Por causo de que, das veis, é bom que a gente escreva bobagem. Sólidas e quentes bobagens.

O ABRAÇO DE ESPERANÇA - PINTURA DE JOÃO TIMANE

O abraço de esperança – By João Timane

 

Tinha um outro “post” prontinho. Ia falar sobre as décimas na poesia e na música do Brasil em contraposição com as décimas na América Latina. Ia falar. Ia dizer.

Mas eis que um valor mais alto se alevantou (Obrigado, Camões).

Mas eis que.

Mas não, nunca, nunquísimamente nunca, tinha eu notícia de época como ess´agora. E olhem que sou idoso, já convivi com mamutes e privei com pássaros dodô.

Eis que.

Sempre soube que era contemporâneo de vermes. Entretanto, nunca me vi convidado a observar as entranhas dos vermes, a ver seus necrófagos lhes corroendo as entranhas, poeticamente, no devagar, no slow motion.

Jamais pensei em testemunhar ao fedor, exalando do de dentro de ternos curitibanos.

Agora sim, meu dou conta. Estou velho!

E.

Estranho como ainda consigo rir. Comunico a todos que agora pretendo tentar, de novo, reiniciar o diálogo, o conversê, as trocas de causos.

Por causo de que me vi jovem, me surpreendi mocim. Ainda capaz de puto ficar, indignado como um santo, como um messias xingando camelôs às portas do templo.

Causo que no sétimo dia Deus descansou por ter visto que era boa a sua obra e o descanso era homenagem ao que era bom, o primeiro exercício da humildade.

Causo de que sei.

Que é burro o mal.

Graças a Deus.

Escrevi com a tinta do coração.

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Da leitura e outras obscenidades

Daniela Zekina

Autora da imagem: Daniela Zekina

 

E então eu saía de uma estação ferroviária e olhei prá moça, tão bonita, vestida no que eu suponho seja o estilo apurado padrão de classe média atual e lendo. Um livro, não uma revista. E lia a moça e lendo, mexia os lábios.

Sempre achei que a visão de alguém lendo e mexendo os lábios fosse coisa de, vamos ser corteses, pessoa sem muita intimidade com os livros, que dirá com o ato de ler.

Mas mexia os lábios a moça. E era uma moça bonita e vestia roupas bonitas. Talvez caras.

Razão prá surpresa nenhuma haveria de, já que matutando, depois, me lembrei de que já vira muitas outras pessoas do mesmo jeito e não necessariamente pessoas de aparência, vá lá, humilde.

Mas mexia os lábios a moça.

A coisa toda é que parti do pressuposto de que os leitores (nós, desta casta minguada e sempre minguante), bem, nós, os leitores, supunha, leríamos todos em silêncio, absorvendo as palavras sem nos darmos conta dos signos no papel.

Bobice. Grande. A leitura silenciosa é coisa historicamente recente. Santo Agostinho registrou no capítulo III de suas Confissões, fascinado, que seu mentor espiritual Ambrósio de Milão lia em silêncio: “No bem pouco tempo que lhe deixavam livre, dedicava-se a reparar as forças do corpo com o alimento necessário, ou as do espírito, com a leitura. Quando lia, seus olhos percorriam as páginas e seu espírito penetrava-lhes o sentido, mas sua voz e sua língua repousavam”.

A leitura em voz alta sempre foi a norma. Ler, aperceber-se dos signos, combiná-los e depois os declamar eram uma e só coisa: ler. Era uma atuação delineada, um processo, uma disciplina para dissociação do mundo e interiorização do leitor.

E Ambrósio, lendo silenciosamente, foi talvez o primeiro registro conhecido do que é hoje considerado corriqueiro, banal.

Mas mexia os lábios a moça. E lia um livro. E não era um livro de auto-ajuda ou espírita (perdoem-me os auto-ajudenses e os gasparettianos). Não, era um Maria Moura massudão e pesado.

A leitura era compartilhada. Agostinho refere leituras conjuntas de epístolas de Paulo, com seu amigo Alípio.

De se notar que o que hoje conhecemos por alfabeto tem uma longa história. No começo as pinturas em cavernas, em paredões rochosos, depois o desenvolvimento de sinais pictográficos, depois a associação de imagens com o som.

Os fenícios adaptaram o demótico egípcio para registrarem suas transações comerciais, mas quando tiveram que nomear ao signos que representassem os sons de sua língua utilizaram-se de imagens: o nome dado à letra que transmitisse a oclusiva glotal “ʔ”[i] foi ‘alp, boi, que passou ao hebraico como Aleph. Os gregos, que não tinham este fonema, utilizaram o signo para representar a vogal “a” e o chamaram de alfa.

