SOBRE A POESIA E OUTRAS EXCENTRICIDADES

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ANDERSON ANDRADE – DeviantArt

 

Para Mariana, a Gouveia. Arqueóloga de quintais, geógrafa afetiva e tecelã de ritmos.

 

 

Quando era eu ainda um petiz (adoro esta palavra tão antiga dos meus primeiros livros de escola); bem, quando era ainda um moleque, me apresentaram à poesia. Primeiro com meu pai, devoto de cordéis e depois se acomodaram na sala os parnasianos e aí ouvi a música de Bilac e Castro Alves, suas palavras encorpadas, as rimas feitas de matéria diáfana, mas densas, como trovões.

Começo de novo, a poesia.

Bem, amigas e amigos, a poesia para mim que começava eram só as rimas. Não conseguia conceber o poetamento sem a mágica das rimas. Poesia para mim, nos começos começantes, eram as rimadas.

Na época, todos concordavam comigo. Todos os habitantes do meu mundo social tinham isto claro e soberano: poesia sem rima não era poesia. Daí que desprezavam as poesias não rimadas como imperfeitas, dignas de riso.

Eram os setenta e os oitenta em toda sua falta de glória.

Então, como na canção, se passaram os anos e eu consegui, com certo sucesso, sair do nicho onde me gerei e conheci a outras formas: primeiro os versos brancos, depois os Oswalds e Mários de Andrade, as Cecílias e a Túnica Inconsútil de Jorge de Lima. Depois, os concretistas, as tentativas de tradução de haicais, os franceses, Octávio Paz (e os arcos e as liras de Octávio Paz), Drummond.

Foi aí que eu percebi o que de fato me atraía na poesia. Não eram as rimas. Gregos e romanos, chineses e persas e árabes não rimavam. Mais que tudo, percebi que era o ritmo.

Uma coisa que o poeta mediano não percebe, embora todo poeta, medíocre ou genial, mereça o cognome grandiloquente e vazio: Fulano, o poeta.

Sempre acompanhei com carinho as seções de poesia de pequenos jornais de cidades, os jornais de classe, as revistas de ocasião, onde Beltrana e Beltrano se faziam publicar. Como não entendiam de ritmo, cometiam seus poemas com aquela qualidade que nos trazia a nós, leitores, um pequeno incômodo em nosso ouvido interno.

Mas eram poemas e eu apreciava seus esforços. Ainda aprecio. A única medida sendo se eram honestos ou não em seus esforços.

Houve mesmo uma evolução no gosto médio dos poetas médios. Nos anos setenta e oitenta (e sem dúvida nas décadas anteriores que não vivi) preferiam os meus adorados medianos às rimas, depois perceberam não ser pecado soltarem as suas palavras das grades da metrificação.

Só não percebiam que com rima ou sem rima, os poemas reclamavam uma forma, um andamento, uma pulsação.

Não obstante, minha régua não mudou: honestidade. Sem honestidade não há o poema e, suspeito, nem a prosa e nem o texto. Não estou falando da verdade, estou falando de coerência. Um signo tem que responder a outro signo, um tom a um outro tom.

Exempli Gratia, a música. A música também não pode prescindir da pulsação, do andamento, embora sejam outras, as pulsações e andamentos da música, por existirem dentro de outra pulsação e andamento mais poderosa, imperiosa, que é feição e a necessidade que fazem da música, música.

Você pode ouvir a uma peça serial de Schoenberg ou Alban Berg; a Jackson do pandeiro ou a uma música introdutória em peça do teatro Nô; a Ravi Shankar; a Elis, ao hip-hop, ao funk, ao sertanejo, enfim. E lá você vai reconhecer a música, o balanço e vai saber no ato se está tratando com um criador honesto.

Se não, você vai sentir o ruído da máquina, cada vez mais presente e só.

Também assim com a poesia. Parece ser uma questão não do acorde, mas da mão que dá vida ao acorde. Parece ser uma questão não da palavra, mas da boca e da mão que se preocupa com, em conjugar, em tornar harmônica a palavra e o espaço em branco entre as palavras.

Não é vazio o espaço entre uma palavra e outra palavra. Talvez nem seja branco, mas está lá.

E era só o que eu tinha a escrever.

Em outra ocasião, reinventaremos a roda. Aguardem.

 

DIRETO COMO UM CONFESSOR, O CORINTIANO VOADOR PREGA SOBRE A VAIDADE. A SUA.

