A PRISÃO DE WILD MARCIONÍLIA

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COSMIC VOYAGE – By Skmoon-d7anzbl – DeviantArt

 

 

No dia em que Wild Marcionília foi presa, eu chorei.

Vozes sem conta comemoraram sua prisão. Oro Bonfá, dono de cinquenta e três luas de mineração e pelo menos dois planetas terrestroides inteiros abriu seu palácio do prazer com mesa farta, prostitutos e prostitutas à mancheia e de graça e um discurso inflamado que terminou com a morte programada de Maatu, o verde, o putinho mais famoso de todos os tempos e que deve ter ganhado ali os seus milhões e remida aposentadoria, assim que revivido.

E havia o Grande Juiz, autor do mandado de prisão, a quem se prodigalizou grandes comendas, com uma ou duas canonizações em mundos de fronteira.

Wild Marcionília, claro, não foi poupada de nada e por ninguém. Perguntaram às multidões reunidas em torno do Templo em Nárnia: Marcionília ou Barrabás? E as massas urraram.

Entretanto (permitam-me o entretanto), Wild Marcionília, a mais nova presa política do século, não pareceu se dar conta de que tinha um papel a cumprir nos planos do Grande Juiz, nos planos da Grande Babilônia, nos planos da Casta Dourada e não se apresentou na hora e dia previstos.

Conta-se que a guarda pretoriana do Templo veio toda paramentada em glória para sua prisão, com direito a holofotes brilhantes, trovões e raios multicores. Um dos discípulos de Marcionília seccionou com sua adaga à orelha de um dos guardas e Wild Marcionília o deteve só com seu olhar e sorriso, para a seguir recompor a orelha.

“Qual o teu nome?”, perguntou o Grande Pretor.

“Meu nome é legião!”, respondeu altivamente Wild Marcionília, reconhecidamente uma das demônias mais combativas e impiedosas de todo o Xeol.

O qual, aliás, não é nome de planeta mas de um específico inferno.

No dia em que Wild Marcionília foi presa eu também ri. Um riso contido, sereno, como compete a um filho-da-puta de escol que sei que sou.

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Sobre o fascismo que habita debaixo de nosso couro

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Dignidad – Ron Vargas – DeviantArt

 

 

Em data incerta de ano incerto passei uma temporada em Ciudad Del Este, aquele grande monumento ao brega dinâmico, aquele mercado Souk plantado no rabo da América do Sul.

Foi das melhores épocas de minha vida. A começar pelo cheiro, presente em todo e qualquer canto, suponho que uma mistura de especiarias da culinária local com as emanações dos corpos, dos deuses também locais e das almas.

E foi lá que aos poucos, aos poucochinhos, nos devagares, que notei os olhares, o conjunto de esgares, as expressões todas confazentes, as periferias dos olhares dos paraguaios, circunvagando meu rosto, não me dando a cortesia sequer do desprezo. Eles se lembravam de outros tempos, onde nossos avós de mãos dadas com avós argentinos fizeram ali coisas, muitas.

Suspeito, acho, que não me tinham qualquer ojeriza pessoal. Me viam, me inspecionavam no geral, não como pessoa, mas como símbolo. O mesmo comportamento que vez em quando nos acode quando nos vemos ante um gringo qualquer, europeu, americano ou japonês, mas mormente mais quando americano e europeu.

Não desgostamos do moço ou da moça. Só temos é gastura, uma reação estomacal de raiva ancestral.

E assim os paraguaios comigo, conosco. Talvez também os bolivianos, de quem tomamos o Acre. Como os mexicanos tiveram tomado a seu Texas.

Mas então o Paraguai e Ciudad Del Este, antes Puerto Presidente Stroessner, em homenagem ao ditador de plantão da época.

Era e acredito que ainda é lugar quente e alegre e triste, ao seu modo tão peculiar de conciliar tristeza com magia.

Povoada com e por pessoas trilíngues, de pedra. Um lugar com partidas de futebol, circo com calendário e todo o mal que se espere, de todas as safadezas mais que esperadas, com seus ódios e tesão.

O fascinante cu de nuestra américa, a capucheta do cão.

Mas os rostos das pessoas, amigas e amigos, os rostos! Velhos, sorridentes e dotados de uma sabedoria que se pressentia quase como dor, se confazendo em gestos de polidez que escondiam mágoa velha.

A vida se decide é nestes rostos, nos humildementes, nos falares atrás de pilastras, nos cochichos atrás de monumentos de fundadores, foi o que atinei e atino.

Jesus caminhava por Ciudad Del Este, insuspeitado. E disputava o espaço com os espíritos abissais de antigas divindades indígenas destronadas, com quilômetros de extensão.

SOBRE LER, VIVER E O UNIVERSO.

GUERRA

 

 

Sei que entrei para a escola, meu pai me comprou os cadernos e chovia. Minha mãe me acompanhou e me deixou lá, no pátio. E eu tinha muito, muito medo.

Chovia novamente, forçoso é acrescentar, no meu primeiro dia de escola.

Minha primeira professora era severa, grosseira e temperamental. Obrigado, dona Maria de Lourdes (você merece o “dona”, como o sabem todos os que tiveram professoras, mestres ou gurus).

Bem, havia a escola e tive minha primeira prova, onde não percebi que tinha ido tão bem que recebi até elogio. Meus pais eram econômicos nos encômios e nada me disseram.

Naquela época uma vizinha mudou-se e deixou toda uma coleção de livros sob a guarda de minha família, para resgate posterior, mas nunca mais deu as caras. Eu tremia todo dia ante a ameaça, o desidério de que algum dia ela viesse até mim para resgatar aquelas preciosidades, provisoriamente sob minha guarda.

Foram anos mágicos. Houve um mistério no céu (1970?) quando um raio verde e brilhante apareceu, indo de baixo para cima, denso, lento e fatal. Juro que é verdade.

E houve toda uma infância após tudo aquilo, onde eu ouvia um passarinho cantar e me diziam que não era passarinho, que era um anão, fortíssimo, que se descoberto espancaria seu descobridor. Anos depois, Tom, o Jobim, me mostraria que o som que eu ouvia era tão somente o do Matita-Perê.

Ô merda. ‘brigadu, Tom.

Mas tem esse “negoço” aí da leitura.