E a imagem original da letra era o desenho de um boi. Inverta o nosso A maiúsculo e você verá os chifres e a cabeça do mesmo boi.

Mas eu falei que foram os fenícios, não? Mas no antesmente estavam os egípcios e seus hieróglifos, ou os acadianos e seus cuneiformes. O alfabeto era exclusivo da classe sacerdotal e era sagrado. Natural, com ele se descrevia e se perenizava o sagrado. Um milagre em si.

As simplificações, os demóticos, vieram depois e foram outra revolução: a utilização do alfabeto para o registro mundano.

Sendo, como era, uma ferramenta exclusiva e de exclusivos, natural que o alfabeto fosse objeto de fetiche. O ato de ler era exclusivo, marcado, para poucos.

Toda a história do cristianismo, por exemplo, foi uma longa sucessão de fiéis analfabetos cujo único instrumento de doutrinação eram os mosaicos e mais adiante os vitrais. A leitura era província dos prelados.

Paulo epistolou aos letrados das igrejas para que lessem para as massas. Em voz alta, escandida, sacramental.

E aí rolaram os tempos, depois as cabeças na Revolução Francesa e nasceu o conceito da escola universal. Alfabetização em massa. Recentíssimo.

Tão recente que os velhos hábitos perduram. Be-abá, a; ce-o-có, c; de-o-dó, d. E temos ainda a visão de nossos velhos, compenetrados, lendo em voz alta. Hoje. Ou mexendo os lábios como a moça que mexia os lábios que vi. Eu, que leio silenciosamente.

Mas mexia os lábios a moça.

O ato de ler ainda está em processo. De.

É o que acho. Eu, que leio silenciosamente feito Santo Ambrósio.


[i] Bonito não? Oclusiva glotal. Posso morrer tranquilo: oclusiva glotal. Ah, o ʔ é símbolo do Alfabeto Fonético Internacional.

Por que não eu?

 

Instigado por um artigo de Bráulio Tavares com uma tentativa dele de tradução de “In my Craft or Sullen Art”, de Dylan Thomas, resolvi cometer meus próprios erros. Segue:

 

Aliás, o artigo pode ser cotejado aqui: http://mundofantasmo.blogspot.com/2019/04/4459-em-meu-oficio-ou-arte-soturna.html

 

Thomas_Dylan600

Dylan Thomas

In my craft or sullen art

Exercised in the still night
When only the moon rages
And the lovers lie abed
With all their griefs in their arms,
I labour by singing light
Not for ambition or bread
Or the strut and trade of charms
On the ivory stages
But for the common wages
Of their most secret heart.

Not for the proud man apart
From the raging moon I write
On these spindrift pages
Nor for the towering dead
With their nightingales and psalms
But for the lovers, their arms
Round the griefs of the ages,
Who pay no praise or wages
Nor heed my craft or art.

 

Em meu ofício ou arte sombria

Em noite plena ainda exercido

onde a única fúria que vem, vem da lua

e onde amantes à cama estão tidos

todas as tristezas prenhes em seus braços,

e Elaboro meu fito cantando desta luz

Não por pão meu ou ambição minha

E nem por presunção ou comércio de magias

E nem do marfim dos palcos

Mas para os mínimos salários

em seu coração mas íntimo

 

E nem para o homem orgulhoso ao largo

É da furiosa lua que falo

Nestas páginas feitas de ondas e espumas

Tampouco para altissonantes mortos

Com todos seus rouxinóis e salmos

é para os amantes e seus braços que falo

Enredados nas aflições de seus dias

A quem não se paga elogio ou salários

A quem não se dão pagamento ou elogios

Destes meu ofício e arte não fiam

O PRIMEIRO BRASILEIRO EM MARTE: novas descobertas

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Já havíamos antes reportado, neste espaço, sobre a polêmica viagem de Cego Aderaldo e José Pacheco ao planeta Marte (Ver aqui: https://goo.gl/CzQxMb). Eis que agora temos mais um intrigante indício de que talvez um terceiro brasileiro o tivesse feito antes.

É com certo cuidado que expomos o que segue, mas o expomos, certos de que somente a discussão fecunda poderá trazer novas luzes sobre o caso.

