MINHA FÉ

RELIGIO

Minha mãe era devota de Afrodite-Pandemia. Qualquer tribulação na família e lá ia ela junto ao oratório de sua Deusa depositar velas votivas e pedidos, sempre atendidos segundo me dizia. Devoção tardia, pois na juventude minha mãe fora de uma Ordem Terceira de Vestais, mas acho que a opção pelo casamento a fez mudar.

Interessante como a religião sempre fez parte de minha vida e dos que me eram próximos. Lembro-me que ao conseguir meu primeiro emprego, em uma metalúrgica, a primeira coisa que fiz foi visitar o templo de Zeus-Pancrátor e deixar ali uma mecha de cabelo na pira.

E assim toda a família, cada membro com sua devoção particular: Thor, o jovem para um irmão. Hera para uma irmã, nunca faltando a oferenda de sempre para Ísis, deusa de devoção de outra. Meu pai, um tradicionalista, sempre jejuava às sextas-feiras em honra de seu Osíris.

A religião, como uma capa, permeava tudo. E ainda permeia, creio eu: qual camelô na vinte e cinco de março não queima seu incenso de todo dia no altar de Hermes-Benefactor e qual marginal não faz sua doaçãozinha de sempre para a confraria de Bel-dos-Ladrões?

A modernidade, temiam e temem alguns, conspira para o adelgaçamento da fé, mas eu discordo. Minha esposa até hoje deposita sua porção de bolo de trigo e mel para Atena, em um pratinho decorado ao lado do computador.

Nesta época de “BBBs” e que tais ainda é possível o despreendimento da fé e da esperança que só a fé traz? Eu digo sim e sim e sim. Ainda haverão: sacrifícios a Poseidon quando de cada enchente no Rio de janeiro; orações a Réia antes de cada parto; oferendas a Apolo antes de cada apresentação musical; saudações a Príapo por parte de homens e a Afrodite-Urânia, por parte de mulheres, antes do ato sexual.

E libações de cada presidente ou governador de estado em honra a Zeus-Pancrátor depois de eleitos e sua estátua continuará soberana, de braços abertos sobre a baía da Guanabara.

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ET IN ARCADIA EGO

ET IN ARCADIA EGO - Intervenção de Aires Almeida em imagem de tela de Nicolas Poussim

ET IN ARCADIA EGO – Intervenção de Aires Almeida em imagem de tela de Nicolas Poussim.

 

 

Et in Arcadia ego.

Ah, momento sublime, em que posso inserir uma frase em latim para perfumar meu arroto de homem culto. E eu sou um homem culto e Ipanema ainda existe, mas nunca fui lá.

Et in Ipanema ego. Et in Brasília…mais ou menos por aí.

Sigo escrevendo, melífluo como um putinho novel. Ouvi agora o discurso: somente a mão de Deus pode, etc., etc. Nada demais. Só impliquei com o colar no pescoço da personagem de camisa embandeirada. Coisa minha, boba.

Tenho um amigo que se especializou em inventar xingamentos, invectivas cheia de bom humor e originalidade que acreditava que ajudavam a desopilar o fígado, de não sucumbir à inana (inana, gostaram? Hoje estou de verve!)

E então, vinham as pérolas: arrombado da Babilônia; vai tomar no Silva (ou Cardoso ou Perlemütter, o importante era colocar o sobrenome de um desafeto).

Estou virado na bobônica da hipersquidgerônica.

Emputecido? Estou é virado no setenta, transformado na madrasta hidrófoba do Jiraya e metamorfoseado no cramulhão do casco fendido.

Sentiram? Como, querida? Não, não estou puto não, só psicografo o que me chega das esferas.

E eis que. E eis.

Mas eu falava de Ipanema ou da Arcadia, já se me esqueço, a vida me aprontou mais uma. Me aguarde, vida, que eu te dou o troco com muito paticumbum prugurundum e invento a festa e organizo o pessoal!

Para que se entenda o meu samba é preciso, são precisos, uma velhíssima vitrola, um copo do conhaque Padre Cícero e um baralho velho de tarô. Eis que. Na vitrola colocarei para tocar Ângela Maria cantando Tango para Tereza e seguirei com Variações Goldberg e terminarei com o Mourão Voltado do Quinteto Violado.