Allegory of Vanity_ Antonioi de Pereda _ Vienna, KH_ca. 1634 (1)

Alegoria da Vaidade – Antonioi de Pereda

 

Dia destes um bom amigo me trouxe o balsâmico conforto de uma alisada na fachada torpe de minha vaidade: “li lá o teu último texto, lá do blogue. Viu, não pense que não leio o você que escreve, não”.

Bom e fiel amigo, (e ao escrever isto sinto uma coceirinha mental, uma vontade de reler o parágrafo sobre o amigo discursando a beira do túmulo de Braz Cubas. Obrigado, Machado de Assis. Não tem nada a ver com você, amigo).

De qualquer maneira, também em outro dia destes (na verdade, foi em outro ano destes, mas não resisto às dualidades fáceis); bem, como dizia eu, em outro e pretérito “outro dia destes” ouvi, desta vez não de um amigo, mas tão somente de um, vamos dizer assim, colega temporário de percurso, outra alisada no meu ego: “rapaz, li lá o teu blogue. Cê escreve umas coisas do caralho! Muito bom! Não entendi a maioria das coisas lá, mas achei, olha, fodaço! ”.

Obrigado, bom e fiel colega de percurso.

Os parágrafos acima vieram a propósito de um tema que me é caro: a vaidade.

Mais especificamente, a minha.

Minha reação aos comentários dos dois, o amigo e o colega, como foi? Uma pergunta candente que ninguém fez, mas o meu ego inflável e profissional providencia.

Então, como foi?

Bem, é com a alma em transe e coração em frangalhos que digo: foi nada. Não senti nada, nem o proverbial efeito balsâmico da alisada no ego (e olha que eu tenho um daqueles egos bem grandes. E tanto que é quase translúcido, uma espécie de superquindão (sabe o quindão, o doce?)).

Ainda não analisei a fundo minhas razões, mas sei que as tenho, as minhas razões. O que me falta é somente a peruca, digo, a análise.

E então aqui estou, o moço que mantém um blogue onde escreve sobre cordelistas e juristas que foram a Marte; sobre traficantes de drogas que se expressam em português arcaico; que faz uso da melhor pedagogia de idiotas para ensinar como transformar a incompetência em arte; que comete uma pequena biografia de Satanás; que faz resenhas de livros obscuros (quanto mais obscuros, melhor) ou de livros inventados; que escreve sobre mordomos que se transformaram em mandatários da nação; que comete poemetos rimados só pelo pueril prazer de introduzir palavrões nos poemetos rimados (defeito meu, adoro contrabandear “cus” para um poemeto parnasiano).

Enfim, eu. O moço que adotou este esquisito nom-de-plume: Corintiano Voador.

(Nom-de-plume. Não esperavam esta, não? Cachorro de homem culto, eu!)

E porque, perguntarão? (Ninguém perguntou, eu sei, mas a porra do meu ego, etc., etc…).

Bem, como já informei a uma simpática blogueira aí, tem nada a ver não. Poderia ser Atleticano das Alturas ou o Flamenguista Alado, mas acontece que sou corintiano. Então é uma questão de coerência.

Bem, na verdade verdadinha informo que o adjetivo Voador vem de minha infância querida que os tempos não trazem mais. Ocorre ou melhor, ocorreu, que em meus anos de meninice eu adorava ler os quadrinhos do Fantasma, lembram, aquele que andava com o cachorro Capeto e era eterno noivo da sempre virgem Diana Palmer?

Pois bem, quando de suas primeiras publicações em jornais aqui no Brasil, por alguma razão que desconheço, os tradutores insistiam em chamar ao herói de, ói só, de Fantasma Voador.

Aquilo ficou na minha cabeça. Como eu soube? Oras, além de fanático quadrinheiro era eu também um obsessivo de escol, modos que fui às fontes.

E assim foi que os anos passaram e quando uns amigos de bar tropeçaram na ideia de criar um blogue para nosso gáudio e divertimento, adotei pela primeira vez o gentil pseudônimo. Se calhar, ainda está por aí, o espectro digital de nosso finado blogue.

Sim, sim, tem ainda a história de minha vaidade.

Ela vai bem, obrigado.

O PRIMEIRO BRASILEIRO EM MARTE: novas descobertas

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Já havíamos antes reportado, neste espaço, sobre a polêmica viagem de Cego Aderaldo e José Pacheco ao planeta Marte (Ver aqui: https://goo.gl/CzQxMb). Eis que agora temos mais um intrigante indício de que talvez um terceiro brasileiro o tivesse feito antes.

