lá. Eu ouvia música conforme passava por um bar ou por uma loja. Velhos standards dos anos trinta e quarenta. Jazz, sambas antigos, peças de música de câmara que quase dava para reconhecer mas eu não reconhecia.”

─ memórias fantasmas recorrentes, é muito comum.

“Como é?”

─ Continue, por favor.

“Tá, e havia os cheiros: comida barata de bar, perfumes, asfalto queimado. E as paredes dos prédios pareciam ser todas feitas de tijolos antigos, desses de olaria, antigos, grandes e quando eu chegava mais perto parecia que eram cada vez mais intrincados, complexos. Eu acho que poderia ficar horas só olhando pra uma daquelas paredes.

E aí me veio aquela porrada no peito, parecia um raio, só que sólido. Um soco bem no meio dos cornos e aí caí de bunda no meio do asfalto e me veio aquela certeza: eu tô morta, caralho!”

Longos minutos de tempo pós-morte depois.

“Morta.

O asfalto estava frio e gelou minha bunda e depois começou a gelar minhas pernas. E pela primeira vez eu tive, eu pensei, eu tive uma bruta vontade de mijar.”

─ muito comum, não se preocupe. Uma reação natural de autodefesa, um refúgio em necessidades naturais de um corpo físico.

“Você pode tomar no seu cu, também, se sentir alguma necessidade de se refugiar em necessidades naturais de um corpo físico.”

Jaira riu.

─ Calma. Desculpe pelo pedantismo. ─ Manteve-se ereta, estimulando, sem forçar a que continuasse.

Selma suspirou e desejou uma grande copo de conhaque para acalmar os nervos. Jaira se manteve impassível e a mágica do cigarro não aconteceu.

“Biscate!”

Jaira continuou impassível, embora ainda solícita.

“Tá. Então eu levantei e olhei pro lado, pra todos os lados e fiquei puta e falei assim comigo mesma ‘caralho, Selma, cê não tá vendo? Você morreu e tudo issaí em volta são só projeções mentais. As porras das merdas dos caralhos de suas projeções mentais. E não são nem originais, só muito bregas.”

─ E por que seriam projeções mentais?

“Porque, ô biscate, se a realidade fosse daquele jeito era uma porra de uma realidade de merda!”

─ Só uma curiosidade, você por acaso leu alguma literatura espírita quando viva? ─ Jaira estava ligeiramente zombeteira.

“Que literatura espírita?”

Jaira se limitou a manter um sorriso neutro.

“Eu sempre me perguntei…quer dizer…o sujeito era escritor quando era vivo e quando morre só faz vomitar platitudes? Um português de merda. Sabe, eu li uma vez uma senhora que escrevia, não ela, mas uma alma destas aí, desencarnadas. Era uma ghost writer a tal da senhora. E aí ela está aqui no além, a desencarnada escritora e encontra um menininho negro ali com ela e ela comenta ‘que bom que ele está aqui e não mais na sua tribo de antropófagos’. E ‘que bom que ele está evoluindo’ e mais umas merdas deste tipo. Sinceramente! Antropofagia? Que tipo de antropologia de merda que tem aqui no além? Antropofagia? E o menininho era africano. Antropofagia na África?”

─ Estar aqui não significa que muita coisa mudou. Se você era um medíocre na carne vai continuar um medíocre aqui.

“Certo. Então fica assim: eu não li tanto assim de literatura espírita. Provavelmente, não tenho certeza mas aposto, li muito mais mangás japoneses.”

Jaira riu, gostosamente.

─ Sabe, gosto de você.

 

III

 

E depois de algum tempo.

─ Acho que é só por hoje. Pode voltar para o seu alojamento. Deseja alguma coisa, há algo que eu possa fazer por você?

─ Rola uma cachaça ou uma bagana espiritual?

Jaira a acompanhou até a porta.

─ Temos uma cerveja fluidizada, serve?

Sobre urubús, índios e a eterna impaciência dos jovens

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Don´t Be Shy – by The Tundra Ghost – DeviantArt

 

─ O problema é que não sabemos mais hoje do que sabíamos ontem. Só que o ontem foi há dois mil anos! Aí é muita coisa prá não se saber.

O falante se calou. Era um urubú-gereba belíssimo. E muito culto, por sinal.

O velho índio ponderou.

─ Prá mim não tem esse negócio de mil, dez mil anos de experiência. Bobagem. Você aprende um ofício em um ano, atinge a excelência em dois, daí você só replica a coisa até a morte.

O velho índio calou-se, pensativo.

Usava uma também velha calça jeans. Sua tribo havia sido extinta já no descobrimento  e atualmente ele vivia em uma aldeia guarani em São Paulo, fingindo ser um guarani.

─ Espero que não estejamos aborrecendo você. ─ Disse educadamente o urubu-gereba para o garoto de doze anos, os encarando assustado na outra ponta do banco de jardim.

─ Você deve nos perdoar, já somos um pouco entrados em anos e as vezes nossa palestra pode ser arcaica…

─ Para não dizer estranha ─ completou o índio velho.

─ Sim, sim, mas não entenda mal, ─ disse pressuroso o urubu-gereba, eriçando uma pena ou outra. ─ Não sou gentinha, não senhor. Meu pai era garbosíssimo, um portento mesmo, eu diria.

E como se contasse um segredo. ─ E por muitos anos foi guia espiritual de inúmeras tribos do Brasil pré-histórico. ─ O velho índio piscou para o garoto e depois passou a olhar intensamente o céu. ─ Minha mãe, então…algum problema, Climério?

─ Nenhum, Romão, você me conhece.

─ Bem, relevemos.

─ Relevemos. ─ Secundou o velho índio.

O garoto se achegou mais ainda para a ponta do banco, ensaiando uma fuga.

─ Sem embargo, talvez você mesmo ache estranho ver um urubú falando… ─ começou, mas aí o garoto já estava em disparada e sumiu de vista.

O velho índio tirou um cachimbo velhíssimo do bolso traseiro das calças e começou a encher de fumo, na maior calma do mundo.

─ Dia destes a gente vai ser preso. ─ E meneando a cabeça.

─ Cê sabe, talvez não seja uma boa época para um pajé de dois mil e tantos anos e um urubú espiritual… ─ completou com uma baforada filosófica.

─ Vai se foder, Climério! ─ O gereba começou a alisar as penas do peito, amuado.

─ Além disso, eu sou da fauna nativa. Crime inafiançável, sabia?, mexer comigo.

─ Então tá.

Por via das dúvidas, saíram meio que correndo, meio que voando.

 

IDENTIDADES II – outro roteiro

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  1. Exterior – Dia – Um hospital visto do alto. O dia não amanheceu por completo. Traveling em torno do prédio.

MÚSICA: Perpetuum Mobile, de Simon Jeffes e Penguin Cafe Orchestra. No início de cada capítulo da série sempre se usará, na medida do possível, música sinuosa.

TÍTULO E CRÉDITOS abrem-se com os nomes dos atores surgindo aleatoriamente, descendo o subindo a tela, vagarosamente e por fim sumindo. A panorâmica do hospital  se estende a  câmera começa a se afastar. Vê-se uma ambulância chegando. A música pára, declinando, tornando-se lentamente inaudível.

  1. Interior – Manhã? – Um quarto despretensioso, pequeno. Um computador em uma mesa, alguns livros espalhados. Um jovem de cerca de vinte anos, negro, bonito, dormindo.
  1. Interior – O dia nascendo. Um apartamento arejado, com poucos móveis, espartano. A luz que se filtra de uma janela ilumina uma mulher de seus cinquenta anos, magra, leve, interessante, vamos dizer “branca”, com o olhar perdido em uma tela de computador. Selma Plá. Um suspiro longo, intenso.

FADE OUT para:

O nome da série, IDENTIDADES, aparece na escuridão.

MÚSICA: O trecho do tango de O último Tango de Vila Parisi, de Gilberto Mendes.

FADE IN para:

  1. Exterior – Outra ambulância. Sirenes estridentes. Cortando o trânsito já quase parado. A música pára em diminuendo.

CORTA para:

  1. Interior – O jovem negro acorda com o toque de seu celular.

CORTA para:

  1. Close no rosto da mulher ao computador.

SELMA PLÁ

Merda!

CORTA para:

  1. Corredor do hospital, cheio de macas. Os doentes amontoados e funcionários se esgueirando entre eles. Uma cacofonia geral. Em uma das macas, Vicente, o mendigo, é examinado por uma jovem médica. Negro, com cabelos carapinhos branquíssimos e longos se espalhando em todas as direções. Do mesmo modo a barba, de profeta louco. Ele parece calmo, quase divertido. A câmera começa a enquadrar Vicente, iniciando uma lenta aproximação. Diversos planos do mesmo local sucedem-se, sempre intercalados pelo plano da câmera aproximando-se de Vicente.
    • Uma mulher idosa conversa com uma adolescente sentada junto a sua maca. que lhe acaricia os cabelos.

