DIRETO COMO UM CONFESSOR, O CORINTIANO VOADOR PREGA SOBRE A VAIDADE. A SUA.

Allegory of Vanity_ Antonioi de Pereda _ Vienna, KH_ca. 1634 (1)

Alegoria da Vaidade – Antonioi de Pereda

 

Dia destes um bom amigo me trouxe o balsâmico conforto de uma alisada na fachada torpe de minha vaidade: “li lá o teu último texto, lá do blogue. Viu, não pense que não leio o você que escreve, não”.

Bom e fiel amigo, (e ao escrever isto sinto uma coceirinha mental, uma vontade de reler o parágrafo sobre o amigo discursando a beira do túmulo de Braz Cubas. Obrigado, Machado de Assis. Não tem nada a ver com você, amigo).

De qualquer maneira, também em outro dia destes (na verdade, foi em outro ano destes, mas não resisto às dualidades fáceis); bem, como dizia eu, em outro e pretérito “outro dia destes” ouvi, desta vez não de um amigo, mas tão somente de um, vamos dizer assim, colega temporário de percurso, outra alisada no meu ego: “rapaz, li lá o teu blogue. Cê escreve umas coisas do caralho! Muito bom! Não entendi a maioria das coisas lá, mas achei, olha, fodaço! ”.

Obrigado, bom e fiel colega de percurso.

Os parágrafos acima vieram a propósito de um tema que me é caro: a vaidade.

Mais especificamente, a minha.

Minha reação aos comentários dos dois, o amigo e o colega, como foi? Uma pergunta candente que ninguém fez, mas o meu ego inflável e profissional providencia.

Então, como foi?

Bem, é com a alma em transe e coração em frangalhos que digo: foi nada. Não senti nada, nem o proverbial efeito balsâmico da alisada no ego (e olha que eu tenho um daqueles egos bem grandes. E tanto que é quase translúcido, uma espécie de superquindão (sabe o quindão, o doce?)).

Ainda não analisei a fundo minhas razões, mas sei que as tenho, as minhas razões. O que me falta é somente a peruca, digo, a análise.

E então aqui estou, o moço que mantém um blogue onde escreve sobre cordelistas e juristas que foram a Marte; sobre traficantes de drogas que se expressam em português arcaico; que faz uso da melhor pedagogia de idiotas para ensinar como transformar a incompetência em arte; que comete uma pequena biografia de Satanás; que faz resenhas de livros obscuros (quanto mais obscuros, melhor) ou de livros inventados; que escreve sobre mordomos que se transformaram em mandatários da nação; que comete poemetos rimados só pelo pueril prazer de introduzir palavrões nos poemetos rimados (defeito meu, adoro contrabandear “cus” para um poemeto parnasiano).

Enfim, eu. O moço que adotou este esquisito nom-de-plume: Corintiano Voador.

(Nom-de-plume. Não esperavam esta, não? Cachorro de homem culto, eu!)

E porque, perguntarão? (Ninguém perguntou, eu sei, mas a porra do meu ego, etc., etc…).

Bem, como já informei a uma simpática blogueira aí, tem nada a ver não. Poderia ser Atleticano das Alturas ou o Flamenguista Alado, mas acontece que sou corintiano. Então é uma questão de coerência.

Bem, na verdade verdadinha informo que o adjetivo Voador vem de minha infância querida que os tempos não trazem mais. Ocorre ou melhor, ocorreu, que em meus anos de meninice eu adorava ler os quadrinhos do Fantasma, lembram, aquele que andava com o cachorro Capeto e era eterno noivo da sempre virgem Diana Palmer?

Pois bem, quando de suas primeiras publicações em jornais aqui no Brasil, por alguma razão que desconheço, os tradutores insistiam em chamar ao herói de, ói só, de Fantasma Voador.

Aquilo ficou na minha cabeça. Como eu soube? Oras, além de fanático quadrinheiro era eu também um obsessivo de escol, modos que fui às fontes.