É com certo cuidado que expomos o que segue, mas o expomos, certos de que somente a discussão fecunda poderá trazer novas luzes sobre o caso.

 

Corintiano Voador

 

 

 

O PRIMEIRO BRASILEIRO EM MARTE – PARTE I

(Revista Panta Rhei. Ed. 13, ano 7, p. 13 – Ouroboros Editora)

 

 

É de conhecimento geral o rebuliço causado pela descoberta recente da memória de Sílvio Romero, o insigne jurista sergipano, dando conta de uma suposta primazia brasileira na visita a Marte, o fatídico Planeta Vermelho.

Digo fatídico por não querer dizer mais, dados os mistérios, os acontecimentos inusitados quando não macabros a cercar o ― assim se expressou o Dr. Czermk de Leipzig ― Enigma Marciano[1].

Mas então, o primeiro brasileiro em Marte? Enlouqueceu o autor, ou pior, chegou a tal ponto sua fatuidade? Mas não, é com destemor que jogo à arena o candente assunto, melhor diria candente revelação: sim, o primeiro homem a pisar em solo marciano foi brasileiro, e que brasileiro!

Sei, já prevejo os esgares nas faces doutas. Um brasileiro em Marte? Disparate!

Não foram diferentes as reações ao primeiro pouso de nau feita por homens em solo lunar por Bedford e Cavor, em 1901. Houve quem chamasse ao primeiro de louco fantasista, já que Cavor supostamente permanecera em solo lunar. Foram necessárias as expedições posteriores de 1915 e 1917, onde se estabeleceram relações com os desconfiados selenitas, não fáceis e nem pacíficas. O resultado, o resgate de Cavor, calou as vozes insultuosas.

Mas, e todos sabem, a verdadeira polêmica se deu quanto à primazia do primeiro pouso lunar, vez que americanos e franceses requestaram esta glória para Michel Ardan e Barbicane, do Gun Club, em 1865, ou mais exatamente, para os dois americanos membros do Gun Club e para Ardan.

Ora, se a viagem dos ingleses foi fartamente documentada, pelo menos no que tange ao fato de haver sido Cavor encontrado na Lua e ter este confirmado, inclusive documentalmente, a partida de sua esfera em 1901, não havia a mesma certeza quando ao feito do Gun Club, por muitos considerado como um gigantesco feito de propaganda. Não ajudaram, é claro, as revelações da ex-Mme. Adele Ardan no seu Michel Ardan raconté.

E temos então Marte!

Sim, tivemos uma viagem a Marte. Antes mesmo que à Lua. Não poucos desacreditaram da obra publicada por Edwin, sobrinho do ex-capitão confederado John Carter, com uma compilação de suas memórias (dele, John).

E nada mais natural, dada a ideia de que um, digamos mecanismo, manufaturado por  antiga e avançada civilização, permitisse a que um homem fosse de imediato transportado a Marte[2].

Havia mesmo a sugestão nas entrelinhas que existiriam outros sítios em nosso orbe a guardar mais destes mecanismos fantásticos. Cavernas em ermos inóspitos, quase inacessíveis, somente esperando seus aventurosos descobridores. O encontro de uma estranha relíquia entre os bens deixados pelo espólio do capitão Carter foi mencionada; como mencionado também foi que a relíquia foi prontamente arrebatada pelo governo americano e dela não mais se soube.

Acresce que por esta época houvera a descoberta dos canais marcianos, entrevistos ao telescópio por Percival Lowell, embora este não tivesse ainda publicado suas conclusões, o que só se daria em 1891.

Com o que voltamos ao Brasil e ao primeiro brasileiro em Marte.

O mundo editorial brasileiro foi sacudido há três anos pela descoberta do assim chamado Manuscrito Escadafhart, cuja autoria de Sílvio Romero hoje é incontestada, e sua publicação por Célia Loredano.[3]

Para os não iniciados, Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero, Sílvio Romero, foi brilhante jurista sergipano da chamada Geração de 1871 e, juntamente com seu mestre Tobias Barreto, revolucionou o pensamento jurídico e filosófico no Brasil de Dom Pedro II. Ambos foram membros fundadores da assim chamada Escola do Recife, ligada à Faculdade de Direito da cidade homônima.

