SOBRE CRIATURAS MÁGICAS, SANTOS E SANTAS.

 

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Jovem como eu era, trabalhava na mesma tecelagem que Selma Plá, a moça que teve as já conhecidas visões místicas. Que ela não procurou, não queria e, aliás, desdenhava.

Mas, outra época, outros feitios, outra feição do universo palpável.

Acordava muito cedo, muito, muito cedo. Havia um trem infecto, um ônibus superlotado e depois a rua, onde andava os seiscentos ou mil metros necessários até nossa senzala.

E aí eu brincava, indicando a A e a B, irmãs e amigas na ocasião, onde estavam, onde se escondiam os duendes, os elfos e as fadinhas, também de ocasião. Havia Saulo, gnomo feio e rugoso, pouco dado ao contato. E Sálvia, fada pequenina, inapropriada aos bons costumes por lasciva e fútil e cruel até a medula. E os Irmãos, também batizados por mim de Demoninhos Assassinos Mauzinhos canibais e que eram, forçoso concordar, demônios pequenos com tendências homicidas, com poucas restrições quanto ao alimento que consumiam, além de serem maus, muito maus.

Escapava de suas maquinações, de suas pequenas armadilhas e ódios por conhecer as canções certas, os enredos, as pequenas magias e estendia esta proteção a A e a B. Eu me achava, me via, me cria, à época, como o precoce herói seminal das histórias. Enfim, um tolo novel e bobinhão.

A e B se casaram e saíram, saem agora desta história, mas eu continuei, digo, continuo.

As pessoas pensam pouco sobre a magia ou mesmos sobre os seres mágicos, embora o assunto nos rodeie nos quadrinhos, livros e filmes.

Engano comum o de algumas pessoas acreditarem que a magia não existe. Falo de “algumas pessoas” por saber que a grande maioria das pessoas é crente fervorosa na realidade das operações mágicas.

A maior parte das pessoas (dá uma coceirinha mental em dizer todos) realiza diariamente pequenos rituais de magia simpática: trocar de caminho para evitar a repetição de um evento; fazer promessas dirigidas a seus santos preferidos; orar mentalmente e coisas outras do mesmo naipe.

Ou surpreender a seres mágicos, os elementais, por dá cá aquela palha. Como eu fazia.

E, outro erro comum, o de algumas pessoinhas acharem que os elementais, os seres mágicos, sejam também pessoinhas boinhas, do bem.  São não. Nem também são do mal, vale também dizer. São, eles, os povinhos mágicos, o que são. Nem PT e nem do PSDB. E nem nada no meio ou além. Só o que são.

Exú, por exemplo, que conheci deveras, é só um cavalheiro magro, escuríssimo, usando jaquetão e gravata. Elegantíssimo. Ou um cavalheiro de tez parda usando um terno de dois botões. Ou um cavalheiro de tez clara, loiro. Mas sempre, sempre elegante. Cem mil anos de idade (ou mais. Suspeito que ele já aporrinhava aos Australopithecus) e ainda por aí, disfarçado de malandro, de pastor, de padre, de analista de sistemas. Mulheres, cuidado!

E dona Janaína. E dona Oxum e os cento e vinte e sete Zé Pelintras.

Sei, existem por aí os meus amigos cristãos modernos que dizem que todos, todos os elementais, são nada mais, nada menos, que encarnações ou servos do Tinhoso.

Estão certos, claro. Não polemizo, comento.

Então foi que em 1986 fui parado no meio da rua por Santa Catarina de Sena.

E aí, ó meu deusinho, lembro porra nenhuma do que ela me falou. Mas foi alguma coisa sublime.

Acho.

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A SULTILEZA DA BESTA OU COMO O APOCALIPSE NÃO VEM, MAS SEGUE

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Tired – by Natalia Ciobanu – DeviantArt

 

Estamos em uma época de queda, similar a todas as outras épocas de queda que começaram com a queda dos primeiros anjos e de Lúcifer e o estabelecimento daquele valiosíssimo imóvel psíquico: o Inferno.

Esta nossa época de queda pode ser reconhecida como uma, bem, época de queda, por não ser trágica, mas farsesca. Sem muito conteúdo que não aquele que apela ao fígado e não ao cérebro.

A volta de um moralismo tacanho para substituir o afastamento das pessoas da atuação política, o incremento da demência e da fatuidade nas redes sociais, a preferência do receptor pela imagem, em detrimento do texto e, se inevitável o texto, que seja curto.

O Feicebúqui e suas frases de parachoque de caminhão, suas citações malucas atribuindo a Mahatma Gandhi o que foi de Groucho Marx (considerando que o usuário feicebuquiano saiba quem foram Gandhi e Marx).

O WhatsApp.