 

Corintiano Voador

 

 

 

O PRIMEIRO BRASILEIRO EM MARTE – PARTE I

(Revista Panta Rhei. Ed. 13, ano 7, p. 13 – Ouroboros Editora)

 

 

É de conhecimento geral o rebuliço causado pela descoberta recente da memória de Sílvio Romero, o insigne jurista sergipano, dando conta de uma suposta primazia brasileira na visita a Marte, o fatídico Planeta Vermelho.

Digo fatídico por não querer dizer mais, dados os mistérios, os acontecimentos inusitados quando não macabros a cercar o ― assim se expressou o Dr. Czermk de Leipzig ― Enigma Marciano[1].

Mas então, o primeiro brasileiro em Marte? Enlouqueceu o autor, ou pior, chegou a tal ponto sua fatuidade? Mas não, é com destemor que jogo à arena o candente assunto, melhor diria candente revelação: sim, o primeiro homem a pisar em solo marciano foi brasileiro, e que brasileiro!

Sei, já prevejo os esgares nas faces doutas. Um brasileiro em Marte? Disparate!

Não foram diferentes as reações ao primeiro pouso de nau feita por homens em solo lunar por Bedford e Cavor, em 1901. Houve quem chamasse ao primeiro de louco fantasista, já que Cavor supostamente permanecera em solo lunar. Foram necessárias as expedições posteriores de 1915 e 1917, onde se estabeleceram relações com os desconfiados selenitas, não fáceis e nem pacíficas. O resultado, o resgate de Cavor, calou as vozes insultuosas.

Mas, e todos sabem, a verdadeira polêmica se deu quanto à primazia do primeiro pouso lunar, vez que americanos e franceses requestaram esta glória para Michel Ardan e Barbicane, do Gun Club, em 1865, ou mais exatamente, para os dois americanos membros do Gun Club e para Ardan.

Ora, se a viagem dos ingleses foi fartamente documentada, pelo menos no que tange ao fato de haver sido Cavor encontrado na Lua e ter este confirmado, inclusive documentalmente, a partida de sua esfera em 1901, não havia a mesma certeza quando ao feito do Gun Club, por muitos considerado como um gigantesco feito de propaganda. Não ajudaram, é claro, as revelações da ex-Mme. Adele Ardan no seu Michel Ardan raconté.

E temos então Marte!

Sim, tivemos uma viagem a Marte. Antes mesmo que à Lua. Não poucos desacreditaram da obra publicada por Edwin, sobrinho do ex-capitão confederado John Carter, com uma compilação de suas memórias (dele, John).

E nada mais natural, dada a ideia de que um, digamos mecanismo, manufaturado por  antiga e avançada civilização, permitisse a que um homem fosse de imediato transportado a Marte[2].

Havia mesmo a sugestão nas entrelinhas que existiriam outros sítios em nosso orbe a guardar mais destes mecanismos fantásticos. Cavernas em ermos inóspitos, quase inacessíveis, somente esperando seus aventurosos descobridores. O encontro de uma estranha relíquia entre os bens deixados pelo espólio do capitão Carter foi mencionada; como mencionado também foi que a relíquia foi prontamente arrebatada pelo governo americano e dela não mais se soube.

Acresce que por esta época houvera a descoberta dos canais marcianos, entrevistos ao telescópio por Percival Lowell, embora este não tivesse ainda publicado suas conclusões, o que só se daria em 1891.

Com o que voltamos ao Brasil e ao primeiro brasileiro em Marte.

O mundo editorial brasileiro foi sacudido há três anos pela descoberta do assim chamado Manuscrito Escadafhart, cuja autoria de Sílvio Romero hoje é incontestada, e sua publicação por Célia Loredano.[3]

Para os não iniciados, Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero, Sílvio Romero, foi brilhante jurista sergipano da chamada Geração de 1871 e, juntamente com seu mestre Tobias Barreto, revolucionou o pensamento jurídico e filosófico no Brasil de Dom Pedro II. Ambos foram membros fundadores da assim chamada Escola do Recife, ligada à Faculdade de Direito da cidade homônima.

Pois bem, foi este Tobias Barreto o primeiro brasileiro e talvez o primeiro homem no mundo a pisar em solo marciano. Expliquemos.

Encontrado em documentos avulsos durante pesquisa no Arquivo Nacional, o Manuscrito traz em seu bojo relato tão fantástico que somente as recentes pesquisas levadas a cabo por equipe mista da UFPE e USP  no Lajeiro do Frade, na cidade pernambucana de Escada, puderam separar o mítico do histórico, concedendo ao relatado foros de verdade.