Pois bem, foi este Tobias Barreto o primeiro brasileiro e talvez o primeiro homem no mundo a pisar em solo marciano. Expliquemos.

Encontrado em documentos avulsos durante pesquisa no Arquivo Nacional, o Manuscrito traz em seu bojo relato tão fantástico que somente as recentes pesquisas levadas a cabo por equipe mista da UFPE e USP  no Lajeiro do Frade, na cidade pernambucana de Escada, puderam separar o mítico do histórico, concedendo ao relatado foros de verdade.

 

A VIAGEM DE TOBIAS BARRETO

 

Em 1873, Albert Wilhelm Heinrich von Preussen, filho daquele que seria o kaiser Frederico III  visitou o Brasil, sendo recebido com honras por Dom Pedro II.

O jovem príncipe viajou, com numerosa comitiva, na corveta Olga, e saindo da Corte estendeu sua viagem até o município de Escada, Pernambuco, onde chegou na data de 03 de maio de 1883. O fato é referido em Himmel und Escadafahrt, artigo escrito por Tobias Barreto, único brasileiro a fazer da comitiva do príncipe imperial.[4]

Ora, tal fato sempre intrigou a historiadores, a não prevista visita do príncipe imperial de uma das mais poderosas nações da época a um esquecido município pernambucano, onde se vê hóspede do Coronel Marcionílio da Silveira Lins, Barão de Utinga, no engenho de Sapucagi.

O manuscrito conta história diferente do artigo de Tobias Barreto, onde este relata emocionado da honra de ter sido convidado para a comitiva imperial para visita à cidade que o escorraçara[5], além de tecer os mais ingênuos encômios à figura do príncipe e à cultura alemã de modo geral (Barreto era conhecido germanófilo).[6]

Não, nada de festas, rapapés, bandas. A visita principesca, assim relata o manuscrito, serviu tão somente para acobertar operação de espionagem sob o comando do Capitão-Tenente von Schwind para investigar a existência de uma “relíquia”, assim primeiramente chamada, sob a posse do coronel Marcionílio. O Manuscrito não deixa dúvidas: tratava-se de um dos “mecanismos de transporte” marciano, encontrado sabe-se lá Deus quando pelos primeiros conquistadores portugueses e arrebatado de uma gruta, evitada a todo transe pelos indígenas que então habitavam a terra.

Sabe-se que a procura por relíquias marcianas, estimuladas pela publicação das memórias de John Carter, virou uma febre a manter ocupado todos os serviços secretos das grandes potências da época.

Mas como chegou aos alemães esta informação, que de outra forma jamais cruzaria o Atlântico?

Segundo o Manuscrito, Tobias Barreto fora a fonte da informação[7].

Quando de sua estada na cidade de Escada, de quem foi deputado provincial e juiz municipal, Tobias manteve estreitos e profundos laços de amizade com o coronel Marcionílio e sua família.

Assim escreveu em seu Himmel und Escadafahrt: “…nos últimos tempos de meu exílio escadense, fora-me a casa do coronel Marcionílio, no engenho Sapucagi, um ponto de passeio e entretenimento, sem que tivesse, nem uma só vez que lá me achei, deixado de conversar sobre a Alemanha e meu fanatismo por ela.”.

E mais que a fonte, o intermediário que convenceu Marcionílio a franquear o acesso a cientistas alemães disfarçados de oficiais da corveta Olga, comandados pelo já citado von Schwind.[8]

No Manuscrito há menção de Sílvio Romero a relato de Tobias Barreto, onde se refere ter sido este procurado por Marcionílio quando de sua estada anterior em Escada. E foi nesta ocasião que Marcionílio, temeroso, lhe apresentaria pela primeira vez a relíquia, descrita como um “tubo metálico vermelho do qual escapavam bruxuleios”, quente ao tato e coberto de estranhos glifos que Barreto supôs fosse uma ancestral escrita marciana.

Sim, já nesta época, Barreto nutria suspeitas de uma origem marciana. Supunha, ainda segundo o Manuscrito, ter sido a Terra objeto de expedições do planeta vermelho ainda em eras priscas.

De qualquer maneira cerrou-se o episódio num velo de mistério e conspirações, dado que não sabemos que fim teve a “relíquia”. Teria sido levada pelos alemães? Teria permanecido sob a guarda de Marcionílio ou mesmo de Barreto?

