SOBRE O TEMPO E SOBRE TEMPOS

 

 

 

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Mida´s daughter – by Radoslawsass-d84wwg1SS / DeviantArt

 

 

deste mundo nada sei, sei nada não, sou o que nunca

Verdade verdadinha, nada atino sobre o tempo

Sei só que é escroto o tempo em cada canto,

E que a tarefa mais dileta que o tempo funda

É fazer minorar o tempo e o mundo e o pranto

 

Já não relembro mais Robertos Carlos, nem Gonzagas

Mas relembro que o tempo é um cu, caso acabado

Ou talvez seja só o tempo um consolo mal acomodado

Todo caso não está em nossas mãos, o tempo e o fado

 

E é sempre bom mandar o tempo, nosso namorado,

É sempre bom mandar o tempo, nosso amante, às favas.

 

 

MUNDOS DISTÓPICOS, ROBERTO CARLOS E A VIDA COMO ELA É

homem-invisivel

 

 

Em 1984,  pressentindo uma tempestade que se aproximava, Mateus José caminhou pela Rua dos Patriotas e desceu até a estação ferroviária do Ipiranga.

 

Em 1981 Mateus José comprou um livro em uma banca de jornal, defronte à estação ferroviária de São Caetano. Era o Ulisses, de Joyce. Ele só leria o livro anos depois, durante uma temporada de desemprego.

 

Em 1978 Mateus José ia para casa em um ônibus, por volta de 14h00min (ele havia sido demitido e não teria que trabalhar até as 17h30min), ocasião em que ouviu e nunca mais esqueceu a música “Para ser só minha mulher”, de Roberto Carlos. Ele sempre associaria a canção ao amor e aos dias frios.

 

Em 1982 Mateus José foi apresentado a Blade Runner, no Cine Gazetinha e nunca esqueceu o pombo nas mãos de Rutger Hauer, alçando vôo.

 

Em 1989 Mateus José trabalhava no turno da noite em uma transportadora, ocasião em que viu luzes no céu. Uma delas lá permaneceu por horas a fio, depois deslocou-se em alta velocidade até o horizonte e desapareceu. Anos depois, comentando o ocorrido, negou-se a usar as palavras “ovni” ou “ufo”, dizendo que vira luzes se movendo e nada mais.

 

Em 1986 Mateus José fez amor pela primeira vez com uma senhora muito simpática que ele achava que jamais iria dar, mas deu. Achou muito estranho que a mesma simpática senhora, tão bonita e desejável, tivesse chegado ao orgasmo (Mateus José não confiava muito no universo e nem em si mesmo e sempre esperava pouco da vida).

 

Em 2013 Mateus José foi flagrado em estado de êxtase que durou horas, depois que uma revoada de garças  sobrevoou sua cabeça em um manguezal de Cubatão.

 

Em 1972 Mateus José era uma criança e num dia chuvoso olhou para o morro cheio de árvores e nublado e conseguiu sair (por breves momentos) para fora da Eternidade. Ele nunca mais repetiria a experiência, mas nunca duvidou dela (ao contrário da maioria). Até porque sempre conseguira, quando criança, sair com certa regularidade para fora da Eternidade se a ocasião fosse propícia.

 

Em 2031 Mateus José foi recrutado pela Patrulha do Tempo.

NADA TENHO CONTRA O BRASIL

VOLATOR

 

Nada tenho contra o Brasil. De fato, até mesmo gosto do Brasil. Gosto do Batman também, e da cultura de massa e do super-amendoim e de Spock, filho de Sarek. Gosto da flor e do violão e gosto da imagem de José Genoino fumando um cigarro ao ser preso, onde foi mesmo?, na guerrilha do Araguaia?

E gostei e gosto de João Só e do Romance da Pedra do Reino de Suassuna. E gosto de T. S. Eliot e do seu Old Possum’s Book of Practical Cats e do musical que veio depois. E de João Cabral de Melo Neto e de João Donato e de Joyce, que me encantou ao compor o Samba do Joyce. Quem já pensou em escrever um samba para James Joyce, o pai do Ulysses e do Finnegan´s Wake? Joyce fez, pensou, cantou.

Samba, samba

Quando James Joyce ouviu um samba, samba

Descobriu que a lapa era na Irlanda, landa

Molly Bloom virou Carmen Miranda, randa

Ele então juntou corda e caçamba, samba

Resolveu sair atrás da banda, banda

Foi no adamastor pra madureira, será?

E gosto de Joaquim Nabuco e de Cacaso e de Capinam e de Tom Zé e de Jards Macalé.

Nada tenho contra os Estados Unidos. E nada tendo, posso gostar com calma e verve de Thelonious Monk e do seu piano maravilhoso em Lulu´s Back in Town. E de Cole Porter e Herman Melville, o sujeito com o melhor começo de livro que conheço. Está lá, em Moby Dick: Call me Ishmael. Some years ago…

E gosto do Quixote e gosto de Luis Gonzaga peneirando o xerém.

Nada tenho contra Israel. Então posso gostar de Moisés Maimônides, do Dibuk, de Isaac Bashevis  Singer. E, talvez melhor, posso gostar de Jorge Luis Borges gostando de Espinosa:

Las traslúcidas manos del judío

labran en la penumbra los cristales

y la tarde que muere es miedo y frío.

(Las tardes a las tardes son iguales)

E de Machado de Assis gostando de Espinosa:

Gosto de ver-te grave e solitário

Sob o fumo da esquálida candeia

Nas mãos a ferramenta do operário

E na cabeça a coruscante idéia

E gosto de gostar de William Blake e seu Tyger, tyger, burning Bright, e de Yukio Mishima, o mais galante suicida de todos os tempos.

Mas, principalmente, volto ao início: nada tenho contra o Brasil. Não acho que seja esta uma época de decadência, não acho que os monstros saíram do armário, não acredito que o ódio virou passatempo.

Acredito no tempo e acredito na sabedoria do tempo, que passa e que nivela.

Acredito nas pessoas boas, de boa vontade.

E que herdarão a terra.