Nos anos trinta foi criado Dick Tracy, uma tira de jornal sobre um detetive de queixo quadrado, anglossaxão até a medula, que combatia o crime usando uma tecnologia delirante na qual pontuava, ora vejam, um relógio-videofone, que lhe permitia também ver e não apenas falar com seus colegas policiais. O WhatsApp já faz isto e todos nós somos potenciais participantes do delírio que a tira apenas antecipava.

Nós hoje falamos pouco, lemos quase nada e escrevemos menos ainda. Mas, vemos, olhamos, quase fanaticamente. Olhamos, absorvemos imagens como quem come em um fast-food, de forma rápida, acrítica, sequencialmente.

Natural que seja comum a indisposição estomacal.

No último livro da bíblia cristã, o Apocalipse, há a narrativa final da ascensão do Anticristo, da Besta; onde a Besta providencia um sinal para que se identifiquem seus seguidores: um número. Não sei se com ironia o autor (João de Patmos, Steven Spielberg, tanto faz) nos informa que é um número de homem.

Não, não estou fazendo ilações entre o livro e nossos tempos (O atento pastor ou o gárrulo padre fazem e farão melhor), apenas gosto da imagem literária.

E então o nosso tempo, não apenas de queda, mas uma queda que se eterniza no tempo e com isso se torna um paradoxo, pois que se é eterna a queda, tem-se então uma queda estática (uma queda teria que ser dinâmica, pois não?).

E então o nosso tempo, de anestesias diversas para que não percebamos…o que? Tenho diversas teorias conspiratórias a disposição:

  1. Somos cobaias em uma grande experiência cósmica destinada a conhecer até onde vai nossa disposição de, enquanto gado, permanecer gado?
  2. Somos cobaias em uma grande experiência, controlada pelos senhores do universo, destinada a conhecer até onde vai nossa disposição de, enquanto gado, permanecer gado?
  3. Somos cobaias em uma grande experiência, controlada pelos senhores do capital, destinada a conhecer até onde vai nossa disposição de, enquanto gado, permanecer gado?
  4. Somos cobaias em uma grande experiência, controlada por um deus menor, um demiurgo, destinada a conhecer até onde vai nossa disposição de, enquanto gado, permanecer gado?

 

Não levem a sério, é claro que isto não existe. E mesmo a ideia de um tempo de pranto e ranger de dentes sequer é original. Sabe bastante àquela antiga e persistente doença da psique humana, a saudade da Idade de Ouro, de que já sofreram gregos e romanos, hindus e chineses.

Não, falo e escrevo apenas de eventos locais, circunscritos, brasílicos, nossos. Nosso tempo e nossa sina. Mas não posso evitar de lembrar a previsão do destino humano dada pelo agente O´Brien em 1984, de George Orwell: uma bota pressionando, eternamente, um rosto humano.

É claro que se trata de uma obra de ficção, com as liberdades que às obras de ficção se dá. Por exemplo: O´Brien é pessoa culta. Não me parece que as atuais botas o sejam.

Disse Jesus (ou escreveram que Jesus o disse, o que dá no mesmo) que os humildes herdariam a terra.

Pode ser verdade, mas por enquanto me parece que o quinhão quase total da terra foi dado e é gerido pelo medíocre.

Reconheço a força dos atuais dominadores, mas não consigo ter muito respeito por seus intelectos.

Bem, talvez sejam só os capatazes.

Talvez ocorra que seus senhores, eles sim, sejam os sofisticados, os que escreveram as bíblias diversas, os que projetaram os ritos, os que construíram Babilônia e a partir dela, governam.

E eu acho que era tudo o que eu tinha a demonstrar sobre a arte de escrever como sói escreve uma pessoa cansada. Trabalhei demais ontem, vejam bem. Como eu sempre escrevo e peço: relevem.

Mas, fato: a sutileza sem par da Besta ainda me comove.

Vale.

RIMADOR, RIMADOR

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260ANALOGOUS by mcptato- DeviantArt

 

Certo, falaremos da viola e do prepúcio

Não, da perseguida falaremos e de Dóris

Para que seja fácil a rima com clitóris

E também, safados, falaremos de Vespúcio

 

O cabra celerado e italiano que sem mais nos deu

Nos emprestou seu nome à América, e por concurso

Nos habilitou a por través o navegar no leito seu

E a dar partida à rima rica e ao discurso? Fudeu?

 

Mas, falava eu?, lembro não, ô vida besta

Só sei que ao relento não me calo, meto os peitos

Procuro outros sóis para regalo, nos direitos

Falho, desconsigo, empunho a lira, romanesca

 

E termino, pronto, agora, ao poeminha torto

Vos concitando a que relembrem e acreditem

Comigo, pois, repitam: vida, estro, luz e porto

Bunda, bilro, sombra, caos e manto. Recitem!

 

 

 

Recordações de meus tempos em Paris. Ou Montreal ou alguma cidade aí que não lembro

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Der Arme Poet – Carl Spitzweg

 

Basicamente, muito basicamente, não confio em padres! Não fiquem excitados! Também não confio em pastores, babalorixás, ialorixás, ministros, apóstolos, missionários, rabinos, monges.