Célia Loredano refere duas hipóteses isonômicas: o artefato teria ficado sob a posse de Marcionílio e/ou Barreto, dado que dificilmente poderiam os alemães tê-lo arrebatado do centro de poder de uma das figuras políticas mais poderosas da região, dispondo de homens e meios  a mancheia.

Ou, tendo sido entregue voluntariamente, fora levado pela comitiva principesca para destino que permaneceu e permanece ignoto.

Sobre esta segunda hipótese, refere Loredano que von Schwind era notório membro da Ordem de Thule, organização iniciática da qual o próprio Hitler teria sido membro. Ora, ainda segundo Loredano, é fato conhecido que no decorrer da Segunda Guerra foram patrocinadas pelo Reich expedições com o fito de encontrar-se ao orifício que levasse ao centro da terra, comandadas por oficiais e cientistas nazistas que eram ao mesmo tempo membros da mesma ordem iniciática. Não seria possível, pergunta-se Loredano, que tais expedições fossem um disfarce para a procura de grutas e cavernas onde poderiam estar escondidos outros tantos artefatos marcianos?

Para nossos propósitos tais considerações são, ao momento, inúteis, dado o conteúdo da segunda parte do Manuscrito. Esta, que nos interessa e sobre a qual nos estenderemos a seguir contém relatos fragmentados de visita ao planeta Marte ocorrida entre os meses de fevereiro a maio de 1878. A ela.

 

O DIÁRIO MARCIANO DE TOBIAS BARRETO

 

Sílvio Romero refere carta de Tobias Barreto datada de 6 de novembro de 1887:

 

[Amigo Sr. Sílvio:

 

Já deve ter recebido a minha última carta, na qual enviei-lhe as notas que me pedira. Creio ter sido completo. Se, porém, carecer de mais algum esclarecimento quanto às datas, escreva-me.

Venho hoje pedir-lhe um favor. Acaba de dar-se na faculdade…]

 

A referida carta pode ser cotejada à página 242 da edição comemorativa de 1991 dos Estudos Alemães.

Voltaremos ao assunto.

 

[1]Os professores Dr. Czermk e Dr. Rosenthal foram escolhidos para dirigir a publicação de uma Biblioteca Científica Internacional, em 1873. A feliz experiência foi erigida com o fito de traduzir ao alemão obras científicas que fossem dignas disso. A referência ao Enigma Marciano pode ser encontrada na obra Uber die Natur der Cometen (Sobre a natureza dos cometas) do grande astrônomo Johann Carl Friedrich Zöllner, publicada em 1872.

[2]Existe uma obra ficcional baseada nas memórias de John Carter, escrita por Edgar Rice Burroughs, a partir do livro de Edwin Carter, chamado A Princesa de Marte.  “um amontoado odioso, deturpante e fétido da jornada heroica de um grande homem”, escreveu Edwin em suas memórias, anos depois.

[3]GRIECO, Célia Maria Loredano. Manuscrito Escadafahrt: uma aventura de Tobias Barreto. Editora UFRJ, Rio de Janeiro, 2013.

[4]Himmel und Escadafahrt, página 201 da reedição comemorativa dos Estudos Alemães, de Tobias Barreto, patrocinada pelo governo do estado de Sergipe em 1991. O fato foi também noticiado na edição de 4 de maio de 1883 d’O Diário de Pernambuco.

[5]Tobias Barreto, nos anos de 1879 a 1881, residindo em Escada, por conta de querela não ainda de todo explicada, teve sua casa cercada por jagunços dos grandes da terra que o expulsaram do local.

[6]Primus inter pares, O senhor Barão von Seckendorff é um dos mais belos exemplares, que tenho visto, do homem culto e delicado…. Quanto ao príncipe Heinrich, eu já sabia por informação de uma escritora alemã, que a princesa imperial Vítória dedica-se muito à arte de jardinar, e que o momento ético e cultural deste trabalho se deixa ver claramente na educação de seus filhos. Himmel und Escadafahrt in Estudos Alemães, p. 203.

[7]Célia Loredano localizou uma brochura publicada às expensas próprias por Thomas Maples (?) em tipografia da cidade americana de Philadelphia, provavelmente em 1892, mas sem maiores indicações, na Biblioteca do Congresso: An Extraterrestrial Relic In Brazil? An Inquiry About The Olga’s Expedition.

