ZAT ZAP, WHATSAPP OU O AMOR: Uma crítica. Ah, e Camões.

CAMOENSCARALHO

 

 

 

[ZAP PERGUNTATÓRIO

— Jamila, já te mandei mais de dez “zaps” e você nada. É importante prá Mim.

— Jamila, somente uma crítica, é só o que eu te peço.

— Cê recebeu o anexo ou não?

— Jamila!!!

 

ZAP RESPONDETÓRIO IRADO

— Querido, que eu me lembre, estamos separados há três meses, ou quatro. Não sou mais tua mulher, que dirá leitora beta.

 

ZAP PERGUNTATÓRIO

— A peça, Jamila. Consegui começar. Vai, critica, aconselha, responde! Por favor?

Segue: ]

 

 

 

OS LUSÍADAS in concert

 

 

 

Ato Primeiro –

Cena 1 – Um tablado simples: uma cadeira no centro do palco, pode ser extremamente luxuosa ou humílima, a critério da montagem. Um cesto de flores a esquerda e um laptop a direita. Atrás, ao fundo, há uma grande bandeira com a cruz templária e à sua frente um manequim feminino vestido com trajes gregos (seja lá o que for isto).

Um ator, o chamaremos de Lula[i], adentra ao proscênio, vestindo uma calça jeans e por cima trajes digamos, “camonianos”, uma grande sobrecapa recobrindo um gibão de couro, uma espada à cinta, um tapa-olho, uma bengala entalhada, um chapéu e claro, tênis. Lula[ii] consulta seu relógio de pulso e olhando firme para a plateia, começa a declamar a plenos pulmões:

 

LULA

 

recitando:

As armas e os Barões assinalados

Que da Ocidental praia Lusitana

 

Por mares nunca de antes navegados

Passaram ainda além da Taprobana,

 

LULA

 

com uma cara marota, como se explicasse:

…um lugar longe, muito longe…

 

 

LULA

 

Em perigos e guerras esforçados

Mais do que prometia a força humana,

E entre gente remota edificaram

Novo Reino, que tanto sublimaram;

 

LULA

 

Apoiando-se na bengala, jocoso e professoral:

– …com isto se começa os Lusíadas, que é do que falaremos aqui. E também das memórias gloriosas, daqueles reis que foram dilatando a fé, o império; e as terras viciosas de África e de Ásia andaram devastando…notem que cito em minha fala e em minha fala cito, o que é uma outra forma de dizer que não falo de fato, senão palro, como um papagaio dedicado.

 

Coça o saco meditativamente.

 

LULA

 

…notem ainda que procuro compor o tipo camoniano; roupas, uma idade provecta e um cajado, pois Camões foi tipo assim um Tirésias “galego”, se me permitem a fraca piada e a ainda mais pobre comparação…

 

Hesita. Levanta as mãos como se fosse declamar e desiste. Senta-se na cadeira, ajeita as roupas e peida desconfortavelmente. Pede desculpas à plateia com um risinho envergonhado. Recita:

E aqueles que por obras valerosas

Se vão da lei da Morte libertando,

Cantando espalharei por toda parte,

Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

 

Vocês aí no fundo são, se é que ainda não o perceberam, a plateia, o público, sabem? E eu, evidentemente, sou o ator. Bem, qualquer um percebe: é só procurar o sujeito falando sozinho e vestido como uma louca…(ensaia uma expressão de profunda tristeza, mas a seguir faz um trejeito bichado, como que a contragosto) uuuuuuui!

Bem ó público, só para informar vocês melhor eu, vamos dizer assim, vou agora compor uma epopeia sobre uma epopeia. Isto é, vou falar sobre Camões, que foi assim o primeiro epopeieta da língua que deu certo. (Faz um ar interrogativo, como se alguém da plateia tivesse feito uma pergunta) como é, o que é uma epopeia? Bem é alguma coisa como um “rap” bem comprido, só que escrito em português quinhentista.

 

Levanta-se e começa a andar pelo palco, vai até o laptop e coloca para tocar um fado-metal. Da cesta a seus pés tira flores, que cheira uma a uma e vai atirando-as ao público conforme discursa.

 

recitando:

Cessem do sábio Grego e do Troiano

As navegações grandes que fizeram;

Cale-se de Alexandro e de Trajano

A fama das vitórias que tiveram;

Que eu canto o peito ilustre Lusitano,

A quem Neptuno e Marte obedeceram.