MULHER IDOSA

A enfermeira disse que tu veio me vê ontem…

  • Uma enfermeira consulta seu celular, aparentemente alheia aos pacientes a seu redor.
  • Policiais conduzem um jovem algemado, com muitos hematomas pelo rosto.
  • Uma faxineira passa um esfregão no chão, recolhendo o que parece vômito. Pára, retira um celular do bolso do uniforme e confere, irritada, uma chamada que decide não atender.
  1. A câmera se aproxima cada vez mais de Vicente. A cacofonia começa diminuir, como se alguém estivesse pressionado uma tecla de volume. Finalmente, um close. Não se ouve nenhum som mais.
  1. Câmera subjetiva do ponto de vista de Vicente. Ele vê um operador de câmera e um cabista conduzindo um ponto de luz e uma estagiária segurando um rebatedor.
  1. Câmera focando Vicente. Ele começa a sorrir.

CORTE para:

  1. Outra ala do hospital. A ala nobre, onde os ricos podem morrer confortavelmente. Uma sala de recepção íntima, decorada com móveis de grife, plantas. Sem televisores, mas com wi-fi. Em um sofá, uma mulher idosa, cabelos totalmente brancos e curtos. Magra e elegante, responde às perguntas de uma solícita e educada funcionária, vestindo um elegante uniforme, com um lenço ao pescoço. O lugar e a funcionária parecem ser detalhes de um mesmo cenário: limpo, fresco e matinal. A mulher idosa, entretanto, dá uma ideia contrária. Como se sua dor não se adaptasse ao local. E aparenta estar esgotada. Flora.

MUSICA: Lentamente, começa a tomar forma o segundo movimento de Caduceu, de Marcos Visconti. Os violoncelos em glissando, tocados tão debilmente, que se ouvem às perguntas da funcionária.

FUNCIONÁRIA

Ele já teve outras crises como esta? Senhora?

FLORA

Como? Desculpe…

FUNCIONÁRIA

Eu tenho que fazer uma nova ficha. Por favor, ele já teve antes uma crise como esta?

FLORA

Só quando quase morreu. Ano passado, mas não foi neste hospital…desculpe, estou meio…desculpe…

A música pára. CORTA para:

  1. Câmera subjetiva de Caio, o jovem negro que dormia. O interior de um ônibus lotado. Duas jovens ao lado e acima conversam banalidades. Ao lado da janela uma outra jovem permanece alheia, fones de ouvido ligados a um telefone celular. Ela cantarola, desafinada, o que parece um hino religioso.
  1. Close no rosto de CAIO. Subitamente ele se levanta e câmera foca seu peito e depois o banco vazio conforme ele sai.

CORTA para:

  1. Vicente, segurando o pedestal com o soro ligado a seu braço direito, caminha pelo hospital, seguido pela câmera. Ele caminha, para, volta-se para trás, dá uma volta em torno de si mesmo, sempre rindo, como uma criança que descobriu um brinquedo novo.

MÚSICA: Palhaço, de Egberto Gismonti começa a ser ouvido.  Vicente se movimenta como se ao ritmo da música.

CORTA para:

  1. Caio, na recepção do hospital, conversa com a atendente. Ouve-se o nome de Vicente.

CORTA para:

  1. Apartamento de Selma Plá, atendendo ao celular, se confundindo com as teclas, se aproximando da janela para melhor visualizar à tela.

SELMA PLÁ

…sei, olha, já tô indo prá aí (pausa)…certo (pausa)…certo, fala prá ela que eu já tô indo.

CORTA para:

  1. Vicente saindo da ala pobre do hospital. Estranhamente, parece ser ignorado por todos a sua volta. Atravessa um pátio de estacionamento de ambulâncias e entra em outra ala, vai até um elevador, entra. De frente, movimenta os lábios para um “tchau” sorridente e inaudível.
  1. Câmera subjetiva de Vicente mostra a mesma equipe de filmagem. As portas do elevador se fecham e a música vai lentamente declinando.

CORTA para:

  1. SELMA PLÁ dirigindo. Tensa.

CORTA para:

  1. Caio, perdido, procura Vicente pelos corredores do hospital.

CORTA para:

  1. Vicente parado, na ala nobre do hospital, observa a distância um médico tão bem caracterizado como o “médico confiável”, que parece saído de um seriado americano, conversando com Flora. Os seus modos contidos dão todos os sinais de que são más notícias.

CORTA para:

  1. O hospital, visto do alto, em ângulo reto. Silêncio absoluto. Não se ouve nada dos sons da cidade.

CORTA para:

  1. Caio atravessa o pátio de estacionamento. Chuva forte.

CORTA para:

  1. Selma Plá ao telefone, ainda ao volante.

SELMA PLÁ

É…recebi agora…teu avô parece que tá mal. Vem prá cá…(pausa nervosa)…esquece a porra da reunião e vem prá cá!

CORTA para:

  1. Vicente se encaminha para Flora, encostada a uma parede, em choque. O médico desiste de estabelecer uma conversa e se afasta, passa por um Vicente compassivo, altivo, digno, vestido com suas roupas velhas de mendigo e arrastando ao pedestal com o soro. O médico volta-se para trás e faz menção de ir em sua direção, depois desiste e sai cabeceando. Vicente chega até Flora. Ela o encara, desconcertada. Vicente deposita o pedestal do soro como se fosse uma bagagem da qual se desembaraçar. Avança em direção a Flora e abre os braços. Flora se aninha neles e chora em abandono. Vicente a conforta.

MÚSICA: o movimento final de Caduceu, com os dois pianos levemente dissonantes como que embalando e dando sentido aos sentimentos de Flora.

CORTA para:

  1. Caio, tenso, conversando com o médico que conversara antes com Flora. Percebe-se que o médico está pouco a vontade. Seus gestos parecem querer indicar a Caio que ele está no lugar errado do hospital.

CAIO

Olha, é o meu avô, disseram que tava aqui, mais eu não achei ele em lugar nenhum…

MÉDICO

Tá, tudo bem…mas olha, você tá no lugar errado. Tenho certeza…tenho certeza de aqui ele não tá, não…procura a recepção principal…

CAIO

Foda-se a recepção principal…ele não tá na ala dos fodidos. Eu só quero procurar pelo meu avô…

O médico e Caio são interrompidos pela chegada de Selma Plá, nervosa. Ela tenta conversar com o médico. É interrompida por Caio, cada vez mais nervoso. Ela se acalma e tenta conversar com Caio. O médico, por sua vez, a interrompe. Toda a cena é muda. Depois de algum tempo, a câmera foca o rosto do médico, se concentrando em sua boca, irritada, tensa. Subitamente, voltamos a ouvir o diálogo.

MÉDICO

Olha aqui, moço, já te falei que teu avô não tá aqui. Escuta, quer que eu chame a segurança?

Tomada de Caio e Selma, lado a lado, a partir das costas do médico. Selma parece desconcertada e Caio, perdido e quase chorando.

CAIO

Eu só quero…(pausa)…eu só quero.

Selma Plá perde a paciência e se interpõe entre Caio e o médico.

SELMA PLÁ

Olha aqui ô fela-da-puta, vai procurar um tronco prá se enrabar!

O médico, surpreso demais para articular, a princípio. Depois, intimidado pela vontade e presença de Selma, que não cede um milímetro.

MÉDICO

O que? Olha, a senhora…quem é a senhora pensa que é? Eu vou chamar a segurança e é agora!!! Aliás, quem é a senhora?

Selma endurece ainda mais sua expressão, se é que isto é possível. Olha para o médico como se ele fosse um espécime interessante em um serpentário.

SELMA PLÁ

A nora de Flora Rosenblatt e uma mulher sem saco…

O médico fica desconcertado e irritado ao mesmo tempo, como uma criança a quem tiraram o doce. Vê-se que há uma luta interna se desenvolvendo: de uma lado a vontade de punir uma afronta e de outro o reconhecimento de que o autocontrole se faz necessário por conveniência. Além disto, Selma é intimidante demais e Flora Rosenblatt é pessoa importante e influente.

MÉDICO

Ah…desculpe. Não sabia…minhas condolências.

CAIO

Escuta, eu só quero saber do meu avô…

SELMA PLÁ

Peraí, condolências?

MÉDICO

Sua sogra esta na sala de espera, ali, dois corredores a frente…a direita. Com licença.

O médico se afasta, olhando de esguelha para Caio.