Ah, mas ele bebe, se embriaga!…dirão. Não, não me embriago, só considero com meus botões de madrepérola, só cismo. Assimzinho, sutil como um flato numa batisfera.

E os rojões, os rojões! Felizmente Zé Bebelo, meu cachorro, não é de muitos medos. Limitou-se a levantar a garra média para riba e latiu: vão tomar no Trump, chatonaldos!

Relevo e perdoo. Trata-se de um cão.

Perdoem-me do mesmo modo, sou só mais um turista.

Aquele meu amigo também tinha outra sacada muito boa: a loteria do inferno.

Imaginaram, o inferno, aquele delicioso imóvel psíquico lotado de fudidos sendo assados ao espeto na churrascaria do Coisa-Ruim? Pois bem, primeiro prêmio: uma semana no Brasilzão de meu Deus. Segundo prêmio: um mês no Brasilzão de meu Deus. O Diabo é um gozador do balacobaco, dizia adrede aquele o meu amigo que já devo ter mencionado em algum parágrafo aí de cima.

Justo!

No mais, aquieto-me. Minha boca é um túmulo.

Todo em mármore e cheio de volutas, com direito a estátuas de voluptuosas carpideiras nuas.

Vamos agora ao conhaque, ao café e aos charutos.

Zé Bebelo manda lembranças. Algo assim como um Au. Au. Au.

E a galera vibra e a multidão solfeja: chupaaaaaa, comunistaaaa!

Chupo nada. No máximo, cuspo fazendo um beicinho.

Et in Arcadia…et in putaqueopariu…et qualquer coisa aí.

Abraços.

 

O AUTOR E A OBRA MAIS QUE ABERTA, POR INEXISTENTE.

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books – by ELEK-trik – DeviantArt

 

E o autor, prolífico como uma ratazana, mas que não tem obra literária publicada é o que?

Pergunta besta, claro. Trata-se tão somente de um residente da terra de NunseiPorra.

Tá. E serve pra que o autor prolífico, criativo e inventivo, sem obra publicada?

Homessa!  Serve para ocupar espaço. Digamos de cinquenta a cento e tantos quilogramas de massa oprimindo ao planeta, gerando aí os seus tantos quinhentos ou mil e tantos newtons, seus quilopascais, suas libra-força por polegada quadrada, exercendo atração gravitacional, mínima é claro, mas certa, sobre a Lua, sobre Alfa do Centauro, sobre Betelgeuse.

O autor prolífico sem obra publicada pode também contribuir para a manutenção do número de homo sapiens no planeta, emprestando seu útero para a gestação ou, em muito menor grau de importância, seu esperma.

Pode também contribuir com e para a pátria.

Exempli gratia: Pode comungar com Deus, catequizar aos selvagens, doutrinar às fêmeas rebeldes, estapear a homossexuais, vender o ar que respira e alugar as palmeiras e as praias para o demônio do meio-dia.

Mas aí já estamos falando de almoçar com vermes.

Talvez seja melhor o autor prolífico publicar sua obra!

 

 

 

 

Breves considerações sobre a magia e a palavra

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Mein scribe – by Rovanes – DeviantArt

 

 

 

O romance, este gênero ainda cheirando a verde, teve sua consolidação com o Quixote no século XVI mas já despontara antes nas tentativas do Satyricon de Petrônio, na Roma de Nero e no Genji Monogatari no Japão da era Heian no século XI.

Vejam, foram afloramentos heroicos, dignos, mas somente o século dos descobrimentos, na Europa; somente dele, proveio o correto húmus, o preciso fermento da época.

Então se fez o romance.

E se faz agora, tímida, minha tese: sem magia não há o romance.

A poesia pode prescindir da magia por ser de si um encantamento, como a filosofia que tem a vantagem de não ter nenhuma vantagem e ser prima da poesia. Daí Nietzsche ter composto o seu admirável Zaratustra, que assim falava e que era filosofia e que era poesia.