[8]Provavelmente Ernst Wilhelm Carl von Schwind Zum Hel, desaparecido em 1919, talvez no Báltico, capturado por forças soviéticas estacionadas na Letônia. Segundo Loredano, é quase certo ter pertencido ao serviço secreto da marinha alemã.

ODE ÀS BUNDAS

ORANGE YOU GLAD? BY BAILEY ELIZABETH

ORANGE YOU GLAD? By Bailey Elizabeth – DeviantArt

 

 

Bundas, bundas, vós que pairais, voláteis

Entre a coluna e o fim de tudo

No fulcro único, obscuro, de odes mais meritório

E diga o mundo bundas e subilatórios

Mas digam bundas, após e sobretudo

Digam montes de doce maciez, voláteis

E digam divas, musas do submundo

Inda que tudo, digam bundas! Tão portáteis!

Levadas, erigidas, transportadas, quase sem esforço

Mui elegantes criações versáteis

Montes veludosos coroando, inversas.

O torso

UM CAUSO, UMA REFERÊNCIA SAUDOSA (ONDE O AUTOR RELEMBRA UM JOGRAL DE SUAS RELAÇÕES)

St George and the Dragon Sidney Harold Meteyard (1868 –1947)

St. George and the Dragon – Sidney Harold Meteyard

 

Meu pai, homem de bem, era devoto de cordelistas e do cordel. Tinha apreço pelas histórias e amava aos contos de cavaleiros e donzelas sonhosas (Ariano Suassuna falou de um donzel sonhoso no Romance da Pedra do Reino).

Modos que meu pai era por gosto e profissão um medieval.

Grande contador de histórias, soberbo mesmo, nos narrava toda noite uma gesta qualquer, grandiosa e solene.

Me lembro do conto da princesa no castelo situado no meio de uma ilha, situada a ilha no meio de um grande lago, no qual havia um castelo com setenta e sete cômodos, em um dos quais se encontrava prisioneira a princesa. A mesma princesa, claro, que seria resgatada pelos quatro irmãos.

Aqueles, os fabulosos, que por viverem em extrema pobreza decidiram abandonar a casa paterna e a fome e a clássica miséria. E saíram em madrugada fria e desesperançada para o mundo e separaram-se ante a estrada que se subdividia em quatro caminhos.

E cada um escolheu uma senda, onde a cada um caberia aprender um ofício e se tornarem, nele, mestres. E marcaram um encontro para dali há dez anos (meu pai gostava de prazos certos e era fiel a seu ofício de jogral).

E todos os irmãos, fiéis que eram (meu pai os plasmara com cuidado) se apresentaram ao encontro marcado, ocasião que o irmão mais velho determinou que todos informassem a profissão que haviam aprendido.

E foi onde o irmão mais novo disse que aprendera a ser um arqueiro (meu pai o chamava o “brechador”); o segundo, um adivinho (meu pai o chamava o adivinhão). O terceiro um soldador (nunca entendi bem, talvez uma interpolação de meu pai em consideração à modernidade do industrial século vinte). E, vejam só, ao irmão mais velho coube a ocupação de ladrão.

Não obstante, a filha do rei fora raptada pelo perverso Dragão do Mal (que meu pai chamava de a “serpente”).

E compareceram ante o rei, que os convocara, todos os bravos do reino para a porfia suprema de lhe restituírem sua filha, a princesa, sendo prometido o de praxe: fortuna aos valorosos e casamento com a infanta.

Os irmãos, vejam bem, meu pai dizia, eram os mais pobrezinhos, não eram ricos e nem poderosos e nem nada de nadinha de nada. Mas aceitaram o desafio.

Evidente que todos o nobres enfatuados morreram todos na empreitada, fritados de modo desairoso pelo perverso dragão.

Somente sobraram os irmãos pobrezinhos para a tarefa. E para cumprir a demanda foram os irmãos, meu pai contava, ao campo de prova de honra e morte.

Chegaram ao lago, tomaram um barco e atravessaram ao lago.

O adivinhão adivinhou a localização do quarto fatídico onde encontrava-se a jovem; o ladrão, por artes sutis de ladroagem, furtou à chave do quarto que estava na boca do dragão que dormia o sono negro de dragões maldosos em toca soturna.

E recuperaram os irmãos à jovem e tomaram o barco; os dragão  os perseguiu e furou ao casco do barco com um jato de sua chama; o soldador selou ao casco (relevem…) e, finalmente, foi o dragão morto pela seta certeira do arqueiro.

E pronto.