CAIO

Ô moça, desculpe a insistência…

SELMA PLÁ

Certo…relaxa rapaz, a gente acha o teu avô. Mas deixa eu ver minha sogra primeiro. Vem comigo!

Selma sai decidida. Caio, segurando desajeitado sua mochila, acaba por a seguir.

CORTA para:

  1. Vicente e Flora tomando café em grossos copos de plástico, sentados em um banco no jardim coberto do hospital. Flora aponta para o pedestal com o soro.

FLORA

Isso aí não te incomoda, não?

Vicente, plácido, se vira para Flora e ri.

VICENTE

Incomoda.

FLORA

Veio parar aqui, como?

Vicente retira a agulha do soro do braço.

VICENTE

Hoje de manhã. Foi uma noite fria, sabe? Aí eu acordei aqui…não sei quem me trouxe. E você?

FLORA

O nome dele era Mordechai, mas ele não achava que era um nome fácil. Sabe, pros negócios? Então ele se apresentava como Heron…era…

VICENTE

Era uma boa pessoa?

Flora deu um longo gole em seu café.

FLORA

Era. Tinha sentimento em tudo o que fazia.

VICENTE

É muito mais do que se pode dizer da maioria das pessoas. Então, acho que tá bom.

Vicente enfia a mão em seu jaquetão puído e tira uma bagana de maconha, que acende calma e cuidadosamente. Dá uma puxada e a estende para Flora.

VICENTE

Vai, você agora é uma viúva. Tá na hora de fazer umas loucuras.

Flora aceita a bagana e dá uma tragada profunda.

FLORA

Meus Deus, maconheira depois de velha…

CORTA para:

  1. Selma Plá e Caio entram de repente no jardim, mas param ao ver a cena de Vicente e Flora dividindo a sua maconha. Tímidos, como se receassem interromper um momento sagrado.

CORTA para:

Foco da câmera em Vicente e Flora, placidamente dividindo a bagana. Caio e Selma se aproximam, solenes. Selma abraça Flora e Caio senta ao lado ao avô, lhe acariciando os cabelos.

CAIO

Vem prá casa, Vô.

Vicente retribui a carícia nos cabelos de Caio, mas não diz nada. Selma se ajeita ao lado de Flora, colocando uma mão desacostumada ao contato em seu ombro. Flora ri suavemente, chapada.

FLORA

Agora eu tô ferrada, não tô? Viúva. Quer um tapa?

Selma pega a bagana da mão de Flora, apaga-a eficientemente com dois dedos molhados na boca e joga nas plantas próximas. Sua expressão é divertida.

SELMA PLÁ

Não.  Já faz um tempinho que eu não fumo issaí…maconheira…queria que o teu filho te visse agora.

Flora se aconchega a Selma. Vicente e Caio observam.

FLORA

Tenho saudades dele, do Benny…ainda não deu prá sentir saudades do Heron ainda.

Selma Plá estende a mão a Vicente, que a cumprimenta, sorridente. Caio o levanta e o ampara, mas é Vicente quem se empertiga e parece conduzir Caio para fora do jardim. Caio acena para Selma e a deixa com Flora.

MÚSICA: Volta o tema do tango de O último Tango de Vila Parisi, de Gilberto Mendes.

FADE OUT para:

A tela inteira escurece e começam a descer os créditos. A música aumenta e preenche tudo.

AS TRÊS IMPORTUNAÇÕES MÍSTICAS DE S

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EARTHEN EMPRESS by Ophelia-Overdose (DevinatArt)

 

 

 

S, como a chamarei, era e sempre seria uma mulher esbelta, alta e de cabelos pretos, mesmo quando havia cinza e depois branco por baixo.

Sua primeira experiência mística se deu aos dezenove anos.

Fora pouco antes das sete da manhã e S estava a menos de uma quadra da tecelagem onde trabalhava[1], quando o tempo parou, todas as coisas pararam e um silêncio de algodão desceu sobre a rua. Ali, com os carros e as pessoas parados, S não teve medo. Depois, pensando melhor sobre o ocorrido não chegou a um acordo sobre o que sentira, como se até seus sentimentos tivessem sido postos em suspenso.

Na rua congelada viu a mulheres e homens vestidos em roupas finas e caras de todos os tipos. Ternos conservadores e ternos modernos, vestidos finos, colares, sapatos, sobretudos, um ou outro até com peles. E ela sabia sem saber como sabia que eram anjos, simples assim[2].

Circulavam pela rua com calma determinação, aproximando-se das pessoas congeladas, abraçando-as, falando a seus ouvidos. Vez por outra tocavam uma pessoa e a faziam movimentar-se em lenta viscosidade.

Um grupo, duas mulheres e um homem, empurraram um jovem raquítico para frente de um carro agora imóvel, mas antes em alta velocidade. Uma mulher vestindo jeans passou por S e parou um momento a sua frente e endereçou-lhe um riso estranho, como que desconcertada.

E então tudo acabou e o mundo voltou a correr e o garoto magro foi atropelado.

Talvez não seja comum, mas o fato era que S era extremamente inteligente, apesar do meio em que nascera e vivia. Então S, que não era limitada, soube no mesmo instante que passara por uma experiência mística.

Claro, não fora como esperava. Não tivera quaisquer dos sinais que sempre associara a tais experiências, tais como iluminação ou um sentimento de eternidade. Fora mais como uma olhada na casa de máquinas do real.

Não obstante, S não saiu incólume da experiência.

Naquele mesmo dia, talvez duas horas depois, teve um acidente de trabalho que quase esmagou-lhe a mão esquerda (S era destra), foi levada ao hospital, medicada e liberada para que fosse para casa.

No caminho S passou uma loja de música e comprou um long play de Thelonious Monk[3].

 

[1] S era filha de um metalúrgico vindo do Paraná e de uma doméstica nascida em Alagoas e, acreditem, o emprego na Tecelagem Gaol fora até ali sua maior conquista profissional. 
[2] Anjos vestidos com casacos de pele! Não se pode confiar em anjos, não mesmo.

[3] De uma coleção chamada Os Gigantes do Jazz. S gostava especialmente de Monk´s Dream. 

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Foi durante os sete meses de sua convalescença que S voltou a estudar e nunca mais parou. Depois demitiu-se da empresa, levou diversas surras de seu pai, suportou diversas cenas chorosas de sua mãe e decidiu não mais se casar com o rapazinho que frequentava a mesma igreja que ela e fora seu colega de escola.

Expulsa de casa, conseguiu moradia temporária na casa de uma amiga, prestou concurso, passou e tornou-se policial militar. Pouco antes de tomar posse submeteu-se a um aborto (não, o pai não era seu ex-noivo) e, para sua grande surpresa, não morreu e nem teve sequelas.

Também não quis se casar com o publicitário loiro e bem apessoado que pensava ser o pai da criança, pois o tinha na conta de um idiota[4].

Teimosamente, começou e terminou uma faculdade de direito para depois descobrir que odiava a coisa toda, apesar de uma brilhante atuação acadêmica.

Desligou-se da polícia, na qual tivera uma passagem discreta, jamais se envolvendo com ninguém e, mais intrigante, passando indene por toda a lavagem cerebral que lhe fora despejada pela instituição e por seus superiores.

Por esta época sua mãe a chamara para que visse que seu pai estava louco e andava nu pela casa, defecando em todos os cantos. S não atendeu a seu chamado.

E foi no hospital, onde aguardava que seus irmãos saíssem do quarto coletivo onde aquela mesma mãe finalmente alcançara o maior desejo de sua vida, morrer lacrimosamente[5], que S teve sua segunda experiência mística.

O mesmo anjo que parara a sua frente na rua congelada, a mulher de jeans, saiu do quarto da enferma e sentou-se a seu lado no banco duro de ardósia do corredor.

“Quarto 616, sexto andar. O elevador é por ali”. Disse.

O tempo parado. De novo. E S pensou em mandar a mulher para a puta-que-o-pariu, mas não o fez. O anjo-mulher ria suavemente, de modo que S achou melhor fazer alguma coisa, já que estava ali mesmo,  tendo uma experiência mística e o caralho e sem ter muito mais o que fazer.

“Tá”, disse e foi até o quarto de Benny[6].

[4] O que ele de fato era. 
[5] Mas não morreu. A mãe de S sobreviveria ao marido, um filho e morreria dormindo em 2018 (como eu sei? Isto é ficção, idiota!). 
[6] Por que Benny? As desculpas eram interessantes: o apelido teria sido dado por uma tia que vivera em Nova York. S achava era que era frescura de classe média mesmo e sempre chamou Benny de Beja.