Sei que eu lia e lia e lia. Primeiro os livros da vizinha, herdados contra a vontade dela. Bem, na verdade vera e verdadinha eu me apaixonei não foi pela leitura, mas pelo fetiche do livro. Me lembro que na casa de meu avô, em épocas pretéritas, me caiu nas mãos um livro encapado em couro castanho-marrom. E eu amava este livro. E havia uma gravura em perfil de um homem barbado na antecapa. Era? Sei não. Era então eu um  analfabeto de cinco anos.

Mas era do meu avô, o paterno, o livro. Aliás, também forçoso dizer, tive dois avós do caralho, assim tipo Filho-da-Puta um e Filho-da-Puta dois. Escrotos, exploradores de pobres, um preto e outro marrano, mas uns caras, assim, como direi…do caralho.

Tá, mas a leitura.

Eu lia, no começo a Bíblia que eu achava que era um livro de aventuras e era. É. Achava um tesão Isaque dando uns amassos em Rebeca, surpreendendo ao rei. Depois, foram os romances de cordel de meu pai, depois Camões, depois os divinais quadrinhos pornográficos de Carlos Zéfiro, e Tolstói e Shakespeare e Ofélia e Narbal Fontes e Machado e o Pasquim e Yukio Mishima e Clarice Lispector Thomas Mann e J. F. de Almeida Prado e Charles Fort e Jacques Bergier e Marguerite Youcernar e a revista Playboy, da qual só lia aos artigos, nunca me preocupando com os seios, as bundas…bem, aquela coisa toda.

E então, eu lia.

E tudo o que eu posso dizer sobre ler, sobre o que eu lia, é muito pouco. Sei que quando lia eu era soberano, senhor absoluto de meu espaço. Egoisticamente, egostisticamente, eu me bastava.

Estávamos lá. Eu e meus livros.

E eles me contavam coisas, me segredavam coisas, me antecipavam coisas.

E, vejam só como são as coisas, nem sabia eu que estava sendo muito, mas muito feliz.

O que pode ser uma coisa muito boa.

Acho.

Acredito.

Sei lá.

Deus é soberano.

Corintiano Voador…pode ir brincar lá fora!

 

Sobre Ezra Pound, um poema de Ezra Pound e uma tentativa de Tradução

Michael Cheval - Division of Prime Cause

Michael Cheval – Division of Prime Cause

 

Ezra Pound publicou seu poema The Alchemist: Chant for the Transmutation of Metals em 1920 (Collected Early Poems of Ezra Pound), com uma nota dando a entender que dele havia uma primeira versão, não publicada, em 1912.  O poema sempre me fascinou pela sua economia, no sentido da justeza como suas partes se fundem em harmonia, como pelo seu tema.

É tanto um canto quanto um mantra, escreveu Timothy Materer em seu ensaio Ezra Pound and the Alchemy of the Word.

Desconheço se há outra tradução em português.

Todo caso, é poema difícil pela matéria que traz, a alquimia. Pound tinha cultura enciclopédica e assim o poema oferece diversas dificuldades, como por exemplo o verso “Under night, The peacock-throated”. O pavão, em termos alquímicos, representa tanto a retorta onde o alquimista calcina e revolve, cauda pavonis, como também a sua cauda é uma metáfora para a aurora. Assim garganta-do-pavão é uma metáfora para a noite.

Do mesmo modo, “larches of Paradise”, literalmente seria os “lariços do paraiso”. Um opção pomposa (lariços, um tipo de pinheiro, só faz sentido a leitores de climas temperados) que preferi omitir, optando pelo genérico “pinheiro”; quando não pela possibilidades aliterativas de PI-nheiROS e PA-RAI-sos.

E ainda, as citações-invocações de damas com nomes de sabores provençais tirados da literatura cortesã medieval, Saîl of Claustra, Aelis, Azalais, Raimona, Tibors, Berangèrë, figuram como se o poeta as estivesse conclamando às invocações para as operações alquímicas. São também um símbolo para a figura onipresente da donzela, tão cara ao cancioneiro da época (Midonz, evocação presente no poema: contração do provençal para “minha donzela”).

Tentei, no melhor dos possíveis, manter os jogos fônicos originais, no que fui, admito, pouco feliz. Então, vejam que há soluções que não se traduzem na fidelidade fiel e canina, pois que ao contrário a mim parecem que seriam traições à intenção original e talvez grandes traições. Modos que prefiro as traições menores. Assim, transcriei com a safadeza que se me acudiu para preservar a harmoniosa escansão do original. Sempre lembrando que as línguas têm ritmos próprios, diferentes, e nós (de quando em quando e com sorte) podemos até conseguir reproduzi-los, em outro eco.

Se chegarmos a tanto, se conseguirmos, é toda transparência que nos cabe, é toda ambição que nos é possível.

Dito isto, sem modéstia mas com cagaço, segue minha tentativa de transcriação do poema.

Vale!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

THE ALCHEMIST

“Chant for the Transmutation of Metals”

Ezra Pound

 

 

Saîl of Claustra, Aelis, Azalais,

As you move among the bright trees;

As your voices, under the larches of Paradise

Make a clear sound,

Saîl of Claustra, Aelis, Azalais,

Raimona, Tibors, Berangèrë,

‘Neath the dark gleam of the sky;

Under night, The peacock-throated,

Bring The saffron-coloured shell,

Bring the red gold of the maple,

Bring the light of the birch tree in autumn

Mirals, Cembelins, Audiarda,

Remember this fire.

 

Elain, Tireis, Alcmena

‘Mid the silver rustling of wheat,

Agradiva, Anhes, Ardenca,

From the plum-coloured lake, in stillness,

From the molten dyes of the water

Bring the burnished nature of fire;

Briseis, Lianor, Loica,

From the wide earth and the olive,

From the poplars Weeping their amber,

By the bright flame of the fishing torch

Remember this fire.

 

Midonz, with the gold of the sun, the leaf of the poplar,

by the light of the amber,

Midonz, daughter of the sun, shaft of the tree, silver of the leaf, light of the yellow of the amber,

Midonz, gift of the Gold, gift of the light, gift of the amber of the sun,

Give light to the metal.

Anhes of Rocacoart, Ardenca, Aemelis,

From the power of grass,

From the white, alive in the seed,

From the heat of the bud,

From the copper of the leaf in autumn,

From the bronze of the maple, from the sap in the bough;

Lianor, Ioanna, Loica,

By the stir of the fin,

By the trout asleep in the gray-green of water;

Vanna, Mandetta, Viera, Alodetta, Picarda, Manuela

From the red gleam of copper,

Ysaut, Ydone, slight rustling of leaves,

Vierna, Jocelynn, daring of spirits,

By the mirror of burnished copper,

O Queen of  Cypress,

Out of Erebus, the flat-lying breadth,

Breath that is stretched out beneath the world:

Out of Erebus, out of the flat waste of air, lying beneath the world;

Out of the brown leaf-brown colourless

Bring the imperceptible cool.