 

A VIAGEM DE TOBIAS BARRETO

 

Em 1873, Albert Wilhelm Heinrich von Preussen, filho daquele que seria o kaiser Frederico III  visitou o Brasil, sendo recebido com honras por Dom Pedro II.

O jovem príncipe viajou, com numerosa comitiva, na corveta Olga, e saindo da Corte estendeu sua viagem até o município de Escada, Pernambuco, onde chegou na data de 03 de maio de 1883. O fato é referido em Himmel und Escadafahrt, artigo escrito por Tobias Barreto, único brasileiro a fazer da comitiva do príncipe imperial.[4]

Ora, tal fato sempre intrigou a historiadores, a não prevista visita do príncipe imperial de uma das mais poderosas nações da época a um esquecido município pernambucano, onde se vê hóspede do Coronel Marcionílio da Silveira Lins, Barão de Utinga, no engenho de Sapucagi.

O manuscrito conta história diferente do artigo de Tobias Barreto, onde este relata emocionado da honra de ter sido convidado para a comitiva imperial para visita à cidade que o escorraçara[5], além de tecer os mais ingênuos encômios à figura do príncipe e à cultura alemã de modo geral (Barreto era conhecido germanófilo).[6]

Não, nada de festas, rapapés, bandas. A visita principesca, assim relata o manuscrito, serviu tão somente para acobertar operação de espionagem sob o comando do Capitão-Tenente von Schwind para investigar a existência de uma “relíquia”, assim primeiramente chamada, sob a posse do coronel Marcionílio. O Manuscrito não deixa dúvidas: tratava-se de um dos “mecanismos de transporte” marciano, encontrado sabe-se lá Deus quando pelos primeiros conquistadores portugueses e arrebatado de uma gruta, evitada a todo transe pelos indígenas que então habitavam a terra.

Sabe-se que a procura por relíquias marcianas, estimuladas pela publicação das memórias de John Carter, virou uma febre a manter ocupado todos os serviços secretos das grandes potências da época.

Mas como chegou aos alemães esta informação, que de outra forma jamais cruzariam o Atlântico?

Segundo o Manuscrito, Tobias Barreto fora a fonte da informação[7].

Quando de sua estada na cidade de Escada, de quem foi deputado provincial e juiz municipal, Tobias manteve estreitos e profundos laços de amizade com o coronel Marcionílio e sua família.

Assim escreveu em seu Himmel und Escadafahrt: “…nos últimos tempos de meu exílio escadense, fora-me a casa do coronel Marcionílio, no engenho Sapucagi, um ponto de passeio e entretenimento, sem que tivesse, nem uma só vez que lá me achei, deixado de conversar sobre a Alemanha e meu fanatismo por ela.”.

E mais que a fonte, o intermediário que convenceu Marcionílio a franquear o acesso a cientistas alemães disfarçados de oficiais da corveta Olga, comandados pelo já citado von Schwind.[8]

No Manuscrito há menção de Sílvio Romero a relato de Tobias Barreto, onde se refere ter sido este procurado por Marcionílio quando de sua estada anterior em Escada. E foi nesta ocasião que Marcionílio, temeroso, lhe apresentaria pela primeira vez a relíquia, descrita como um “tubo metálico vermelho do qual escapavam bruxuleios”, quente ao tato e coberto de estranhos glifos que Barreto supôs fosse uma ancestral escrita marciana.

Sim, já nesta época, Barreto nutria suspeitas de uma origem marciana. Supunha, ainda segundo o Manuscrito, ter sido a Terra objeto de expedições do planeta vermelho ainda em eras priscas.

De qualquer maneira cerrou-se o episódio num velo de mistério e conspirações, dado que não sabemos que fim teve a “relíquia”. Teria sido levada pelos alemães? Teria permanecido sob a guarda de Marcionílio ou mesmo de Barreto?

Célia Loredano refere duas hipóteses isonômicas: o artefato teria ficado sob a posse de Marcionílio e/ou Barreto, dado que dificilmente poderiam os alemães tê-lo arrebatado do centro de poder de uma das figuras políticas mais poderosas da região, dispondo de homens e meios  a mancheia.

Ou, tendo sido entregue voluntariamente, fora levado pela comitiva principesca para destino que permaneceu e permanece ignoto.

Sobre esta segunda hipótese, refere Loredano que von Schwind era notório membro da Ordem de Thule, organização iniciática da qual o próprio Hitler teria sido membro. Ora, ainda segundo Loredano, é fato conhecido que no decorrer da Segunda Guerra foram patrocinadas pelo Reich expedições com o fito de encontrar-se ao orifício que levasse ao centro da terra, comandadas por oficiais e cientistas nazistas que eram ao mesmo tempo membros da mesma ordem iniciática. Não seria possível, pergunta-se Loredano, que tais expedições fossem um disfarce para a procura de grutas e cavernas onde poderiam estar escondidos outros tantos artefatos marcianos?