 

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Nunca soube como chegou lá, nem como reuniu coragem para entrar, mas o fato é que ficou até às dez da noite conversando com um jovem de barba e cabelos ruivos, até se apaixonar por ele, isto por volta de 09:52 ou 09:53.

Ignorou, e Benny também, aos parentes que se iam chegando e saindo ao perceberem que não era lhes dada atenção.

O fato é que Benny morria.

De alguma forma se casaram, meses depois, sendo importante ressaltar que em nenhum momento S considerou se converter ao judaísmo. E não se converteu.

Outro fato é que Benny levou outros dois anos para morrer e mesmo ante a essa moratória do Divino não deu S qualquer importância, conforme comunicou a Nossa Senhora da Conceição durante uma visita a uma igreja de bairro[7].

Foram os anos mais felizes de S e de Benny, também.

Mais que esposos, eram cúmplices. Sem pressa alguma construíram um relacionamento, transformaram sua paixão em amor e saíram para a vida.

S descobriu que gostava de escrever e Benny voltou ao teatro. E S escreveu a peça e Benny a montou, depois veio a outra peça e quando se deu conta S estava também dirigindo, traduzindo, pintando e produzindo[8]. Sem outra desculpa por dar, teve por fim que se tornar uma agitadora cultural, fosse lá o que isso fosse.[9]

Nesse meio tempo nasceu Geoffroy, que S queria que fosse Lucas, mas aceitou o Geoffroy porque a alternativa era o nome do avô de Benny[10].

 

[7] S nunca explicara bem para si por qual razão levantara cedo e resolvera ir até a igreja, mas o fato é que o fez. Entrou no lugar pela manhã (sete horas…?), sentou no primeiro banco e fez sua primeira oração em anos. Fato estranho se considerarmos que S nunca fora religiosa (embora não comentasse o fato com ninguém), bem como que sua família sempre fora protestante. 
[8] S pintou uma cena da Natividade com uma virgem Maria vestindo bata de hospital em uma cama de hospital, tendo ao lado um José vestido como um rabino ortodoxo. S nunca conseguiu conquistar a família de Benny e nem mesmo fez muito esforço. 
[9] S sempre teve as mais cínicas opiniões sobre agitadores culturais, produtores e quejandos e durante todo o período “Benny” nunca os levou ou a si mesma a sério. “Você é daquelas que negam sua genialidade para ser deixada em paz fazendo suas ‘genices’”, dissera-lhe Benny em conversa de cama. “Genialidade é coisa de babaca, Benjamim Rosenblatt. E minha avó era preta e nordestina, daí que não posso ser ‘gênia’”. “e então…precisa do que prá ser gênio?”, Benny beijou-lhe um seio. “Sei lá, talvez uma profissão…vou pensar numa”. “Você tem problemas…” Benny, carinhoso. “Hum…problemas…é, pode ser. Para ser ‘gênia’ eu preciso ser, muito, problemática”. E por aí ia S. 
[10] O avô atendia por Samuel. Mais frescura de classe média, segundo S (embora S tenha gostado de Geoffroy, mas nunca o iria admitir).

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Cabalisticamente, no cemitério onde Benny estava sendo enterrado, S teve sua terceira e última experiência mística. Deixara o bebê com a irmã de Benny e fora sofrer no jardim quando o rabino apareceu.

“Não gosta de Rosenblatt?”. Gordo, baixo e com uma barba branca caindo no peito, o velhinho sentou-se a seu lado no banco.

“Como?”

“Rosenblatt, você não adotou o sobrenome de seu marido. Não gosta?”

S se lembrava de ter dado um pulo. O velhinho, educadamente, fingiu não notar. Usava um capote preto e um chapéu de copa alta.

“Jesus, ai meu Jesuzinho, de novo né? Tá acontecendo, não tá. O tempo parado e os anjos. Me diz que você não é um anjo!”

“Anjos gentios não podem entrar aqui. Questão de jurisdição. E eu não sou anjo, já antecipo, para sua tranquilidade.”

O jardim do cemitério fervilhava de senhores e senhoras, jovens, meninos e meninas, que S não tinha certeza se eram anjos ou fantasmas ou alucinações[11].

“E então…?”.

“Plá já é um sobrenome complicado o bastante…não acha?”

“Como é?”. O velhinho aproximou os ouvidos da boca de S.

“Plá. Meu sobrenome”, e pensativa: “escuta, cê é algum enviado de alguém com uma puta mensagem edificante ou alguma outra coisa babaca assim?”

“Ah, não. Sou parente do finado. tetra-tetra-tio-avô…ou mais um tetra”.

S abriu e fechou a boca, mas não conseguiu dizer o que queria dizer. Em vez disso: “olha, eu gostaria de ficar sozinha, agora, tá bem?”

Os homens e mulheres, anjos ou que fossem, começaram a circular pelo cemitério todo, abordando pessoas congeladas, exatamente como na primeira experiência mística de S.

“Sem problema, querida. Vim apenas transmitir um recado, coisa rápida”. O velhinho ria um riso leve de Bonzo.

“Qual o teu nome? Aliás, estamos falando em que língua?”

O velhinho sentou-se a seu lado.

“Para efeitos práticos, nenhuma ou todas. Para mim, por exemplo, você está falando em excelente alemão[12]. Meu nome é Lazar.”

[11] S era racionalista empedernida e desenvolvera teoria de que suas experiências místicas eram fruto de alguma mescalina natural produzida por seu cérebro. E era briguenta também, S. 
[12] O chamado efeito Pentecostes, muito útil na ficção para não emperrar os diálogos. Há muitas variações: na ficção científica serão culpados os tradutores universais, a telepatia ou então a extrema inteligência do alienígena. Nas ficções de fantasia podemos culpar a magia. No caso de Lazar, não pensamos ainda em nada de muito original. Sei lá é a melhor resposta até agora, mas estamos trabalhando em algo melhor.

_____________________________________________________

 

Lazar tinha uma voz linda, quente e profunda.

“Sei…Lazar Rosenblatt?”

“Chemboim. Lazar Chemboim. Pode me chamar de Senhor.”

“E qual é a mensagem, Lazar?”

O velhinho repreendeu, mudo e sorridente, com um dedo encarquilhado apontando diversas vezes para o rosto de S.

“Muito bem. A mensagem é…aviso, se preferir…conselho, é que você é capaz de, de quando em vez, perceber aos anjos fazendo das suas, a cada vez que resolvem “penetrar” entre um segundo e outro…”

“Você  os danadinhos mexendo com as vidas humanas, fazendo mudanças aqui e acolá, interferindo nas mentes…trocando peças. E isto é um dom raro. Deixa-os furiosos, aos filhos-da-puta, por não poderem fazer o mesmo com você. A não ser diretamente, como o anjo que lhe falou de Benny.[13]”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[13] Lazar, depois de morto, passou a não mais confiar em anjos, gentios ou não. Nunca se recuperara da descoberta de que os anjos não davam a mínima para o Livre Arbítrio. S também passou a nutrir certa ojeriza aos mensageiros do Senhor. Eis uma pequena amostra de um conto seu na revista Femina, edição de março de 2009 (a parte mais suave e família):

“ ‘Ele vem aí, você sabe…’, disse-me planando a poucos passos de mim, o rosto um tanto preocupado, um tanto já começando a denotar angústia. ‘Não é que eu não tenha passado por isso antes’, e aí mordeu uma unha, “mas é que…”, sei, sei muito bem. Ou melhor, sei nada, mas já aí é outra história.

                ‘Mesmo com tudo o que… quer dizer, com tudo o que possamos fazer, nos preparar, essas coisas, nunca é o bastante, nunca…e de qualquer modo’.

                Flutuou para perto de mim, o rosto sério, a boca em repouso.

                ‘Sei o que você vai dizer, sei o que pensa. Pensa que não sei? Pensa em mim como uma putinha, fútil’. Começou a elevar-se, alguns centímetros por segundo, ‘tenho certeza, sei como é. Imagino mesmo que tudo que você pensa agora é em levantar minha túnica e me enrabar’.

                O que é verdade, muita, mas não deixo as coisas assim tão fáceis prá ele.

‘Pelamordedeus, seja mais digno! Você é um anjo, porra! Um filho da puta aí com seus bilhões de anos. Dê-se ao respeito!’

Uma leve rotação e ele mostrou-me as costas, mas foi pior porque aí não resisti e nem vi porque deveria para dizer a verdade, aí então meti as duas mãozonas na bunda daquele safado, baixei ele mesmo até o chão e levantei a túnica branquíssima, pascal, arrepanhei-a em sua cintura e ali a sustive, e peguei sua mão branquíssima e pascal e fi-la segurar meu pau e deixei que o puto tomasse a iniciativa.