É…não confio, assim de modo geral e preconceituoso, nos operários da fé. Mas confio na Neide!

Talvez então eu possa confiar no homem ou na mulher de fé? No homem que ora?

Ora, é minha convicção que o homem de fé que ora nunca está só. Não, quando ora, legiões de anjos esvoaçam a sua volta, quais borboletas celestiais que saíram de uma loja Versace ou Christian Dior. O homem que ora conversa com Deus, troca ideias, receitas de camarão empanado, esses caralhos.

Com Deus ele fala do Corinthians, da vida e do caos. Enfim, só filosofias. O homem que ora, finalmente, está em um universo particular, com o fundo todo em negativo (é só conferir a foto).

Obrigado, Krshna, por mais este dia maravilhoso! Obrigado, Zeus! Obrigado, Obatalá! Obrigado, Santantonho de Catijeró!, Obrigado, Mitra! Obrigado, Neide!

E então eu conheci ao cara.

E, de cara gostei do cara.

Já havia pecado deveras, muito, no passado, mas continuei gostando do sujeito que, aliás, já havia orado sobremaneira.

Contava mesmo ele de uma época em que ele, o cara, cultuava uma divindade tribal da idade do bronze, desenvolvida numa sociedade de pastores na Palestina, mas passou.

Hoje, bom homem, bom pai, bom filho e bom marido. Tenho quase certeza.

Ah, e também um comunistinha legal…do tipo clássico, ordeiro.

Comia criancinhas? Dúvidas, dúvidas.

Depois de Budapest, encontrei-me novamente com o mesmo cara em Paris onde, por breve tempo, criamos uma banda de rock estilo anos sessenta, os Toninaldo´s Boys. Fizemos certo sucesso. Nossa canção “Delicious Fucking Hot Girl” tornou-se o hit do verão na Pont Neuf.

Nos encontramos depois no Canadá.

Em Montreal montamos nossa outra banda, a Plastique Éphémère. Claro, devíamos nosso sucesso ao cara, que com sua charmosa careca encantava às damas. Bons tempos.

E líamos de tudo e guardávamos nossas leituras para comentar com os circunstantes na fila do sopão na Associação Cristã de Moços. Mas isto se deu em Paris, tenho quase certeza.

Bem, duas coisas. Melhor, duas cousas: ler exige tempo e é disciplina. Depois, pensar sobre o que se leu é onde está o busilis.

Bem entendido: líamos como um monge lê. Só nos faltava um súcubo para apimentar nossas poluções noturnas…estávamos em Paris, já comentei o fato? Ou Montreal, agora se me escapa onde parei.

Mas é muito boa esta maconha!

 

O POBRE, ESTE EMPREENDEDOR NATO.

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O Brasileiro é um empreendedor nato. Mas só o pobre.

Guardem minha afirmação enfática, arquivem-na, dissequem-na e sobre ela reflitam.

Sim, considerem o tráfico de entorpecentes.

Todo um negócio de venda de entorpecentes para, majoritariamente, atender às classes desfavorecidas, com toda sua complexidade em termos de logística: a aquisição de matéria-prima, seu beneficiamento, sua distribuição e a contabilização necessária dos valores auferidos.

Não, não estranhem quando falo que o principal mercado consumidor dos entorpecentes sejam as classes baixas e médias. É. O lucro advindo da venda para as classes altas é marginal, parte ínfima do lucro geral e muito mais cara em termos de operação, pois que o entorpecente deve ser mais puro e as condições de entrega e consumo mais seguras.

Modos que esqueçam Meu nome não É Johnny, é só um ponto fora da curva.

Enfim, o traficante-empreendedor só fornece às classes altas por uma questão de sobrevivência política.

Com as classes baixas e médias, não; por “causo” que aí sim é que vem o verdadeiro lucro. Ora vejam, o empreendedor do bagulho pode diluir o entorpecente com outras substâncias para maximizar seus ganhos e sem nem sequer precisar dar grande importância à qualidade do produto.

Modos que na cocaína e na maconha vendidas aqui na terra tem até, em sua composição, alguma cocaína e alguma maconha.

Houvessem headhunters de verdade atuando e os principais cargos na administração das empresas seriam ocupados por ex-funcionários do lucrativo ramo do tráfico de entorpecente.

Vera verdade.

Eis.

Mas falava de empreendedorismo e talvez me perguntarão do porquê de minha opinião de só ser ele exercido por pobres.

Ora.

Ora, de novo.

Pra comecim de conversa ninguém com bom senso acredita nesta parlanda vendida por aí da meritocracia. A ascensão, natural, da competência. Pobre não é idiota e não acredita na meritocracia.

