eis que

Um dia você está no alto Solimões e no outro você está morrendo em uma enfermaria. Tudo isto que está aqui, na enfermaria, não tem sentido. Só o alto Solimões, somente. O caso é que você não recebe visitas do modo correto, num quarto particular. Tudo isto aqui deveria ser diferente. Faria, acho, acredito, acho, suponho. Uma grande diferença. Sem contar que nem existe o alto Solimões. Só Janaína que é uma porca que pensa que é camelo e que nem está aqui.

É um bom começo. Toda paramentada com calça preta de tecido sintético, uns óculos em meia-lua, a asquerosa enfermeira catolicona, a miserável que anda de cama em cama fingindo que dá atenção pra gente, usando aqueles crocks horríveis, verde-vômito.

Os celulares em perpétua consulta. O pessoal médico twita. O Twiter. Um dracma. Como é que se fala? Uma? Um dracma por seus pensamentos mocinha de couro sintético vermelho-hemorragia passando a mão nos zigomas do velho de cabelo branco e aquela baba viscosa caindo por uma fenda que atravessa o colchão e vai dar na planta esquisita, no vaso, na recepção.

Só mais um dia você está no alto Solimões.

Mais lá em cima, no quarto particular este autor onisciente pode captar as passadas covardes de um rabino em começo de carreira, ainda na fase de visitar frigoríficos e fazendas para examinar e certificar o rango kasher. O fantasma silente do meu lado, ôs carái da porra, e o Jornal Nacional. Tô te vigiando filha-da-puta, tô te vendo, corno de terno na bancada e aquela moça lá no fundo fingindo que tá prestando atenção na tela do computador. A japonesa médica usa calcinhas cavadas mas eu ainda penso em Janaína e na casa da rua Aurora, com seu jardinzinho decadente que só fica legal em dias frios, quando a gente pode entrar e se perder no universo paralelo logo atrás do mamoeiro onde pasta o cavalo de sexta-feira.

Us carái da porra. O cabelinho nas ventas da moça da limpeza me parece tão terno, eu quase choro. Pôtaquemepariu, tão colocando o que no meu bagulho de soro? O capitão Ahab mergulhando com a baleia e eu junto de tempos em tempos. Desço lá no fundo, dendalei. Suzane Roussi. Pombas verdes iguais, da cor exata dos crocks da biscate catolicona, enfermática. Dúctil e dócil. Dulcíssima flor-de-bananeira.

Eu quero um feicebúqui só pra mim. Um zatzap, uma nave-caça boiando na atmosfera do planeta. Anotou? Cornófilos! Pombos-giros. Vou tomar até o último cordeiro de Deus! Vejo, prevejo, faço. Sozinhão, mas atento. Pútico.

Eis que.

Ói o moço da Samu. Ói a luz.

Eis que.

“Tá me ouvindo?”. A catolicona bota um jeitão atento no rosto e sorri pra…pra japonesa, a médica. “Ouve não, doutora…delira, fala umas besteiras…”

“Tô falando com ele. Se importa?”. Tomou no cú cristão renovado, né biscate? Me ajeito na cama e a porra da agulha de silicone me fode o braço. “O senhor me ouve?”. Olho. Jogo meu sorriso pro coração-de-Gézuiss estampado, soltando fumaça, na bata azul dela.

“Ouço. Tem umas pirilâmpsias me aporrinhando, mas tão bem…as oiças. Brigadim.”

“Num falei?”

“Senhor, eu preciso que você me confirme, sabe?…que me ouve, tá bem?”

O paralelepípedo gordo, lá embaixo na rua. Sinto ele. Sinto a coruja planando, cuidando do ninho dela. Sinto o movimento dos mortos dando voltas no quadrado besta da enfermaria, os putos. O gosto das balas de menta, o cheiro de bucetas jovens, o desinfetante sinto também, meu cachorro que já morreu há vinte anos.

“Eu ouço. Fácil ouvir você, toda grávida de duas semanas. Ouço teu bisavô, o Takehide, véi chato da porra”. O bagúi no meu soro!

“Filho-da-puta! Cumé que soltou essa agora?”

“Doutora…?”

Janaína, minha porca.