Bem na pontinha, o cu angélico me tocou, ele começou a chorar baixinho enquanto encaixava, acomodava, o pescoço num movimento lânguido e sofrido deixou uma massa dourada de cabelos perfumados me entrar pelo nariz.

‘Não disse?, uma putinha.’

‘É tudo o que você é prá mim, RafaelAmielbundabel, biscate cósmica, anjinho chupa-rola.’

Finalmente o empurrei contra a parede, empurrando ao mesmo tempo o meu pinto nas suas entranhas perfumadas, doces.

‘Eis aqui toda a substância ígnea de que você precisa.’ “.

O conto lhe rendeu certos dissabores. Rowena Castro, a editora, fez-lhe observar do desnecessário do texto, uma relação de amor e ódio entre um anjo e um ateu sádico. E, não sem razão, reclamou do anjo submisso e efeminado sendo abusado por um demente machista. S rebateu dizendo que a coisa era uma metáfora e ninguém entendeu nada. “Metáfora do que?”, perguntara a aflita Rowena. “Tá, então é pornografia e pronto!”. S nunca primou pela sutileza.

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S levantou-se.

“Se não fosse pelo anjo eu não teria conhecido o Beja!”

Lazar cruzou os braços por sobre os joelhos, numa irritação bonachona.

“É e veja no que deu. Benny casou-se com uma goy![14]”

E rapidamente acenou, como que para desfazer o comentário.

“Não, não entenda mal. Não dou tanta importância assim ao ocorrido. A morte nos dá novas perspectivas. Só estava querendo lhe apontar que o dom de ver aos anjos significa que você pode escapar de sua influência, o que pode ser bom”

“Beja foi bom…”.

“Bennys não acontecem todo dia, menina teimosa!”

S não podia objetar a isto.

“Escuta, eu vou esquecer tudo isso, você, os anjos e o caralho?”

“Não, você pegou os safados de surpresa. Muito embora eu não aconselhe a ficar espalhando por aí, se é que me entende.”

Uma mulher de uns sessenta anos, touca branca e avental, se aproximou e cutucou Lazar com cara de poucos amigos para S.

“Ah, minha esposa. Tenho que ir…bem, tchau.”

Na opinião de S a saída de Lazar e esposa pecou no quesito estético, por muito abrupta. Ela teria esperado pelo menos uma intervenção da velhota, depois mais um papo místico cheio de sabedora (o “tchau” não pegou legal, também), mas não rolou.

Aliás, S sempre associaria a esposa fantasmal e azeda de Lazar à atriz que interpretava Fruma Sarah no Violinista no Telhado. O filme, esclareço.[15]

E S saiu de novo para a vida.

Entrando com teimosia e garbo na sua nova fase de viúva, S ficou com o apartamento que dividira com Benny, recusando com uma insanidade toda especial a receber qualquer outros bens do falecido (ela nunca tocou nas contas correntes e recusou-se a comparecer às audiências do inventário).

Por esta época resolveu voltar à universidade.

Paralelamente, exerceu miríade de outras atividades, sobrando ainda tempo para criar o pequeno Geoffroy, arranjar e desafazer relacionamentos, criar e fechar revistas, formar-se, iniciar bem sucedida carreira acadêmica na área de Estudos da Linguagem, dirigir um filme e, finalmente, morrer.

[14] Antes de ser goy ou viúva de Benny S era corintiana e isso sim, fazia uma puta diferença. Lazar, por outro lado, era tão alheio ao futebol como um vegetal ao sexo.
[15] Interpretada por Ruth Madoc no filme de Norman Jewison. Após o encontro com Lazar, S passou a chamar a sua esposa, mentalmente, de biscate-com-lixa-no-cu.

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Nunca mais teve transportes místicos, embora tivesse certeza de ter visto novamente à “anja” de jeans no fundo de uma classe onde dava aulas e, duas vezes, no ônibus.[16]

Estranhamente, jamais perdeu o sono por conta das ocorrências angélicas e nunca guardou segredo como lhe aconselhara Lazar, o que muito contribuiu para sua persistente reputação de porralouca.

“qual a conclusão, o que é que você…sei lá…aprendeu com a coisa toda?”, lhe perguntara certa vez Rowena.

“Conclusão? Prá ser sincera, porra nenhuma.”

E deu por encerrado o assunto.

Antes de morrer, S viu Geoffroy crescer em sabedoria e graça aos olhos do Senhor.[17]

[16] S nunca aprendeu a dirigir.
[17] Os parentes de Benny insistiram  junto a S para Geoffroy fazer sua Bar-Miztvah, ao que ela nunca objetou, sendo o único problema sua antipatia em deixar “cortarem o pinto do garoto”, mas acabou concordando.

A PRÁTICA E USO DO METATARÔ SEGUNDO VICENTE, O PRETO

MR. BEGGAR FELINE - By oO-Rein-Oo - DEVIANTART

MR. BEGGAR FELINE – By oO-Rein-Oo – DEVIANTART

Deve-se imaginar um mendigo, preto, belo e forte, com cerca de sessenta anos, de barba e cabelos quase totalmente brancos. Deve-se imaginar uma moça de vinte e poucos anos. Um dia chuvoso, talvez. Úmido ou frio. Melhor frio.

Basicamente você terá as vinte e duas lâminas do Tarô tradicional, desconsiderando os outros cinqüenta e quatro Arcanos Menores. Do ponto de vista do MetaTarô os “menores” são apenas variações, facilmente perceptíveis com a prática. Assim, os Cavaleiros ou Valetes serão relacionados, de acordo com a tirada, ao Mago, ao Imperador ou mesmo ao Louco. E, do mesmo modo, as Damas com a Sacerdotisa, a Imperatriz et alia. Para não falar dos simbolismos assazmente antigos e conhecidos da Taça ou Copas, do Malho ou Paus, da Espada e Ouros ou Rútilo.

“Uma questão de prática”.  E sorriu Vicente, como sói podem fazer mestres arcanos. Você já deve ter privado com algum.

“Coringas e o Louco?”

“Viu?, você já pegou a coisa”. Um ligeiro cumprimento, um quase imperceptível tremular de dedos e um quase sorriso. E a moça sentiu-se distinguida, cumprimentada e isto lhe trouxe desconhecido calor a seu coração, e vergonha por se dar ao desfrute de tal sentimento.

Era uma moça da classe das Subestimadas e você, Leitor ou Leitora, deve ser condescendente com estas infelizes criaturas nunca seguras de seu potencial.

Então, como já disse, considere, para fins práticos, apenas os Arcanos Maiores. E não tenha medo ao aproximar-se deles. Veja, com o Imperador considere que está tratando com todos os reis, presidentes, tuxauas, caciques, cãs e líderes; com o Sumo-sacerdote, todos os patriarcas, babalorixás e rabinos; com a sacerdotisa, as pitonisas, iaôs, santas, mulheres de sabedoria; com o Mago, cada prestidigitador, mágico, cada encantador de serpente e cada maluco trancado num laboratório consultando grimórios ou microscópios de tunelamento. E existem as variações do Louco, é claro. E, nunca esquecendo, nem sempre se pode distinguir as fronteiras entre um e outro.

“Desculpe, mas isso aí é um tanto óbvio. Cê sabe, cê vai achar a mesma coisa em livros de autoajuda…espero…é…não ter ofendido”. Isabel, que é como devemos chamar a moça, estava ajoelhada, segurando um livro e um celular na mão esquerda. E parecia confusa. E Vicente, nosso herói de agora, era apenas um mendigo, negro, alto, de meia idade e barbado. E grisalho. E conto isto para que vocês não se assustem com Vicente, que era meigo e sábio e tinha a voz meiga de um sábio e estava escarrapachado no chão, apoiado num banco de jardim do parque.

“Correto”.

“Certo”. E Isabel (você agora conhece Isabel) ajeitou-se, sentiu-se desconfortável por estar ajoelhada e sentou-se no banco.

Todos os Arcanos são arquetipais, mas nem todos são tão “óbvios”. A Lua, a Torre, os Amantes ou Namorados, o Mundo ou os Estamentos, são para serem “ouvidos”. Atente para a palavra! São antes “perguntas” e não “respostas”. Um conselho: os bons barcos balançam. O digno de admiração não são as melhores respostas. Qualquer um responde. Eu lhe aponto um dedo e você responde ao meu dedo, mas meu dedo é só um dedo.

A arte soberana é a da pergunta.

“Não entendi nada, desculpe”.

“Ótimo. Se entendesse, responderia. Já notou que é um contrassenso?”

“?”

Vamos tentar de outra maneira. Veja, por que está aqui, agora, falando comigo?

Isabel se remexeu, fez careta, mas não respondeu.

“E então?”