Cesse tudo o que a Musa antiga canta, (segura no próprio pau com cara safada)

Que outro valor mais alto se alevanta.

 

LULA

 

Sabem, esse negócio dos Lusíadas é como se fosse a bíblia ou uma vizinha ou vizinho gostoso: todo mundo fala, mas ninguém ainda pôs a mão. Quer dizer, quem aqui já leu Camões? Sério, quem leu? (Aponta para alguém da plateia, de preferência que tenha uma esposa(o) ou namorada(o) ao lado) O senhor(a) aí, por exemplo, vamos lá, seja franco, olha aqui para a lente da verdade

Mãos na cintura, mirando alguém na plateia.

O senhor(a) já leu Camões? E a bíblia? (Lula pode desenvolver um diálogo a seu bel-prazer, se encontrar condições para isso).

 

[ZAP PERGUNTATÓRIO

— Jamila, fala aí. E então?

 

 

ZAP PERGUNTATÓRIO

— Jamila, já te mandei mais de dez “zaps” e você nada. É importante prá Mim!

— Jamila, somente uma crítica, é só o que eu te peço.

— Cê recebeu o anexo ou não?

— Jamila!!!

 

ZAP RESPONDETÓRIO PONDERADO

— Querido, que eu me lembre, estamos separados há três meses, ou quatro. Já te falei? Não sou mais sua mulher. Tá bom, vamos lá.

— Olha, que porra que é issaí? Sei lá, não vi grande coisa. Ah, que veio…hein?

— É o que? Um alterego do Camões com TPM. Lobo Mau na andropausa?

 

ZAP PERGUNTATÓRIO

— A peça, Jamila. Consegui começar. E vem você…Jamila, você nunca me amou!!

 

ZAP RESPONDETÓRIO IRADO

— Augusto José, é somente uma crítica, tá? Não leva a mal. E, olha Augusto José, são dez horas da noite e eu estou aqui, tendo paciência com você. E tem um sujeito aqui, sabe Augusto José? Tem Alguém, o meu atual, o meu caso de agora, que tá ficando puto, Augusto José!!!

— Cê percebeu ou não?

 

ZAP PERGUNTATÓRIO

— Sei.

 

ZAP RESPONDETÓRIO

— Dorme, Augusto José ]

 

LULA

 

Toma de uma guitarra e entoa:

Olhai de que esperanças me mantenho!

Vede que perigosas seguranças!

Que não temo contrastes nem mudanças,

andando em bravo mar, perdido o lenho.

 

Fecha o pano do primeiro ato.

 

 

 

 

[i] Lula, apelido de Luís. Luís Vaz de Camões. Não necessariamente um molusco cefalópode e nem o presidente.

[ii] Tá bom, foi uma provocação.

 

 

A dama do lago

Philip Meadows, detetive particular?

É o que está na tabuleta da porta.

Meu nome é Hope Spatchcook e eu preciso encontrar uma pessoa, senhor Meadows.

Uma pessoa, sei, quem…?

Eu mesma. Preciso desesperadamente me encontrar.

Hum…interessante. Bem, vou precisar de algumas informações, senhorita Spatchcook.

O que quiser senhor Meadows…

Me descreva esta pessoa, como ela é?

Oh, muito confusa, um pouco fútil, dada a “intelectualismos”…

Sei, conheço o tipo. Crença?

Bem, eu, quer dizer, ela, não crê num Deus antropomórfico, mas numa força que sustenta a tudo e a todos…

Hum, uma devota da Eletropaulo, sei. Como a definiria em termos filosóficos?

Basicamente Kantiana, mas com influências de Bergson e Heidegger. Um pouco anacrônica como vê…

Utilitarista?

Mais prá intuitiva…

Vida amorosa?

Bem, ela se entrega de corpo e alma ao ser amado…

Passional, hein? Vida sexual?

Uma fornalha, um motor a explosão que se entrega ao prazer como se fosse a última trepada, desculpe, como se fosse a última vez…

Sensualista imoderada…sei. Onde posso encontrá-la, onde anda?

Pela vida e pelas noites, em caminhadas soturnas rumo ao amanhecer…

Certo, acho que já tenho o bastante. São setenta e cinco dólares por dia, mais despesas.

Posso pagar com cheque?