Entretanto, a delícia do conto é que, tão logo entregaram os jovens a princesa ao rei, fez este com que ela se casasse com o mais jovem dos irmãos, em casamento grandioso cuja festa durou sete dias (meu pai gostava dos números cabalísticos).

E então, o mais importante: meu pai nos contou (e não tenho porque duvidar de sua palavra) que meu avô chegou a participar da festa e, inclusive, levou um pedaço do bolo de casamento consigo.

Mas aí seu cavalo corcoveou e o bolo caiu no chão.

Pena.

Sempre me esqueci de perguntar a meu avô qual era o sabor da guloseima.

Papai era meio vago sobre o assunto.

SOBRE MENTORES, MESTRES ESPIRITUAIS E AJUDANTES DE PEDREIRO

PINGA

Começava eu na carreira de homo sapiens e conheci a dois filhos-da-puta: o judeu do mal e o padre russo do mal. Ambos moradores do bairro do Ipiranga, na cidade hoje conspurcada de São Paulo. Onde, aliás, nasci.

Um não sabia do outro, mas eram duas putas véias que pensavam do mesmo jeito. Me disseram.

A mim, a minzinho mesmo. A este vosso criado!

Disseram: seja homem!

E disseram: Eu sei que é difícil, você pode não estar acostumado! Mas tente parecer com um homem!

Em verdade queriam dizer: seja digno! Tenha verve! Mas a época era de machismos diversos.

Modos que. Então. Modos que (entendi somente muitos anos depois: não acredite no sábio e nem em seus escritos e nem nos escritos do pequeno babaca que emula o sábio e nem na revista e nem no jornal e nem no sacerdote e nem no juiz justiceiro e nem em justiceiro algum e nem no jovem lutador pela justiça e nem no blogue e nem na puta que vos pariu).

Disseram-me. Disseram-me… só o básico. Disseram-me, mas não me aconselharam, pois que eram dignos demais para coisa tão primária.

Só me sussurraram: desconfie do sábio, do herói e do douto.

Seja uma puta desconfiada, me disseram!

Inventarei dois nomes para os dois: Ilya e Eliahu.

Obrigado.

Aos dois. Um minúsculo e elétrico. O outro enorme, e calmo como as marés.

A ambos eu agradeço.

E sei que ambos riem de minha tolice.

 

 

 

 

SOBRE O TEMPO E SOBRE TEMPOS

 

 

 

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Mida´s daughter – by Radoslawsass-d84wwg1SS / DeviantArt

 

 

deste mundo nada sei, sei nada não, sou o que nunca

Verdade verdadinha, nada atino sobre o tempo

Sei só que é escroto o tempo em cada canto,

E que a tarefa mais dileta que o tempo funda

É fazer minorar o tempo e o mundo e o pranto

 

Já não relembro mais Robertos Carlos, nem Gonzagas

Mas relembro que o tempo é um cu, caso acabado

Ou talvez seja só o tempo um consolo mal acomodado

Todo caso não está em nossas mãos, o tempo e o fado

 

E é sempre bom mandar o tempo, nosso namorado,

É sempre bom mandar o tempo, nosso amante, às favas.

 

 

DO TRATADO DOS VERMES

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Irmãs e irmãos.

Vejam que coloquei antes, as damas. Me deem seu gáudio e elogios diversos.

Mas, irmãos e irmãs.

Nunca me esqueço que em épocas de exceção, é preciso se posicionar contra o rei e às teses do rei. É preciso.

Nunca me esqueço que Sobral Pinto, advogado, em tudo e por tudo discordando de Luís Carlos prestes, comunista e ser do mal (como diziam à época) ainda assim o defendeu.

Nesta época de pessoas bonitas, feitas de bonitezas, como o cavalheiro de Curitiba, o moço ungido por pastores. Nesta época, quero ter a verve de discordar do tempo e da forma como se desenvolve a flora e a fauna.

Sei lá se vou ser entendido. É um tempo de metalinguagens.

Mas…fede o tempo.

Não fede?

SOBRE A ANTIGA E FECUNDA ARTE DE NÃO SER UMA PESSOA DO BEM

 

Anjo da morte

 

Sei que todos me acharão superficial e tolo. Dirão, é tão fácil a pessoa não ser uma pessoa do bem! E aí vinde vós e dizeis que nos ensinareis sobre como ser um crápula. Ora, ora. Homessa!