“Eu…assim, eu estava aqui no parque, passei por você e você me chamou e começou a falar de Tarô e depois do MetaTarô”

Não, seja honesta. Você andava pelo parque, por este enorme jardim público, e me viu, e parou quando me viu e então perguntou pelo MetaTarô. Você, claro, vai racionalizar. Não, eu não perguntei nada, Vicente, e será mentira.

A despeito de tudo, você está aqui, conversando sozinha com Vicente, o Preto. Perceba que sou preto. E um mendigo. E Você não me conhece. Então, como não perguntou?

“Eu não abri a boca…”

“O que só depõe a seu favor”

E voltando ao assunto, com o MetaTarô, acessível a poucos, conhecido só por poucos, você não consulta às lâminas. Você é consultada. Veja, as lâminas, do mesmo modo que você, são consumidas pela mesma curiosidade. Vamos começar a leitura?

“Vamos…?”

Certamente. Embaralho as cartas, agora: no fim dos tempos, entrópico até os bagos, existe um castelo ou um barraco ou uma tenda ou uma maloca ou um pagode, onde os restolhos da humanidade se abrigam, aquecendo-se uns aos outros. Estou falando deles, percebe? Os Arcanos Maiores, o melhor e o pior. O humano, o demasiado. A outra face nos encarando, no espelho. Elas. Eles. Nós.

E vinte e dois mendigos se postaram ao lado de Isabel e ela não vira nenhum mendigo chegar.

E é um lugar em lugar nenhum, cheio de abstrações e cheiros. Pode ver? E Isabel viu. Estão todos lá, os demônios e santos, os marcianos, São Jorge, o Superman, Sétimo Severo e a  Grande Mãe.

E Vinte e dois mendigos estavam ali, casualmente, ao derredor de Isabel e de Vicente, escarrapachado ao lado do banco de jardim. E também eu estava lá e também você, Leitor e Leitora.

E todos os Tzadikim, Tonico e Tinoco, Lisavetta de Batory, Morrison, seu Zé Pelintra, Maria Padilha e todos os milagres de Lourdes e de Aparecida e Marie-Bernard Soubirous recém saída de um riacho gelado onde vira a Virgem. E todos eles, incluindo os Neanderthals, que eram inteligentes e sábios e se acreditavam prediletos da Grande Mãe e morreram do mesmo jeito.

E é isso. E foi e será. O barraco do fim dos tempos. Agora, as cartas estão embaralhadas. Pergunte!

Evidente que Isabel se levantou e saiu dali correndo e você deve ser compreensivo, Leitora e Leitora, porque você fez o mesmo.

Por que? Por que Isabel, somente desta vez, não ficou e aguentou e ouviu? A resposta tão perto de si.

A mendiga Dejaneide Maria Bezerra que também era a Mãe teria dito a Isabel, teria dito a você, teria dito.

“Sim, ele te ama”

“Sim, ela te ama”

“Sim”

Eu me chamo Vicente. Sou preto. Sou alto e sou forte.

Tarô de Marselha

IDENTIDADES: UMA AMOSTRAGEM DE ROSTOS, ACOMPANHADA DE PEQUENAS E TERNAS INDIGNIDADES

Bulldog - David Rapoza - DEVIANTART

Bulldog – David Rapoza – DEVIANTART

1 – Exterior – dia – Tomada panorâmica da cidade. Do alto, prédios e mais prédios. Um dia frio e com vestígios de chuva recente. E em crescendo, um zoom que vai cada vez mais perto de uma parte arborizada, um parque, sempre em ângulo reto em relação ao solo. Vêem-se duas bicicletas.

MÚSICA: Moto Continuo de Radamés Gnatalli. Adequadamente sinuosa.



CRÉDITOS: As bicicletas, vistas a partir das traseiras (a música pára) e depois de frente para os ciclistas, Selma e Geofroy. Ambos convertem para uma aléia e dali para um bicicletário, onde deixam as bicicletas atadas (a música retorna, mas apenas como uma sugestão, um motivo breve). Os créditos são breves, se limitando ao nome do diretor, do produtor e dos atores, sem título.

2 – Um casal de idosos passa. Ambos na casa dos oitenta anos. A mulher, usa roupas leves: calça de linho branco, camiseta branca sob um casaco tricotado azul-pálido. Seus cabelos são totalmente brancos e seu rosto é bonito, não, digno. Não, bonito. O homem usa agasalho branco, sem marca visível e aparenta estar em processo de recuperação de um derrame. O rosto é alheio ou talvez apenas ele não possa mais controlar de todo os músculos da face. A mulher o apoia na caminhada, mas dá a impressão de não o fazer, se achegando ao marido, com um riso leve sempre permanente.

CORTE PARA:

3 – Selma e Geofroy. Frontal. Ambos caminham, silenciosos. Ela, mulher de pouco mais de cinquenta anos, pequena, cabelos pretos e curtos, olhos talvez claros. Um corpo esguio e um ar decidido que seria ameaçador se não fossem seus olhos brilhantes. Ele, pouco mais de vinte e cinco anos, alto, barba por fazer e olhos bondosos de menino perdido, sempre mirando em volta (câmera subjetiva), observando o casal de idosos que passa, ciclistas e pessoas encapotadas que passam.

4 – Um homem de seus também cinquenta, calvície avançando, calças jeans e blusão surrado de camurça, caminha solitário. Guilherme.

MÚSICA: Tintinnabulum, de Marcos Visconti. As notas soltas do piano vão pontuando a caminhada.

5 – Interior – dia – um restaurante ou cafeteria. Mesas simples, toalhas simples, uma única atendente com aparência de proprietária, usando um lenço púrpura ao pescoço. Uma outra mulher no caixa. O lugar é pequeno, mas arrogante. A simplicidade do lugar é arrogante. Muitos e diversos pães no balcão e nas mesas. Sucos multicores, cafés. O lugar vende saúde. Público classe média. A música continua, agora com os violoncelos. Selma e Geofroy estão sentados na mesa mais externa.

6 – A proprietária se aproxima, sorridente, sob o olhar de Geofroy (câmera subjetiva). A música diminui gradualmente.

CORTE PARA:

7 – Exterior – O casal de idosos, ainda caminhando. Flora e Heron.

HERON

Voz pastosa, mas inteligível.

Acho que não tá dando certo…essa coisa toda.

FLORA

O que não está dando certo?

HERON

As…essas caminhadas. Não sinto melhora, só cansaço. Muito cansaço. Muito aborrecimento.

Heron volta a ficar em silêncio, com um ar perdido, seu andar trôpego e perdido. Flora não aparenta ter se impressionado.

FLORA

Você está andando. Podia não estar andando. Prá mim é progresso bastante.

FADE OUT PARA:

8 – Exterior – Uma confluência de caminhos no parque. A cerca de trinta metros, uma banco com um único ocupante. Um homem negro, sessenta anos presumíveis, cabelos pixaim projetando-se em todas as direções. Barba branca. vestindo roupas maltrapilhas, mas paradoxalmente elegantes. Casacão cinza de lã, puído. Calças de ganga, tênis velhíssimos e desbotados. Um braço cruzado no peito e outro segurando o queixo, perna cruzada por sobre a outra. Um divertido ar senhorial. A Câmera se aproxima, ao som de música de câmara.

MÚSICA: o arranjo de Marcos Visconti para o famoso Segundo Movimento da Sétima de Beethoven: violoncelo, volino, viola da gamba, berimbau e piano.

9 – O homem negro, Vicente, sentado dignamente, mirando com intensidade brincalhona a câmera. Depois, correndo o olhar para as árvores (câmera subjetiva), o casal de idosos passando, o solitário Guilherme indo e passando por eles, a cafeteria mais ao fundo, com Selma e Geofroy sentados à mesa. O olhar subjetivo de Vicente se fixa a sua frente: vemos o cameraman e a equipe por detrás. Iluminador e operador do microfone, como um pescador com uma gigantesca vara segurando uma isca felpuda, trinta centímetros acima da cabeça de Vicente.

CORTE PARA:

9 – Vicente, tomada de torso. Ele agora sorri.

CORTE PARA:

10 – O casal, se afastando de Vicente. Tomada de frente.

CORTE PARA:

11 – Selma e Geofroy, entre pães e sucos. Geofroy não está comendo e continua, até mesmo acentuado, com seu jeito de garotinho perdido. Selma come e bebe, alheia. Decidida.

CORTE PARA:

12 – Vicente, mãos nos joelhos, sentado, mirando carinhosamente a câmera.

CORTE PARA:

13 – Olhar subjetivo de Vicente: cameraman e equipe não são mais vistos.

CRÉDITO: em FADE IN aparece o título: IDENTIDADES.

14 – Vicente, visto a partir do torso, começa a falar.