“Senhor?”. Só mais um dia você está no alto Solimões.

Os trinta e seis tzadkim examinando um prancheta, como uma junta médica. Corretos, plácidos. E eu sei. Sinto o cheiro da aurora, de mato fresco.

“diminui a dose. Pela metade. Quem que entra agora?”

Eu queria visitar frigoríficos! Ir bem bem lá na graxaria e abençoar tudaquilo, fazer virar rango kasher. Ácido oleico animal. Escopolamina. Chá-de-lírio. A seda dos quimonos, o congresso.

Eis que.

Tengo-lengo-tengo, lengo-tengo, lengo-tengo.

Eis que.

Espelho partido, deusa, crise. Eu coloco o hospital todo no meu coração gris, de velho. Abençoo tudim e rio para a minha médica gárula, lindamente grávida. Abençoo suas dobras epicânticas pronunciadas, sua calcinha branca. Seu feto me diz oi. Abençoo o puto também.

Abençoo o bisturi de Deus.

Me comovo.

“Takehide amava você, mas amava mais a cachorrinha perneta, a Lilica. E amava mais o nascer do sol.”

“Tô falando que é doido…”

“Caralho…”

Minha médica linda chocada, vai pra outra cama, a do velho de cabeça branca.

O mundo é um moinho. Vai si fudê, Cartola! O congresso dos deuses vai começar daquiapouquim, reservaram o corredor. E eu ligo? Ligo não, bobão! Tô é longe. Bobinhão, bêstico, enrolado neste cobertor de merda. Me identifico, me mapeio.

Eis que.

Fui lá longe e inventariei a cidade, trouxe novidades mundanas, trouxe uns tóxicos novos, interessantes, mais cavalheirescos que o bagúi pingando no soro, mais.

Eu tenho um passado. Um passado bôbico, subindo a torre do reator de fragmentação lá na refinaria e descendo pelas escadas de bombeiro. As moças tão boazinhas, concordando em ficarem nuas comigo, também nu. A magia de Abra-Melin, o questionário do pós-morte que eu um dia sonhei e não me lembrava mas que agora voltou na memória. As madrugadas filhas-de-umas-putas geladas, o cinema de bairro, o Startrek, a Academia de Ciências de Vulcano, o tenente Yonoi, a pomba voando da mão do replicante, Thelonious Monk e Roberto Carlos às duas da tarde gelada de junho.

Dormito.

Lembro dela e fico de pau duro. O bagúi de novo, no soro. Engraçado. Dá paudurecença. Tesãozim tão bem-vindo essaí, de lembrar dela. Meu deus. Deuzim meu, os peitos tão cheirosos! Cumé que mulher tem peito assim, tão cheiroso, seivoso, de gosto marrom, de gosto rosado, de gosto preto às vezes! E a curva da bunda, planante, como uma tartaruga cósmica planando em derredor da pedra. A bunda. Todo um mistério de bunda para que você aperte. Viu? Vi eu. Coisa pra se guardar no lado esquerdo do peito, né Milton, o Nascimento?

Oswaldo cantando Uno. Uno busca lleno de esperanzas, El camino que los sueños, Prometieron a sus ânsias. Tu era bom, cara! Yamandú gosto também. E o gosto áspero da língua, a liturgia dela, pessoal, o derramar. E o Steely Dan? Gézuiss, Ed Mota que me apresentou. Rikki don’t lose that number. E Yukio Mishima? E o roteiro cinematográfico de Rio Pequeno, dos Tonicos em confabulações com os Tinocos?

E lembro dela. Mania besta daquele rosto o de rir, capturando cada momentim da manhã.

O enfermeiro da manhã enfia o troço no meu pinto e pergunta se quero mijar. Besta! Quero é me perder na BR 3, com o tal do Jesus Cristo feito em aço. Quero é ouvir a abertura da novela Pigmaleão setenta, cantada pelas Umas e Outras, bem anos setenta, sketsch, feito os filmes italianos dos setenta, as trilhas de Michel, o Legrand, Crow, o Magnífico.

Me basto.

