SOBRE MENTORES, MESTRES ESPIRITUAIS E AJUDANTES DE PEDREIRO

PINGA

Começava eu na carreira de homo sapiens e conheci a dois filhos-da-puta: o judeu do mal e o padre russo do mal. Ambos moradores do bairro do Ipiranga, na cidade hoje conspurcada de São Paulo. Onde, aliás, nasci.

Um não sabia do outro, mas eram duas putas véias que pensavam do mesmo jeito. Me disseram.

A mim, a minzinho mesmo. A este vosso criado!

Disseram: seja homem!

E disseram: Eu sei que é difícil, você pode não estar acostumado! Mas tente parecer com um homem!

Em verdade queriam dizer: seja digno! Tenha verve! Mas a época era de machismos diversos.

Modos que. Então. Modos que (entendi somente muitos anos depois: não acredite no sábio e nem em seus escritos e nem nos escritos do pequeno babaca que emula o sábio e nem na revista e nem no jornal e nem no sacerdote e nem no juiz justiceiro e nem em justiceiro algum e nem no jovem lutador pela justiça e nem no blogue e nem na puta que vos pariu).

Disseram-me. Disseram-me… só o básico. Disseram-me, mas não me aconselharam, pois que eram dignos demais para coisa tão primária.

Só me sussurraram: desconfie do sábio, do herói e do douto.

Seja uma puta desconfiada, me disseram!

Inventarei dois nomes para os dois: Ilya e Eliahu.

Obrigado.

Aos dois. Um minúsculo e elétrico. O outro enorme, e calmo como as marés.

A ambos eu agradeço.

E sei que ambos riem de minha tolice.

 

 

 

 

A PRIMEIRA ENTREVISTA DE SELMA PLÁ FEITA APÓS SUA MORTE

TÚNEL-2

ATO I

 

Sala de entrevista – hora incerta

 

I

 

─ Oi, é Selma, não é? ─ Senhora de seus trinta anos e pele escuríssima, a simpática conselheira remexeu em alguns papéis em sua mesa.

Lá fora caia uma chuva fina e constante molhando o jardim de contos-de-fada da sede.

─ É. Selma.

A conselheira colocou duas mãos em seu rosto jovial e sorridente.

─ Nome completo, por favor.

─ Pensei que estivesse tudo aí, cês devem ter arquivos né não?

A conselheira acenou para um aparelho ao lado.

─ Só para registro. Formalidades, querida.

E depois de algum tempo de expressão de saco cheio.

─ Burocracia. Até no pós-morte a chatice continua… ─ e se recompondo.

─ Tá. Selma Regina Monteiro Plá.

─ Melhor…vamos lá…─ e passou a ditar para o aparelho. ─ Selma, paciente recém-saída do Umbral. Fase um de readaptação.

─ Escuta, já que eu tô morta, será que não dava para agendar uma visita aí com o Beja?

Expressão de interrogação no rosto da conselheira.

─ Benjamin Rosenblatt.

─ Ah, desculpe, seu marido no mundo da carne. Desculpe, mas não. Outra jurisdição. Talvez com tempo, consigamos negociar com pessoal judeu, mas não é garantido.

─ E já que começamos oficialmente as sessões, por favor me chame de Jaira. ─ E Jaira sorriu, balançando a cabeça.

─ Vamos lá, o que eu espero de você? ─ As mãos continuavam a se apoiar nos maxilares.

─ Quero um relato dos seus tempos no Umbral. Do jeito que quiser e levando o tempo que você quiser e no estilo que você quiser.

 

 

 

II

 

“Posso fumar?” Um cigarro nanocut se materializou entre os dedos de Selma que o deixou cair, o recolheu e levou à boca e uma brasa vinda de lugar nenhum apareceu na ponta e ela deu sua primeira tragada em anos.

Rapaz…!!!” foi só o que conseguiu articular.”

─  E?

“Bem. Eu de repente estava lá, na Cidade, na casa em lugar nenhum que eu não eu não sabia que ficava em lugar nenhum. Era sempre dia, ou quase sempre, porque as vezes tinha noites também, mas sempre, sempre nublado. Sol, nem pensar. Era só aquela coisa da casa, e eu dentro da casa, de vez em quando saía pra fora, mas no resto, na maior parte do tempo era só a casa.

E como eu dormia, meu deus, todo o tempo. Casa, andar pela casa um tempo e depois dormir, dormir e todo o tempo não tinha ninguém ali, mas eu sabia que tinha um mundo lá fora. Só não me interessava por ele.”

