TÁ. VAMOS FALAR DE POLÍTICA

Stultifera navis – Detalhe – Hieronymus Bosch

Então tá, vamos. Falar de política.

Tenho lido muita consideração de pessoas de todos os lados escrevendo sobre política. A maior parte paro de ler depois de alguns parágrafos, porque não tenho muita paciência para o sermão, a palavra de ordem. Gosto mais daqueles que escrevem como se não soubessem, os que admitem que não são bons mecânicos de aviação mas têm suas reservas quanto a certos aviões, vez que têm certo receio quanto a suas bundas leigas planando nas alturas.

E falando nisso espero seja este o meu caso: um leigo palpiteiro preocupado com seu rabo. No caso, o meu rabo não especialista, o meu rabo amador.

EIS QUE.

Adoro um “eis que”. Quando em vez, de um “das veis”. E das veis cometo um “eis que” no começo de texto. Então: eis que. Eis que estamos aqui e agora no momento momentoso e fatal, cheio de promessas, mas cheio de ameaças também. Nosso céu parece filme de Harry Porter e a cada instante fico aguardando a face da caveira guinchante aparecer entre as nuvens de chumbo. Umas nuvens, que eu vou te contar, uns nuvão, uns chumbãos, que tão aí, nuvando e chumbando acima das carecas e dos bonés.

E vamos nomear aos bovinos, identificar as vacas, reconhecer os batráquios teimando em querer passar por honradas gargantas. Entonces, o boi.

Não, não sou partidário do primeiro mandatário da nação, nem do seu, sejamos generosos, projeto político. E sim, tenho um histórico de posições de esquerda e outras heresias. E quem carrega estes pecados tem que trazer consigo uma autoestima do tipo Lúcifer e um profundo respeito por quem pensa diferente entranhado com uma profunda indiferença quanto ao julgamento alheio.

Há uma distinção: respeito não significa rendição. Engajamento não significa prepotência.

Respeito é como o roquenrrou, como uma música de Jackson do Pandeiro. O respeito precisa de ritmo, o que significa que o respeitado tem dançar tão bem quanto o respeitador. Impressionante como as pessoas as vezes esquecem que respeito dado implica no respeito aceito. É uma dança, só que sem o roquenrrou ou o Jackson, abençoado seja seu nome…

O problema, o busílis, é que o povo que ama o boi mandatário (a quem não dei o nome, aliás) não sabe dançar.

E então temos o “então”, o meu querido “eis que”. Eis que, estamos numa encruzilhada. Chegamos nela agora e é preciso se dar conta de que é uma encruzilhada e nesta encruzilhada não temos só duas opções, temos três.

Podemos tomar o caminho da direita, podemos tomar o caminho da esquerda. Mas há aqueles que preferem chutar o despacho, incomodar o orixá, deixar puta a entidade.

Não, não digo que temos que convencer ninguém. Temos é que não machucar ninguém e isso inclui o sujeito que toma a direita ou a esquerda ou o que chuta o despacho, a oferenda ao santo.

Mas importa e muito que o chutador de despacho não chute muitos despachos, que aí seria deselegante. Importa que o chutador não vire legião e não crie prole.

Importa que reconheçamos que há uma encruzilhada e acima dela uns nuvão preto, um puta céu plúmbleo e um potencial orixá a ser ofendido.

Então tá. Falei de política.

BARROCO

MEDIA IN VIA

Media in via erat lapis

 Erat lapis media in via

Erat lapis media in via erat lapis

Non erro unquam immemor ellius eventus

Pervivi tam mihi in retinis defatigatis

Non ero unquan immemor quos media in via

Erat lapis

Erat lapis media in via

Media in via erat lapis

O  texto, bem…é um tradução de autoria de um pessoa que atendia e espero que ainda atenda por Silva Belkior (Carmina Drummondiana/ Carlos Drummond de Andrade; versão para o latim de Silva Belkior – Rio de Janeiro: Salamandra; Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 1982.)

Quem escreveu o original? Decifrem…ou vos devoro.

“Et quid nunc, Ioseph?

Festum est finitum,

Lumen est exstinctum…”

E, em vossa homenagem.