VICENTE

Um galinheiro. Um galinheiro sujo e desconfortável. Foi assim que Frida Kahlo descreveu Nova York em 1931 ou 32, não me lembro bem.

15 – Close no rosto de Vicente.

VICENTE

Não chego a tanto, mas também nunca vi Nova York.

Pausa.

E aqui, bem…aqui pode ser bem ruim, as vezes. Principalmente em dias frios e hoje está frio.

Pausa. Vicente sorri e alisa o desgrenhado da barba.

Tudo o que eu sei é que agora podemos…com decisão, mas com cuidado…começar.

CORTE PARA:

16 – O banco de Vicente, visto de lado. O cameraman e equipe, visíveis novamente, se afastando lentamente.

MÚSICA: retorna o Moto Continuo, de Radamés Gnatalli, em crescendo.

CORTE PARA:

17 – A visão subjetiva se afastando de Vicente, cada vez mais, até se tornar um ponto, cercado de árvores e passantes.

FADE OUT PARA:

18 – O parque, extático, visto do alto. A música chega ao fim.

CORTE PARA:

19 – Tela em preto.

FADE IN  PARA:

o número “1”, brilhando no centro da tela.

Trechos da entrevista de Selma Plá à revista PANTA RHEI

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[…]

PANTA RHEI – E o que a senhora entende por estrutura funcional de opressão à mulher ou construto pensado para oprimir a feminilidade?

Bagas ácidas caídas de um salgueiro-anão, não menos do que isso. Ante tais eventos nós permanecemos ali, estacados à beira da caverna.

PANTA RHEI – Há uma interessante análise sua na revista FEMINA, onde a senhora destaca que a definição de gêneros é questão de fé. O que significa isto?

Caritas era uma palavra teimosa, não muito benquista em nosso meio. Rodolfina Maier dizia que tudo e todos estavam nas mãos de Eurídice e ela bem que tinha razão. Olha, ainda sobre isso…lá em casa tínhamos um bigorrilho, desses antigos, que faziam mingau. Bem, as reflexões, os nossos medos eram todas guardados ali pela minha mãe. Entende, havia um presto e um staccato e os castrati não diziam nada…

[…]

PANTA RHEI – Perturbador decerto, mas a questão do ethos feminino, que a senhora ainda considera como uma definição às apalpadelas, já foi suficientemente respondida?

Duas libras de algodão, dizia o profissional do koan e ninguém melhor que Lisavetta Batory para por os pratos na mesa, as baixelas…combinando as cores e desligando o rádio quando das refeições. Minha pátria é minha língua, dizia Ferdinando Persona.

PANTA RHEI – Neste sentido o que significa se colocar como feminista nos dias de hoje. Antônio Cao, seu antigo professor e hoje um seu polemista, disse que a senhora desconstrói lindamente, mas não dá forma. Bem, isto é só um outro modo de dizer que a senhora apenas pergunta e não responde. É possível uma obra acadêmica de pura desconstrução?

Acredito num patamar de glória e desacredito nas espadas quebradas. Veja, um falanstério é só mais um trunfo na manga obscena de um delegado de polícia do interior, sem parentes importantes. Não basta só reiterarmos, temos que polir a fruta bulbosa, temos que fatorar e fatorar muito. O tédio é glosa…

PANTA RHEI – O mundo é um moinho?

Ainda é cedo, amor…

 

O demônio e a mulher imortal se encontraram na terça-feira

The Bar - by Boo the hamster - DEVIANTART

The Bar – by Boo the hamster – DEVIANTART

O demônio e a mulher Imortal se encontraram na terça-feira e foram tomar uma cerveja no Bar do Cao.

Conhece? O Cao? Sujeito fino, às direitas. Filósofo de formação, com um mestrado em Estudos da Linguagem, o Cao.

Foi há cinco anos, mais ou menos, que deu aquela doideira hoje famosa, entre um “Noam Chomsky” e uma “cesura Freudiana”, e o Cao largou tudo, mimoseando a classe com um monte de “vãopráputaqueospariu”, e saindo para a vida (como descreveu depois a cena).

O demônio e a Imortal não sabiam do histórico do modesto comerciante que os servia, modos que continuaram ali, na sua, botando a conversa em dia.

“Sabe do que eu tenho mais saudade? Cê não vai acreditar, mas é do cheiro dos mamutes. Hoje de manhã mesmo, sonhei com eles pela primeira vez em…gente…uns duzentos anos, pelo menos”. O Demônio fez um sinal para o Cao e pediu uma porção de mandioca frita e mais uma cerveja.

“Vai entender…”. E sorriu quando o Cao confirmou o pedido. “Sabe que eu tenho saudades também, dos mamutes?”.

O bar pestilencial do Cao.

Na mesa ao lado o Cao atendeu ao casal e ao sujeito de meia-idade com cara de quem acabara de acordar.

“Só cerveja, mesmo”. Rolando, o policial inexistente segurou as mãos de Merula, a policinha, entre as suas.

“Nunca entendi porque desses adiamentos teus, vai rolar cachaça mais cedo ou mais tarde”. O Magnífico Policial e Escriba cheirou o copo e o uísque vagabundo dentro do copo. Tomou mais uma dose, mas depois sorriu como um bonzo.

“Liga não, Rô. Eu confio em você”. Merula beijou os lábios bêbados.

“Amo essa mulher. Amo…entendeu?”. Rolando se virou para o Magnífico. Beijou Merula e pediu mais uma.

O Cao também já amara, fora um homem de bem e casado e entendia os transportes de Rolando com Merula. Entendia também o Magnífico Policial Fundamental. Um escravo fundamental, a quem prescrevia diariamente que mandasse o mundo à merda e largasse tudo. Não era e nunca seria atendido, suspeitava.

Os meninos da banda Capitão Temor voltaram do beco e se aboletaram entre copos e pratos sujos, rescendendo levemente a maconha.

“Bem, como eu dizia antes de um corno me interromper, vocês estavam na dita cuja da fila e foram lá encarar o delegado…é, existem coisas piores para serem encaradas, portanto, foi um delegado mesmo que vocês foram encarar e só uma vez – na verdade duas vezes, mas assim caminha a humanidade, bem … já me perdi, onde foi que eu parei mesmo?”. Rolando descansou o rosto ébrio entre as palmas das mãos.

“Eu sei que cê sabe a minha idade exata, vai, fala prá mim, vai”, a Imortal falou, súplice.

“Tem coisas que me estão vedadas…revelar tua idade, por exemplo. Aliás, calcula você mesmo”.  O demônio, entediado, consultava ao celular.

“Calcular como? Eu era uma analfa vivendo numa tribozinha de merda em…sei lá em que porra de lugar. Europa? Calcular, como? Vinte, trinta mil?”. A Imortal tinha uma pele viçosa e marrom-avermelhada que contrastava vivamente com seus cabelos loiros, cheios de cachos. O demônio era bonito.

O Cao tinha muitos amigos, mas confidências mesmo somente as fazia a Selma Plá e ao Marcos Visconti, que aliás, era unha e carne com a Selma. E irmão do Rodrigo, ex-marido da Cléia Tominaga e atual maior inimigo da Selma. Cheio de manias o Cao.

“Ele vai de cachaça, mesmo?”, o Cao, preocupado, interrogava Merula.

“É, fazer o que? Parece que eu só atraio porralouca”. Merula.

“Eu não sou porralouca…”, o Magnífico Policial do Bem levantou o indicador, professoral.

“Você não me atrai!”, Merula disse, expelindo um jato de fumaça na cara do Magnífico.

“Lembra dele, o Mosche?”, a Imortal.

O demônio, consultou suas cutículas. “Uma vez perguntei a Mosché ben Maimon se podia sentir o Messias chegando…”.

“E ele?”. Disse a Imortal, distraída, depois passar em vista os ocupantes de outras mesas, se detendo por breves segundos no Magnífico Combatente do Crime.

“Às vezes — Mosché me disse — consigo ouvir os seus passos…e talvez uma vez ou outra, sua respiração”. O demônio, de nome, aliás, Nibiru, riu levemente. “Acho que é próprio do homem ter esperanças”. A Imortal teve diversos nomes em sua longa vida, mas basicamente era uma “Miriam”.

“Ele tinha dessas tiradas…meio poéticas”, disse Miriam ou Mariam ou Meriam, a Imortal.

“Falando em judeu, sabe que tem um Tzadik aqui em São Paulo? Sabe, dos Tzadikim mesmo? Nem acreditei quando me toquei, bem ali, na Oscar Freire”. A Imortal.

“Nãâão…dos trinta e seis? Só não diga que é mendigo, também”. Nibiru sorriu.