─ Nunca estranhou aquela solidão toda e a casa e todo o resto?

“Não. Era só a casa e eu não estranhava nada. ”

─ Entendo. Fome, medo, vontade de ir ao banheiro?

“Vontade de cagar?” Selma provocou. Não. E nem fome e nem sede e nem sequer apreensão. Eu te disse, entorpecida.

Não sei quanto tempo durou esta fase. Me pareceram anos. Mas, gradativamente foi me dando no saco e eu comecei a sair para o quintal da casa…”

─ Havia um quintal?

“Havia. E uma rua assim bem calma. Caralho!, tinha que ser calma. Não tinha um puto ali.”

─ Você estava só. ─ E era uma constatação e não uma pergunta.

“Só e não me tocava que estava só. Eu acho que a palavra nem cabia ali: solidão. Não tinha nada.

E os dias vinham e iam (sei. Falei que só tinha uma ou outra noite, mas os dias iam e viam, isto eu sabia).”

Jaira estimulou-a a continuar.

“E então eu desci pela rua defronte à casa e entrei nas avenidas e conheci à Cidade. Foi num dia como qualquer outro, nenhuma diferença.

E eu andei pela Cidade e havia lá aquelas coisas todas de uma cidade. As lojas, os restaurantes, tudo funcionando.”

─ Funcionando como?

“Só funcionando. Não me pergunte como, só sei que eu sabia. Mas era estranho. Você entrava num restaurante e havia comida ainda fumegante sobre a mesa, entrava numa loja e estavam lá os mostruários, todos limpos e…funcionais. Só não havia pessoas. Parecia que todas tinham acabado de sair, sei lá, pruma mijada ou para outro cômodo.”

─ Solidão?

“Não, só saco cheio. E dali eu peguei outra rua e depois mais outra e acabei na rua principal.”

─ Rua principal?

“Olha, não enche. Era a rua principal, tá bem? E aí, e foi aí que eu vi os ônibus, lotados de gente e os carros com insulfilm pretos, pretíssimos e você nem via quem tava dentro. Mas o que chamava a atenção eram os ônibus. Massudos, só com uma entrada, na frente, pintados em faixas de amarelo e azul e prata. E tinha aquele povo todo dentro dele, ninguém de pé, só tinha gente sentada. E eles olhavam pra mim e pareciam que tavam indo pra algum lugar (bem, certamente que estavam indo pralgum lugar).”

─ O que sentia quando viu aos ônibus?

“Era estranho, isto eu posso dizer. Pareciam familiares, como alguma coisa do passado. Era olhar pra eles e eu sentia uma infinidade de reminiscências, não lembranças completas, só flashes. Mas eram intensos.”

─ E mais ninguém fora os passageiros dos ônibus?

“Isso veio depois. Eu continuei a caminhar e cheguei no centro da Cidade e ali as coisas começaram a ficar meio malucas. Os prédios ficaram maiores e eu tive certeza de que não conseguiria mais voltar para a casa. Então, continuei andando.”

─ Me fale das sensações táteis, auditivas, dos cheiros.

“Hein? Sei lá. Eu ouvia música conforme passava por um bar ou por uma loja. Velhos standards dos anos trinta e quarenta. Jazz, sambas antigos, peças de música de câmara que quase dava para reconhecer mas eu não reconhecia.”

─ memórias fantasmas recorrentes, é muito comum.

“Como é?”

─ Continue, por favor.

“Tá, e havia os cheiros: comida barata de bar, perfumes, asfalto queimado. E as paredes dos prédios pareciam ser todas feitas de tijolos antigos, desses de olaria, antigos, grandes e quando eu chegava mais perto parecia que eram cada vez mais intrincados, complexos. Eu acho que poderia ficar horas só olhando pra uma daquelas paredes.

E aí me veio aquela porrada no peito, parecia um raio, só que sólido. Um soco bem no meio dos cornos e aí caí de bunda no meio do asfalto e me veio aquela certeza: eu tô morta, caralho!”

Longos minutos de tempo pós-morte depois.

“Morta.

O asfalto estava frio e gelou minha bunda e depois começou a gelar minhas pernas. E pela primeira vez eu tive, eu pensei, eu tive uma bruta vontade de mijar.”

─ muito comum, não se preocupe. Uma reação natural de autodefesa, um refúgio em necessidades naturais de um corpo físico.