Deixe-me ver…crê na Eletropaulo, ama que nem doida, trepa como uma cabra e é maluca…não, é melhor me pagar em dinheiro mesmo.

A ÚLTIMA POSTAGEM DO BLOGUE

“Meus Deus, Flash, ele fala sério?”  Buster Crabbe & Jean Rogers in Flash Gordon

 

A coisa sobre os blogues é que quem mantém um geralmente não pensa muito sobre a coisa.

Me explico (tento).

Para que manter um blogue? Vejam, não estou tentando ser engraçado e nem mesmo tentando brincar com paradoxos.

Mas, para que manter um blogue? Você está em casa, escrevendo sozinho para, sejamos francos, para ninguém. Mesmo que umas poucas almas de bom coração leiam o que escreveu, quantas lerão até o fim? Ou mesmo, quantas entenderão?

Isto, considerando que você consiga entregar um bom texto, o que nem sempre é o caso.

Isto considerando que o meteoro que está agora se aproximando do planeta não caia em sua cabeça.

Se você me leu até aqui gostaria que soubesse que sou um grande mentiroso e que não pretendo seja esta a última postagem do blogue (mas pode ser, o meteoro, a vida, o infarto, etc.), mas não pude resistir, não senhor, não deu, bateu aquela vontade de escrever merda e eu pensei por que não escrever merda?, daí eu escrevi merda.

Mas antes de escrever merda eu executei cuidadoso trabalho de planejamento, sim senhor, nada de uma merdazinha qualquer, flácida e infedida.

Não, pensei numa merda filosófica e autorreferente.

Mirei meu próprio rabo e pus a mão, na obra.

Por que então escrever num blogue?, ora, oras, pensei que soubessem!

Porque escrever em blogues é receita certa para uma pele viçosa (anotaram, meninas?), evitar a impotência (certo, rapazes?) e, mais importante, cura a escrófula.

Duvido que alguém leu até aqui.

Ô vida.

 

 

INTERNETÍADA

JOÃO MARTINS ATHAYDE - By Mendonça


Para Dom Mariel Fernandes. Poeta, trovador e soldado da fortuna. 
Emissário Del-Rey em nossas províncias do Sul

Do fero tempo o afã internético

O fantasmal espaço, a expansão

O pasto digital, o céu sintético

Incondicionalmente, o imagético

O solitário vão, a escrotidão

(

)

Oh, solário feicebuquiano

Oh, caos mais que atroador

E eis-me aqui, corintiano

E voador

e eis-me aqui, filho-da-puta ufano

(

)

Oh, bundas matizadas de açafrão

Oh, carnaval de peitos, cintaralhos

Vos buscarão os blogues em baralho

Vos buscarão na casa do caralho

Colecionados cús em suspensão

(

)

Oh, Fecundíssimo e fugaz puteiro

Oh, Felicíssima Thule de deleites

manando mel diáfano, apanhei-te

Do verbo iracundo de Bill Gates

(

)

E ria o Zuckerberg, doce e terno

E clame a voz novel do internauta

E voem os Archivos sempiternos

Verão fugaz a não se dar por falta

Sobre urubús, índios e a eterna impaciência dos jovens

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Don´t Be Shy – by The Tundra Ghost – DeviantArt

 

─ O problema é que não sabemos mais hoje do que sabíamos ontem. Só que o ontem foi há dois mil anos! Aí é muita coisa prá não se saber.

O falante se calou. Era um urubú-gereba belíssimo. E muito culto, por sinal.

O velho índio ponderou.

─ Prá mim não tem esse negócio de mil, dez mil anos de experiência. Bobagem. Você aprende um ofício em um ano, atinge a excelência em dois, daí você só replica a coisa até a morte.

O velho índio calou-se, pensativo.

Usava uma também velha calça jeans. Sua tribo havia sido extinta já no descobrimento  e atualmente ele vivia em uma aldeia guarani em São Paulo, fingindo ser um guarani.

─ Espero que não estejamos aborrecendo você. ─ Disse educadamente o urubu-gereba para o garoto de doze anos, os encarando assustado na outra ponta do banco de jardim.

─ Você deve nos perdoar, já somos um pouco entrados em anos e as vezes nossa palestra pode ser arcaica…

─ Para não dizer estranha ─ completou o índio velho.