Quando digo magia quero dizer, oras, magia. A suspenção da crença, me digam, o que é senão uma operação mágica?

Arthur retira a espada da pedra, Lanzarote mata o gigante, Clarice Lispector nos apresenta Macabéa e a barata e nós…acreditamos, estamos lá naquele momento e nos seguintes.

Magicamente suspensa nossa noção do real.

A magia, por sua vez, não pode se desligar do romance porque é ainda muito jovem o romance. Mal acabamos de criar o épico, que é apenas a forma escrita que desenvolvemos para descrever o mito.

As presepadas de Gilgamesh e Enkiddu foram primeiro contadas ao redor de fogueiras sumérias e só depois postas no papel; ou melhor, no barro com o alfabeto cuneiforme que os acadianos tomaram dos sumérios e nele colocaram os sons para que os assírios transcrevessem as histórias cheias de maravilha e magia.

Só a seis, cinco mil anos? Foi ontem.

E como é recente o romance e como é antiga a magia. E como é necessária.

Machado, Cervantes, Swift, Sterne, nossos contadores modernos de histórias, não podiam fugir a esta tradição ancestral.

Então, magia.

Memórias Póstumas de Braz Cubas, um conto de magia, que começa com um morto narrando sua própria morte e se deslocando até o começo dos tempos no pós-morte.

Nosso Dom Casmurro, nos contando de segunda mão, por meio do tenor Marcolini, uma cosmogonia toda particular que retrata a Deus e ao Diabo como cocriadores do universo que é só uma ópera, nada mais que uma ópera.

Magia.

Gulliver em Liliput, os Buendía em Macondo, Alexandre e outros heróis de Graciliano Ramos. Mas também há a necessidade do maravilhoso, do mítico, na Náusea de Sartre e nas andanças de Leopold Bloom pela Dublin de 1904.

No Fausto de Thomas Mann Adrian Leverkühn tem uma das conversas mais longas com o Diabo de toda a literatura.

Também Riobaldo andou pelo sertão e não dispensou um pacto com o demo.

O realismo nunca existiu ou foi só pretensão. Acredito mesmo que se emulada à perfeição a vida em livro (o que tenho por impossível), não teríamos nada mais que um aborto.

O romance é pedra, mas se desgasta a pedra e se transforma. E do que fala a pedra?

Do que pode o romance?

Da mulher enterrada a metros daqui. Do veneno que a matou. Do necessário que foi sua morte.

Do pastor que se apaixona pela Morte e é condenado à imortalidade por ser proibido ligarem-se Morte a mortais.

De soldados tão orgulhosos e seu comandante ainda mais orgulhoso que se perdem em missão. Presos até hoje em andanças eternas pelo único erro de terem encontrado uma das entradas para o mundo de Sexta-Feira.

Da sacerdotisa que viu o futuro quando não queria ver mais nada que o rosto de seu amado e por isso foi amaldiçoada a ver o futuro. De seu exílio, de sua loucura ao falar de épocas futuras com carruagens voadoras e homens e mulheres e animais e demônios aprisionados em caixas de vidro.

Da canção que se transformou em mais que canção e depois em torrente e depois em punho sobre o mundo. E da era glacial que veio ao mundo por conta da canção e do impossível destino dado ao autor da canção e sua flauta de tíbia.

Do pequeno fidalgo que enlouquece, arma-se cavaleiro e enfrenta moinhos de vento.

Do padre que seduz a donzela e a vê morrer, indiferente, no parto de seu filho.

De muitas coisas fala a pedra que é romance.

E quem trata da pedra é um pequeno mago, e como Jó, profundamente desafiador dos roteiros de Deus.

Que, aliás, foi o primeiro editor e libretista, como já suspeitava aquele Machado, o de Assis.

Eu, o ghost-writer II

LIBAÇÕES

 

E então Maurinho, o filho-de-uma-égua, me convidou para uma cerveja no bar de um conhecido. Eu tinha acabado de lhe entregar um novo livro, acho que sob o pseudônimo de Emmett Louis Carrol.