“Você pode tomar no seu cu, também, se sentir alguma necessidade de se refugiar em necessidades naturais de um corpo físico.”

Jaira riu.

─ Calma. Desculpe pelo pedantismo. ─ Manteve-se ereta, estimulando, sem forçar a que continuasse.

Selma suspirou e desejou uma grande copo de conhaque para acalmar os nervos. Jaira se manteve impassível e a mágica do cigarro não aconteceu.

“Biscate!”

Jaira continuou impassível, embora ainda solícita.

“Tá. Então eu levantei e olhei pro lado, pra todos os lados e fiquei puta e falei assim comigo mesma ‘caralho, Selma, cê não tá vendo? Você morreu e tudo issaí em volta são só projeções mentais. As porras das merdas dos caralhos de suas projeções mentais. E não são nem originais, só muito bregas.”

─ E por que seriam projeções mentais?

“Porque, ô biscate, se a realidade fosse daquele jeito era uma porra de uma realidade de merda!”

─ Só uma curiosidade, você por acaso leu alguma literatura espírita quando viva? ─ Jaira estava ligeiramente zombeteira.

“Que literatura espírita?”

Jaira se limitou a manter um sorriso neutro.

“Eu sempre me perguntei…quer dizer…o sujeito era escritor quando era vivo e quando morre só faz vomitar platitudes? Um português de merda. Sabe, eu li uma vez uma senhora que escrevia, não ela, mas uma alma destas aí, desencarnadas. Era uma ghost writer a tal da senhora. E aí ela está aqui no além, a desencarnada escritora e encontra um menininho negro ali com ela e ela comenta ‘que bom que ele está aqui e não mais na sua tribo de antropófagos’. E ‘que bom que ele está evoluindo’ e mais umas merdas deste tipo. Sinceramente! Antropofagia? Que tipo de antropologia de merda que tem aqui no além? Antropofagia? E o menininho era africano. Antropofagia na África?”

─ Estar aqui não significa que muita coisa mudou. Se você era um medíocre na carne vai continuar um medíocre aqui.

“Certo. Então fica assim: eu não li tanto assim de literatura espírita. Provavelmente, não tenho certeza mas aposto, li muito mais mangás japoneses.”

Jaira riu, gostosamente.

─ Sabe, gosto de você.

 

III

 

E depois de algum tempo.

─ Acho que é só por hoje. Pode voltar para o seu alojamento. Deseja alguma coisa, há algo que eu possa fazer por você?

─ Rola uma cachaça ou uma bagana espiritual?

Jaira a acompanhou até a porta.

─ Temos uma cerveja fluidizada, serve?

A PRÁTICA E USO DO METATARÔ SEGUNDO VICENTE, O PRETO

MR. BEGGAR FELINE - By oO-Rein-Oo - DEVIANTART

MR. BEGGAR FELINE – By oO-Rein-Oo – DEVIANTART

Deve-se imaginar um mendigo, preto, belo e forte, com cerca de sessenta anos, de barba e cabelos quase totalmente brancos. Deve-se imaginar uma moça de vinte e poucos anos. Um dia chuvoso, talvez. Úmido ou frio. Melhor frio.

Basicamente você terá as vinte e duas lâminas do Tarô tradicional, desconsiderando os outros cinqüenta e quatro Arcanos Menores. Do ponto de vista do MetaTarô os “menores” são apenas variações, facilmente perceptíveis com a prática. Assim, os Cavaleiros ou Valetes serão relacionados, de acordo com a tirada, ao Mago, ao Imperador ou mesmo ao Louco. E, do mesmo modo, as Damas com a Sacerdotisa, a Imperatriz et alia. Para não falar dos simbolismos assazmente antigos e conhecidos da Taça ou Copas, do Malho ou Paus, da Espada e Ouros ou Rútilo.

“Uma questão de prática”.  E sorriu Vicente, como sói podem fazer mestres arcanos. Você já deve ter privado com algum.

“Coringas e o Louco?”

“Viu?, você já pegou a coisa”. Um ligeiro cumprimento, um quase imperceptível tremular de dedos e um quase sorriso. E a moça sentiu-se distinguida, cumprimentada e isto lhe trouxe desconhecido calor a seu coração, e vergonha por se dar ao desfrute de tal sentimento.

Era uma moça da classe das Subestimadas e você, Leitor ou Leitora, deve ser condescendente com estas infelizes criaturas nunca seguras de seu potencial.