O pobre não só sabe que o buraco é mais embaixo, ele vive a situação. E não se engana com filhos de empresários sendo empresários, filhos de juízes, filhos de promotores, continuando a juizar e a promotorar como seus ancestrais.

O pobre sabe que ninguém será por ele, daí considerar o Estado somente um ruído de fundo inconveniente que lhe enche o saco.

Daí que não espera bondades o pobre.

E daí que o pobre que prefere se manter do lado, digamos, legal da coisa, crie do nada suas fontes de renda: os salões de beleza de periferia, os camelódromos informais, os botecos microscópicos, as pequenas igrejas vendedoras de milagres et alia.

Quando Deus é servido, quando dá, o pobre trabalha na metalúrgica, labuta no comércio, dá o sangue na construção civil.

Quando não dá, empreende.

O que é só uma maneira edulcorada de dizer que pobre pratica a mais alta magia conhecida: sobreviver.

É.

Acho que é tudo o que eu tinha a dizer sobre o empreendedorismo.

A paixão segundo o Corintiano Voador II

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Com o que então, Suleiman ibn Daoud, começo esta história

, eu que estava tão longe de ti na ocasião, lá em digamos, um janeiro não é? Uma Jerusalém, quem sabe?

Bem, era um destes dias ou lugares talvez,

quando então era moda lutar contra os fados, desde que se babasse com cuidados nos culhões dos deuses em voga.

Não era uma época de calma, de vagar.

Era mais o comum, o pastoreio de ovelhas, a fermentação de nossas lágrimas, os sacrifícios rituais.

Uma época propícia para servas chamadas Hagar.

Não como hoje, onde enredamos a vida e a paciência em grades tão apertadas que elas choram,

Mas não mais livre era a época, Também cheia de salvação e perdão e inferno em drágeas

Se acaso morrêssemos, quem ligaria para nossos sobejos? As coisas sórdidas que se desprenderiam de nós?, em livros, terra, cuecas, camisetas, sistemas?

Nada. Isto dito pelos golfinhos e pescadores.

Se acaso morrêssemos, nada em nós mereceria sequer um peido.

Enfrentaríamos batalha última, leríamos as muitas bíblias, e não teríamos olhos para ver;

Não atentaríamos para o fato de ser Lilith mais completa que Eva, embora tão morta quanto

E até agora, forçoso dizer: até aqui, só falamos de nosso umbigo

Sim, e de púrpuras sonolentas. E sim, de fadas desidratadas

Ainda assim, temos e mantemos nossas declarações de amor para nossas mulheres: Tu és valente como uma idiota e terna como uma tarde.

É verdade, somos o que o somos, como um anjo, como uma promissória.

É. Ainda assim, Hagar, teremos filhos.

A HISTÓRIA DE PIJAMAS

Art of Diplomacy III - Michel Cheval

Art of Diplomacy III – Michel Cheval

O fato histórico não precisa ser notável, apenas pode.

Minha ambição: a História como um daqueles almanaques de antigamente, com edição anual e recheados de curiosidades: datas ideais de plantio, conselhos sobre a saúde, calendários, lunários perpétuos. Nada sério.

E as datas e os lugares ganhariam alguma coisa, talvez mais humana, mais real por que descobriríamos que os fatos se dão não tanto pelo general famoso, pelo rei ou imperador, mas antes por uma tempestade imprevista, um grumete de embarcação que deu o tiro preciso, uma prostituta que envenenou um clérigo.

Os fatinhos que geram os fatões, se me perdoam a esculhambação com a língua pátria. A História na contramão, de pijama.

Exempli gratia.

Os Templários não foram totalmente exterminados quando da execução de Jacques de Molay pelo Felipe francês. Enclaves da ordem sobreviveram na Escócia e em Portugal. E foram os Templários de Portugal, sob a denominação de Ordem de Cristo, quem financiaram as caravelas de Cabral.

Este nosso almanaque de insignificâncias continua, não tem fim.

A Espanha continuou poderosíssima após a derrota da Invencível Armada, pelos ingleses e pelas tempestades, por mais que os ingleses gostem de pensar o contrário.

Jesus Cristo, ou ainda Yeshua Ben Youssef, era Galileu. O que em termos modernos, no Brasil, seria o mesmo que ser nordestino e atender por Jesonaldo ou Ademilson. Só samaritanos eram menos considerados que os galileus e o nome de Jesus nada mais era que uma variante (considerada vulgar) de Yoshua,  Josué.

Mas aí aparece a História, com agazão, sisuda, séria, posuda.

Eu sei, sabemos, que para merecer os holofotes da História convinha, convém ser macho, adulto e branco. Senão, vejamos.

Era um homem bom René Descartes? E Sidarta dos Sakhia, e Emanuel Swedenborg e Ludwig da Baviera? E Santos Dumont?

E tantos outros, talvez também bons, e homens, ali, congelados em seus nichos no grande Panteão dos Grandes.