Não me lembro bem do enredo. Me recordo vagamente que versava sobre um professor universitário americano em retiro sabático que era recrutado pelo serviço secreto para espionar uma cientista soviética.

Claro, uma senhora gostosa, sensual e dadivosa como exigiam os livros de espionagem da época. O meu era só mais uma das merdas do período, vendido em bancas de jornais paulistanas a um preço módico que a edição feita em papel higiênico e em duas cores podia prover.

O caso é que disse a Maurinho, meu editor e também vendedor de lixo em forma de papel, que era aquela a última colaboração que teria de mim em sua pestífera empresa, pois que arranjara emprego que me pagava um salário mensal.

E, para mim, um soberbo salário para os padrões meus e da época.

Maurinho não se irritou, pegou os papéis datilografados e me pagou.

E, novamente, me convidou para uma cerveja, desta feita acrescentando que dada a situação e a ocasião me levaria a lugar de sua particular preferência.

“Um templo do bom viver e da cachaça.”

“Preparado?”. Maurinho elevou o indicador.

E então foi assim que naquela sexta-feira, por volta de quatro horas da tarde, nos aboletamos no balcão do Capitão Sujeira.

Por pudor, não informo onde ficava o mirífico boteco, mas direi que ali havia poesia, um sanitário imundo, caldo de mocotó com farinha de mandioca crua e passagens para universos paralelos.

“Sabe…eu gosto de você. Um menino bom, inteligente, mas burro. Questionador, amante gentil para as senhoras. E burro. Já te falei que você é burro?”

“Já Maurinho…muitas vezes.” E ele riu, modesto.

E levantando um copo de conhaque vagabundo, me cutucou com um dedo rugoso no peito.

“Este seu pseudônimo aí, Emmett Louis…”, e arrotou. “Me lembrou um outro Emmett.”

“um que?…”

“Não me interrompa! “E ele chorava.

“Emmett Louis Till. Um menino negro americano. Assassinado por supostamente ter assobiado para uma mulher branca.”

E acendendo um cigarro com gestos inseguros de ébrio.

“Acho que foi…em Mississipi?”

E a conversa continuou. Contei a Maurinho sobre Eliahu e Iliya, o judeu e padre ortodoxo russo com quem privava, contei que os conhecera por acaso, na banca de José Einaldo, na rua Tabor, no Ipiranga, em São Paulo.

Contei que ambos me disseram a mesma coisa, que eu era um idiota. Inteligente, perspicaz, mas um idiota.

Contei que me advertiram ambos sobre os sábios, sobre a funesta influência que os sábios tinham sobre as pessoas.

Contei para Maurinho as ideias de Eliahu e Iliya, de seus medos, de suas desconfianças do mundo.

Maurinho riu.

“tá!”

“Tá?” Eu.

“Tá, gostei destes putos aí…”

Maurinho requereu, gentilmente, que se renovasse sua dose do enojante conhaque Padre Cícero e mais uma cerveja para que, a moda de seu Major (Maurinho amava Jorge Amado), se desfeiteasse ao conhaque.

“O mundo é assim, sabe? Bobo.” Maurinho.

“Então é preciso que haja pessoas assim. São tesouro essas pessoas…” Maurinho novamente.

“Já falei que gosto de você?” Maurinho baixou a cabeçorra.

Saí do boteco por volta das cinco da manhã. Desconheço como cheguei em casa. Foi a última vez que vi Maurinho.

Este texto todo foi escrito com muita saudade de uma época, de uma pessoa.

E ainda dói.

E ainda acende, inflama.

E é isso.

E é assim.

 

 

 

 

 

Aos pequenos covardes de plantão

a essence of a dream

Ah< continuo sAbendo denAdA> nÂo è incrível? E TENHO AÍ MEU PAÍS, QUE GUARDO aqui dentro. E vejo aí os trasgos, os demoninhos, rubros e minúsculos, tentando, desesperadamente se conhecerem, parecerem, com pessoas. São não. Meu país ri e canta, por mais que doa, por mais que sangre. vocÊs, toDOS vOCês. Passarão! VOCês< oS cheiroSoS< oS VErmES DE primEirA HorA, OS PEquenos covardes com medo da aurOra.