Então, como já disse, considere, para fins práticos, apenas os Arcanos Maiores. E não tenha medo ao aproximar-se deles. Veja, com o Imperador considere que está tratando com todos os reis, presidentes, tuxauas, caciques, cãs e líderes; com o Sumo-sacerdote, todos os patriarcas, babalorixás e rabinos; com a sacerdotisa, as pitonisas, iaôs, santas, mulheres de sabedoria; com o Mago, cada prestidigitador, mágico, cada encantador de serpente e cada maluco trancado num laboratório consultando grimórios ou microscópios de tunelamento. E existem as variações do Louco, é claro. E, nunca esquecendo, nem sempre se pode distinguir as fronteiras entre um e outro.

“Desculpe, mas isso aí é um tanto óbvio. Cê sabe, cê vai achar a mesma coisa em livros de autoajuda…espero…é…não ter ofendido”. Isabel, que é como devemos chamar a moça, estava ajoelhada, segurando um livro e um celular na mão esquerda. E parecia confusa. E Vicente, nosso herói de agora, era apenas um mendigo, negro, alto, de meia idade e barbado. E grisalho. E conto isto para que vocês não se assustem com Vicente, que era meigo e sábio e tinha a voz meiga de um sábio e estava escarrapachado no chão, apoiado num banco de jardim do parque.

“Correto”.

“Certo”. E Isabel (você agora conhece Isabel) ajeitou-se, sentiu-se desconfortável por estar ajoelhada e sentou-se no banco.

Todos os Arcanos são arquetipais, mas nem todos são tão “óbvios”. A Lua, a Torre, os Amantes ou Namorados, o Mundo ou os Estamentos, são para serem “ouvidos”. Atente para a palavra! São antes “perguntas” e não “respostas”. Um conselho: os bons barcos balançam. O digno de admiração não são as melhores respostas. Qualquer um responde. Eu lhe aponto um dedo e você responde ao meu dedo, mas meu dedo é só um dedo.

A arte soberana é a da pergunta.

“Não entendi nada, desculpe”.

“Ótimo. Se entendesse, responderia. Já notou que é um contrassenso?”

“?”

Vamos tentar de outra maneira. Veja, por que está aqui, agora, falando comigo?

Isabel se remexeu, fez careta, mas não respondeu.

“E então?”

“Eu…assim, eu estava aqui no parque, passei por você e você me chamou e começou a falar de Tarô e depois do MetaTarô”

Não, seja honesta. Você andava pelo parque, por este enorme jardim público, e me viu, e parou quando me viu e então perguntou pelo MetaTarô. Você, claro, vai racionalizar. Não, eu não perguntei nada, Vicente, e será mentira.

A despeito de tudo, você está aqui, conversando sozinha com Vicente, o Preto. Perceba que sou preto. E um mendigo. E Você não me conhece. Então, como não perguntou?

“Eu não abri a boca…”

“O que só depõe a seu favor”

E voltando ao assunto, com o MetaTarô, acessível a poucos, conhecido só por poucos, você não consulta às lâminas. Você é consultada. Veja, as lâminas, do mesmo modo que você, são consumidas pela mesma curiosidade. Vamos começar a leitura?

“Vamos…?”

Certamente. Embaralho as cartas, agora: no fim dos tempos, entrópico até os bagos, existe um castelo ou um barraco ou uma tenda ou uma maloca ou um pagode, onde os restolhos da humanidade se abrigam, aquecendo-se uns aos outros. Estou falando deles, percebe? Os Arcanos Maiores, o melhor e o pior. O humano, o demasiado. A outra face nos encarando, no espelho. Elas. Eles. Nós.

E vinte e dois mendigos se postaram ao lado de Isabel e ela não vira nenhum mendigo chegar.

E é um lugar em lugar nenhum, cheio de abstrações e cheiros. Pode ver? E Isabel viu. Estão todos lá, os demônios e santos, os marcianos, São Jorge, o Superman, Sétimo Severo e a  Grande Mãe.

E Vinte e dois mendigos estavam ali, casualmente, ao derredor de Isabel e de Vicente, escarrapachado ao lado do banco de jardim. E também eu estava lá e também você, Leitor e Leitora.