Adulto, macho e branco. O perfil acabado do herói. Sem mênstruo, sem dores, só a glória.

E as mulheres? São historiáveis?

Santa Catarina de Siena não sei se era boa, dizem mesmo que era analfabeta e pervertedora de papas. Siatemi uomo virile, e non timoroso. Rispondete a Dio, che vi chiama che veniate a tenere e possedere il luogo del glorioso pastore Santo Pietro, di cui vicário sete rimasto. E por aí foi, em famosa carta, comendo o rabo papalino de Gregório XI ou LXXV, sei lá.

Teresa de Ávila, santa de minha particular devoção, também era analfabeta, fato nada incomum em quase toda a História humana, mas poeta sublime. Igual aquele João da Cruz com quem levitou junto, em êxtase compartilhado.

Ambas, post mortem, tornaram-se doutoras da Igreja. As únicas. Prêmio de consolação.

Mais mulheres e mais história.

Murasaki Shikibu, também escritora e poeta sublime, fazia parte daquela maravilhosa e hedonista aristocracia japonesa do período Heian, séculos X e XI, cultivadora de clássicos chineses.

Aliás, foram provavelmente as mulheres desta aristocracia que criaram sua própria versão simplificada da escrita chinesa Han, adaptada aos falares japoneses, o Kana.

Autora do primeiro romance, o Genji Monogatari, se desconsiderarmos o Satiricon. Vergonhosamente não há ainda tradução portuguesa que eu saiba.

Cinquenta e quatro volumes tem esta narrativa dos amores do príncipe  Genji, se bem recordo e não, não li senão extratos. Significa que não li. Queria.

Exemplo: A dama da corte termina uma carta endereçada ao herói e vai depois apreciar a neve caindo no jardim. A personagem da dama espanta-se que também ao camponês seja permitido apreciar aquelas delicadezas.

Cinquenta personagens principais, nem sempre chamados por seus nomes, mas também por seus títulos ou apelidos poéticos.

Outra, o Haiku, este metro que prima pela brevidade, também foi criado pelas mulheres japonesas, que os homens estavam ocupados escrevendo tratados confucianos ou poemas em chinês clássico.

Terra Brasilis. A ciranda, se não foi criada por Lia de Itamaracá, foi por ancestral não nomeada.

História. E Bashô, François Villon, Vergílio, Dante, valha-me deus, eram homens bons? Grandes, tudo bem, mas bons?

Na coisa toda, o que me enche os pacovares, é essa grande lista de homens, como se toda a cultura fosse criada apenas por homens e homens ricos, poderosos. E Adão gerou Set que gerou Enós que gerou Cainan que gerou Malaleel que gerou Jared que gerou Henoc. Nenhum útero deu sua cara. Nenhum faxineiro, nenhuma doméstica.

Nâo, não estou cultivando feminismos, que devem em minha modesta opinião ser cultivados por feministas. E se mulheres, as feministas, melhor.

Não, falo somente da invisibilidade de algumas personagens e de algumas circunstâncias. E da História e de sua grandiloquência.

Então, sendo a História muito mais do que bustos de heróis enfileirados, por que não enfileirar uma coleção de coisas miúdas, cotidianas? A História no diminutivo?

Oremos.

E vamos aos microfatos:

Já notaram que as pessoas eram magras e esbeltas nos filmes dos anos setenta e mesmo oitenta? Para não falar das décadas anteriores? Menos fast food, menos dietas esquizofrênicas e mais comida caseira, imagino. História.

E assistir a um documentário como Doces Bárbaros e se maravilhar com os Baianos de plástico, maleáveis, rodopiantes, de quarenta anos atrás? Distinguir os maneirismos de uma época: gente assumindo cultuar religiões afro-brasileiras (e não se diga que nada mudou. Hoje será considerada vulgar a pessoa vulgar que o admitir, já que rodou a História junto com a Lusitana e voltamos à Idade Média).

Doces Bárbaros. Gente com pouca roupa no corpo, esparramada em tapetes, almofadas, espreguiçando-se como felinos (o tempo hoje é de urgências, velocidade. O tempo hoje é dinâmico e as pessoas são dinâmicas, dúcteis, urgentes e velozes demais para caberem em almofadas).

Doces Bárbaros. Gal, Bethania, Gil e Caetano. Toda uma série de músicas com temas afro, roupas e adereços com motivos afro, árabes ou indianos. Havia leveza ali. História.

E Betty Davis apagando seus cigarros em um prato no restaurante? Eu vi o filme e estranhei a cena. Não estranharia há alguns anos. Fosse hoje, Betty seria expulsa do lugar, acompanhada por um coro de faces desaprovadoras deplorando sua abominável conduta. História.