Décimas ante um retrato de Camões

       Ariano Suassuna

Se, na noite de chuva, a Tempestade

em solitários galhos acoitados,

revivesse os Navios naufragados

e o travoso gemer da Soledade;

se, da grave assonância da Vontade

entrevesse se pudesse o sacrifício

nesse claro e cansado Frontispício

quem, mais do que teus Olhos, cantaria

da vida o Caso cego e a galhardia,

a Luz flamante e o sacro Desperdício?

Teus olhos! Mas quem pode apaziguá-los?

Se, num, a flecha agónica demora,

noutro há bruma, salgueiro e Harpa sonora,

entre os passos do Rei com seus vassalos.

O pó e o sangue, as patas dos Cavalos

repousam nesse sulco fatigado.

E, se o bravo Queixume informulado

evoca os destroços areais,

o ressonar dos Bosques provençais

doura na Morte a mágoa do pecado.

Pensar que foste criança e que aspiraste

o cheiro da Madeira mal queimada;

que, ao perseguir, insone, a Madrugada,

a chama do Desterro desejaste.

O Sal marinho, as folhas que esmagaste,

e vida e nome, pássaro e Memória.

Pois, se Fortuna e treva derisória

urdiram tua Sorte alada e escura,

foi que o porvir tecera, na Espessura,

da Cadência já morta o Canto e a glória.

Pureza e dolo. A Sombra se amontoa

– destroço ressurrecto e trespassado –

na prisão a quem a um tempo foste atado,

no Barco que te chama e te enevoa.

Debalde! A Fonte é cortadora Proa,

barba barroca é Quilha e madeirame.

E o Cedro, a Infanta, a coifa de beirame,

tudo isso e tudo mais que não se exprime

– que não se diz – e é o que talvez redime

o atravessar das águas e o Velame.

Assim, não mais o som desse Acalanto,

não mais o Apelo, só, do já passado:

que teu Anjo o receba, dissipado,

numa Páscoa de fogo e tenso Canto.

Pois se o Eco de sono e louro acanto

não te pôde levar o que pressente,

num sussurro fraterno e Sopro ardente

chegue a ti meu Duende extraviado

e o Sonho, anseio extinto e renovado,

que é Pena e mudez de meu presente.

Em: O Pasto incendiado -1953.

poemeto frágil

MESA DE ESTUDO _ William Harnett

Todos os dias são feitos da matéria-prima

Todo o roquenrou, todo violão e todo violoncelo

Todo o meu trabalho é trabalho

Tudo o que faz o meu trabalho é somente o escalar

Vivo nas encostas e nas brumas

Eu canto

Eu projeto prédios de vidro abandonados

Só assim os pássaros anônimos

Eu desenho prédios de vidro abandonados há mil anos

Só assim os pássaros anônimos

E pequenas cobras anônimas, como a que eu matei anteontem

O mensageiro escondido pelo compressor da geladeira

Que saiu para a luz

Eu construo dias de palavras e dias de chumbo

Estou satisfeito então

Como o vento é feito

Toda carícia atmosférica

Toda a densidade do qual ele é feito

Cada fada no seu ninho

Esta solidão dos opostos e a importância fundamental

De leis que tomam o mundo por acaso

E toda esta magia que Aristóteles exclui

Da fortuna de cada folha

Quem cai

Cai

O COVARDE PROFISSIONAL

We're All Mad Here - The Chesire Cat - by Nicky Barkla
We’re All Mad Here – The Chesire Cat – by Nicky Barkla

O receio, o cagaço fizeram de Plácido Aquila Valdez um tipo único. Era um covarde profissional.

Minto, Plácido Aquila Valdez? Não, não mente em absoluto. Sou um covarde, mas detestando o amadorismo como sempre detestei, profissionalizei-me, por assim dizer.

E assim era, por assim dito. Um homem que se retratava a si próprio sem pudores, que dizia o que queria sem rodeios pastosos, dando uma clara e imediata ideia de sua personalidade torpe, rasteira, carente de heroísmos e com valores os mais egocêntricos possíveis. Plácido Aquila Valdez viveu toda esta vida indigna com paixão, como um verme eternamente satisfeito em parasitar seus semelhantes.