E todos os Tzadikim, Tonico e Tinoco, Lisavetta de Batory, Morrison, seu Zé Pelintra, Maria Padilha e todos os milagres de Lourdes e de Aparecida e Marie-Bernard Soubirous recém saída de um riacho gelado onde vira a Virgem. E todos eles, incluindo os Neanderthals, que eram inteligentes e sábios e se acreditavam prediletos da Grande Mãe e morreram do mesmo jeito.

E é isso. E foi e será. O barraco do fim dos tempos. Agora, as cartas estão embaralhadas. Pergunte!

Evidente que Isabel se levantou e saiu dali correndo e você deve ser compreensivo, Leitora e Leitora, porque você fez o mesmo.

Por que? Por que Isabel, somente desta vez, não ficou e aguentou e ouviu? A resposta tão perto de si.

A mendiga Dejaneide Maria Bezerra que também era a Mãe teria dito a Isabel, teria dito a você, teria dito.

“Sim, ele te ama”

“Sim, ela te ama”

“Sim”

Eu me chamo Vicente. Sou preto. Sou alto e sou forte.

Tarô de Marselha

IDENTIDADES: UMA AMOSTRAGEM DE ROSTOS, ACOMPANHADA DE PEQUENAS E TERNAS INDIGNIDADES

Bulldog - David Rapoza - DEVIANTART

Bulldog – David Rapoza – DEVIANTART

1 – Exterior – dia – Tomada panorâmica da cidade. Do alto, prédios e mais prédios. Um dia frio e com vestígios de chuva recente. E em crescendo, um zoom que vai cada vez mais perto de uma parte arborizada, um parque, sempre em ângulo reto em relação ao solo. Vêem-se duas bicicletas.

MÚSICA: Moto Continuo de Radamés Gnatalli. Adequadamente sinuosa.



CRÉDITOS: As bicicletas, vistas a partir das traseiras (a música pára) e depois de frente para os ciclistas, Selma e Geofroy. Ambos convertem para uma aléia e dali para um bicicletário, onde deixam as bicicletas atadas (a música retorna, mas apenas como uma sugestão, um motivo breve). Os créditos são breves, se limitando ao nome do diretor, do produtor e dos atores, sem título.

2 – Um casal de idosos passa. Ambos na casa dos oitenta anos. A mulher, usa roupas leves: calça de linho branco, camiseta branca sob um casaco tricotado azul-pálido. Seus cabelos são totalmente brancos e seu rosto é bonito, não, digno. Não, bonito. O homem usa agasalho branco, sem marca visível e aparenta estar em processo de recuperação de um derrame. O rosto é alheio ou talvez apenas ele não possa mais controlar de todo os músculos da face. A mulher o apoia na caminhada, mas dá a impressão de não o fazer, se achegando ao marido, com um riso leve sempre permanente.

CORTE PARA:

3 – Selma e Geofroy. Frontal. Ambos caminham, silenciosos. Ela, mulher de pouco mais de cinquenta anos, pequena, cabelos pretos e curtos, olhos talvez claros. Um corpo esguio e um ar decidido que seria ameaçador se não fossem seus olhos brilhantes. Ele, pouco mais de vinte e cinco anos, alto, barba por fazer e olhos bondosos de menino perdido, sempre mirando em volta (câmera subjetiva), observando o casal de idosos que passa, ciclistas e pessoas encapotadas que passam.

4 – Um homem de seus também cinquenta, calvície avançando, calças jeans e blusão surrado de camurça, caminha solitário. Guilherme.

MÚSICA: Tintinnabulum, de Marcos Visconti. As notas soltas do piano vão pontuando a caminhada.

5 – Interior – dia – um restaurante ou cafeteria. Mesas simples, toalhas simples, uma única atendente com aparência de proprietária, usando um lenço púrpura ao pescoço. Uma outra mulher no caixa. O lugar é pequeno, mas arrogante. A simplicidade do lugar é arrogante. Muitos e diversos pães no balcão e nas mesas. Sucos multicores, cafés. O lugar vende saúde. Público classe média. A música continua, agora com os violoncelos. Selma e Geofroy estão sentados na mesa mais externa.

6 – A proprietária se aproxima, sorridente, sob o olhar de Geofroy (câmera subjetiva). A música diminui gradualmente.

CORTE PARA:

7 – Exterior – O casal de idosos, ainda caminhando. Flora e Heron.

HERON

Voz pastosa, mas inteligível.

Acho que não tá dando certo…essa coisa toda.

FLORA

O que não está dando certo?