Para nossos propósitos tais considerações são, ao momento, inúteis, dado o conteúdo da segunda parte do Manuscrito. Esta, que nos interessa e sobre a qual nos estenderemos a seguir contém relatos fragmentados de visita ao planeta Marte ocorrida entre os meses de fevereiro a maio de 1878. A ela.

 

O DIÁRIO MARCIANO DE TOBIAS BARRETO

 

Sílvio Romero refere carta de Tobias Barreto datada de 6 de novembro de 1887:

 

[Amigo Sr. Sílvio:

 

Já deve ter recebido a minha última carta, na qual enviei-lhe as notas que me pedira. Creio ter sido completo. Se, porém, carecer de mais algum esclarecimento quanto às datas, escreva-me.

Venho hoje pedir-lhe um favor. Acaba de dar-se na faculdade…]

 

A referida carta pode ser cotejada à página 242 da edição comemorativa de 1991 dos Estudos Alemães.

Voltaremos ao assunto.

 

[1]Os professores Dr. Czermk e Dr. Rosenthal foram escolhidos para dirigir a publicação de uma Biblioteca Científica Internacional, em 1873. A feliz experiência foi erigida com o fito de traduzir ao alemão obras científicas que fossem dignas disso. A referência ao Enigma Marciano pode ser encontrada na obra Uber die Natur der Cometen (Sobre a natureza dos cometas) do grande astrônomo Johann Carl Friedrich Zöllner, publicada em 1872.

[2]Existe uma obra ficcional baseada nas memórias de John Carter, escrita por Edgar Rice Burroughs, a partir do livro de Edwin Carter, chamado A Princesa de Marte.  “um amontoado odioso, deturpante e fétido da jornada heroica de um grande homem”, escreveu Edwin em suas memórias, anos depois.

[3]GRIECO, Célia Maria Loredano. Manuscrito Escadafahrt: uma aventura de Tobias Barreto. Editora UFRJ, Rio de Janeiro, 2013.

[4]Himmel und Escadafahrt, página 201 da reedição comemorativa dos Estudos Alemães, de Tobias Barreto, patrocinada pelo governo do estado de Sergipe em 1991. O fato foi também noticiado na edição de 4 de maio de 1883 d’O Diário de Pernambuco.

[5]Tobias Barreto, nos anos de 1879 a 1881, residindo em Escada, por conta de querela não ainda de todo explicada, teve sua casa cercada por jagunços dos grandes da terra que o expulsaram do local.

[6]Primus inter pares, O senhor Barão von Seckendorff é um dos mais belos exemplares, que tenho visto, do homem culto e delicado…. Quanto ao príncipe Heinrich, eu já sabia por informação de uma escritora alemã, que a princesa imperial Vítória dedica-se muito à arte de jardinar, e que o momento ético e cultural deste trabalho se deixa ver claramente na educação de seus filhos. Himmel und Escadafahrt in Estudos Alemães, p. 203.

[7]Célia Loredano localizou uma brochura publicada às expensas próprias por Thomas Maples (?) em tipografia da cidade americana de Philadelphia, provavelmente em 1892, mas sem maiores indicações, na Biblioteca do Congresso: An Extraterrestrial Relic In Brazil? An Inquiry About The Olga’s Expedition.

[8]Provavelmente Ernst Wilhelm Carl von Schwind zum Hel, desaparecido em 1919, talvez no Báltico, capturado por forças soviéticas estacionadas na Letônia. Segundo Loredano, é quase certo ter pertencido ao serviço secreto da marinha alemã.

AS CRÔNICAS DE VERÃO

Lago Nofuto - Kiyo

Lago Nofuto – Kiyo

 

BALAC, O MUTILADO.

A paisagem do lago Oeste é a mais bela do mundo.

De onde estou posso ouvir o chiado dos peixes sendo fritos mais adiante, na popa. Estranhamente, cheiro algum chega até mim, o que empresta à cena um matiz a mais de irrealidade.

Quem sabe? Alguém sabe? Talvez este seja o barco das fadas e este lago talvez seja o sonho cansado de um mercador. Digo-o a Alix e ela ri, entornando mais vinho em minha taça.

Bebi talvez demais. O barco roda e eu com ele.