Minto, Plácido Aquila Valdez? Não, não mente. Me sento com desfaçatez entre os comensais, bisbilhoto suas vidas, os chantageio quando posso, os cubro de elogios falsos se me é útil. E, se me dado fosse me ver de fora, como a um estranho, vomitaria.

Plácido Aquila Valdez elogiava à covardia de forma franca e aberta. Dê-nos um exemplo, Plácido Aquila Valdez! Ora, fácil, quem, me diga, quem se não o poltrão, o pusilâmine poderia ter inventado a estratégia militar? Os valentes são burros demais para qualquer coisa que não marchar à frente da tropa e morrer bem ali, nas linhas de frente.

Plácido Aquila Valdez acreditava também que todos, todos eram, somos, basicamente covardes. Definia a valentia como um atropelo de hormônios gerados pelo medo nos mentecaptos, que lhes dava breves espasmos furiosos. Mas desordenados, convulsivos, unilaterais. Um gozo ordinário, só acessível às alimárias.

É assim mesmo, Plácido Aquila Valdez?

Certamente, uma questão evolutiva. Somente os covardes da espécie prosperam. Infelizmente, se não temos mais valentes, ai de nós, temos ainda os imbecis ensandecidos e a valentia ainda é considerada uma virtude.

Plácido Aquila Valdez desconfiava de santos e moralistas. Mas desconfiava mais ainda de suas criações, principalmente da Tragédia com seus destinos singulares e prodigiosos.

Nos esclareça, Plácido Aquila Valdez!

Esclareço, dou a luz. Notem, quer se trate de Édipo, quer se trate de Hamlet, é sempre o resultado de uma conjunção extraordinária de eventos espantosos. Nenhum deles é figura acessória, mas necessária. Não existe universo exterior, existem ondas de acontecimentos orbitando sua vidas e suas vidas vão extrapolando, absorvendo, fazendo convergir e por fim destroem. Hamlet teria feito melhor se dedicando a uma vida de fodelança com Ofélia e, como bonus, ainda teria Polônio com quem implicar.

Édipo hoje (época de covardes por excelência) escreveria o livro, um mea culpa prontinho para as telas de cinema.

Você é cruel, Plácido Aquila Valdez!

E faço cocô ao ar livre, também.

APOLOGÉTICA, OU, A EMERGÊNCIA DA DIVULGAÇÃO DA FÉ ANTES DA INTERNET OU OS LIVROS DE DEUS OU OS GHOST-WRITERS SAGRADOS DO ESPÍRITO SANTO

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Este artigo foi escrito para outras finalidades, no âmbito de um grupo de pesquisa acadêmica. Trata-se de um artigo que procura discutir sobre a produção intelectual dos primeiros “pais da igreja”, que procuravam expor, explicar, o que seria a nova fé que emergia então no mundo romano, a assim chamada apologética (falo dos séculos I a V da chamada Era Comum ou Era cristã, o depois de Cristo).

Meu, digamos, mentor, leu ao artigo e observou que se eu o quisesse, que se o apresentasse, provavelmente seria aceito; Mas, que acreditava que eu poderia fazer melhor. Dias depois, relendo, via que ele tinha razão. E pior, vi que não tinha eu mais qualquer desejo de que fosse publicado no âmbito acadêmico. Continuo pensando assim. E penso assim por conta de uma idiossincrasia minha que é a de abominar ao amadorismo. Dito isto, posto aqui o artigo. O motivo? Malícia e soberba. Ou talvez…eu não sei.

O RECEPTOR DA APOLOGÉTICA E OUTRAS AVENTURAS AVENTUROSAS

Então, eis que estava lá o cristianismo sem saber que era já cristianismo. Ao lado, os gregos do mal vociferando, os romanos do mal também, todos zombando da nova fé, debicando de sua fraqueza doutrinária, de sua escassa ou nenhuma filosofia. E eis que era um tempo de trevas, onde causava escândalo a emergência de uma divindade hipostática. Onde causava escândalo uma fé onde o fiel era convidado a imitar ao enviado da fé, não apenas como profeta, mas como sunt in conspectu Dei. Uma religião que deixava em aberto a ocorrência ou não da boa vontade do deus. Poder-se-ia ser dada ou não. O homem ou, vamos ser cruéis, esta marionete chamada sujeito, poderia ou não estar em, ser em, em Deus. Entretanto, para que o fosse, ser em ou estar em demandava um palco para que se apresentasse, o palco do mundo, com Deus e a sua contraparte humana nela atuando.