Elain, Tireis, Alcmena,

Quiet this metal!

Let the manes put off their terror, let them put off their aqueous bodies with fire.

Let them assume the milk-white bodies of agate.

Let them draw together the bones of the metal.

 

Selvaggia, Guiscarda, Mandetta,

Rain flakes of gold on the water

Azure and flaking silver of water,

Alcyon, Phaetona, Alcmena,

Pallor of silver, pale lustre of Latona,

By these, from the malevolence of the dew

By these, from the malevolence of the dew

Guard this alembic.

Elain, Tireis, Allodetta

Quiet this metal.

 

 

 

(The New Pocket Anthology of American Verse. Washington Square Press : New York)

 

 

 

 

O ALQUIMISTA

“Canto para a transmutação dos metais”

Ezra Pound

Sail de Claustra, Aelis, Azalais

Como vos moveis por entre árvores de luz

Como vossas vozes, sob pinheiros do paraíso

Fazem soar som cristalino

Sail de Claustra, Aelis, Azalais, Raimona, Tibors, Berangèrë,

Abaixo do escuro fulgor do céu;

sob a noite, a garganta do pavão:

Tragam a cobertura de açafrão,

Tragam o ouro vermelho do bordo,

Tragam a luz da bétula no outono,

Mirals, Cembelins, Audiarda,

Façam recordar este fogo.

 

Elian, Tireis, Alcmena,

Em meio ao sussurro de prata no trigo,

Agradiva, Anhes, Ardenca,

Do lago em cores de ameixa, em quietude

Do Matiz derretido da água

Tragam o calcinado gênio do fogo,

 

Briseis, Lianor, Loica

Da Terra em amplidão e da oliva

Dos choupos chorando seus âmbares,

Pela brilhante flama de lanternas de pesca,

façam recordar este fogo.

 

Midonz, com o ouro do sol, a folha do choupo, pela luz do âmbar,

Midonz, filha do sol, seta da árvore, prata da folha,

Luz do amarelo do âmbar,

Midonz, dádiva do deus, dádiva da luz, dádiva do âmbar, do sol,

concede luz ao metal.

 

Anhes de Rocacoart, Ardenca, Aemelis,

Do poder da relva,

Do branco, vivo na semente,

Do calor do broto em florescência,

Do cobre da folha no outono,

Do bronze da bétula, da seiva no galho,

Lianor, Ioanna, Loica,

Pelo mover da barbatana,

Pela truta adormecida no verde-cinza da água,

Vana, Mandetta, Viera, Alodetta, Picarda, Manuela

Do fulgor rubro do cobre,

Ysaut, Ydone, leve sussurrar de folhas,

Vierna, Jocelynn, ousadia de éteres,

Pelo espelho de cobre calcinado,

Ó, rainha do cipreste

Ao largo do érebo, a plana largura,

Cujo hálito dilata-se abaixo do mundo:

Ao largo do érebo, ao largo da planura deserta de ar,

deitada abaixo do mundo;

Ao largo de folhas incolores castanho-pardas,

Tragam o imperceptível frio

Elain, Tires, Alcmena

Apazigüem este metal!

Extraiam os manes de seu terror, extraiam-nos

Seus aquosos corpos com fogo.

Façam-nos assumir os branco-leitosos corpos de ágata.

Façam-nos extrair os ossos do metal.

 

Selvaggia, Guiscarda, Mandetta,

Chuva de flocos áureos sobre a água

Cerúlea e floculada prata da água,

Alcyon, Phaeton, Alcmena,

Palor de prata, pálido lustro de Latona,

Por isso, da malignidade do orvalho,

Resguarda este alambique.

Elain, Tireis, Allodetta,

Serenem este metal.

 

A proverbial postagem de fim de ano

frios

Autoretrato de Marcelo, o Moreira – by Marcelo Moreira (com permissão do autor)

 

E então temos aí 2018, na curva, dá pra ver?

Tá logo ali, chegandinho.

Tá, 2017 não foi o melhor dos anos, mas imagino que 1929, 1964 devem ter sido anos do mesmo naipe.

Basicamente, um ano medíocre no qual os medíocres prosperaram. Um ano de ódios, propício ao atropelamento de mendigos e ódios diversos, às mulheres, aos não-héteros. Um ano inesquecível para juízes lindos, promotores lindos, policiais lindos. Nos quais, aliás, não votei, embora eles insistam em, em…bem, eles insistem.

Ano em que escrevi minhas babaquices habituais, recheadas de alusões, com muito conteúdo místico, com patrulheiros do tempo que ressuscitei e com menção quase sempre contínua do tempo, que me fascina, e dos tempos, que me aporrinham.

Eu, o escrevinhador.

Um ano em que reli a bíblia somente para renovar minha descrença.

Um ano em que li poemas diversos, com muita coisa bonita saindo deles. Um ano em que descurei das boas maneiras, muitas vezes. Um ano em que não segurei o azedume.

Mas também um ano de bons vinhos. E com amigos que compartilharam comigo os bons vinhos, a cerveja e o pão.

Um ano em que salvei o Brasil e o mundo na mesa de um boteco, como sói compete a um filho-da-puta sério e compungido que sei que sou.

E este não é um país sério. E este não é um país santo. Mas entrete.

“E eis-me aqui, Corintiano e Voador, e eis-me aqui, filho-da-puta ufano”.

E agora, como me prometi, cometo o discurso inspirado:

Mãe, obrigado pelo natal.

Irmãos, irmãs, cunhado, cunhadas, sobrinhos.

Esposa, obrigado por estar lá e por gestar nosso filho que também estava lá.

Amigos, continuem assim, não se mexam e não mudem nada.

Avós e avôs fantasmas, o negócio é ter fé. Tenham!

2018, tome tento!

— Corintiano Voador?

— Sinhô…?

— Pode ir brincar lá fora!

UM MAPA DOS SONHOS, COM MUITA DOUTRINA E MORAL E UMA VISÃO DO MUNDO SUBTERRÂNEO

IGNOTO SCIFI COVER

 

 

 

Ano de 2006

Neste ano fatídico fui amarrado aos trilhos do trem pelo perverso vilão de fraque e cartola, Tião Gavião, enquanto minha então doce noiva Desilú era seviciada pelos Irmãos Bacalhau. Foi enquanto chorava uma raiva pura e vingadora, dada a inversão da ordem natural, que ambos fomos salvos pelo agente da patrulha do tempo.