E ouvir a música brasileira, dita de vanguarda, dos insossos anos de 1970 a 1980? Uma delícia de estranhamento, com aquela metalinguagem que originalmente fora um meio de driblar à censura e depois tornou-se um fim em si. Um patois para uso exclusivo da classe média. Confiram Panema Leblon na voz de  Cláudia (hoje, Claudya) ou Com Mais de Trinta, de Marcos Valle. Tão disponíveis lá no YouToba e está tudo lá: juventude banhada em sol e rebeldia de butique.

Enfim, a micro-história, pequenininha, doméstica.

A casa da História é lugar onde os Grandes Homens descansam seus fígados e posam para a eternidade. A casa da micro-história só serve à marginalia, é nota de rodapé.

A História clama. A micro-história não, no máximo emite alguns borborigmos.

Crítica literária: A Bíblia

O primeiro e o maior dos

O primeiro e o maior dos “ghost-writers”?

Atenção: SPOILERS!!!

Este crítico que vos fala leu o livro, a maior sensação literária da temporada e que certamente brilhará na feira de livros de Paraty. O autor, um excêntrico que gosta de ser chamado de Deus, sem sobrenome, se esmerou em criar um calhamaço de mais de mil páginas onde aparentemente se divertiu em passar por quantos gêneros pudesse: do sermão à farsa, do épico à crônica, da poesia à disgressão moral.

Toda obra é dividida em capítulos e já desde o primeiro, chamado de Gênesis, somos surpreendidos no início pela completa ausência de personagens, exceto por uma: Deus. É, Deus. O autor se diverte colocando a si mesmo como o primeiro e único personagem inicial de quem, em fina ironia, fala na terceira pessoa. A partir de agora, quando nos referirmos à personagem, utilizaremos de tipo itálico.

Neste primeiro capítulo optou Deus por nos trazer sua cosmogonia particular, pois sim, a personagem Deus cria, a partir do nada, o mundo. Há fases que se seguem onde aparecem os astros, os rios e oceanos, as plantas e finalmente os animais. Há todo um projeto de construir e deixar pronto um espaço delimitado a que chama o autor de Paraíso. Espaço preparado para a inevitável aparição de Adão, a segunda personagem e, a partir de uma sua costela (é, a costela, não estou brincando…), a terceira, Eva.

Onde Adão é personagem plana, Eva é mais incisiva, curiosa e perguntadora. E é bom que seja assim pois que é a partir de sua desobediência a Deus, que se estende a Adão, que o capítulo ganha em ação e movimento. Ora, Adão é um tolo cheio de boas intenções, mas limitado. Então é com Eva que trata a quarta personagem, chamada simplesmente de A Serpente.

Ponto fulcral do capítulo no qual não nos estenderemos muito para não prejudicar o sabor de uma primeira leitura, mas basta saber que A Serpente convence Eva a provar do fruto de uma árvore mágica, cujo consumo fora interdito por Deus e que supostamente traria a sabedoria ou, mui conpiscuamente (não zombem, por favor), o conhecimento do Ser, da vida, de suas determinações e, portanto, da imortalidade ou, se assim se preferir, do compartilhamento da condição do divino.

Bem, Deus descobre a insubordinação, ralha com os culpados e por fim os expulsa do Paraíso. A história já pode começar. Pois é somente aí que percebemos que todo o livro é nada mais que a narração das peripécias dos descendentes de Adão e Eva.
E então…bem há de tudo um pouco: assassinatos, obsessão, um dilúvio (uma interessante paródia da personagem Utnaphistim, de Gilgamesh, autor que já resenhamos).

Enfim, todos os recursos são utilizados pelo autor nessa fase, o discurso repetitivo típico das narrativas de cosmogonias, a interseção direta de uma divindade no plano material, a abundância de simbolismo e paracitações (A Serpente é claramente decalcada da deusa suméria Tiamat), servirão apenas de movimento introdutório a este que pode ser considerado muito mais que um simples Roman-fleuve.

Aliás, o autor brinca mesmo com a proposição de tratar sua obra em termos de romance-rio. Mas um romance-rio no qual o narrador onisciente também é personagem atuante: eu sou o alfa e o ômega, diz numa encarnação sua num dos capítulos finais do livro.

Interessantíssima, a propósito, é esta aparição da personagem Deus, encarnada no filho de um carpinteiro chamado de Jesus e que é ao mesmo tempo filho do próprio Deus. Há rumores de uma continuação da Bíblia focada em Jesus e que teria o título provisório de Bíblia: o novo testamento.

Em todo caso, uma obra densa, que já atrai legiões de cultores e (prevemos), provavelmente será motivo de disputas e celeumas. De resto, se não temos muitas certezas sobre a obra, temos sobre o autor: é prolífico. É polêmico. Vejamos o que mais sairá de sua pena. Aguardemos.