HERON

As…essas caminhadas. Não sinto melhora, só cansaço. Muito cansaço. Muito aborrecimento.

Heron volta a ficar em silêncio, com um ar perdido, seu andar trôpego e perdido. Flora não aparenta ter se impressionado.

FLORA

Você está andando. Podia não estar andando. Prá mim é progresso bastante.

FADE OUT PARA:

8 – Exterior – Uma confluência de caminhos no parque. A cerca de trinta metros, uma banco com um único ocupante. Um homem negro, sessenta anos presumíveis, cabelos pixaim projetando-se em todas as direções. Barba branca. vestindo roupas maltrapilhas, mas paradoxalmente elegantes. Casacão cinza de lã, puído. Calças de ganga, tênis velhíssimos e desbotados. Um braço cruzado no peito e outro segurando o queixo, perna cruzada por sobre a outra. Um divertido ar senhorial. A Câmera se aproxima, ao som de música de câmara.

MÚSICA: o arranjo de Marcos Visconti para o famoso Segundo Movimento da Sétima de Beethoven: violoncelo, volino, viola da gamba, berimbau e piano.

9 – O homem negro, Vicente, sentado dignamente, mirando com intensidade brincalhona a câmera. Depois, correndo o olhar para as árvores (câmera subjetiva), o casal de idosos passando, o solitário Guilherme indo e passando por eles, a cafeteria mais ao fundo, com Selma e Geofroy sentados à mesa. O olhar subjetivo de Vicente se fixa a sua frente: vemos o cameraman e a equipe por detrás. Iluminador e operador do microfone, como um pescador com uma gigantesca vara segurando uma isca felpuda, trinta centímetros acima da cabeça de Vicente.

CORTE PARA:

9 – Vicente, tomada de torso. Ele agora sorri.

CORTE PARA:

10 – O casal, se afastando de Vicente. Tomada de frente.

CORTE PARA:

11 – Selma e Geofroy, entre pães e sucos. Geofroy não está comendo e continua, até mesmo acentuado, com seu jeito de garotinho perdido. Selma come e bebe, alheia. Decidida.

CORTE PARA:

12 – Vicente, mãos nos joelhos, sentado, mirando carinhosamente a câmera.

CORTE PARA:

13 – Olhar subjetivo de Vicente: cameraman e equipe não são mais vistos.

CRÉDITO: em FADE IN aparece o título: IDENTIDADES.

14 – Vicente, visto a partir do torso, começa a falar.

VICENTE

Um galinheiro. Um galinheiro sujo e desconfortável. Foi assim que Frida Kahlo descreveu Nova York em 1931 ou 32, não me lembro bem.

15 – Close no rosto de Vicente.

VICENTE

Não chego a tanto, mas também nunca vi Nova York.

Pausa.

E aqui, bem…aqui pode ser bem ruim, as vezes. Principalmente em dias frios e hoje está frio.

Pausa. Vicente sorri e alisa o desgrenhado da barba.

Tudo o que eu sei é que agora podemos…com decisão, mas com cuidado…começar.

CORTE PARA:

16 – O banco de Vicente, visto de lado. O cameraman e equipe, visíveis novamente, se afastando lentamente.

MÚSICA: retorna o Moto Continuo, de Radamés Gnatalli, em crescendo.

CORTE PARA:

17 – A visão subjetiva se afastando de Vicente, cada vez mais, até se tornar um ponto, cercado de árvores e passantes.

FADE OUT PARA:

18 – O parque, extático, visto do alto. A música chega ao fim.

CORTE PARA:

19 – Tela em preto.

FADE IN  PARA:

o número “1”, brilhando no centro da tela.

O demônio e a mulher imortal se encontraram na terça-feira

The Bar - by Boo the hamster - DEVIANTART

The Bar – by Boo the hamster – DEVIANTART

O demônio e a mulher Imortal se encontraram na terça-feira e foram tomar uma cerveja no Bar do Cao.

Conhece? O Cao? Sujeito fino, às direitas. Filósofo de formação, com um mestrado em Estudos da Linguagem, o Cao.

Foi há cinco anos, mais ou menos, que deu aquela doideira hoje famosa, entre um “Noam Chomsky” e uma “cesura Freudiana”, e o Cao largou tudo, mimoseando a classe com um monte de “vãopráputaqueospariu”, e saindo para a vida (como descreveu depois a cena).

O demônio e a Imortal não sabiam do histórico do modesto comerciante que os servia, modos que continuaram ali, na sua, botando a conversa em dia.