 

 

Ano de 2030

Já com emprego garantido na Patrulha do Tempo me desloquei para o ano de 1870, onde entretive breve conversa com o Padre Cícero defronte ao Colégio Ibiapina em Crato, Ceará. Espantei-me com sua revelação dos sonhos proféticos que lhe aterrorizavam as noites, bem como das importunas visitas que lhe fazia Lúcifer. Não era ao demônio, em si, que Cícero temia, mas a sua eloquência que sentia que o minava por dentro.

 

 

Ano de 12138

Em visita ao ano 12138 (2227 da era civil iniciada pela corte de Fredrico Silvassen em Alfa do Centauro) foi-se-me apresentado pela Padra Pomona, pároca de Argalau, ao próprio Lúcifer, então administrador de Marte. De prosa amena e afável, permitiu-se breves digressões sobre suas aventuras de mocidade.

“Um homem que poderia ser melhor se não o deformasse o péssimo gosto na escolha de suas batinas”, respondeu-me quando lhe perguntei sobre Cícero, obscuro religioso de nosso conhecimento.

 

 

Anos de 22217

Em MichelTemer III, planeta orbitante da estrela primária de Delta Pavonis, obtive relativo sucesso em espinhosa missão de evitar a um atentado terrorista em BeataMocinha, a capital. Subsidiou-me com auxílios de grande bravura o Padre Cícero que, ó surpresa, descobri ser também agente da Patrulha do tempo.

 

 

Ano de 1970

Em missão no Rio de Janeiro conheci a Vicente Sesso, ocasião em que sugeri a ele, em amistosa tarde no Boteco de Adalberto em Jacarepaguá, o título Pigmalião 70 para a novela cuja sinopse me apresentara, encomendada a ele pela Rede Globo.

 

 

Ano de 1969

Visitei-me no passado, incógnito. E assisti a mim mesmo, com os meus doces sete anos a olhar para o céu, vendo a faixa verde iridescente, como um meteoroide escroto em rumo contrário, subindo para o céu. Meu pai nos disse então que era apenas e tão somente uma coisa de Deus, ao qual um nosso vizinho objetou que eram os astronautas indo pra Lua. (meu pai, respeitosamente, aceitou a hipótese tosca, pois que era de bons bofes, apesar de católico medroso).

 

 

Ano de 1973

Vi os assombrosos seios de Dona Rosa, minha professora, sobressaindo em seu indecoroso decote. Fingi que não eram meus os seus perfumes, mas mentia.

 

 

Ano de 1971

Ouvi pela primeira vez a Borsalino Blues, de Claude Bolling, no comercial televisivo das camisetas Hering.

 

 

Ano de 1984

Meu primeiro artigo como crítico de cinema. O filme era Zelig, de Woody Allen e a revista foi a efêmera Cinemin. No mesmo ano fui apresentado a Yukio Mishima por meu amigo A. S. O.

 

 

Ano de 7818

Lisboa, no que restou do cais da Almada. Recuperei a mensagem do extraterrestre envolta em resina antiga, dentro da noz fóssil que a continha em seu emaranhado proteico de bilhões de enzimáticos caminhos.

Entregue por um condenado à inquisição a seu carcereiro. Dizia em sua introdução: “nós, os que compartilhamos a morte e uma missão de morte, informamos a nossos Primeiros…”

 

 

Ano de 28

Após a prisão de Yeshua ben Youssef, o Jesus, dito o Cristo, dirigi-me ao pátio do palácio do sumo-sacerdote onde fui confrontado por uma criada que me reconheceu o sotaque galileu.

 

 

Ano de 1543

Neste ano, em missão na Espanha, desposei Doña Leonor de Cortinas, que fiz infeliz e senhora de grandes preocupações. Nosso filho Miguel me disse aos quinze anos que “Deus iluminava tudo o que encontrava no seu caminho com alegre indiferença”.  Tornou-se soldado da aventura após desilusão amorosa com certa camponesa de El Toboso e escreveu-lhe um poema hoje perdido: no dejes de mirarme.

 

 

Ano de 3761 AC

Breve interlúdio, onde trabalhei como copista do Arcanjo Gabriel, transpondo sua narrativa do início dos tempos: Bereshit ou o Gênesis. Um crítico salientou a liberdade de ação das personagens, duvidando e hesitando diante de decisões. Entretanto, acrescento que se tratou apenas de quebra estilística das falas em detrimento do ritmo, do enredo. Na mesma época aconselhei Eva a abandonar a discussão teórica e colocar Adão diante de um fato consumado: então, o Fruto Proibido.

 

 

Ano de 1203 AC

Náufrago em uma ilha do mar Jônico, em missão de resgate da agente Calypso, vi em um crepúsculo inesquecível, ao longe, a passagem da nau esfrangalhada de Odisseu.

 

 

 

DE INCOMPETENTE A GÊNIO: MANUAL DE INSTRUÇÃO

Muse - Michael Cheval

Muse – Michel Cheval

 

Se você é um incompetente, mas muito incompetente mesmo, não se desespere, você apenas não encontrou sua verdadeira vocação.

Que, é claro, é ensinar moderníssimas técnicas de administração de empresa numa prestigiada escola de administração de empresa, entre outras muitas oportunidades. Várias, diversas.

E mais, se escrever um livro, tipo “O monge e o executivo”, então nem se fala.

A coisa, o busílis, não é o que é, mas o que parecer. Conteúdo? Não, forma. Escrever? Não, citar.

Mas o melhor de tudo, o saboroso mesmo, é que você pode escrever sobre qualquer coisa e ser reputado como o antenado do momento, o comentador de uma época, desde que utilizadas certas técnicas infalíveis, a saber: esqueça o sentido, o importante é o ritmo.

Ao citar, seja vago e crie uma cumplicidade viciosa com o leitor. Tipo, “você sabe de quem estou falando, não sabe?”, “aquele”, “naquela sua obra, lembra?”.

Exempli gratia:  pegue um trecho de um texto qualquer, tipo uma crônica de Machado de Assis, feito esta, Cherchez la femme, publicada originalmente em 1881:

Antes da sociedade, antes da família, antes das artes e do conforto, antes das belas rendas e sedas que constituem o sonho da leitora assídua deste jornal, antes das valsas de Strauss, dos Huguenotes, de Petrópolis, dos landaus e das luvas de pelica; antes, muito antes do primeiro esboço da civilização, toda a civilização estava em gérmen na mulher.