RECEITA PARA DOMINAR O MUNDO

TIRANO

Não é fácil, esclareço de pronto. Existem concorrentes de peso conhecidos e, pior, os desconhecidos (sempre tem um maluco para competir com você). Mas, é possível. Para ser um bom dominador do mundo é preciso primeiramente atender a certos requisitos, não necessariamente todos e não necessariamente excludentes:

1- Você pode ser um cientista maluco, por exemplo. Um cientista genial a frente de seu tempo, com tendências paranoides acentuadas. E se você for obsessivo ao extremo,  sempre ajuda, mas convém tomar cuidado com os ajudantes. Principalmente se atenderem por Ígor;

2 – Ou, quem sabe, um mago dotado de poderes malignos que tenha algum objeto de poder mágico (uma joia mística que só funcione com o alinhamento dos planetas, um livro misterioso, essas coisas). Mais uma vez, também é preciso ter cuidados com os ajudantes;

3 – Existe uma variante do mago, que é a de pertencer a uma seita secreta com milhares de anos de existência cheia de segredos místicos e planos de dominação deste simplório plano físico. Também conhecida como variante Ctulhu (leia H. P. Lovecraft).

No caso de uma seita, é importante a presença de um líder com acesso a objeto mágico de manipulação do meio físico em nível planetário. É ainda necessário que a seita em questão seja antiga, com mitologias particulares bem sedimentadas de domínio e a crença num destino manifesto maior, conjugada a crença na sua superior capacidade de ditar os destinos humanos;

4 – ou você pode optar pela promissora profissão de Tirano Extragalático Do Mal Com Vontade De Estuporar O Planeta. Darth Vader; Ming, o impiedoso, você sabe.

Ainda no que tange ao tirano em potencial, também é possível que seja ele uma entidade supranormal ou, mais idealmente, uma entidade com capacidades super-humanas (Ver PROLEGÔMENOS PARA DOMINAÇÃO PLANETÁRIA, Dr. Gori, 1987).

Neste espectro de possibilidades poder-se-ia especular a título de exemplo, a ocorrência de entidades parafísicas com capacidades de manipulação mágica, tais como: demônios associados a maldições cósmicas, obscuros deuses(as) de culturas antigas e seus sacerdotes com expertise em magia negra, necromancia, teurgia, goecia, pactuação demoníaca de nível I, manipulação de planos extrafísicos, etc, etc.

Já foi inclusive provado que através do uso intensivo de hipnose telepática e preces fervorosas, torna-se factível, possível, influenciar às correntes históricas-padrão (Ver PSICO-HISTÓRIA COMO APLICAÇÃO, Jurgens, 2000), se consideradas como vetores Riemannianos em um sistema em retroalimentação.

Tal domínio, evidentemente, pressupõe uma vontade focal, vastos conhecimentos de Teurgia Pura, não se desconsiderando mesmo o uso da Goecia Quimbândica. Todo processo deve ser cuidadosamente velado, de tal forma que os agentes sociais e, principalmente, Deus, não encetem tentativas de frustrar as ações do dominador em potencial.

Entretanto, convém ao dominador do mundo novel ter sempre em mente que os dominadores de mundos geralmente se dão mal no final. Fu Manchu especula que tal tendência de queda abrupta na curva de domínio deva-se a uma lei ainda não adequadamente formulada que preveja o equilíbrio cósmico (Ver “O MAL COMO ECONOMIA: Um estudo de Atuações Maléficas como Vetores de Realidade – Fu Manchu, 1976).

Não, esse negócio de dominar o mundo não é uma boa ideia. Trabalhoso é pouco.

Certo, esqueça, torne-se um consultor ou uma consultora Jequiti e seja feliz de outro jeito.

MANUELZÃO E MIGUILIM: resenha suspeitosa

monge

 

Primeiramente, nos comecins, gostaria, não de acautelar aos incautos, mas de os tranquilizar. Não pretendo posar de erudito e as referências cheias de frescuras só tomam dois ou três parágrafos e se houver alguma coisa em inglês não se impressionem, que o inglês é língua de índio de filmes como bem sarrava Tom Jobim, que privava com os nativos, os anglófonos.

Então, vou no levinho, na maciota, no sapatinho. Prometo.

Bem, começo.

De Guimarães Rosa queria falar, ao sabor da cachaça, a propósito de um deslumbramento meu por conta de uma obra sua.

Manuelzão e Miguilin começa com citação de Plotino, filósofo neoplatônico do século II: “Num círculo, o centro é naturalmente imóvel; mas, se a circunferência também o fosse, não seria ela senão um centro imenso”.

Não há indicação ou referência da citação a Plotino, mas acredito que possa ser localizada no Segundo Tratado, Enéadas, no item primeiro do Circuito dos Céus. Minha referência vem de Great Books of The Western World, Plotinus, em uma edição sebenta, de capa dura, que tento manter longe das traças.

Há também uma citação de Jan van Ruysbroeck, chamado “o Admirável”, um místico belga do século XIII: “Vede, eis a pedra brilhante dada ao contemplativo; ela traz um nome novo, que ninguém conhece, a não ser aquele que a recebe”.