E assim foi que os anos passaram e quando uns amigos de bar tropeçaram na ideia de criar um blogue para nosso gáudio e divertimento, adotei pela primeira vez o gentil pseudônimo. Se calhar, ainda está por aí, o espectro digital de nosso finado blogue.

Sim, sim, tem ainda a história de minha vaidade.

Ela vai bem, obrigado.

SOBRE MENTORES, MESTRES ESPIRITUAIS E AJUDANTES DE PEDREIRO

PINGA

Começava eu na carreira de homo sapiens e conheci a dois filhos-da-puta: o judeu do mal e o padre russo do mal. Ambos moradores do bairro do Ipiranga, na cidade hoje conspurcada de São Paulo. Onde, aliás, nasci.

Um não sabia do outro, mas eram duas putas véias que pensavam do mesmo jeito. Me disseram.

A mim, a minzinho mesmo. A este vosso criado!

Disseram: seja homem!

E disseram: Eu sei que é difícil, você pode não estar acostumado! Mas tente parecer com um homem!

Em verdade queriam dizer: seja digno! Tenha verve! Mas a época era de machismos diversos.

Modos que. Então. Modos que (entendi somente muitos anos depois: não acredite no sábio e nem em seus escritos e nem nos escritos do pequeno babaca que emula o sábio e nem na revista e nem no jornal e nem no sacerdote e nem no juiz justiceiro e nem em justiceiro algum e nem no jovem lutador pela justiça e nem no blogue e nem na puta que vos pariu).

Disseram-me. Disseram-me… só o básico. Disseram-me, mas não me aconselharam, pois que eram dignos demais para coisa tão primária.

Só me sussurraram: desconfie do sábio, do herói e do douto.

Seja uma puta desconfiada, me disseram!

Inventarei dois nomes para os dois: Ilya e Eliahu.

Obrigado.

Aos dois. Um minúsculo e elétrico. O outro enorme, e calmo como as marés.

A ambos eu agradeço.

E sei que ambos riem de minha tolice.

 

 

 

 

EU ME LEMBRO II

RAPOSA VOADORA

 

 

Nos anos oitenta fui o que depois batizei de “comunistinha legal” ou, se vos agradar, o “comunistinha joinha”. De qualquer modo, um comunistinha. Fui levado, é claro.

Meu cooptador foi o mordomo das esferas, o príncipe, o meu querido EBS. Ainda vivo, embora velhusco. Diabos, eu estou velho! As juntas estalando e eu ainda aqui, cuidando da prole e tentando por comida à mesa.

Mas então, “comunistinha legal”. Eu.

Foi uma época fecunda os oitenta, modos que me incomodo com os tempos atuais por exsudarem, vez por outra, um perfume parecido, mas que é só fedor, que os perfumes envelhecem.

Na época, percebia já que a meus colegas comunistinhas faltava senso de humor. Preferiam o velho Karl Marx, com sua cabeçorra preocupada, se inclinando sobre os manuscritos a Jenny von Westphalen ou Jenny Marx, a esposa, que fora uma mulher muito, mas muito bonita.

Preferiam o bom Engels, o pensador, parceiro de Marx, o velho Nick, e esqueciam de Engels, filho de um burguês rico, administrador das empresas do pai na Inglaterra e amante de sua criada.

Digamos que eles viam os escritos e a história e eu preferia o rés-do-chão, os pequenos defeitos e tudo o mais.

Primeiramente, é com certo pudor que informo que meus colegas comunistinhas não liam as bíblias marxistas, mas comentavam assaz.

Segundamente, eu tinha a impressão de que qualquer pessoinha, qualquer serumaninho, poderia fazer a história, mas precisaria perceber que no meio tempo conviria ficar pelado com outra pessoa também pelada, fazer e ler algum poema, beber uns tantos fermentados e destilados e, na miúda miudinha, fazer também a tal da porra da história.

Revolucionário, né não, John Lennon?