Feito isto, substitua palavras, atualize os termos, as situações (não seja tímido) e você terá algo como isso:

Antes da sociedade, antes da família, antes das artes e do computador, antes das maravilhosas calças jeans e rendas e sedas que constituem o sonho da periferia assídua do Facebook, antes dos Rolling Stones, dos Beatles, de Liverpool, dos automóveis comprados a perder de vista e dos celulares oniscientes; antes, muito antes do primeiro esboço da civilização, toda a civilização estava, ainda um ovo, representada no desejo.

Viu? Sem esforço e de modo lúdico aí está você contribuindo para as letras pátrias. Machado? Esqueça, ninguém lê Machado. Na verdade, ninguém lê. E se lido, se apontado o seu, digamos, plágio, contemporize, explicando tratar-se de uma (anote a palavra, é supimpa!)…de uma paracitação.

E paracitando sempre, perseverando, você já pode dividir sua verve, a originalidade de sua visão de mundo em qualquer publicação que abrigue iluminados assim feito você. Feito eu. Incompetentes, mas elegantes. Incompetentes, mas limpinhos.

Agora, se além de tudo você ainda for americano, o sucesso lhe acena com mãos ávidas.

Nada como ser incompetente e americano: a merda com sotaque inglês é muito saborosa…

BREVES CONSIDERAÇÕES, CAUSOS, BURLAS E OUTRAS MERDAS

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Writer – by Mathiole – DeviantArt

 

O passado que Já foi. Jamais me esquecerei: de “Bonga, a mulher-gorila”; da “mulher-aranha”; da “mulher-cobra” que virou mulher-cobra por ter batido nos pais; do leão que já matara oitenta homens (…meu irmão perdeu a mão nas garras deste leão…). E, finalmente a recordação mais pungente: “rapaz de branco junto à barraca de tiro ao alvo oferece esta canção para moça de vestido azul na fila da roda-gigante como prova de amizade e consideração”. E o “dangle”? Quem não verterá uma lágrima ao lembrar-se?

 

Quatro (4) robustos (fortes prá dedéu) anjos (pessoas com asas) foram vistos sobrevoando a cidade de São Paulo. E armados! Medo.

 

Daí que a polícia militar do templo de Jerusalém prendeu Jesus por formação de quadrilha. Infelizmente os outros doze caras se evadiram e a PM só apresentou Jesus ao Dr. Pôncio Pilatos, delegado de polícia titular do 1. DP de Jerusalém. Evidentemente que foi “caguetagem”, eles tinham um X-9 infiltrado, um tal de Judas. O tratamento não foi dos mais elegantes: “Fala meliante, confessa…”, “pô, eu sou filho de Deus, deixa eu dar um telefonema”…essas coisas que sempre acontecem nas delegacias.

 

Ali estava eu, nesta fotografia de 1941, o viajante do tempo. Reparem em minhas roupas, nos óculos. E há quem não acredite…

 

Daí que eu conheci um cara, mais exatamente um advogado, que nunca dizia “bom dia”, mas sempre “um ótimo dia”. Eu detestava o sujeito…

 

O que, traduzindo, significa que o todo é uma porcentagem da eternidade, uma fração do infinito, o saldo que restou da vida eterna quando Adão olhou prá Eva com maldade no coração e Eva olhou prá Adão com mais maldade ainda no coração ou, mais exatamente, maldade nas virilhas, o que não significa que o tempo é simples, simples é o templo, de Salomão ou não, o importante é contribuir para a construção, vendendo os filhos e alugando a patroa, a qual, aliás, tem menos do que pensa, e acha que precisa de matemática, que é prima-irmã do tempo, que é simples. E não pensa. Elementar, meu caro Vátson!

 

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAIIIIIIIIIIIIIIIIIIOOOOOOOOOOOOOOO, Silver!, disse Joaquim, o cavaleiro solitário. Ou era Batman? Homessa, confundo-me com as identidades secretas.

 

Nós, os que pecamos… Nós, os tartamudos. Nós, os “planos”. Rápido, todos para o cinematographo…!

 

O mundo é um moinho e vai triturar meus sonhos tão mesquinhos, vai reduzir minhas ilusões a pó. Sofro, então queixo-me às rosas, mas que bobagem!, as rosas não falam. Sofro, sinto abalada minha calma, embriagada minh´alma. Mas recupero-me, levanto, sacudo a poeira e dou a volta por cima. Procuro me alegrar. Boemia, aqui me tens de regresso e suplicante te peço a minha nova inscrição. Procurarei por você, meu amor. Sabe o cara que sempre te espera sorrindo, que abre a porta do carro quando você vem vindo, te beija na boca, te abraça feliz, apaixonado te olha e te diz que sentiu sua falta e reclama? Esse cara sou eu.

 

Mas eu falava do amor e sei que incautos e apressadinhos pensarão em “peitos e bundas”. Ledo engano, só o amor é soberano…

 

Pretendo conquistar o mundo. Simples assim. Germinou a ideia em 31 de dezembro de 2012. E a ideia malsã não me abandonou: dominar..o mundo. Tive grandes exemplos, soberbos mestres. Fu Manchu (ninguém conhece), o Doutor Zero. Zeeeeroooo. O Doutor Zero. Esse me conquistou, me deu a pegada, o insight. O mundo. Meu. Chegarei lá.

 

Pronto prá ficar puto qui nem homi macho masculino. Não tecerei loas a Themis e nem ao Parquet e nem aos Togados e nem aos capitães-do-mato, mas já posso mandar à merda com verve. Meu mote: me respeita, mundo!

 

A lua cheia gerou jiboias paranoicas que infestaram os planetas circundantes. As jiboias geraram triângulos, sendo que cada um deles era uma catástrofe inteiramente evitável. Os triângulos geraram ametistas falsificadas para os brincos das embaixatrizes e das cafetinas.

 

Dúvida feicebuquiana: qual mais importante: meu rabo (e minhas “angústrias” postadas minuto a minuto) ou o rabo da pátria?

 

Vou m´mbora prá Passárgada, lá não sou amigo do rei que esse negócio de ser amigo do rei é coisa de safado. Enfim, serei Feliciano, digo, feliz. P.S.: felicidade também é coisa de safado.

 

Quando eu tinha vinte e poucos anos e era (ou pensava que era) crítico de cinema, pensava de vez em quando que algumas das melhores críticas de filmes que eu já tinha lido eram as sátiras da revista Mad…

 

Quem sou? Oras, sou um homem que respondeu, ao ser perguntado por que veio ao mundo: Ah, vim pelo clima…e pelas mulheres.