A nossa volta, as árvores se enfileiram até o horizonte, debruçando-se a beira do lago algumas e outras com as raízes já submersas. Pássaros azuis e verdes e ocres, rapinantes dourados, quirópteros mostrando sua bela pelagem azul e ocre e mesmo oliva, todos a emitir um milhão de sons. O lago Oeste não cabe em si.

A água é prata nesta tarde de névoas e frio. Nosso barco cada vez mais longe da margem.

Dentro vagueamos a tarde toda nas águas calmas, onde no momento meus olhos e meus ouvidos estão pousados na placidez. Preguiçosamente me encosto e viro páginas. O códice sobre meus joelhos, sobre meu peito, finalmente sobre meu rosto.

Nosso barco mais uma vez se aproxima das margens, galhos por sobre nossas cabeças, meu camarote aberto, agora, dá para um jardim. Adormeço entre madressilvas e freixos.

Sadoc viera pela manhã, um enviado da Autoridade, cheio de presentes e vestindo a seda mais azul. Por detrás da neblina deixara seus criados ocupados em montar a tenda, tomando o pequeno bote até nosso barco.

Abracei-o e ele me abraçou, conscientes nós dois da tarde, do momento e de necessidades.

Balac é velho

Como a bétula é velha

Como a prata e seus terrores

E tão depressa chegara, veio também a estonteante maré de perguntas e as cartas e tudo tão rápido e estonteante que virei meus olhos para a porta e dali para o lago e suas árvores, refletidas na mansidão leitosa.

O lago Oeste respira suavemente

E sussurra

Ao abrigo das árvores em sua margem

A solidão verde em paz com a névoa

Esta tarde e suas resinas retidas no sonho da madeira

 

Alix sentou-se ao meu lado, “você deveria parar com isso”, disse rindo para ninguém em especial, o que significava que era para mim que reservara as ironias da tarde. “Poeta e lago certamente que formam quase uma unidade, mas é de poesia que falamos, pois não? Você exagera”.

“Perguntaremos a Sadoc”, eu disse.

“Perguntaremos ao juiz do distrito, aos remadores…”, e seu sorriso luminoso expandiu-se de tal modo que me enfureci pela milionésima vez por saber que ela jamais seria minha.

As tardes de sexta-feira, uma concubina, uma pedra

Todas podem ser vistas no fundo do lago,

A mulher traz uma galho de pinheiro oloroso

Entre as mãos postas

Ela era valente e digna

Todo um poema a aguarda em minha lembrança

 

As tardes passam devagar, flutuantes

E é vermelha a pedra.

Ambos ainda me olhavam com, não direi espanto, nem admiração, mas com surpresa, ao término da estrofe. Sadoc serviu-me de sua própria jarra de vinho, Alix adicionou porções de bolinhos salgados em meu prato.

“Linda a imagem da mulher, embora talvez um tanto mórbida, fora de lugar a parelha de concubina e pedra…”, Sadoc encostou a taça na de Alix e depois na minha.

“Mulheres mortas são inadequadas”, eu disse, “por isso providencio lagos e pinheiros”.

“Imagino a seda que ela veste”, Alix me sorria terna e serena.

Meu coração é companheiro da primeira lua

quando descemos até a água

ondas nos tornamos e isso nos conforta

ondas nos tornamos e tal nos parece conveniente

o lago gentil nos fornece roupagem e névoa

 

nossas esposas submersas tecem uma seda macia e azul

“Sabe por que vim até aqui Balac?”, o rosto jovem anuviou-se, torturado.

Não era fácil, eu supunha, um pouco do antigo poeta ainda sobrevivia no jovem aristocrata, ainda permanecia sob a capa risonha Sadoc, o Baladeiro. Muito do que eu gostava dele vinha dessas tensões, que lhe davam um brilho talvez que se apagasse um dia, mas que por enquanto ali permanecia.

“Alguma coisa importante imagino, ou não te mandariam de Armorion até aqui com todo este séquito aparatoso”.

Sadoc, mudo.

“Meus livros proibidos de circular, minha poesia considerada indigna, censurada pelo clero, por seu pai…alguma coisa assim, sem muita imaginação”.

Arrumei meu corpo magro no encosto acolchoado da cadeira, desconfortável ainda mesmo após todos os meses passados, com meus cotos de asas coçando e as costas todas encostadas, de modo inatural e obsceno.

Alix tomou da cítara e se acompanhou na recitação, sorrindo distante.