Muito estranhamente não me bandeei para o lado direito das coisas, depois dos anos passados, e continuo, me sinto, ainda meio demoníaco, achando o mundo um lugar interessante, achando as pessoas ainda interessantes, mas sempre sentindo o ruído da máquina cada vez mais alto, quase ocultando a conversa no sarau.

A época, é claro. Queria falar da época. E do mau-gosto e dos tempos e das pessoas e da velocidade.

Do modo cego, automático, com que nós todos corremos para ocupar um círculo qualquer no inferno.

Queria, mas falo não.

Volto aos inícios iniciais começantes: eu fui um comunistinha legal e joinha, enquanto também trabalhava como o proverbial garçom no bar lá, da moda.

E confesso, quando me pediam os bons pensantes vodca Wiborowa ou Absolut, eu colocava mesmo era a Vagabundoyeva ou a Esculachakova, que foi como batizei à podríssima vodca “coquinho”.

Minha vingancinha bobinha de comunistinha: sabia que os bons pensantes, os meus irmãos comunistinhas, iriam um dia crescer em riqueza e glória. Vaticinava mesmo que acabariam como comensais dos pequenos ratos morais, os grandes da pátria.

Então à sorrelfa, lhes servia lixo líquido.

 

E como eles bebiam!

Breves considerações sobre a jucunda arte de poetar, assim, a modo internético e fugaz

Iridescências

Iridescências – by Voador

 

 

Rapáizi!

(assim é que os nordestinos se referem a alguém, quando admirados e eu sempre gostei deste “rapáizi!” lá deles. Muito melhor que um “rapaz”.)

Mas, rapáizi!

A coisa é que eu vejo muito dos poetamentos do povo aí na rede. Uns poetam pra dentro, outros poetam em torno do umbigo, o que acaba dificultando e tornando pesada a coisa. Às vezes.

Uns poetam pra cima e somem num zum e aí eu fico aqui embaixo tentando localizar o bólido.

E tem os que poetam pra baixo.

De qualquer maneira, pra dentro ou pra baixo. Prá riba ou pro umbigo, você percebe quando encontraram seu eixo de poetamento. Não tem muito a ver com o texto, nem com a honestidade (que muitos são honestos), tem a ver com o dom de poetar que é uma coisa que se sente.

Mas, rapáizi!

As vezes não consigo achar um rumo, mas sinto um ritmo. Leio e penso: é, a rede acontece e, interneticamente solenes, encontramos aos novos poetas.

Ah, faço questão de mostrar minha gema, meu capitão. E, desculpe, falei que é minha mas né minha não, garimpei:

A solidão acontece a céu aberto.

Claro está que a roubei (Você releve meus hábitos malsãos, Mariana, a Gouveia).

E eu acho que é tudo o que eu tinha a dizer sobre a nova poesia e a internet.

Abraço, povo meu.

OFERECIMENTO

MUJER COM SOMBRERO

Este velho homem, este corintiano cansado vos recomenda.

Não a vós, homens, ocupados com vossas fantasias e falos (e no entanto, recomendo também a vós, os homens, ocupados em fantasias e falos e em relembrar vossas mulheres, em tê-las com garbo estacionadas em vossas lembranças, em tê-las como amadas…e tendo seus falos como elas têm suas perseguidas: como mimosas dádivas). Mas eu dizia, recomendo a vós, mulheres diversas que povoam estes campos internetais: sim, a vós, as inomináveis…as raquéis e as lias, as de tribos estranhas, vocês. Peco, cito três, talvez duas, quando deveria citar dez mil (serei um dia perdoado?).

Bem , para vós e só para vós entrego a canção, primeiro em letra, de Silvio Rodriguez. E depois o místico link:  goo.gl/lfI46j

OLEO DE MUJER CON SOMBRERO

Silvio Rodriguez

Una mujer se ha perdido

conocer el delirio y el polvo,

se ha perdido esta bella locura,

su breve cintura debajo de mí.