 

Quando dizemos: Que antipático é fulano, devíamos dizer: A abstinência torna-se estéril quando ditada pela fraqueza do corpo ou pelo vício da avareza ou então O absurdo é a razão lúcida que constata os seus limites ou O prazer do amor é amar e sentirmo-nos mais felizes pela paixão que sentimos do que pela que inspiramos ou Não há papéis pequenos, só atores pequenos ou quem sabe Tudo tem alguma beleza, mas nem todos são capazes de ver. Ou seja, não entendi nada mas que ficou bonito ficou.

 

A mó de parecer fino. A mó de parecer antenado. A mó de ser pernóstico (que é o sujeito que comercia com pernas).

 

E vendo as multidões, meus olhos passeando por meu povo sofrido e carente de perfume que irá votar no vindouro ano, só me resta, vendo, repito, as multidões, repetir a pergunta trágica de Lope de Vega: ¿DÓNDE ESTÁ WALLY?

 

Deve-se postar bêbedo ou sob o efeito de substâncias exóticas? Tenho prá mim que sim: talvez fique ininteligível, mas sempre se terá a desculpa de que se está sendo verdadeiro.

 

A pedidos: a amizade feminina. E eu sei? Sei não, de nada não. Agora, vou dizer a única coisa que eu sei, que é o seguinte: já sei da conspiração planetária de vocês! Vocês nunca me enganaram! Nunca me enganei quando dizem que vão até o toillete; conversa, vão é conspirar. Vejo vocês trocando as mensagens cifradas: “a gente se fala depois tá?”, “mas você está linda!”, por exemplo. O que será que quer dizer? Preocupo-me. E preocupo-me principalmente porque eu durmo com uma conspiradora. O que reserva ela para mim quando tomarem o poder? Irá me por uma coleira e exibir pras amigas? Besteira, isso ela já faz. A amizade feminina. A masculina é fácil de entender: uma coisa tribal, um ajuntamento de moleques discutindo o cosmos e o futebol, o que é quase um pleonasmo. A amizade feminina, este mistério a perturbar e a pesar sobre minha idosa cabeça Voadora. Voltarei ao assunto.

 

Hoje estou me sentido especialmente bem, alegre e confiante na vida. Prometo que até o fim do dia vou tomar vergonha na cara e voltar a minha pestilencial e taciturna natureza habitual.

 

Bom dia, Alfa do Centauro.

Um conto de Exu

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Man in White Suit – by Fabian Perez

 

“Você primeiro morde o limão, depois chupa o sal e aí dá uma beiçada”

Exu deu o exemplo e riu para o jovem pastor.

O banheiro do boteco tinha uma placa escrita à mão informando que a descarga não funcionava e no momento estava cheio de pessoas que, vez ou outra, entravam no banheiro que supostamente não funcionava. Havia um grande balcão retangular no meio do bar e o lugar tinha duas portas, cada uma dando para uma rua da esquina onde ficava o bar.

“Então, bebe só cerveja. É melhor”. Exu deu de ombros.

“Eu não bebo”.

“E também não frequenta botecos e nunca usou drogas e nunca roubou ou furtou ou condescendeu com a concupiscência…”

O jovem pastor olhou em confusão para o copo de cerveja preta em sua mão, sem saber como ele chegara lá. Havia um homem de pele escuríssima, magro e de meia-idade bem a sua frente, usando um terno antigo, um jaquetão cinza-pérola e gravata preta e vermelha.

Bonito e com belos dentes e cheirando a um perfume estranho que parecia variar com o tempo. Ora, um incenso lembrando sândalo, ora o cheiro de um suor agridoce, mas levíssimo e não ofensivo às narinas. Principalmente, cheirava a limpeza, a erva recém-cortada.

Uma mulher de cabelos pintados se aproximou e beijou a boca de Exu e, hesitando um pouco, a do jovem pastor.

Um grupo juntou duas mesas e começou uma roda de samba.

“Quase não se acha mais…”. Exu pediu uma cerveja.

“…Se acha o que?”. Sem saber o que fazer o jovem pastor bebeu a cerveja e pousou a mão, sem querer, na bunda da acompanhante do gordo que tocava cavaquinho e ganhou um riso intrigado e malicioso em troca.

“Roda de samba. Cada vez mais difícil. Não faz muita diferença pra mim, mas de vez em quando bate saudade, sabe?”.

Há muito tempo eu escuto esse papo furado, dizendo que o samba acabou. Só se foi quando o dia clareou…

O samba de Paulinho da Viola veio à cabeça do jovem pastor e não saiu mais.

“Pois é.”. Exu encheu seu copo e o cumprimentou com uma mesura.

Eu canto samba

Por que só assim eu me sinto contente…

E a coisa continuou, independente da vontade do jovem pastor.

Eu vou ao samba

Porque longe dele eu não posso viver

Com ele eu tenho de fato uma velha intimidade

“E não é mesmo?”. O gordo do cavaquinho entregou seu instrumento a Exu que continuou a música, de tal modo sincronizado que não pareceria a qualquer ouvido que tivesse ocorrido uma troca.

Se fico sozinho ele vem me socorrer

Há muito tempo eu escuto esse papo furado

Dizendo que o samba acabou

Só se foi quando o dia clareou

 

O samba é alegria

Falando coisas da gente

Se você anda tristonho

No samba fica contente

 

Um violão foi entregue ao jovem pastor por uma mulher com um perfume cítrico, com grandes seios em um grande decote.

 

Segure o choro criança

Vou te fazer um carinho

Levando um samba de leve

Nas cordas do meu cavaquinho

 

E sem perceber como o jovem pastor se viu acompanhando ao cavaquinho de Exu até o fim da canção.

E então, sem mais nem menos, tomou a iniciativa e enveredou por Pátio Custódio, que ouvira seguidas vezes na casa e na cama de Marisol. Incrivelmente, Exu o acompanhou, dedilhando o cavaquinho de forma estranha, na vertical e batendo aos pés e cantando…

Tanto como me quería

tanto como me adoraba

tanto como yo valía

y ahora ya no valgo nada.

(óle)

Una fiesta se hace con tres personas

uno canta otro baila

y el otro toca…

Se me olvidaba…

de los que dicen óle

y tocan las palmas.

 

Ainda mais estranhamente, o grupo de samba os acompanhou, nota por nota.