“Sei o que ele é não, mas não é mendigo, não. Também, só faltava…coisa mais clichê um Tzadik mendigo!”, disse a Imortal.

“É…vale uma visita. Faz muito, muito tempo que eu saí do ramo das tentações, mas sabe como é, a gente nunca perde o jeito. Um dos Tzadikim, um dos pilares, caralho! Quem diria?”. Nibiru sinalizou para uma das ajudantes do Cao.

O Cao não ouvira o diálogo, é claro, educado e correto como era. Mas o fato é que o Cao conhecia ao Tzadik, embora não soubesse que o Tzadik era um Tzadik dos trinta e seis Tzadikim. Tudo bem, que o próprio Tzadik não sabia também que era um deles.

Marcos Visconti, com Selma a tiracolo, chegou e se juntou aos rapazes da Capitão Temor.

“Cao, manda um branco gelado”, gritou Selma e olhou interrogativa para o Marcos, que completou, “Kriptonita. E capricha na menta, Cao”.

“Que porra que é Kriptonita?”, Rolando, para Merula.

“Trata-se de um meteoroide, vindo do planeta Kripton. Faz um puta de um estrago se você atender por Kal-El”. O Magnífico, com sua cara de enfado número dois, esvaziando o terceiro copo de uísque. Merula gargalhou gostosamente.

“Impossível…”, baliu Rolando, “o sujeito não bebe, porra. Foi educado numa rígida tradição presbiteriana, lá com a família Kent”.

“Posso ter confundido as cachaças…”, concedeu o Sempiterno Policial do Bem.

Teco Dantas, guitarrista do Capitão Temor, conversava animadamente com Selma e Marcos.

“Lembrou agora, Cailean…escocês, grandão. O cara lá que fez a entrevista com o Innisfree, lembra?”. Marcos Visconti coçou um ombro, indeciso.

“Qual, o da revista?”. Perguntou. “Isso, ele mesmo. Lá no Surrey, a gente se encontrava”.

“Pois bem…”, Teco deixou a expectativa crescer , “conversei com ele sobre o filme da Selma, essas coisas, daí ele me mandou e-mail confirmando…”

“Ah, não brinca?!”, Marcos chegou a se levantar, de tão ansioso.

“Serião, tá confirmado. O Roy topou participar, tocando os instrumentos malucos e tudo. Cara, eu não acreditei!”. E um grande sorriso se espalhou pelo rosto sardento de Teco.

“Peraí, Roy, que Roy?”, Selma perguntou, perdida.

“Como, que Roy? Roy “Skip” Rao. Anathroy Venugpala Rao, o baterista do Innisfree em pessoa! O cara dos mil instrumentos”, Marcos, espantado, para Selma.

“Innisfree?”.

“Never Fight An Inanimate Object…”, cantarolou Teco, esperançoso.

“Deixa prá lá, tá bom. Tudo o que eu quero é que saia do jeito que a gente pensou”.

Vai sair do jeito que a gente pensou!”, Marcos bebericou um líquido verde azulado.

“Teu / Desnecessário sorriso, teu / Debochado sinal, teu / Senhorita do dia, teu / Senhoria lunar e teu / Teu aceno discreto, teu / Teu aceno discreto, teu…”, cantarolou Teco, acentuando cada “Teu” com uma batida de baqueta na mesa.

“Ainda não decidi se essa aí vai entrar”, preveniu Selma.

“Ei, a trilha é minha!”, protestou, choroso, Marcos Visconti.

“É, mas a diretora tirânica sou eu, o filme é meu e a produção é do Geofroy, que é meu filhinho e não teu, querido”, cortou Selma, impiedosa.

O Cao passou pelo caixa e sinalizou para Lucinha e Gleise e saiu para a noite quente.

Lá fora, o ar quase parado, fumou seu quinto cigarro do dia, dos dez que estabelecera como teto máximo. Tragou, riu e se abraçou em bem-aventurança. Tragou, riu e voltou-se para as mesas, mirando com ternura o demônio e a Imortal, os policiais, os músicos, as meninas rindo, atrás do balcão.

Conhece o Cao? Sujeito fino, às direitas. Filósofo de formação, com um mestrado em Estudos da Linguagem.

O Cao.

Uma História de Amor

When Love and Hate Collide - by hurricanekerrie - DEVIANTART

When Love and Hate Collide – by hurricanekerrie – DEVIANTART

O blog feminista de Selma Plá, durante muitos anos, foi hospedado na versão eletrônica da revista Tempo, editada pelo sempre combativo e combatido Nuno Enkil. Vale a pena dar uma conferida em seus artigos, nunca comuns, nunca banais. Refiro-me a Nuno e não a Selma.

Selma, conheci numa mesa de bar, apresentada por Rocco e Rowena, o casal maravilha. “Você vai amar a Selma”, disse-me Rowena, “não tem cabeça mais privilegiada, é engraçada, é dinâmica e olha, leva a sério, leva mesmo, as suas lutas”. Não me decepcionei, era tudo isso e mais.

Em nosso primeiro encontro discutimos. Selma me desancou sem pudores e sem pudores disse o que pensava de mim, que eu era um machista posando de “homem compreensivo” e pior, desonesto, intelectualmente falando. Não, desonesto intelectual e intelectual desonesto, na hipótese generosa de ser minha pessoa apta a ser considerada um intelectual, do que não tinha certeza. Não, mentia, tinha certeza sim, eu era uma pequena fraude. Aliás, já te conhecia de fama, de conversas com outras pessoas, mas principalmente do que me contou a tua ex, que eu até demorei a levar em conta, a acreditar, mas que agora te conhecendo, tudo  se confirma.

Nos encontramos outras vezes eu e Selma e, inicialmente, nossos conhecidos até apreciavam os nossos embates, depois se encheram, pasmos com a virulência. Dela, esclareço, pois eu não conseguia, simplesmente não conseguia responder a Selma, esmagado pela força de sua personalidade. Ela era ativa, incisiva, impiedosa e certeira. Não mirava no coração, mas nas entranhas.

No lançamento de seu terceiro livro, inicialmente recusou-me dedicatória mas, instada por amigos comuns, acabou por garatujar mais um insulto: “Para te dar outro afazer, além de ser condescendente com as mulheres. Na esperança, claro, de que você leia (é prá isso que serve a esperança, afinal). Sem carinho e sem afeto, Selma”.

Depois aconteceu o lançamento de sua própria revista, Feminices, Femina ou qualquer coisa assim. Intensamente acessada, intensamente discutida. Fez história.

E depois o filme, Sorriso Discreto que Terminou com um Aceno Amistoso, produzido pelo seu filho, o Geofroy. Elogiadíssmo, premiadíssimo e o que muito me impressionou, caiu no gosto do público. Um enredo original, com duas histórias correndo em paralelas contrárias. Uma do fim para o começo, narrado em primeira pessoa por uma louca. A segunda, linear, narrada pela mesma mulher, só que aparentemente dotada de sanidade mental. Os fatos focados eram diferentes em cada história, embora se tratasse da mesma pessoa. “É coisa pensada para dar nó na cabeça de despreparado”, me comentou certa vez a Rowena, já separada de Rocco.

Escrevi uma resenha elogiosa, focada sobretudo na trilha sonora composta por Marcos Visconti e a banda Capitão Temor. Selma me cobriu de impropérios quando de um encontro casual na exposição de Lúcia Tominaga. Tive o rosto arranhado, tal sua fúria. Permaneci calado. Minto, cheguei a ensaiar um tímido pedido de desculpas.

Em 2033, ou 34 não tenho bem certeza, ela morreu. Dois anos depois a segui. Estranhamente, saímos do Umbral na mesma época, mais de duas décadas depois, socorridos pela mesma equipe. Tivemos os mesmos falhanços e nos revezávamos nas costumeiras entrevistas com nossos conselheiros, até que por fim Selma teve permissão para voltar à carne, como se dizia por lá.

Sua encarnação como Patricia Anne Tsung não foi pior ou melhor do que a maioria espera ou recebe. Cresceu em família de classe média, formou-se e se tornou pesquisadora de certo renome na área de física de materiais. Casou, descasou, converteu-se ao catolicismo quando por volta dos quarenta e pariu tranquilamente seus dois filhos, dos quais eu fui o último. Não foi pior ou melhor do que a maioria das mães, acredito. Alegrou-se mesmo quando  me tornei padre, não fez drama quando troquei uma carreira brilhante de teólogo pelo casamento com Maurício, aliás, Rowena. Adotamos a pequena Mbeke, aliás, Rocco, e mamãe alegremente consentiu em ser chamada de vovó.

A enterrei em 2138 e voltei mais tarde ao cemitério, subornei dois funcionários e mijei intensa e prazerosamente sobre sua cova.