Se ha perdido mi forma de amar,

se ha perdido mi huella en su mar.

Veo una luz que vacila

y promete dejarnos a oscuras.

Veo un perro ladrando a la luna

con otra figura que recuerda a mí.

Veo más: veo que no me halló.

Veo más: veo que se perdió.

La cobardía es asunto

de los hombres, no de los amantes.

Los amores cobardes no llegan a amores,

ni a historias, se quedan allí.

Ni el recuerdo los puede salvar,

ni el mejor orador conjugar.

Una mujer innombrable

huye como una gaviota

y yo rápido seco mis botas,

blasfemo una nota y apago el reloj.

Que me tenga cuidado el amor,

que le puedo cantar su canción.

Una mujer con sombrero,

como un cuadro del viejo Chagall,

corrompiéndose al centro del miedo

y yo, que no soy bueno, me puse a llorar.

Pero entonces lloraba por mí,

y ahora lloro por verla morir.

POBRE PROTAGONISTA É O POBRE

Imagem 

Indiscutivelmente. Procure, puxe por sua memória e veja se encontra pobres como personagens principais na literatura, no cinema e na televisão. Nas histórias em quadrinhos.

Encontrou? Claro, mas como personagens principais? Eles estão lá, claro, mas sempre no núcleo pobre da novela ou como figurantes.

Há exceções, não nego. Temos a Macabéa de A Hora da Estrela, de Clarice Lispector. O camponês miserável de Levantados do Chão, de Saramago. Os sem-teto de As Vinhas da Ira, de John Steinbeck. No cinema, encontraremos uma ou outra garçonete, uma empregada doméstica, mas mesmo nesses casos há como que uma idealização. São mais tipos, que pessoas.

Mesmo o “cowboy”, um operário do pastoreio, foi provido de armas no coldre e um belo cavalo para assim melhor conquistar o Oeste. Ninguém menciona que os vaqueiros americanos originais eram em sua maioria negros, índios ou mexicanos e que seu meio de transporte estava muito mais para um jumento do que para um garboso cavalo.

As personagens dominantes são ricos ou oriundos de extratos médios da sociedade.

No passado, nem isso. A Ilíada, a Odisséia está cheia de “bravos aqueus de longas melenas”, porém todos vindos da aristocracia. Odisseu era rei em Ítaca. O único, por assim dizer, pobre, era o “néscio Tersites”. Além de néscio, era soldado raso. E feio, imensamente feio.

No cinema americano é nas classes média e alta que nascem e vivem os personagens principais, mas mesmo quando o foco é em profissões, digamos, menos nobres, são profissões idealizadas, que remetem à aventura e ao individualismo: o policial, o já citado cowboy, o detetive, o músico, mas quase nunca o operário.

No Brasil, nossos cinema e teatro não são muito diferentes. Certo, existem as obras que procuram mostrar extratos mais baixos da sociedade. Mas ou recorrem ao filtro de uma obra clássica, caso de Orfeu da Conceição de Vinicius de Moraes ou a uma visão sociologizante, como em Cinco Vezes Favela. Ou, descem à marginália e aparece o traficante, o ladrão, a prostituta.

Não, você ainda não viu muitos operadores de máquinas, ajudantes gerais, faxineiros. Não encontramos muitos Jáquersons da Silva ou Keisyannes de Cássia. O pobre incomoda. A primeira providência a ser tomada com o núcleo pobre da novela é fazer as personagens ascenderam socialmente: pelo casamento ou pela sorte ou pela herança que os redime, os torna mais belos e confiantes. Mais palatáveis.

Também sempre é bom ter em mente que mesmo a burguesia média é recente, uns duzentos anos, se tanto (não confundam com a burguesia podre de rica que ascendeu com o mercantilismo. Estamos falando de Policarpos Quaresmas e não de Cosimo de Medici).