Quero é Caetano e a Luna LLena. La luna me está mirando, Yo no sé lo que me ve, Yo tengo la ropa limpia, Ayer tarde la lave. Quero é quebra-queixo, quindim, galinha-ao-molho-pardo, o sarapatel quântico, o mocotó-de- Schrödinger.

Eis que.

Terminei por conta de que há que se terminar. O mapeamento do caos.

Só mais um dia você está no alto Solimões.

Eis que.

Ach, in meinem wilden herzen vem esta vontade de deixar de ser fresco!

Não conseguir, por bom tempo, escrever textos sobre amenidades, o azul do céu, o sol, as plantas, livros, a janela do meu quarto e quejandos, é surpresa?

É pois. Não consigo, Joaquim José da Silva Xavier, meu brother!

Phodam-se os azuys, junto com o nosso sol amarelo tão caro e precioso a Kal-El, que era mineiro, de Curvelo, mas que nasceu em Kripton, do planeta de mesmo nome.

Penso somente em meu namorado, o Corona, a manifestação mais tardia do punho de Deus. O quinto cavaleiro, de armadura de Kevlar e tênis AllStar Converse.

O que faremos, perguntou Moisés ao Senhor dos Exércitos, com os inimigos que nos assediam?

“Pau na moleira!”, ripostou Javé Jeová de Jesus.

E tudo, desde então, é questão de interpretação. Coronavirus, Sars-Cov. Coagula et solve.

O azul do céu, o sol, as plantas, livros, a janela do meu quarto e quejandos.

Todo mundo deveria namorar uma mulher de nome Epifânia. Ou Damares.

LUCIPHERUS

Onde foi mesmo? Sírio. A leste da azulada? Não, mais prá esquerda. Eu era muito jovem, compreende? O céu era também jovem e nós dois lá, a extraterrestre e eu, abraçados. Riram muito daquilo, no Empíreo. E houve algum escândalo, também. Imagine, um mortal de outro planeta e um anjo, apaixonados.  E veio de Sírio? Não, a base ficava lá, ela nunca me contou de onde veio. Por mais que eu lhe assegurasse que não, que nunca iríamos dar as caras por lá, ela se manteve reservada. Hoje eu penso que o conceito de anjos, Deus, essas coisas, era de uma total estranheza para ela. E você? Amava? Dos pés às antenas, cada pedacinho dela. Depois degringolou tudo, fui expulso, caí. Ela se foi, depois de promovida. Gerente de relacionamentos, acho. Mas ainda tá linda, não tá? E é foto recente, tá vendo? Só não sabia do Júnior. Cala a boca, Lúcifer!

É azul o amor.
É azul o amor.

O CORINTIANO VOADOR APELA E DISCURSA, ORA VEJAM SÓ, SOBRE UM VÍRUS

Prophet Lemonade – by alexiuss – DeviantArt

O coronavirus é basicamente um envelope de proteínas contendo material genético. Material genético é um nome bonito para um amontoado de moléculas orgânicas que funcionam tal e qual o DNA e o RNA; ou seja, este aglomerado de moléculas orgânicas determinam como e de que forma funcionará uma célula.

Não sou tão inteligente assim, a informação me veio via um babalorixá digital, apelidado pelo pelo treinador do meu cão, Geraldo, de Pai Google de Ogum.

Mas, o ponto a quero chegar é que o coronavirus não é um ser vivo. Um vírus não é um ser vivo.

Mas, um vírus, que não é um ser vivo, pode afetar à vida, na medida em que invade uma célula e passa a controlar a “fábrica”, os processos da célula.

Mas também este é apenas um dos pontos onde queria eu chegar e, se possível, discutir neste espaço blogosférico. A coisa, o advento do vírus, me tocou de uma maneira profunda por conta de uma observação de Marilena Chauí em uma sua palestra que me foi gentilmente indicada pelo mesmo Geraldo, meu amigo, com quem compartilho opiniões em peripatéticas jornadas na companhia de meu cão-filósofo, Dom Miguel de Malinois. O insight de Marilena, sua observação, é de uma simplicidade planar: o real pode nos surpreender a cada esquina.