Comercio com fadas, agora

A moeda de suas asas me basta

Pela manhã, nunca mais Audiarda e o gelo nas montanhas

Nunca mais Briseis e os portos ventosos à tarde

Ainda assim, penso em Armorion

 

Sou somente uma mulher com cítara

Contando os anos e os amores perdidos

 

Eu continuei.

Sou somente um homem sem cítara

Não mais Audiarda, que dirá Briseis

Meu gosto por putas tem mudado

 

Não faço conta de meus anos

os amores estarão por aí, presentes

e nada poderei fazer

Ninguém é culpado pelo céu

 

Em outra hora conversarei com Deus

“Grosseirão!”, e riu.

“Agora, uma balada, leve-a em sua viagem de volta”, me dirigi amargo a Sadoc, “e você também minha Alix de amores perdidos, deve ouvi-la, improvisada como está, mas minha, não obstante”.

Os dois voltaram-me rostos constrangidos, lacrimosos. Ergui meu copo de bêbedo e comecei.

Visitem Armorion, Onde asas em debanda,

Levam ao céu lira e verve

flutuando em negra dança

 

 

Em cada rua um poeta, a cada puta o seu muro

Poeta, puta e monturo, em cada ruela incerta

Em cada buraco um músico, a cada soldado: caserna

A toda hora o seu canto, e brilhante a neve eterna

 

Visitem Armorion, onde todo dia é santo

Onde acalanto é poesia, a cada poeta o seu tanto

A cada padre uma aposta

e missas por ninharia

prelados fazem magia

Lá todos voam de costas

 

 

 

 

 

 

O CAMINHO PARA A BÉTULA

 

Sadoc se retirara para sua tenda.

E Alix veio a meu convite. Acho que falei. Ouçam.

 

“Devo lhe dizer uma coisa que tenho aqui, como direi?, entalada em minha garganta”. Alix sentou-se, não sem um sorriso de mofa, na almofada à minha frente. Ao fundo, mandara abrir a janela dando para as margens.

“Vai morar até o fim dos tempos neste barco? “. Tomou de uma fruta e cravou-lhe delicadas presas, o olhar curioso e maroto.

“ Sabe qual é a ironia maior daquele que procura ser o melhor no que faz? “. Disse como se não tivesse sido interrompido, “ não? Talvez? Não sabe? Bem, por isso a chamei para esta curta, ou assim espero…bem, curta e constrangedora entrevista.”

“Você descobriu que queria ser juiz…ou pretor, e agora não sabe como me dizer que toda sua poesia é uma merda?“.

Suas asas feminis espreguiçando-se roçaram o teto, lânguidas, seus seios se destacando contra a faixa de seda de busto, o rosto sorridente.

“Alguma coisa assim…trágica e patética assim “. Uma aragem gélida penetrou no camarote, me forçando a jogar uma manta sobre meus cotos sensíveis.

“O problema é que Balac é prisioneiro de Balac. Ele não caga mais, não trepa mais, só maravilha aos pacóvios. Todo o século se desmanchando, o Novo Estro, a Palavra de Ouro, os movimentos diversos, as modas de trovador que vêm e vão. Balac é o poeta do momento, cercado de outros tantos maravilhosos, cada um deles um gênio incontestável se saísse da órbita do decano. Mas não, nenhum deles, estes outros maravilhosos, me deixará.”

“O problema é que este Balac precisa que você saiba de algo: será rápido e o mais indolor que eu puder arranjar”.

Uma pequena lágrima começou a se formar em seu rosto e sua mão escorregou pela seda da almofada até a minha. Sua boca se abriu e eu tive certeza de que tentava impedir-me de falar.

“Não, nada assim tão simples“. Desvencilhei-me de sua mão e ri.

“Faremos o que for mais necessário e digno…e se sobrar energia, faremos do modo mais agradável esteticamente também”. Creio que agora eu ria, tristonho.

“Alix, eu já estive perdidamente apaixonado por você. Suspeito mesmo que ainda esteja e é só. Não falaremos mais disso, de modo a que me sobre alguma dignidade”. Alix agora chorava abertamente e em silêncio.

“É claro que você já sabia, ou pelo menos suspeitava, e é claro também que isso não modificaria em nada minha decisão de fazer-lhe tal comunicação. No mais, normalmente…é praxe em tais casos que um dos envolvidos se afaste, mas eu queria que você atentasse para o fato de que só acrescentaria uma nuança a mais ao ridículo. Gostaria que ficasse, portanto”.

“Balac, eu…sinto muito”. Novamente o gesto de me tocar a mão, desta vez interrompido a meio caminho. “Eu abriria o meu peito a faca, eu faria mesmo isso para não te magoar”.