O que queremos fazer entender é que havia a apologética, esta forma, este estro (quanto de poesia não já germinava nos primeiros textos?), onde os primeiros pais da igreja se exercitaram (e percebam a dificuldade, as dificuldades da época. Imaginem que não havia facilidades, que a tinta de que se utilizava o escritor era, na maior parte das vezes, por ele mesmo diluída; que o pergaminho era conseguido a duras penas, geralmente por cotização de uma comunidade. Que ainda não havia ou estava ainda em começo a tecnologia do códice: as muitas lâminas de pergaminhos de qualidade inferior, amarrados com barbantes, embalados em pacotes e remetidos para cópia em diversas comunidades. Não havia o acesso aos editores, aqueles profissionais que expediam cópias de textos de Aristóteles, de Platão et alia, em embalagens elegantes, em estojos de madeira com o nome, o símbolo do editor. E que eram objetos de culto obsequioso e, portanto, caros. Desde que você fosse rico o bastante para pagar).

Afora o meio físico de transporte, subjazia a mensagem, remetida em restos de pergaminhos para aproveitamento e escrita como desse e onde desse. As primeiras escrituras foram escritas como palimpsestos: os mesmos pergaminhos, depois de usados, sendo raspados para reutilização. O escrito primeiro cristão se pautou pela reciclagem.

Quanto ao labor apologético em si, da divulgação do novo deus e da nova religião, imagine-se o trabalho hercúleo dos primeiros pensadores cristãos: definir o sem-forma, plasmar um discurso que tornasse possível se conceber o Deus trino e uno, o Deus-três-em-um, estéreo e em high-fidelity. Um deus partícipe eterno de um teodrama inusitado onde não bastava mais, digamos, as ferramentas conceituais do neoplatonismo. Não mais o Todo é Uno, mas o Uno, ao mesmo tempo que era o Todo, também era definido em três pessoas complementares, intra-atuantes, autorreferentes, mas não topológicos e tampouco temporais.

E mais, a nova seita herética não proclamava que no começo eram trevas mas antes que não havia começo e que este não-começo era luz (o Verbo desceu às trevas). O novo deus requestava intimidade nunca antes vista, onde entrega era dissolução no absoluto e onde o absoluto era acolhimento que ainda assim preservava as identidades: do deus, obscenamente uno e trino, sem espaço que o contivesse, sem tempo que o marcasse; e do crente, receptor da luz do deus como se só a ele estivesse a luz reservada, mas sabendo-se apenas parte de uma comunidade de muitos à qual o mesmo favor era dispensado. Criava-se ali o indivíduo, indistinguível do amálgama da humanidade, mas indivíduo ainda assim.

A igreja, mãe da modernidade.

Havia alegria, enlevo e pertencimento. Mas não havia ainda a palavra inicial, a faísca de pederneira que desse início aos discursos dos primeiros pensadores, dos pais. Nos primeiros tempos só existiam ainda os tartamudos. Os outros deuses, destronados, melancolicamente, faziam as malas.

Pois, lá estavam os primeiros apologetas no seu labor, criando o que podemos entender hoje como partes do corpus da assim chamada literatura cristã, que não se confunde com a as Escrituras embora se possam isolar eventos onde a primeira se transfunde com a segunda. Transfusão que se dá numa via de mão única vez que, em tese, estão assentadas as Escrituras, senão pela atuação do Espírito Santo, então pela disposição de autoridade. E já as havia. Inicialmente este labor atendia a necessidades imediatas, pontuais: um grande corpus fragmentado à espera da necessária consolidação que resultaria na definição da grade oficialmente aceita dos livros canônicos. A demanda pela constituição de um jargão acadêmico que se dispusesse como ferramenta para uso dos nascentes comentadores da igreja, assim como e também para a comunicação inter-igrejas e edificação mútua. Finalmente para atendimento à comunicação com um público externo: autoridades e heréticos em potencial.