O seu, o meu ideário, nossa religião, nossa posição no campo do pensamento, nossos anelos, desejos, esperanças; nosso guru pessoal, nossas certezas. Tudo. O todo que nos formou e nos tornou as pessoas que somos, nada disto pode fazer frente ao imprevisível do real. O real, proteico como é, ainda continua sendo a melhor das porradas nesta frágil constituição que chamamos de “eu”. A porrada definitiva em nossos esquemas, planos e certezas.

O real, o Mohamed Ali filosófico por excelência.

Ou, no jargão do malandro pobre: ninguém é tão gostosinho como acha que é. O buraco é mais embaixo e frequentemente mais fundo.

Daí o coronavirus.

Meu ponto final, onde queria chegar e talvez chegue. O coronavirus não é parte da natureza. Não, o coronavirus é criação nossa. A nós pertence. Nós que criamos as condições para as megamultidões, para o hipercontato de todos com todos. Nós, que só existimos hoje como elementos, partes de uma grande interação. A maior de todas. O belga relacionado com o zulú, o chinês casado com a brasileira que tem irmã empregada doméstica do russo que viaja pela Ásia, com o pequeno traficante que vende cocaína. Do seu patrão, o grande traficante-produtor que não pode prescindir da acetona que é parte do processo de refinamento e que é vendida pela multinacional Monsanto. Ou com o ouro, que é comprado no varejo por ciganos calón de Itaquaquecetuba (para os novéis, cidade da periferia da Grande São Paulo), e que depois será vendido para atravessadores judeus hassidim na rua sete de abril, na mesma São Paulo grande, e que depois será derretido e se tornará parte de uma joia que adornará uma primeira-dama na África ou na Bulgária.

O coronavirus não pertence mais à natureza. Ele agora já merece o status de objeto de cultura. Ele é magnético, fluído, sutil.

E nós…bem, nós fomos rebaixados a vetores, elos de uma cadeia. A diferença é que agora os muito ricos descobriram que também eles podem ser afetados. Que também eles não são nada mais que insumo. Elementos de uma cadeia produtiva.

Ave, vírus.

QUADRILHA II

bicho

Ana, a avestruz que namorava Henriqueta, a águia, era prima de Caetano, o burro e de Bela Rosa, a borboleta.

Paulo, que era um cachorro, se apaixonara por Cecília, a cabra, que já era casada com João, o carneiro. Jeremias, o camelo, era solteiro e temia a língua ferina de Teresa, a cobra.

Mas ninguém mais medroso de maledicências que Vicente, o coelho, namorado de Anselmo, o cavalo.

Tudo sempre foi uma questão de maior ou menor tamanho, do amor próprio ou da coragem, dizia Clemente, o elefante, refestelado no boteco de Pereira, o galo.

Galdino, o gato, não se manifestava. Antônio, o jacaré, ao contrário, era de muito falar e pouco ver, como bem observou Severino, o leão.

No mais, Chico, o macaco e Baé, o porco, limitavam-se ao poetar tranquilo e à dança jucunda e honesta. Pedro, o pavão acompanhava na rabeca.

Abelardo, o peru, viajara para longe. Pacheco, o touro, correspondia-se com Ananias, o tigre, e tudo o mais parecia caminhar para a rotina.

Os mais sábios foram, talvez, Jacinto, o urso e Maria, a vaca, que se casaram. Teodoro, o veado, apadrinhou.

SOBRE O BRAZ CUBAS E OUTRAS MEMÓRIAS

Poucos de nós, habitantes do Bananal (como Ivan, o Lessa, apelidava a esta terra) leram ou lerão às Memórias Póstumas de Braz Cubas, do personalíssimo Machado, o de Assis.

Não, não quero comentar do livro, esta não é mais uma resenha. Ou é. Decidam.

Bem, o que me interessa pontuar é o seu começo, com o narrador dedicando o livro ao primeiro verme que roeu suas carnes frias. E depois, aquela correnteza densa que é a narração de sua pós-morte. A viagem ao final dos tempos montado num Beemot fantástico, descendo e descendo até os comecins, até às tendas de Abraão, quando o deus de Israel ainda era parte do panteão cananeu e ainda tinha uma Asherat, sua divina consorte.