Não localizei a referência.

Todo esse introito aí é só para lembrar que João Guimarães Rosa era um monstro, “caba virado no capeta, transfigurado no setenta e metamorfoseado no Jiraya”. Sabia brincar não, o mineiro. Poliglota às próprias custas, aprendeu suas doze línguas de seu próprio labor, sem nenhum “Yázigi”, “Cambridge”, qualquer escola ou o escambau.

(Obrigado, Plínio Marcos, pelo “escambau”).

Pois bem, esse João Rosa aí era leitor das antiguidades, das gnoses, das filosofias, das místicas e tudo o mais. E como não sabia brincar, deu à luz, pariu a maravilha que é Manuelzão e Miguilim, que sempre releio ante um oratório, vestido de sacos, com cinto de pregos, em piedosa penitência.

São duas novelas, Miguilim primeiro e Manuelzão depois.

Pois, ora, vejam bem. Miguilim é um texto que consuma a ambição maior de todo escritor, que é conseguir dar voz a um outro. Um outro totalmente diferente dele, o que escreve, um outro vivendo em outro universo. No caso, uma criança, o Miguilim.

No texto, o mundo só é mundo através de Miguilim. Miguilim é narrado e narra. Narra aquelas coisas que nós, que já fomos crianças, sabíamos e depois esquecemos. As pequenas coisas, os detalhes, o miudim que falam do cosmos e Deus e da vida e da morte e do mistério.

O conto começa com Miguilim em viagem, com seu tio Terêz, voltando para casa, no Mutum. E no Mutum chovia sobremaneira e a mãe de Miguilim se condoía, sofria com a chuva onipresente.

O texto descrevendo a dor da mãe de Miguilim se torna úmido, escuro e nós conseguimos o milagre de partilhar a dor da existência da mãe de Miguilim.

Mas então Miguilim vem de viagem e traz um presente para a mãe. Um presente que lhe adoça a boca e o faz feliz por antecipação. Ora, e não é que um estranho tinha a dito a Miguilim que o mutum era um lugar bonito?

Então é que Miguilim traz o dito e pretende fazê-lo de presente à mãe. A mãe, quando ouvisse essa certeza, havia de se alegrar, ficava consolada.

Não riam, vocês já trataram com o invisível, com os átomos das coisas quando eram crianças e sabiam de seus altos valores.

As pequenezas, os quase não vistos, são esses os materiais que tecem a trama que cria e sustenta a eternidade e Miguilim é deusinho particular que os reúne.

Já Manuelzão é de outro naipe, o oposto.

Ali é a vida, os acontecimentos são apresentados virados em longas e intermináveis sequências, como uma boiada passando e passando e passando.

Manuelzão é vaqueiro, já idoso, com a vida repleta de lembranças, sejam mágoas, sejam alegrias.

E no inverno de seus dias se estabeleceu, montou o seu sítio em área inculta, trouxe a mãe, velhinha, e o filho que o odeia (e Manuelzão sabe).

E ali Manuelzão erigiu uma capela, a fez consagrar.

O conto é sobre a festa promovida por Manuelzão para a primeira missa na capela, dedicada à Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.

Acorrem todos, moradores da região, os poderosos e os loucos.

O conto, circular, talvez mais pra helicoidal, foca em Manuelzão e daí discorre, se espalha, colhe sensações, desce ao íntimo das pessoas e volta para o exterior e sobrevoa a procissão da santa em andamento.

Trata da intimidade dos bois com o mesmo respeito que a dos loucos ali presentes, dos pobres sem qualquer arrimo, das coisas, volta, rodeia e torna a Manuelzão e assim, em circuitos que se repetem.

A imagem no altar sorria sem tamanho e desajeitada, uma Nossa Senhora feia…Manuelzão, ali perante, vigiava…blocos de cristais de quartzo róseo ou aqualvo…mesmo tinha viajado de vir ali, estúrdio, um homem-bicho, para vislumbrar a festa! O João Urúgem, que nunca ninguém enxergava no normal…passou-se resvés de um curral, donde se escutava o sopro surdo dos zebus, o bater de suas imensas cartilagens.

E a procissão caminhando, ladeira acima, no corpo da noite, a dupla fila de gente, a voz deles, todos adorando o que não viam.

Não atoamente o nosso João Guimarães Rosa nos dá o mote, a pista, ao citar o filósofo e o místico na epígrafe em seu opus, em seu par de romances alquímicos. Rosa nos adejou a mão, moveu o lenço em saudação (e creio que sorriu).

Manuelzão e Miguilim: um dos poucos e vicinais textos metafísicos de nossa novel literatura. A vida, o Ser, o mistério, está tudo lá.

Tremo em deferência, com matizes de biliosa inveja.

 

P.S.: Manuelzão existiu de fato, talvez não tão completo e no exato.