E mesmo esta burguesia média, do pequeno funcionário público, do comerciante menor, a avó da classe média, só passou a ser retratada na literatura e no teatro após sua ascensão com a era industrial. Antes, o burguês era sempre o tolo, o fanfarrão, o de falas e atos ridículos e empolados e fizeram a fortuna de dramaturgo de Moliére.

Talvez a questão se prenda às profissões, aos ofícios típicos do pobre: o operário sem qualificação, o camponês sem terras ou com pouca, a prostituta, o marginal. Ao pobre desgostaria uma personagem que retratasse um meio de onde gostaria de emancipar-se? E o burguês?

Sinopse: diariamente Johnny José da Silva toma o seu trem super-lotado para trabalhar na metalúrgica na gratificante posição de ajudante geral. Namora Perolaine Jennyfer dos Santos, mas somente nos fins de semana. Depois, o baile funk? O boteco e o futebol? Quais as profundezas psicológicas, dramáticas, a que o bom Johnny poderia nos levar? Não, muito poucos se interessarão pelo universo de Johnny e Perolaine.

Ou, sinopse: Micaela Semprum Scuteri, loira e leve, é publicitária. Independente, mora sozinha em seu apartamento decorado com muito bom gosto. Um pouco louquinha, tem um relacionamento com Caio, administrador de empresa e músico bissexto, inteligente, “cool”, engraçado e autossuficiente. No mais, bares da moda, jazz, livrarias, rock and roll. Aí sim, diria o futebolista. E com roteiro da Bruna e direção do Ricelli? Massa!

O pobre ainda é o figurante. Décima-terceira cabeça a esquerda, na cena com a multidão, naquele filme que veremos brevemente.

O trabalho dignifica, os humildes herdarão a terra, bem-aventurados os pobres de espírito, etc., etc. Esqueci alguma coisa?

     

 

Né não?

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Running from the storm – by Slichoart-db89xws – DeviantArt

Eu tenho uma conhecida que atende por Maritza e que me enviou a postagem. Nuno, outro conhecido meu, também a recebeu e mandou-me o recado: não se importe. Muito louca a biscate. De pedra.

E disse também Júlia (depois de Maritza) e garatujou em outro e-mêiou:

Não se importe.

E Maritza então mirou-me (eletronicamente) e escolheu ser direta e machucadora, como um médico. E me disse (interneticamente):

“Não sei por que escrever. Se os pequeninos vermes dizem o que deverá ser, e tudo já está programado, então por que devo escrever?

Se os vermes tomaram o poder, escrever por que?

Se os vermes tomam conta do tempo e infectam as cisternas, para que sejam iguais às suas piscinas, escrever por que?

Irmãs e irmãos, não lhe lhes causa vergonha a pena em suas mãos?

Vos convido ao vômito.

De que adianta comentarem sobre o movimento em vossos úteros, sobre as circunvoluções em vossos sacos escrotais, se o mundo está a deriva?”

Ignorei. Afinal, ao fim e ao cabo, esta pessoa era mesmo louca, pois não?

E mentia, não?

Talvez ainda minta.

EU ME LEMBRO

 

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Yma Sumac

 

 

 

Eu me lembro.

Mas eu dizia?

Ah, claro.

Eram os anos oitenta e haviam coisas misteriosas no ar. Não se caminhava sem se ouvir ao MPB-4 e os portos de Lisboa de Kleiton e Kledir ou Rita Lee e suas canções de transe.

Mas eram os oitenta e eu gastei os meus últimos cobres para ver ao primeiro filme de Star Trek no cinema e paguei as duras penas para voltar para casa às altas horas. Gastei meus últimos cobres e a única coisa que me lembro do filme foram as cenas iniciais do quartel-general da Frota Estelar em San Francisco, com suas multidões de pessoas de todas as cores e todas as roupas e todas as feições, em harmonia, e de como me maravilhei com a promessa latente de que um dia, um dia, sabe?, um dia tudo aquilo acontecesse, aquela catarse, aquela plena aceitação do outro e suas diferenças.