Acredito eu ser este o ponto fulcral de nossa literatura. Teremos que navegar por mais de um século até que Guimarães Rosa comece o seu Grande Sertão: Veredas com o célebre Nonada, tiros que o senhor ouviu…

Então, estou falando sobre começos. Tudo e o todo que tem alguma valia se fundamenta no começo. Sua mulher, seu homem, só são seus por conta dos começos, a primeira palavra que lhe veio à mente e que valeu.

O mundo parece que funciona assim, com uma pessoa boba ofertando uma rosa, um cabra besta, uma menina sonsa. Ofertando uma rosa, uma besteira qualquer. Uma mulher a um homem, uma mulher a uma mulher, um cabra a outro cabra ou a uma outra mulher. Assim, bestamente, como quem coça os entrededos dos pés com uma régua. Sem pretensões que não a de conseguir encostar seu corpo nu ao corpo nu do outro e talvez gerar uma história. Uma gesta.

Estes momentos únicos, estas eternidades encapsuladas podem ser cantadas, como aquela música parada sobre uma montanha em movimento da canção Dois Irmãos, de Francisco, o Buarque de Holanda.

Ou o casal de namorados retorcidos de Marc Chagall.

De todo modo, começos, estou discursando (abaixem suas taças e respeitem este momento, quando falo de inícios).

Falo de começos e de memórias de começos. Comecei com Braz Cubas e com Machado de Assis.

Sei lá porque, por donde.

Sei somente que estou no agora, no momentim de agora. E chove. E é linda a noite.

Sobre epifanias…

Perder.

Em minha vergonhenta juventude eu perdi.

Era tarde, uma tarde de cinco horas de um dia chuvoso, nevoento e frio.

Olhei para minha única salvação pessoal, a única que tive. Olhei para o morro nevoento e, por um momento, saí. Mais exatamente, caí, para a eternidade.

Eu teria sete, oito anos? Não me lembro. Mas, num repente, caí para fora do mundo e tudo se tornou irrelevante, sem tempo.

Neste mesmo momento ouvi o matita-perê.

Como é que pode?

ilumiara

Flores africanas, aldeiazinhas vãs, descansadas e serenas

Lá o povo tem o reto siso e o mundo é pedra ou nem é real

Em todas as corolas chãs hão os todos gnomos e as sirenas

E Manuelas e Anfitrites e e elisângelas e jocelyns diversas e tal

De tal modo que o mudo mundo é poroso e em pedra encerra

Numa cantiga sutil de ninar ao vento, ao raio e à pedra

E nunca se cansa o papagaio, o boto-rosa e o lobo-guará

O primeiro de lamber às pedras brancas, o salitre e o último

De revirar sapos ao avesso, suas tripas branquicentas frente à lua, lá

Tudo esperando ao impaciente quase todo bom do mundo

Todo o fogo contido na madeira, roupas de bufão no varal

O coração contido no escondido vão da mão, escandido o sal

A fumaça vã do dia que nasce, pranto na conca da manhã

Todo o vento que vem e se torna um coração denso de ais

Como se a manhã fosse coleção, como se fossem ventos os sais

Sem metrificação que justifique, foda-se a poesia, a rima puta

Cunhãs.

Todo o caos da nuvem feita de algodão, tripa de pedras, dissoluta.