“Sabe do que eu tenho mais saudade? Cê não vai acreditar, mas é do cheiro dos mamutes. Hoje de manhã mesmo, sonhei com eles pela primeira vez em…gente…uns duzentos anos, pelo menos”. O Demônio fez um sinal para o Cao e pediu uma porção de mandioca frita e mais uma cerveja.

“Vai entender…”. E sorriu quando o Cao confirmou o pedido. “Sabe que eu tenho saudades também, dos mamutes?”.

O bar pestilencial do Cao.

Na mesa ao lado o Cao atendeu ao casal e ao sujeito de meia-idade com cara de quem acabara de acordar.

“Só cerveja, mesmo”. Rolando, o policial inexistente segurou as mãos de Merula, a policinha, entre as suas.

“Nunca entendi porque desses adiamentos teus, vai rolar cachaça mais cedo ou mais tarde”. O Magnífico Policial e Escriba cheirou o copo e o uísque vagabundo dentro do copo. Tomou mais uma dose, mas depois sorriu como um bonzo.

“Liga não, Rô. Eu confio em você”. Merula beijou os lábios bêbados.

“Amo essa mulher. Amo…entendeu?”. Rolando se virou para o Magnífico. Beijou Merula e pediu mais uma.

O Cao também já amara, fora um homem de bem e casado e entendia os transportes de Rolando com Merula. Entendia também o Magnífico Policial Fundamental. Um escravo fundamental, a quem prescrevia diariamente que mandasse o mundo à merda e largasse tudo. Não era e nunca seria atendido, suspeitava.

Os meninos da banda Capitão Temor voltaram do beco e se aboletaram entre copos e pratos sujos, rescendendo levemente a maconha.

“Bem, como eu dizia antes de um corno me interromper, vocês estavam na dita cuja da fila e foram lá encarar o delegado…é, existem coisas piores para serem encaradas, portanto, foi um delegado mesmo que vocês foram encarar e só uma vez – na verdade duas vezes, mas assim caminha a humanidade, bem … já me perdi, onde foi que eu parei mesmo?”. Rolando descansou o rosto ébrio entre as palmas das mãos.

“Eu sei que cê sabe a minha idade exata, vai, fala prá mim, vai”, a Imortal falou, súplice.

“Tem coisas que me estão vedadas…revelar tua idade, por exemplo. Aliás, calcula você mesmo”.  O demônio, entediado, consultava ao celular.

“Calcular como? Eu era uma analfa vivendo numa tribozinha de merda em…sei lá em que porra de lugar. Europa? Calcular, como? Vinte, trinta mil?”. A Imortal tinha uma pele viçosa e marrom-avermelhada que contrastava vivamente com seus cabelos loiros, cheios de cachos. O demônio era bonito.

O Cao tinha muitos amigos, mas confidências mesmo somente as fazia a Selma Plá e ao Marcos Visconti, que aliás, era unha e carne com a Selma. E irmão do Rodrigo, ex-marido da Cléia Tominaga e atual maior inimigo da Selma. Cheio de manias o Cao.

“Ele vai de cachaça, mesmo?”, o Cao, preocupado, interrogava Merula.

“É, fazer o que? Parece que eu só atraio porralouca”. Merula.

“Eu não sou porralouca…”, o Magnífico Policial do Bem levantou o indicador, professoral.

“Você não me atrai!”, Merula disse, expelindo um jato de fumaça na cara do Magnífico.

“Lembra dele, o Mosche?”, a Imortal.

O demônio, consultou suas cutículas. “Uma vez perguntei a Mosché ben Maimon se podia sentir o Messias chegando…”.

“E ele?”. Disse a Imortal, distraída, depois passar em vista os ocupantes de outras mesas, se detendo por breves segundos no Magnífico Combatente do Crime.

“Às vezes — Mosché me disse — consigo ouvir os seus passos…e talvez uma vez ou outra, sua respiração”. O demônio, de nome, aliás, Nibiru, riu levemente. “Acho que é próprio do homem ter esperanças”. A Imortal teve diversos nomes em sua longa vida, mas basicamente era uma “Miriam”.

“Ele tinha dessas tiradas…meio poéticas”, disse Miriam ou Mariam ou Meriam, a Imortal.

“Falando em judeu, sabe que tem um Tzadik aqui em São Paulo? Sabe, dos Tzadikim mesmo? Nem acreditei quando me toquei, bem ali, na Oscar Freire”. A Imortal.