E eis que um dia será dia, claro, de espanto e luz. E quando vier o dia, vós, somente vós, não tereis sequer o favor da serpente )MEsMO Um réptil terá engulhos ao vos deglutir(

SERà uM dIa de sonho, onde o país, a pátria-puta hoje nossa, se verá coalhada de mesas de piquenique.

E os covardes nem poderão cantar sua prosa de ganância e grito, porque sempre foi Nossa a Canção e o rito.

Ave, Vida e dOm da vida.

Meu País é ESplEnDOROSA bUCETA, uma bandeira LINDA, meu País é um torso de mulher.

aVE PUTAE!

Eu, o ghost-writer

ghost writer

Em anos pretéritos, não, não darei a exata data, mas digo que foi em tempos de antanho. Um amigo me levou até à editora e gráfica de Maurinho, o filho-de-uma-égua.

Mais outro, de uma coleção que tenho.

Pretendia eu, vejam só, que fossem meus (sinto as faces rubras só no pensar), digamos assim, poemas, postos em livro.

E então, lá, como manda o figurino, apresentei os calhamaços, os papéis, que Maurinho folheou assim como quem nada quer. Inicialmente nos estranhamos, depois engatamos uma conversa maluca, onde entrou o roquenrol, os upanixades, Regina Duarte, Yukio Mishima, Jackson do Pandeiro, Radamés Gnatalli, a vida, Miles Davis e o cerol em linhas de pipa.

Maurinho pediu discreta vênia, pedindo ao meu amigo a devida paciência,  me convidando a seguir a que conhecesse seu império.

Traduzindo, me levou por uma escusa porta aos fundos de sua, vamos dizer assim, editora, e que nos levou a um sebo que mantinha e que dava para a rua paralela (não, não direi onde. Certos pudores ainda me prendem).

Mirífico, sujo, o pestilencial sebo de Maurinho, colado à editora e gráfica, rabo com rabo, me encantou e entonteceu e tanto, que esqueci dos poemas. Era um universo, um plano dimensional inteiramente novo, onde se acharia e se achava de tudo: cordéis, romances, podríssimos acetatos e raridades tão raras que encantariam até uma virgem analfabeta.

Dali, nas estantes cambetas, me acenavam um long play do filme Borsalino (Alain Delon e Jean-Paul Belmondo), o Romance da Pedra do Reino de Ariano Suassuna, ao lado de quadrinhos dos setenta da editora EBAL, do saudoso e imerecidamente esquecido Adolfo Aizen.

Maurinho me levou até um cubículo fedorento nos fundos e de uma gaveta em uma escrivaninha decrépita retirou a garrafa medonha, que até hoje me dá náuseas só de lembrar, do demoníaco conhaque Padre Cícero.

“Olha, os teus poemas…”, disse depois de um trago bem servido, “queria que você soubesse, são uma merda”. “Não que você seja ruim, até que tem bom domínio da língua, vocabulário, mas continuam sendo uma merda, os poemas vossos.”

E continuou. “Ô menino, veja bem, existem dois tipos de pessoas que escrevem poemas: os merdas, seu caso, me perdoe e os poetas de verdade. Bota fé em mim, você não é poeta. O fato é que você é inteligente, mas quem foi que disse que poesia é para os cultos? Mestre Aderaldo era analfabeto e Luiz Gonzaga tinha pouca instrução, mas os dois eram gênios. Agora, pode me mandar à puta-que-me-pariu!”

Maurinho era pernambucano de Caruarú e fizera de tudo na vida desde que aportara em São Paulo, de segurança de puteiro a engraxate, com uma temporada inesquecível como cantor de boleros numa churrascaria.

“Eu não cantava mal e fiz certo sucesso, mormente com as damas, apesar do metro e setenta.”

Serviu-me outra dose da pestífera beberagem.

“Sabe por que me dei ao trabalho de gastar meu tempo e conhaque vagabundo com você? Bem, é que eu vejo em você um certo potencial. Um dom para a conversa mole. Qualidade raríssima!”