E lá estavam os pais apologetas, falando, pregando, mas também escrevendo. E aí, o constrangimento  é inevitável: escrevendo para quem? Não estamos interessados no “que” ou mesmo no “como” mas, no contexto deste artigo, nos destinatários dos textos.

Ora, o cristianismo! Ora, a grande massa que se associava à nascente religião! Não há mais judeu ou gentio ou grego, só o cristão, renascido. Não há mais o escravo ou o livre. Todos são, estavam, estão, convidados para a Ceia do Senhor. Tudo bem, escravos ainda seriam escravos, mas, de algum modo, libertos. Eis que. Era um tempo de luz. Uma luz nova, ainda não vista ou experimentada. Era um tempo de êxtase compartilhado.

Mas, ainda havia a massa. Os milhares, depois centenas de milhares. Os milhões? Não dispomos dos dados estatísticos. Mas sabemos que havia a massa dos convertidos. Uma legião de analfabetos privilegiados pela palavra tornada viva. O novo deus, complexo, unitrino. O novo deus que  se dissociara em mistério, encarnara em mistério e dor e morrera em mistério e dor.

Eis que.

Claro, falou-se em “analfabetos” mas também eles, os doutos. Também eles candidatos à imersão. E, certamente, também, deve-se considerar a existência de uma classe intermediária. Agostinho mesmo, no seu manual de catequese encomendado a ele pelo diácono Deogratias, fez questão de dividir os métodos a serem usados pelos catecúmenos em função do público a que se destinavam. Sugeria cuidado extra com os cultos, que “costumam tudo investigar cuidadosamente”. Sugeria mesmo que evitasse o catecúmeno uma postura de “mestre”, não tendo a pretensão de os ensinar.

Entretanto, não obstante, doutos, quando os havia, pretensos doutos, quando os havia, eram em pequeno número. Os incultos, estes eram legião.

Com o que então temos a situação sui generis de uma classe de letrados escrevendo para outra classe de letrados, mas não para a massa, não para o povo-de-Deus. Entenda-se, uma classe de letrados escrevendo para uma classe de letrados não era estranha ao judaísmo. Uma classe de letrados escrevendo para uma classe de letrados pode ser uma boa definição da filosofia grega, da romanidade. Cícero escrevia para quem?

Mas, eis que, os nascentes e novéis comentadores cristãos não se pretendiam só ensinadores, mas também convertedores, também condutores de ovelhas. Pro Paganda. Mas, considerando-se a massa inculta da cristandade, seria mais preciso definir os apologetas como convertedores de convertedores. Entre a intelectualidade e a massa havia, era forçoso haver, uma casta estamental que iria mais tarde constituir toda uma hierarquia funcional, uma vertical descendente do bispo ao pároco, os presbíteros profissionais.

Evidente então que o teor do escrito apologético não chegava indene à base dos fiéis. Não que chegasse distorcido, mas antes que não chegava no seu todo e o mínimo que chegava se era pouco inteligível, era classificado, empurrado para o nicho dos mistérios, onde habitava o Deus absconditus. Seriam necessários séculos para o desenvolvimento dos media para instrução dos Simples, estreando no mosaico e confluindo para o jogo de luz dos vitrais das grandes catedrais e, consequentemente, para uma estética da luz.

Por outra, se é certo que a literatura apologética não chegava à base da pirâmide, por hipossuficiência da maior parte do público receptor, fazia-se necessário a transmissão de sua essência. E temos aí o nascimento de uma apologética mitigada: uma literatura de manuais,  uma catequese para uso de catecúmenos, estes sim encarregados da instrução de base.

A apologética, portanto, foi um também um projeto político. A apologética, portanto, era um programa de atuação demarcado por tempo e lugar, demarcado por fins específicos a serem atingidos. Talvez o primeiro projeto sociológico consciente de ser um projeto sociológico. O primeiro plano de ação, levado a cabo por um estamento sacerdotal,  a utilizar conscientemente um ferramental discursivo escolhido (o sermão, a homilia, o ensaio, a preleção) para fins precisos de estabelecimento, consolidação e manutenção de uma fé.