“Nãâão…dos trinta e seis? Só não diga que é mendigo, também”. Nibiru sorriu.

“Sei o que ele é não, mas não é mendigo, não. Também, só faltava…coisa mais clichê um Tzadik mendigo!”, disse a Imortal.

“É…vale uma visita. Faz muito, muito tempo que eu saí do ramo das tentações, mas sabe como é, a gente nunca perde o jeito. Um dos Tzadikim, um dos pilares, caralho! Quem diria?”. Nibiru sinalizou para uma das ajudantes do Cao.

O Cao não ouvira o diálogo, é claro, educado e correto como era. Mas o fato é que o Cao conhecia ao Tzadik, embora não soubesse que o Tzadik era um Tzadik dos trinta e seis Tzadikim. Tudo bem, que o próprio Tzadik não sabia também que era um deles.

Marcos Visconti, com Selma a tiracolo, chegou e se juntou aos rapazes da Capitão Temor.

“Cao, manda um branco gelado”, gritou Selma e olhou interrogativa para o Marcos, que completou, “Kriptonita. E capricha na menta, Cao”.

“Que porra que é Kriptonita?”, Rolando, para Merula.

“Trata-se de um meteoroide, vindo do planeta Kripton. Faz um puta de um estrago se você atender por Kal-El”. O Magnífico, com sua cara de enfado número dois, esvaziando o terceiro copo de uísque. Merula gargalhou gostosamente.

“Impossível…”, baliu Rolando, “o sujeito não bebe, porra. Foi educado numa rígida tradição presbiteriana, lá com a família Kent”.

“Posso ter confundido as cachaças…”, concedeu o Sempiterno Policial do Bem.

Teco Dantas, guitarrista do Capitão Temor, conversava animadamente com Selma e Marcos.

“Lembrou agora, Cailean…escocês, grandão. O cara lá que fez a entrevista com o Innisfree, lembra?”. Marcos Visconti coçou um ombro, indeciso.

“Qual, o da revista?”. Perguntou. “Isso, ele mesmo. Lá no Surrey, a gente se encontrava”.

“Pois bem…”, Teco deixou a expectativa crescer , “conversei com ele sobre o filme da Selma, essas coisas, daí ele me mandou e-mail confirmando…”

“Ah, não brinca?!”, Marcos chegou a se levantar, de tão ansioso.

“Serião, tá confirmado. O Roy topou participar, tocando os instrumentos malucos e tudo. Cara, eu não acreditei!”. E um grande sorriso se espalhou pelo rosto sardento de Teco.

“Peraí, Roy, que Roy?”, Selma perguntou, perdida.

“Como, que Roy? Roy “Skip” Rao. Anathroy Venugpala Rao, o baterista do Innisfree em pessoa! O cara dos mil instrumentos”, Marcos, espantado, para Selma.

“Innisfree?”.

“Never Fight An Inanimate Object…”, cantarolou Teco, esperançoso.

“Deixa prá lá, tá bom. Tudo o que eu quero é que saia do jeito que a gente pensou”.

Vai sair do jeito que a gente pensou!”, Marcos bebericou um líquido verde azulado.

“Teu / Desnecessário sorriso, teu / Debochado sinal, teu / Senhorita do dia, teu / Senhoria lunar e teu / Teu aceno discreto, teu / Teu aceno discreto, teu…”, cantarolou Teco, acentuando cada “Teu” com uma batida de baqueta na mesa.

“Ainda não decidi se essa aí vai entrar”, preveniu Selma.

“Ei, a trilha é minha!”, protestou, choroso, Marcos Visconti.

“É, mas a diretora tirânica sou eu, o filme é meu e a produção é do Geofroy, que é meu filhinho e não teu, querido”, cortou Selma, impiedosa.

O Cao passou pelo caixa e sinalizou para Lucinha e Gleise e saiu para a noite quente.

Lá fora, o ar quase parado, fumou seu quinto cigarro do dia, dos dez que estabelecera como teto máximo. Tragou, riu e se abraçou em bem-aventurança. Tragou, riu e voltou-se para as mesas, mirando com ternura o demônio e a Imortal, os policiais, os músicos, as meninas rindo, atrás do balcão.

Conhece o Cao? Sujeito fino, às direitas. Filósofo de formação, com um mestrado em Estudos da Linguagem.

O Cao.