─ Sim, sim, mas não entenda mal, ─ disse pressuroso o urubu-gereba, eriçando uma pena ou outra. ─ Não sou gentinha, não senhor. Meu pai era garbosíssimo, um portento mesmo, eu diria.

E como se contasse um segredo. ─ E por muitos anos foi guia espiritual de inúmeras tribos do Brasil pré-histórico. ─ O velho índio piscou para o garoto e depois passou a olhar intensamente o céu. ─ Minha mãe, então…algum problema, Climério?

─ Nenhum, Romão, você me conhece.

─ Bem, relevemos.

─ Relevemos. ─ Secundou o velho índio.

O garoto se achegou mais ainda para a ponta do banco, ensaiando uma fuga.

─ Sem embargo, talvez você mesmo ache estranho ver um urubú falando… ─ começou, mas aí o garoto já estava em disparada e sumiu de vista.

O velho índio tirou um cachimbo velhíssimo do bolso traseiro das calças e começou a encher de fumo, na maior calma do mundo.

─ Dia destes a gente vai ser preso. ─ E meneando a cabeça.

─ Cê sabe, talvez não seja uma boa época para um pajé de dois mil e tantos anos e um urubú espiritual… ─ completou com uma baforada filosófica.

─ Vai se foder, Climério! ─ O gereba começou a alisar as penas do peito, amuado.

─ Além disso, eu sou da fauna nativa. Crime inafiançável, sabia?, mexer comigo.

─ Então tá.

Por via das dúvidas, saíram meio que correndo, meio que voando.

 

O CORINTIANO VOADOR VOLTA A PREGAR. LÁ NO DESERTO, EM RIBA DO MONTE.

Ouroboros-dragon-serpent-snake-symbol

 

…e então eu pensei “por que não fazer ela redonda?”. Pronto, tava ali a solução, mas somente eu, euzinho, tinha topado com ela. A bola, o craque, o transporte de massas, tudo veio depois. Até mesmo o Barcelona.

Mas e aí, me elogiaram?, o chefe deu tapinhas no meu ombro?, o xamã da tribo fez sinal de positivo?. Necas. Nada. Faz quinze mil anos e foi justo desse jeito mesmo que aconteceu.

Cumé?…ah, tá, as manifestações…certo. Bons dias, Brasis.

Então tá. As pessoas do bem ganharam as ruas. Viram?. Deveriam ter visto. Vejam a retrospectiva: Ói lá um…viu? Ói lá outro, o de camiseta com slogan. Notou?

No começo eram trevas e o MPL do B só queria…queria, já nem lembro mais. Mas queria. Teve.

Aí entraram outros e outros e outros, lembram do cara ali?, tão vendo?…perto dos nóias e do lado do poste…isso, os que estão babando.

E as coisas continuaram e chegaram os que não gostam de político, os que odiavam a Dilma, os anticorruptos, qualquer um servia, os Black Blocs (assim, em inglês, para pronto entendimento), os…um monte.

E chegaram mais. Era massa. Era movimento.

Falar nisso, vitoriosos, derrubamos a Dilma. Depois fomos prá balada.

O povo. A massa.

Aí, não devolveram o meu porrete ainda!…

Pulhas!

BORGEANA, COM MOTE DE SUASSUNA

armorial

 

 

Salve ó Senhor. Sou marinheiro

Coroado por números, inteiro

E ainda assim é noite, tempestade

Farto de bondade, mas a tenho

 

Não sei sorrir, o duro cenho

Tenho a pena e meu sangue

Por tinteiro

 

O último e perverso Hassidin

Israel Baal Shem pensava assim?

E ainda assim, inteiro?

Sobre fantasmas, avós e avôs e pequenas magias escolhidas

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Tree Swing – By Tina – DeviantArt

Não, não estou falando que sou classe média e nem tampouco estou falando que não o seja. Classe e média estão muito presentes no meu modo de ser. Talvez o pertencimento à classe média seja não uma escolha ou nem mesmo uma condição, mas um modo de ser e de pensar. Alguma coisa entre o céu e o inferno. Alguma coisa entre Dante Alighieri e Ferréz. Uma questão de gosto adquirido. Uma cachaça.

Sei que meus pais eram nordestinos, o que não diz tudo. Na verdade, diz muito pouco.

Não sei se me envergonho, mas meus avós, os dois, maternos e paternos, não eram agricultores. Não eram de lavra. Sei que compravam barato e vendiam caro, explorando, conscientemente aos miseráveis ao derredor.