Exu, extático, parecia mudar de forma e de repente ali havia um outro dele, um homem jovem com um bigode quase invisível e de terno branco e gravata vermelha. Depois, jaquetão de novo, emendou com Agora é Cinza e Se Acaso você chegasse e Acertei no Milhar sem que o jovem pastor entendesse como era possível que ele acompanhasse cada mudança sem nem mesmo pensar em um violão que ele nunca aprendera a tocar.

Acordou no banco de cimento.

 

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Exu sentava-se sempre no último banco da igreja.

O hino Fé mais Fé havia terminado e foi emendado com Qual o inimigo que pode me vencer?, todos acompanhados entusiasticamente até a conclusão com o Revela, Senhor, embora não se tenha notado quando Exu acrescentou ao desfecho as três palmas rituais de agradecimento que foram incorporadas por todos os fiéis.

Não se notou também que Exu incorporara suas próprias canções, que iam se mesclando com os hinos. Algumas antigas, de cem mil anos, como a Toada do elefante e outras mais modernas como O astronauta e Não vou ficar de Roberto Carlos ou o Coco de Lia de Itamaracá ou uma versão de sua especial preferência de Calypso, com Roger Whittaker.

Não o fazia com má vontade ou com zombaria (ainda que fosse da mais escrota estirpe de zombadores). Não o fazia. E é tudo.

A cada mês ele visitava sete igrejas em sete noites seguidas, ao mesmo tempo que era convocado para festas diversas em Cuba ou na Nigéria e em muitos outros lugares. Uma agenda apertada.

Exu também vivia no mundo exercendo os mais diversos afazeres: pedreiro, padre, menino de recados e ativista político. E músico, principalmente e sempre.

E era velho. Mais velho que a maioria dos outros deuses e espíritos. Velho ao ponto de testemunhar a humanidade quase morrer na África e depois se espalhar pelo mundo. Velho para testemunhar a primeira morte que foi mesmo morte de verdade e não apenas morte morrida. Velho e muito velho para ser o primeiro pai de todos os trapaceiros, de todos os pilantras que já viveram e agem à sombra do mundo.

Exu era o mais velho, e muito mais velho que seu próprio nome.

Considerem Loki, Puck, Till Eulenspiegel, Malasartes. Vejam quaisquer de seus retratos e verão a face de Exu ao fundo, rindo. Pois ele foi o primeiro, muito antes do primeiro homem. Bem antes, na primeira manhã do mundo ele já estava lá, mesmo quando não tinha ainda forma e nem mesmo uma mente que tivesse consciência de que era uma mente, Exu já aporrinhava aos australopitecos e depois passou a aporrinhar aos neandertals.

Mas seu grande momento só chegou quando apareceu o homo sapiens, quando então ganhou peso e substância e sua história começou de verdade.

E Exu assistiu ao culto até o final e depois cumprimentou o pastor que o oficiava e bolinou às moças e depois foi ao bar e no mesmo bar bebeu e farreou.

E foi onde o jovem segundo pastor o encontrou. Bem, não assim encontrar de encontrar, mas encontrar. Uma coisa um pouco forçada, engendrada. Exu e manipulação nada mais são que um perfeito pleonasmo.

O jovem pastor, por sua vez, era protegido do pastor mais velho, ele mesmo de uma longa linhagem de homens de deus.

Mas não igual a do jovem pastor que era filho da dona de casa Marineide e neto de Dona Antônia que era chamada assim, Dona e Antônia, e não Tonha Tripa como a chamava sempre sua mãe de criação que era sua tia e gostava dela, mas muito mais de uma boa piada.

A tia chamava-se Terência e tinha uma descendência das mais variadas, como aquele Diogo de Sande, sapateiro de Ourém e aquela Marianinha escrava que botou sangue pela boca ao receber a hóstia e aquele Klaas Vertieden que veio como aventureiro em tropa da Companhia das Índias e aquele africano pai de quarenta e dois filhos e muitos outros. De modos que Terência tinha história e ficou conhecida de muitos, matriarca de muitas famílias e mãe postiça de muitos meninos e meninas, mas que era estéril. O caso é que Terência que fora antes Habiba e antes Abeba foi a primeira sacerdotisa aqui da terra.

E só para completar. Terência era muito, muito mais velha do que aparentava, embora sempre aparentasse ser, digamos, muito velha. Na verdade, ninguém se lembrava de Terência como jovem.

Excetuando, é claro, Exu.

Espero não estar confundindo as cabeças começando com Exu na igreja e depois no bar, mas o caso é que Exu foi à igreja atrás do tátara-tataraneto de Tonha Tripa por dever favor e cuidados a sua família (dela, Tonha e a Terência. Dele, o tátara-tataraneto, filho, sobrinho e também jovem pastor).

E foi isso e somente por isso que a igreja do jovem pastor foi inserida no circuito das sete igrejas, porque era uma igreja muito sem graça, pequena, e tão mal localizada quanto indicava o aluguel relativamente barato do salão.

A igreja, aliás, não era só frequentada por Exu, mas por miríade de santos, pequenos deuses e fantasmas de todo lugar. Como qualquer outra igreja, aliás, só que tão mixuruca que a plateia sobrenatural também não era das mais graduadas.

A frequência de Exu foi o máximo que o pequeno templo jamais conseguira e sequer ambicionara, pois é bom que se saiba que todos os prédios, especialmente os templos, tem personalidade própria, como lhe dirá seu amigo espírita.

Egrégora, é nome que dão à coisa, à alma dos prédios pensantes.

E a igreja que, aliás, era um prédio-moça, gostava de Exu por que ele sempre era gentil e perguntava pela saúde e fazia galanteios mil e falava safadezas que a faziam corar. E assim, lá vinha Exu todo sábado e ficava lá sentado.

E foi depois do culto que o jovem pastor, sem saber por que, saiu sem avisar ninguém e começou a caminhar. Primeiro, descendo a rua defronte à igreja até a praça e depois da praça continuou até a estação ferroviária, tomou um trem e sentou no assento reservado aos deficientes onde teve um leve ataque cardíaco e ali ficou em angústia por cerca de vinte minutos que lhe pareceram horas.

Depois, sentindo que melhorava, saltou na primeira estação, onde caminhou mais uma vez por todas as ruas que a circundavam, sentindo ainda a opressão no peito.

E então encontrou o boteco e seu mal-estar desapareceu.

 

 

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“Acha que isso é bonito? Acordar Bêbado num banco de praça?”

O jovem pastor comia um prato de feijão com farinha com torresmo e ovo, observado com desconfiança por seu padrasto.