Mas, e quão necessário é este “mas”, um empreendimento discursivo que sempre teve em seus cuidados a preocupação com o receptor de sua mensagem.

Vale dizer que o receptor do discurso apologético, que era legião, distinto por formação, procedência, ethos, moldou a e à apologética.

Poemas de Dylan Thomas.

A propósito de tentativas minhas de traduçao de Dylan Thomas em português, segue uma “reblogagem” de uma postagem sobre o mesmo tema do blogue “SIGLOCERO”, que sigo. Só para que se veja, para que se sinta a diversidade que cada tradução pode trazer.

siglocero

1914-1953

NO ENTRES DÓCILMENTE EN ESA BUENA NOCHE…

No entres dócilmente en esa buena noche, que al final del día debería la vejez arder y delirar; enfurécete, enfurécete ante la muerte de la luz.

Aunque los sabios entienden al final que la oscuridad es lo correcto, como a su verbo ningún rayo ha confiado vigor, no entran dócilmente en esa buena noche.

Llorando los hombres buenos, al llegar la última ola por el brillo con que sus frágiles obras pudieron haber danzado en una verde bahía, se enfurecen, se enfurecen ante la muerte de la luz.

Y los locos, que al sol cogieron al vuelo en sus cantares, y advierten, demasiado tarde, la ofensa que le hacían, no entran dócilmente en esa buena noche.

Y los hombres graves, que cerca de la muerte con la vista que se apaga ven que esos ojos ciegos pudieron brillar como meteoros y ser…

Ver o post original 305 mais palavras

Um pouco de Dylan Thomas e que Deus nos ajude

Naked for me leonardo – by Emanuele Dascanio – DEVIANTART

Do not go gentle into that good night é talvez o poema mais conhecido de Dylan Thomas. Há indícios de que a cegueira iminente de seu pai o tenha motivado. Já vi uma “ruma” de traduções em português mas nenhuma me foi do gosto (não estou dizendo que faria melhor, estou apenas pontuando minha reação como receptor).

Continuando, não sei por que, mas ali estavam as traduções e eu com elas não ia, ficava agastado. Por outra, sempre tive medo de perpetrar à minha própria, a coisa me parecia quase um desrespeito. Mas, como parece sempre acontecer, acabei caindo por acaso na postagem de um blogue de uma amiga, onde se informava que um relógio parou (tá, que é que tem a ver. Sei lá, o relógio parou e eu pensei em Dylan Thomas. Tem explicação, não).

Continuando de novo. Desconfio muito da minha tradução, que segue abaixo (não respeitei às rimas da vilanela de Thomas, por exemplo). Lendo-a, por vezes tenho o impulso de apertar o “delete”. No entanto, é minha, a tradução. Trabalhei tentando arrancar o melhor, desejando que aqui no meu “de dentro”, nos meus bofes, habite algum estro. Foi o que pude fazer.

Vale!

DO NOT GO GENTLE INTO THAT GOOD NIGHT

Dylan Thomas

Do not go gentle into that good night,

Old age should burn and rage at close of day;

Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,

Because their words had forked no lightning they

Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright

Their frail deeds might have danced in a green bay,

Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,

And learn, too late, they grieved it on its way,

Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight

Blind eyes could blaze like meteors and be gay,

Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,

Curse, bless me now with your fierce tears, I pray.

Do not go gentle into that good night.

Rage, rage against the dying of the light.

NÃO, NÃO SEJA GENTIL NESTA DOCE NOITE.

Dylan Thomas

Não, não seja gentil nesta doce noite.

A velhice deve queimar e rugir ao final do dia;

Se enraiveça, se enraiveça ante à morte da luz.

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Ainda que homens sábios ao final percebam que as trevas virão,

Quando não fisgaram ao relâmpago suas palavras

Não, não seja gentil nesta doce noite.

Homens bons, já se indo a última onda, chorando com que fulgor

Seus atos frágeis podem ter bailado em uma baía verde,

Se enraiveça, se enraiveça ante à morte da luz.

Homens selvagens que capturaram e cantaram ao sol em voo,

E aprenderam, tarde demais, o quanto o afligiram no caminho,

Não, não seja gentil nesta doce noite.