Minha mãe me informou que seu pai era o que então se chamava inspetor de quarteirão. Vale dizer, um apaniguado. Um pacificado encarregado de pacificar.

E eram estranhos os meus avós, pois que alfabetizados.

Meu avô paterno mantinha um diário onde relacionava seus negócios, os acontecimentos do dia e o nascimento de filhos diversos.

Minhas avós sorriam e choravam na sombra, mas não eram menos presentes. Talvez que fossem mais vivas, mais atuantes, mais insinuantes, porque agiam a partir da sombra onde viviam.

Bruxas, descendo de.

E todos eles viviam vidas mágicas, vendo e convivendo com pequenas magias, hoje inacessíveis. Viam pessoas mortas, negociavam com o invisível.

Meus avós paternos diziam ter se encontrado, certa vez, com um fantasma alvíssimo, abissal de tão grande e diáfano, pairando no meio da rua.

Minha avó paterna viu uma mulher morta no reflexo da água de seu banho ritual de sexta-feira.

Minha avó materna salvou um rato semiafogado, boiando em uma enchente, sugou-lhe a água de seus pulmões pelo seu nariz e depois o deixou ir. Após a operação fumou um cachimbo com fumo-de-rolo para “tirar o gosto”.

Esta mesma avó descobriu uma cobra ao lado do leito de seu filho recém-nascido. Depois de imobilizá-la, jogou-a em um quintal de uma madrugada de verão e foi dormir.

Minha mãe dormiu em uma palhoça com uma suçuarana escavando o chão de sua porta.

Eu, com cinco anos, tive febre e delírios diversos e tremi ante o horror de ver imagens de santos estampadas em vermelho na parede de meu quarto.

Não se trata de estilo, nem coquetismo. É só mais uma noite.

Acho que é tudo, por hoje.

Avós, Durmam!

MUNDOS DISTÓPICOS, ROBERTO CARLOS E A VIDA COMO ELA É

homem-invisivel

 

 

Em 1984,  pressentindo uma tempestade que se aproximava, Mateus José caminhou pela Rua dos Patriotas e desceu até a estação ferroviária do Ipiranga.

 

Em 1981 Mateus José comprou um livro em uma banca de jornal, defronte à estação ferroviária de São Caetano. Era o Ulisses, de Joyce. Ele só leria o livro anos depois, durante uma temporada de desemprego.

 

Em 1978 Mateus José ia para casa em um ônibus, por volta de 14h00min (ele havia sido demitido e não teria que trabalhar até as 17h30min), ocasião em que ouviu e nunca mais esqueceu a música “Para ser só minha mulher”, de Roberto Carlos. Ele sempre associaria a canção ao amor e aos dias frios.

 

Em 1982 Mateus José foi apresentado a Blade Runner, no Cine Gazetinha e nunca esqueceu o pombo nas mãos de Rutger Hauer, alçando vôo.

 

Em 1989 Mateus José trabalhava no turno da noite em uma transportadora, ocasião em que viu luzes no céu. Uma delas lá permaneceu por horas a fio, depois deslocou-se em alta velocidade até o horizonte e desapareceu. Anos depois, comentando o ocorrido, negou-se a usar as palavras “ovni” ou “ufo”, dizendo que vira luzes se movendo e nada mais.

 

Em 1986 Mateus José fez amor pela primeira vez com uma senhora muito simpática que ele achava que jamais iria dar, mas deu. Achou muito estranho que a mesma simpática senhora, tão bonita e desejável, tivesse chegado ao orgasmo (Mateus José não confiava muito no universo e nem em si mesmo e sempre esperava pouco da vida).

 

Em 2013 Mateus José foi flagrado em estado de êxtase que durou horas, depois que uma revoada de garças  sobrevoou sua cabeça em um manguezal de Cubatão.

 

Em 1972 Mateus José era uma criança e num dia chuvoso olhou para o morro cheio de árvores e nublado e conseguiu sair (por breves momentos) para fora da Eternidade. Ele nunca mais repetiria a experiência, mas nunca duvidou dela (ao contrário da maioria). Até porque sempre conseguira, quando criança, sair com certa regularidade para fora da Eternidade se a ocasião fosse propícia.

 

Em 2031 Mateus José foi recrutado pela Patrulha do Tempo.