“Veja…” e professoralmente levantou um dedo, “eu não creio em partidos, religiões e em sistemas. Eu creio é em Maurinho, eu mesmo. Acho as pessoas…fundamentalmente idiotas, manipuláveis. Entendeu a ideia, meu mote de vida? Algum outro imbecil comum, mas você não, percebi bem antes, ficaria impressionado, enojado. Você só fica perplexo mas, seja honesto, fica também maravilhado, engrandecido e agradecido a Deus por ter conhecido um filho-da-puta como eu. Um merda que fez da merda seu lucro. Mas…como diz o poeta ou político, tergiveso…”

Me explicou então Maurinho que seu negócio, ou negócios, eram híbridos: um sebo em uma rua e uma gráfica e editora na outra. E, vejam que genial, editora esta onde publicava livros efêmeros, de pouca tiragem, que vendia em bancas de jornal, principalmente (eram os anos oitenta e não havia internet).

“Então, o que eu vendo é lixo. Livros que ensinam a falar inglês em trinta dias, livros esotéricos de merda que prometem de tudo, desde o Nirvana até o Apocalipse, manuais de prática sexual ─ ilustrados, fique claro, com fotografias surrupiadas de livros pornográficos dinamarqueses (anos oitenta, eu disse) ─ e de espionagem e os caralhos.”

“Mas…” e Maurinho fez pausa dramática, “tenho um diferencial: meus autores são, todos, americanos ou ingleses. Jones, Ferguson, McIntontosh, Knox, são todos meus contratados. Verdadeiros, claro, como os Diários de Hitler, que, aliás, estarão na banca no mês que vem.”

Fiquei pasmo e tanto que me servi de outra dose generosa.

“Então, caro poeta, a proposta que lhe faço é esta. Quero, ambiciono seus serviços para que seja o senhor meu mais novo contratado, com um pagamento de merda, é claro, para que me escreva estes livros, sob glamuroso pseudônimo. Inglês, esclareço.

Amigas e amigos, tremi.

Mas permitam que vos diga que desisti de publicar meus poemas. Aliás, me garantiu Maurinho que se eu o quisesse ele os faria, mas toda a edição seria por mim paga.

Acho, acredito, que foi das decisões mais sábias que tomei na vida.

Entretanto, quanta riqueza eu trouxe à literatura!

Como escritor fantasma de Maurinho me deliciei em entregar às bancas de jornais obras hoje inesquecíveis.

Ora pois, quem, senão eu, sob o nome de Eaxton Boisen, criou o fantástico detetive Stuart Paxton, que resolvia os mais intrincados casos, enquanto comia a mulherada toda? Quem, me digam quem, poderia ter cometido O Manual da Maçonaria Universal pela pena do Professor Boanerges Cotrim (único autor que psicografei com nome português)? E que me dirão da Prática Sexual Dinâmica, assinado pela correta doutora Hope Richardson?

Falei da famosa série da sedutora Rebeca Claxton? Agente secreta da Dragon, agência secreta de espionagem, ramo do MI-6 inglês, que perambulava pelas camas de milhares de homens, descobrindo-lhes todos os segredos?

Procurem, devassem os sebos. Quem sabe vós, pessoas do bem, não encontrarão ainda um exemplar sobrevivente?

Todos de minha alçada e habitantes leais de bancas de jornais paulistanas até o final dos anos noventa, ocasião em que Maurinho teve o seu ataque cardíaco programado e final e sua editora e sebo foram para o limbo.

Compareci ao enterro e “bebi ao defunto”.

Era um dia frio de junho.

Muito frio.

 

 

 

A PRISÃO DE WILD MARCIONÍLIA

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COSMIC VOYAGE – By Skmoon-d7anzbl – DeviantArt

 

 

No dia em que Wild Marcionília foi presa, eu chorei.

Vozes sem conta comemoraram sua prisão. Oro Bonfá, dono de cinquenta e três luas de mineração e pelo menos dois planetas terrestroides inteiros abriu seu palácio do prazer com mesa farta, prostitutos e prostitutas à mancheia e de graça e um discurso inflamado que terminou com a morte programada de Maatu, o verde, o putinho mais famoso de todos os tempos e que deve ter ganhado ali os seus milhões e remida aposentadoria, assim que revivido.