Homens circunspectos, já perto da morte, se dando conta com olhar de fogo

Que olhos cegos podem brilhar como meteoros e ser radiantes,

Se enraiveça, se enraiveça ante à morte da luz.

E você, meu pai, aí nesta triste altura,

Amaldiçoe, abençoe-me agora, eu rezo, com suas lágrimas ferozes

Não, não seja gentil nesta doce noite.

Se enraiveça, se enraiveça ante à morte da luz.

BALLATETA

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Jardim dos lagos – by Claudiafmiranda_d7t4m8f-fullview_ DEVIANTART

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Ballateta é um poema de Ezra Pound. Ballateta também foi poema de maturidade de Guido Cavalcanti, talvez em 1300, durante uma viagem do poeta à França. Em português, talvez, pecaminosamente, pudesse ser traduzida por pequena balada, mas o diminutivo revela uma atitude de afeto. Então, talvez “querida balada” ou melhor, “baladinha”. Também no português colocamos no diminutivo os substantivos quando queremos indicar carinho: “Aninha”, “queridinha”, “amorzinho”. Todo caso, Pound escreveu ao poema para que fosse lido com sabores antigos, razão pela qual se demandam cuidados com termos como “healm”, que pode ser lido como “cura”, mas que no caso é mais prudente retornar a significados primeiros, medievais, como “planta”, “caule” ou, na minha escolha, “palma”. Ainda por amor à forma e respeito ao poeta, acrescentei formas vocativas, um “ah” ou outro, que se não estão no original talvez estejam em espírito. Trata-se de uma dama, amada nossa, caminhando em placidez por um vergel. O poema todo poderia ser reduzido a um “hai-kai” japonês, tal sua concisão, sua densidade. Enfim, foi o que se me deu, foi o que pude fazer.

BALLATETA

Ezra Pound

The light became her grace and dwelt among

Blind eyes and shadows that are formed as men;

Lo, how the light doth melt us into song:

The broken sunlight for a healm she beareth

Who hath my heart in jurisdiction.

In wild-wood never fawn nor fallow fareth

So silent light; no gossamer is spun

So delicate as she is, when the sun

Drives the clear emeralds from the bended grasses

Lest they should parch too swiftly, where she passes.

BALLATETA

Ezra Pound

A luz se tornou sua graça e habitou

Entre olhos cegos e sombras formadas como se homens fossem

Ah, veja como a luz nos faz derreter em música:

A luz do sol fracionada pela palma que ela carrega

Aquela quem tem meu coração sob domínio.

Na floresta selvagem nunca teve pouso

O fulvo de Luz tão silenciosa; nenhuma teia é tecida

De modo tão delicado como a dela, quando o sol

Determina às esmeraldas vívidas da grama pendente

A que rápido não fenesçam, por onde ela passa.

Oração

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Senhor Deus.

Oi.

Ando até o talo com o fastio, o saco-cheio existencial, a pouca ou nenhuma vontade de conversar. Eu sou daqueles que se enchem fácil, o meu escroto é elástico, mas não comporta muito. Então.

Então.

Eis-me aqui, ó Senhor, de saco cheio. Eis-me aqui, plantado no chão de vosso planeta e achando vosso planeta um saco. Vós mesmo, vossa divindade, vosso jeitão de menino mal-humorado, senhor inefável vestido, por vezes, em manto sem costura, inconsútil, vago.

São um saco vossos devotos.

Senhor!

Senhor, ou sois o pai, o criador do marasmo ou então sois então o incognoscível gerador de chatices que vão dar na praia do marasmo que parece tanto alegrar, dar substância e alimento, constância e certezas a vossos devotos.

Que são chatos, senhor Deus! Três-em-um. Estéreo.

Então.

Então.

Senhor, talvez seja mais digna e bela a pescaria da estátua prenhe de lodo, preta, mais não preta de ser preta, mas só preta pelo lodo. Aquela terracota honesta preta pelo lodo do Paraíba do Sul.

Mas eu dizia? Ah, lembro. Os teus devotos são chatos e a tarde hoje foi bonita.

Ando até o talo com o fastio e isto não fará, claro, qualquer diferença.

Então.

Então; eis que.

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