Engraçado não me lembrar muito do resto.

E da primeira vez que eu disse a uma mulher bonita que ela era bonita. Assim, com muito, muito receio e medo, mas sem pose, só pelo prazer de ver uma mulher bonita. E só consigo me lembrar do rosto da menina e de seu perfume e de mais nada. Mas, quase certeza, foi no começo dos oitenta.

E também Engraçado como me lembro de Chan Chan, a canção, mas pouco do documentário Buena Vista Social Club.

Engraçado como me lembro também de poucas coisas do filme Bell, Book and Candle (aqui, Sortilégio de Amor), exceto a maravilhosa e curta aparição do cantor francês Philippe Clay cantando em estilo metralhadora à canção L’ Assassin Ennuyé no night club das bruxas e os peitos de Kim Novak insinuados em decorosos decotes.

E de Sean Connery, mas apenas da atuação de Sean Connery em Zardoz, um obscuro filme de 1974.

E de Frankie Avalon e Annete Funicello atuando na série Beach Party, reprisada ad nauseam pela Globo nos setenta e oitenta e que eu me lembro agora que era brega e tosca, mas que eu adorava.

E que também só agora, no presente atual momento momentoso e hojístico, me dou conta de que só consigo reter lembranças da personagem do motoqueiro trapalhão Erich Von Zipper e da sereia interpretada pela atriz Marta Kristen.

A qual, aliás, também atuou na série Lost in Space, Perdidos No Espaço (como se a batizou em nossa terra), produzida por Irwin Allen.

O mesmo Irwin Allen, produtor de séries das quais só aprecio as de pior qualidade. E que, claro, são as melhores.

E de Ima Sumac. Provavelmente a mais completa (e bela) cantora de todos os tempos e da qual eu duvido que uma em cem pessoas conheçam, mas da qual só consigo lembrar de sua atuação em Secret of The Incas, estrelado por Charlton Heston.

Acho que havia uma atriz americana no filme, no papel principal, mas seu nome e feições me fogem, misericordiosamente, à memória.

E de La Vaca Mariposa, do grande cantor venezuelano Simón Diaz, também autor de Tonada de Luna Llena, canção magnífica que só conheci quando Caetano Veloso nos fez a graça de a replicar em seu Fina Estampa.

Memória seletiva, pois não?

Mas eu dizia?

 

 

A SALA DE ESTAR DO CAPITÃO NEMO

Jules Verne visits the Nautilus library – Bruno Aciolly

No dia 05 de novembro de 1866, por volta de onze horas da noite o Abraham Lincoln foi torpedeado por um narval fantástico e três de seus tripulantes foram jogados ao mar: um arpoador canadense, um cientista francês e seu secretário e faz-tudo.

O navio continuou.

O caso se deu talvez a duzentas milhas náuticas do Japão e estava-se no inverno, então acho que fazia um frio do cão.

Todo caso, todo modo, estavam os três náufragos. O professor Aronnax, o sábio francês; seu criado Conseil e Ned Land, o arpoador canadense. Bem, na verdade só o professor e Conseil, Ned Land se juntou depois ao trio.

Estou falando das Vinte mil Léguas Submarinas de Júlio Verne que li aos doze anos, mal. Reli aos vinte, vinte e um e vinte dois e agora na idade provecta em que me encontro. Não encontrei Deus e nem o sentido da vida, mas entreteu. Entrete.

As coisas. A vida. O individual. Júlio, meu chapa.

Mas aí eu li e reli e descobri que minha primeira impressão não mudou. Não, li as vinte mil léguas um porrilhão de vezes só para descobrir que a melhor parte do livro era justamente a descrição de três homens, boiando na escuridão (foram jogados do navio às onze horas da noite) e ficaram lá boiando. E tava um puta frio (devia estar, até quero que estivesse (é importante para mim que os três estejam boiando em água gélida)).