E havia o Grande Juiz, autor do mandado de prisão, a quem se prodigalizou grandes comendas, com uma ou duas canonizações em mundos de fronteira.

Wild Marcionília, claro, não foi poupada de nada e por ninguém. Perguntaram às multidões reunidas em torno do Templo em Nárnia: Marcionília ou Barrabás? E as massas urraram.

Entretanto (permitam-me o entretanto), Wild Marcionília, a mais nova presa política do século, não pareceu se dar conta de que tinha um papel a cumprir nos planos do Grande Juiz, nos planos da Grande Babilônia, nos planos da Casta Dourada e não se apresentou na hora e dia previstos.

Conta-se que a guarda pretoriana do Templo veio toda paramentada em glória para sua prisão, com direito a holofotes brilhantes, trovões e raios multicores. Um dos discípulos de Marcionília seccionou com sua adaga à orelha de um dos guardas e Wild Marcionília o deteve só com seu olhar e sorriso, para a seguir recompor a orelha.

“Qual o teu nome?”, perguntou o Grande Pretor.

“Meu nome é legião!”, respondeu altivamente Wild Marcionília, reconhecidamente uma das demônias mais combativas e impiedosas de todo o Xeol.

O qual, aliás, não é nome de planeta mas de um específico inferno.

No dia em que Wild Marcionília foi presa eu também ri. Um riso contido, sereno, como compete a um filho-da-puta de escol que sei que sou.

Sobre o fascismo que habita debaixo de nosso couro

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Dignidad – Ron Vargas – DeviantArt

 

 

Em data incerta de ano incerto passei uma temporada em Ciudad Del Este, aquele grande monumento ao brega dinâmico, aquele mercado Souk plantado no rabo da América do Sul.

Foi das melhores épocas de minha vida. A começar pelo cheiro, presente em todo e qualquer canto, suponho que uma mistura de especiarias da culinária local com as emanações dos corpos, dos deuses também locais e das almas.

E foi lá que aos poucos, aos poucochinhos, nos devagares, que notei os olhares, o conjunto de esgares, as expressões todas confazentes, as periferias dos olhares dos paraguaios, circunvagando meu rosto, não me dando a cortesia sequer do desprezo. Eles se lembravam de outros tempos, onde nossos avós de mãos dadas com avós argentinos fizeram ali coisas, muitas.

Suspeito, acho, que não me tinham qualquer ojeriza pessoal. Me viam, me inspecionavam no geral, não como pessoa, mas como símbolo. O mesmo comportamento que vez em quando nos acode quando nos vemos ante um gringo qualquer, europeu, americano ou japonês, mas mormente mais quando americano e europeu.

Não desgostamos do moço ou da moça. Só temos é gastura, uma reação estomacal de raiva ancestral.

E assim os paraguaios comigo, conosco. Talvez também os bolivianos, de quem tomamos o Acre. Como os mexicanos tiveram tomado a seu Texas.

Mas então o Paraguai e Ciudad Del Este, antes Puerto Presidente Stroessner, em homenagem ao ditador de plantão da época.

Era e acredito que ainda é lugar quente e alegre e triste, ao seu modo tão peculiar de conciliar tristeza com magia.

Povoada com e por pessoas trilíngues, de pedra. Um lugar com partidas de futebol, circo com calendário e todo o mal que se espere, de todas as safadezas mais que esperadas, com seus ódios e tesão.

O fascinante cu de nuestra américa, a capucheta do cão.

Mas os rostos das pessoas, amigas e amigos, os rostos! Velhos, sorridentes e dotados de uma sabedoria que se pressentia quase como dor, se confazendo em gestos de polidez que escondiam mágoa velha.

A vida se decide é nestes rostos, nos humildementes, nos falares atrás de pilastras, nos cochichos atrás de monumentos de fundadores, foi o que atinei e atino.

Jesus caminhava por Ciudad Del Este, insuspeitado. E disputava o espaço com os espíritos abissais de antigas divindades indígenas destronadas, com quilômetros de extensão.