Mas não, peço que me empresteis vossos ouvidos ou vossos olhos. Todo caso, dai-me vós o benefício da dúvida.

Ocorre que não sabeis o que é ser do mal, sois amadores. Achais que é só garatujar a sangue e fogo uma frase na testa de d´algum pequeno ladrãozito? Achais que é só mastigar e decepar o artelho de alguém de quem não gostais?

Tolos!

Amadores é pois o que sois.

Não ser uma pessoa do bem é mais do que perpetrar pequenas covardias para o gáudio de outros tantos pequenos covardes.

Não ser uma pessoa do bem exige mais! Exige comungar com Satanás e com Deus ao mesmo tempo. Exige ser bom para extrair o mais fino licor do mal, na bondade.

Exige mais do que ser apenas um Adolph Hitler qualquer, pessoa inculta (porque não tornada adulta), escrevendo mal e porcamente um Mein Kampf.

Exige mais, vos digo.

Para que se torne alguém uma pessoa que não é do bem se exige entranhas sólidas, ancoradas no mais profundo vazio.

Exige que a pessoinha do mal se creia boa e dona de verdades! Enfim, é um processo.

Sede então bons e propagai a bondade!

E, por favor, fazei por bem crer que sois o sal da terra.

E a arte de feder até os céus será toda vossa.

EU ME LEMBRO II

RAPOSA VOADORA

 

 

Nos anos oitenta fui o que depois batizei de “comunistinha legal” ou, se vos agradar, o “comunistinha joinha”. De qualquer modo, um comunistinha. Fui levado, é claro.

Meu cooptador foi o mordomo das esferas, o príncipe, o meu querido EBS. Ainda vivo, embora velhusco. Diabos, eu estou velho! As juntas estalando e eu ainda aqui, cuidando da prole e tentando por comida à mesa.

Mas então, “comunistinha legal”. Eu.

Foi uma época fecunda os oitenta, modos que me incomodo com os tempos atuais por exsudarem, vez por outra, um perfume parecido, mas que é só fedor, que os perfumes envelhecem.

Na época, percebia já que a meus colegas comunistinhas faltava senso de humor. Preferiam o velho Karl Marx, com sua cabeçorra preocupada, se inclinando sobre os manuscritos a Jenny von Westphalen ou Jenny Marx, a esposa, que fora uma mulher muito, mas muito bonita.

Preferiam o bom Engels, o pensador, parceiro de Marx, o velho Nick, e esqueciam de Engels, filho de um burguês rico, administrador das empresas do pai na Inglaterra e amante de sua criada.

Digamos que eles viam os escritos e a história e eu preferia o rés-do-chão, os pequenos defeitos e tudo o mais.

Primeiramente, é com certo pudor que informo que meus colegas comunistinhas não liam as bíblias marxistas, mas comentavam assaz.

Segundamente, eu tinha a impressão de que qualquer pessoinha, qualquer serumaninho, poderia fazer a história, mas precisaria perceber que no meio tempo conviria ficar pelado com outra pessoa também pelada, fazer e ler algum poema, beber uns tantos fermentados e destilados e, na miúda miudinha, fazer também a tal da porra da história.

Revolucionário, né não, John Lennon?

Muito estranhamente não me bandeei para o lado direito das coisas, depois dos anos passados, e continuo, me sinto, ainda meio demoníaco, achando o mundo um lugar interessante, achando as pessoas ainda interessantes, mas sempre sentindo o ruído da máquina cada vez mais alto, quase ocultando a conversa no sarau.

A época, é claro. Queria falar da época. E do mau-gosto e dos tempos e das pessoas e da velocidade.

Do modo cego, automático, com que nós todos corremos para ocupar um círculo qualquer no inferno.

Queria, mas falo não.

Volto aos inícios iniciais começantes: eu fui um comunistinha legal e joinha, enquanto também trabalhava como o proverbial garçom no bar lá, da moda.

E confesso, quando me pediam os bons pensantes vodca Wiborowa ou Absolut, eu colocava mesmo era a Vagabundoyeva ou a Esculachakova, que foi como batizei à podríssima vodca “coquinho”.

Minha vingancinha bobinha de comunistinha: sabia que os bons pensantes, os meus irmãos comunistinhas, iriam um dia crescer em riqueza e glória. Vaticinava mesmo que acabariam como comensais dos pequenos ratos morais, os grandes da pátria.

Então à sorrelfa, lhes servia lixo líquido.

 

E como eles bebiam!