“Acha…?”, dona Marineide verteu mais do suco no copo.

“Você não me responde, Edenilson?”

“O pastor telefonou a manhã inteira…te procurando…”. O Padrasto.

“Edenilson, meu filho…”, dona Marineide sentou-se e começou a chorar. “Vai acabar como teus irmãos? Vai, Edenilson?”

O jovem pastor pensava em Marisol.

 

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Exu caminhava pela praça e era meia-noite.

E junto com Exu estavam Papa-Legba, vinte e tantos anjinhos de asas rosadas e faces rosadas e mais cento e vinte sete Exus de umbanda e o menino Calunga e o menino Negrinho do Pastoreio e um fantasma decrépito e branquicento.

De modo que as ruas estavam tomadas e repletas e os outros desencarnados se escondiam em vãos de escada e choravam, transidos de frio e medo.

Exceto Maxence de LaRue. Exceto Besouro do Cordão-de-Ouro. Ambos bebiam da cachaça mais fina e miravam com deleite o passar da comitiva que passava.

Havia ali uma confusão plasmática, com o que o Haiti, a Louisiana, a Ciudad de Los Negros no Peru se confundiam e se ouviam músicas estranhas. Como aquela da menininha que não tinha medo dos touros porque falava a verdade. Ou aquela outra da serpente arco-íris que desceu do céu e se enredou nos pilares da aurora. Ou aquela da aranha que barganhou com uma onça a posse de um caralho, o caralho da onça.

O fantasma de um cavalo pastou a grama mais verde aquela noite e foi feliz como há muito não era. E uma mendiga relembrou ponto por ponto uma novela televisiva dos anos setenta e chorou e seu coração remoçou sessenta anos.

E Exu cumprimentava a todos e a todos dizia boa-noite, como vai a obrigação?, como tem passado?, e de brincadeira passava a mão na bunda de muitas mulheres e também de homens que gostavam de ter suas bundas apalpadas. Uma noite em mil, uma ocasião.

E havia ainda os santos da terra, humílimos, os que não foram canonizados mas que eram santos, como aquele João Toró, que perdera os dedos dos pés ou aquela Andressa de Jesus que tinha uma chaga perpétua na panturrilha esquerda ou aquele Takeshi que descera do primeiro navio que aportara em Santos e que depois foi quase escravo em fazenda no Paraná e que fugira numa madrugada quente de verão, conseguindo chegar até Santos e depois até mais ao sul onde plantara bananeiras e morrera de uma tuberculose que contraíra ainda no navio.

E a este Takeshi Exu saudou com um abraço apertado e com ele dançou e cantou o Asadoyayunta, com direito a assobios e tudo o mais. E mesmo para provar que a amizade de Exu era pedra noventa e sólida como o tempo, convocou uma orquestra de tocadores de shabisen, das antigas, com instrumentos feitos de pele de cobra. E Exu, correto e decidido, cuidou de embebedar a Takeshi e Takeshi dormiu.

E o bom cardeal, que fora antes o bom bispo e antes o correto padre que gostava de molestar meninos, saiu à rua pela primeira vez em décadas. E chorou o choro denso e contrito dos crápulas arrependidos que se arrependeram de verdade verdadeira e vera. E Exu o recebeu com galhardia e tato, pois que também era santo mas se dava ao respeito de pelo menos disfarçar, com o escondimento preciso de um ator completo.

E o cardeal dançou com Exu, desajeitado, e Exu ordenou a sete pomba-giras que aspergissem óleo e incenso no caminho e no cardeal para que ele parasse de cheirar tão mal e depois ordenou a elas que o conduzissem dali para o caminho doído do renascimento.

E Exu, caminhando e dançando, e rindo, ignorava aos deuses bons, aos preceitos e às profecias e às sabedorias diversas e aos dons e aos áulicos da sabedoria e aos jejuns e aos olhos natimortos dos bons modos, mas os saudava com alegria.

 

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O jovem pastor não conseguiu que Marisol descesse e teve que ir embora com o olhar desconfiado do porteiro queimando suas costas.

“Está ficando cada vez mais difícil te encontrar, hein, menino?”. Exú se refestelava no banco do ponto de ônibus de acrílico, ladeado por duas mulheres jovens e bonitas.

O jovem pastor mudo, ouvia e não ouvia à voz de Exú. O mundo todo parecendo viscoso, mole, a vida escorrendo, não devagar, mas sem pressa.

“É o teu sobrinho?” A loira, de seios pequenos e corpo musculoso de academia.

“Bonitinho…!” A morena.

“Coisa de família, meninas…” Exú tomou o jovem pastor pela mão e o fez sentar entre as mulheres, postando-se a sua frente. E continuou:

“Homens bonitos…”, e achegou-se a cada mulher, cheirando seus cabelos. “E safados”. As mulheres desmancharam-se em risinhos deliciados.

“Esta é Camila…” e acenou para a loira. “Estudante de direito em alguma universidade aqui perto, certo?”

“E esta…”, e completou um mesura para a morena cheia de curvas, “é Josí, que eu não tenho a mínima ideia do que faz.”

O jovem pastor riu, desajeitado.

“E agora, eu faço o que?”

“Agora…” e Exú levantou um dedo, professoral e risonho.

“Agora, você aprende a viver”

E levou o jovem pastor e as moças para a terra onde manava leite e mel.

 

 

 

ADVOGADOS E LADRÕES

babilon_by_shvayba

Babylon – by Shvayba – DeviantArt

 

 

E era em Babilônia

Não, acho que era em Ur, Ur dos caldeus (onde nasceu Abraão). É, em Ur

Mesmo em Ur os contratos já tinham Marduk por testemunha, e os contratantes,

Extremosos, já juravam com a mão sobre o escroto

Já havia advogados, então, e assassinos para o extermínio de advogados.

E ladrões também os havia, e Bel era seu padroeiro

Os advogados, é claro, de quando em quando,

À sorrelfa, sacrificavam-lhe um galo ou outro,

Somente por desencargo

Era mais barato que entregar as irmãs e esposas para a prostituição sagrada

Já então os advogados se entendiam com Bel

Para a profunda indignação de uns e outros

(honestos e operosos, os ladrões viam-se como terceiros esbulhados)

Os juízes, distantes da contenda, eram puros e virtuosos

Como hoje. Como sempre. E eram amigos dos pombos,

a quem alimentavam com seus mantras sagrados recheados de sabedoria

É claro que Bel, o deus, não se manifestava nunca