POEMEU DE FIM D´ANO

OUTRA PAREDE – By Voador

Então o ano acaba, dou por dito, os corações, os bofes, não contritos

Mas abertos, a bílis, o veneno orgânico, a presa do mal é soberana

Todo o desconforto, o grito, a ofensa gris, o caos e o ódio e a gana

Não a alegria, não o dom do riso, somente e só o caduceu do conflito

Ano este, bobinhão, em que cortei a asa que ligava a outro irmão

Em que meu pai sofreu, sem nem saber, mas minha mãe sabia, a sábia

Ano em que vimos ao demônio do meio-dia, e a toda a sua lábia,

Toda estratégia para o bem viver faliu, uma estrela e outra estrela

Em colisão

Uma seda e outra seda, um dia contra outro dia, o torno da solidão

E ela lá, a serpente baça, a lacraia, a pinça-mestra do escorpião

A onça tinta e rubra, o gavião de asas pretas, o lacrau alado

Saíram de locas sobrenaturais, seus corpos sobrenaturais

As palavras más no vão das bocas, o coito amargo de punhais

Pensava então que fero o mal não nos tocava, este ladrido

pensei no dia e sonhei que a tolerância afastaria ao aziago

Sonhei que o dia seria mais que uma promessa, sonhei o fado

E seria então possível amar de novo a um irmão em regozijo

E de trás para adiante, achei que pessoas que adoravam à bona dea

Seriam, pelo menos, elas, pessoas que eu acalentaria, e elas, elas

Me fariam ver que, apesar do dia e da treva do coração sem rédea

Me abririam seus tóraxes amantes e num correto instante, delas

Me fizessem crer que a luz viria do coração, no concerto da luz que ri

Não tem o coração

Importância alguma, minha mãe me disse, o coração só bate e sequer ri

Diz ela que, e diz e diz, modos que diz tanto, os seus modos contritos

Modos que a vida, o fim de ano, o rito, a merda, tudo que é dito

por cada reparo que é dito, cada pequenino ódio e toda a viração do céu

É pulso do guizo de uma cascavel, é o caminhar de tonto de um siri

Então. E então, eu de novo sonho, sei que haverá outros natais

E uns tantos anos-novos, encadeados, densos, os momentos todos

Esperando, em expectativa de encapsulados, uns que tantos cais

Não desembarcados, mas esperando o advento de natais renovos

Por serem belos os natais renovos, por toda minha e nossa esperança

Por aguardarmos o dia em que o ano novo, e a dança alegre dos natais

Acontecerá de novo, e repreenderemos ao mal, e diremos…todos

Ora, senhor Ódio, senhor Preconceito, de todo jeito, a nossa dança!

Senhora Serpente, pinça-mestra do escorpião, onça tinta e rubra e só

Tenha a fineza de voltar para o canto mais escuro, de modos que, ó

De modos que, a mó de que, com terna delicadeza e apuro em dó

possamos preparar a festa para os nossos, tintas e rubras onças ocas

De modo que tudo se descubra e tenhamos o alento, com que possamos

Privar com a alegria, o riso nosso e ritmo, próprio, no tremedal das tocas

E todos os tempos que parirmos sejam sementeira, onde os fins de anos…

A propósito de Ítaca

Existem formas diversas de se olhar para a planta e para o mundo.

Escrevo assim, assim, por conta de conhecido meu, um sulista, a quem descobri e nomeei como trovador, soldado da fortuna e, acrescento agora, cronista-mor Del Rey em nossas províncias do sul. Deixo-o lá, agora, com sua cabeça preocupada e atenta e bondosa.

Então.

Falava eu? Se me esqueço. Sou destes. Uma grande vacuidade na cabeça, de modo que, por vezes, com sorte, de sorte. Voo.

Mas, então temos nosso moço, escrevendo no dentro de si. E parece que ele escreve, mas não escreve. Não.

Ele tecla, verbo impessoal. Ele, tecla. Não sobre o momento, ele parece não estar preocupado com o agora agorinha nest’instantim. Ele diz que há tempo para respirar. Respiro, então. Ele diz que quando o todo é muito todo, se cabe recolher. Ele diz que agora é o tempo de se reconhecer às miudezas, de mapear o espaço entre um segundo e outro segundo.

Todo vermelho este meu confrade. Internacional. De pulcra mirada e honesto senso. Ele sabe do que sabe e quando não sabe, ele teima em saber, aos poucochinhos, calçando suas sandálias de antanho, sabendo que a marca do gol é feita de outras duas sandálias, mais ou menos cinco metros uma da outra.

Daí que ele escreve sobre pequenezas diversas, a mó de construir, sei lá?, universos? De qualquer modo, coisas. Que sejam densas tais coisas, tácteis e que digam tudo.

O meu amigo, que nunca vi, como Guimarães, o Rosa, fala sobre o zebu-do-mundo e de suas imensas cartilagens.

Filosofias não, carinho. Certezas, nunca, cafezinhos no capricho.

Meu amigo (que nunca vi e com quem nunca privei) fala do oco do mundo. E diz, escreve, que este oco é sólido, vivo e sobrevive mais ou menos entre trinta e seis e trinta sete graus celsius.

Ou seja.