Pouco depois Aronnax e Conseil ouvem uma voz e encontram Ned Land sentado em cima de um…bem, um submarino. É, o Nautilus, o submarino criado e comandado pelo Capitão Nemo, o sujeito ali que faz o papel de principal protagonista, o anti-herói, o cabra que faz a história andar.

Mas o que me tocou foi que as coisas mudam de modo radical. Num momento, os três na escuridão, no frio molhado e logo depois as escotilhas do Nautilus se abrem e os três são acolhidos, recebem roupas secas, refeição quente e algumas horas depois Aronnax é recebido por Nemo em pessoa em seu sancta sanctorum, seu camarote estendido, sua sala-de-estar.

Notem o contraste. Num momento, a solidão abissal e gelada, o medo sólido e logo depois o acolhimento, o útero morno do recebimento no interior do Nautilus, o museu pessoal de Nemo.

Lá, Nemo recebe Aronnax e lhe mostra maravilhas ─ e o Nautilus mergulha e navega na escuridão gelada ─, e conversa Nemo sobre temas que são caros a Aronnax e o deixa maravilhado e o fascina. E é quente e acolhedora a extensão do camarote de Nemo. Um mundo dentro de um mundo.

E lá fora, encerrado num envelope de água gelada, segue o submarino Nautilus, singrando um mar indiferente e impiedoso.

O Nautilus. Um útero.

Certo, Júlio Verne pode ser um grande chato. Na verdade ele é. Ele não tem prosa, tem verborragia. Um parágrafo começa com uma paisagem dos recifes de Cartier e Seingapatam para a seguir nos deleitar com explanação tediosa sobre diversidade das temperaturas nas várias camadas marítimas. Ante uma paisagem de banquisas no ártico contrapõe Verne uma exposição prolixa sobre as diversas teorias a propósito da localização do polo sul.

Entretanto, ora vejam, Homessa!, o nome do sujeito era Verne e o século era o dezenove e não havia ainda muito que se parecesse com a literatura fantástica. Então daremos um desconto.

Sempre dei, seduzido pelo contraste entre as cenas iniciais de um dos primeiros capítulos do livro. Nisso, Verne foi genial, captou todo um recorte do espírito humano: a dicotomia entre o nosso desejo de acolhimento seguro, tépido e tranquilo e a perigosa atração da escuridão.

Três homens perdidos no mar gelado e no breu da noite de cinco a seis de novembro de 1866. E a maravilha aconchegante e heroica do Nautilus, ainda mais benvinda por ser inesperada. Júlio Verne entendia do seu Métier.

Acrescento que outro dos deliciosos momentos que o livro me proporcionou foi outro contraste: Verne era francês, assim como francês foi o século dezenove. E perpassa por todo o livro o orgulho quase infantil do autor pela França, que se cria mestra e guia de povos e pelo francês, idioma que se cria universal.

Mas já ali se sentiam os roncos e cliques da máquina que assomava. Já havia a sombra de outra potência que já se fazia notar, não na figura do império britânico (decadente, grosseiro e incapaz do gesto sutil na opinião geral dos franceses), mas do nascente império americano.

Verne foi sensível a este despontar e recheou suas histórias com personagens secundários vindos dos Estados Unidos. Era a época.

Mas devaneei, eu queria mesmo era falar, escrever e comentar sobre a sala-de-estar do Capitão Nemo, que já me teve e me tem sempre como hóspede (eu divido prazeirosamente o espaço com o bom professor).

“─ Capitão Nemo ─ eu disse ao meu anfitrião, que acabava de se acomodar num divã ─, eis uma biblioteca que honraria mais de um palácio dos continentes. E pensar que ela pode acompanha-lo às mais ermas profundezas…

─ Onde encontraríamos maior solidão, maior silêncio, professor? ─ respondeu o capitão Nemo.”[1]

E é isso, leiam a porra do livro.

[1] A tradução é de André Telles, na edição de 2012, dita definitiva, publicada pela editora Zahar.