“Perdão, já notou que ‘eu sinto muito’ e ‘meu peito a faca’ podem estar a caminho de se tornarem clichês mortais?”.

E levantei-me dali, arrastando-me para fora com o máximo de rapidez que podia, que se danasse a dignidade.

Eu caminhei no teu barco, ó deus

De popa a proa você não entendeu nada

As madeiras erradas, a decoração, o cômodo para seu coração

Cem mil milhas de espaço inaproveitado

Eu caminhei para nada

Eu caminhei para a névoa, solitária

E chorei pela ironia

Chorei por minha incapacidade

Chorei por meus filhos não nascidos

E eu tinha todo o espaço do mundo

Para me lamentar

 

Eu caminhei no barco do deus

com ele me entrevistei na sala púrpura

nada aconteceu…

Tudo isto é fábula,

meu diamante no meio da urze

Eu ainda aguardo o teu riso

Outra metade do meu poema

Palavra por mim esquecida.

 

ALIX DE BRISEIS

 

UM APÊNDICE

UMA TAVERNA

Também por Alix de Briseis

Balac. E Balac ainda tinha suas asas.

Era então Balac, o Risonho. E havia um Sadoc Sadoques também.

E um Issac, dito o Moço.

Eu servia então na taverna Ao copo e à Lida, (enquanto eles conversavam, eu me perdia em reminiscências e copos de vinho). Havia me despedido de Aram em Briseis e percebia em mim uma necessidade de me perder entre as gentes.

Era um tempo estranho. O ar era mais fino naqueles dias em Ardenca-Sobre-O-Mar.

À Terceira Hora de uma madrugada de Jaspe foram queimados um poeta e um camponês herético. Doze anos me separavam do meu Romance Azul e Carmim e me comprazer em parecer uma tola e encontrar agrado nisso não me parecia difícil.

Lembro com prazer as manhãs em que voltava das compras no mercado sobraçando ovos, chouriço e toucinho rançoso. Lembro de me levantar antes da aurora e me deitar somente em alta noite. Lembro de beliscões em meu traseiro. Lembro do taverneiro, que me ensinou que eu nada sabia sobre como ser estúpido é nada mais que o esperado, é nada mais que natural. Lembro de um bairro em que voar era a mesma coisa que pedir para vomitar e assim todos caminhavam. Lembro de um marítimo que estava engajado em um navio da família de Aram (e eu chorei).

Era uma época de incertezas. Mas, havia verdade.

Cada um tinha a sua é certo. Mas todos com a mesma e insana dose de certeza (a música cheirava à matemática nessa época e correta poesia saía da boca de prelados).

E havia Balac, Issac e Sadoc. Balac ainda tinha suas asas.

Balac, Issac e Sadoc, eu sabia com certo humor álacre, estavam conspirando com o século.

Não me dizia respeito, é claro (eu me afastara e eles respeitavam a minha escolha. Minha solidão).

E eu até mesmo ria à socapa, enquanto lhes servia mais vinho.

E que beberrões aqueles!

Uma constante nos textos da época é a reminiscência, o tempo melhor que já se foi ou então a espera. […] O poeta canta, e há ironia e medo no seu canto, a vida e a arte não são nada mais que reflexos. Consciente dos signos invertidos que utiliza, da linguagem cifrada especular com que tenta cinzelar a realidade e a decadência, a Lenta e digna decadência. Seria demais não lembrá-lo quando referimo-nos a estes tristes filhos da Escola de Armorion? […] …a assim chamada Série de Aram, uma cadeia de poemas e crônicas, escritas provavelmente entre ‘240 e ‘249, cobrindo temáticas as mais diversas, ligadas por um motivo comum: Aram. Provavelmente Aram de Tosques ou Aram da Ilha, advogado e político oriundo de uma das famílias mais antigas de Audiarda. Consta terem ambos, Alix e o citado, tido um relacionamento amoroso de juventude que terminou por imposições familiares. Muito embora Balac, em uma de suas Crônicas de Verão, tenha escrito que terminou porque simplesmente havia “Alix demais para Aram de menos”, o “que talvez tenha sido uma perda para a satisfação emocional e sexual da poeta, mas um grande ganho para a música de sua poesia”…

 

Conimbricensis, Jonas, in ASAS DOLORIDAS: UM ESTUDO SOBRE O MOVIMENTO DECADENTISTA, pg. 304, variorum, Armorion, Shaitani Livreiros, 12.597.

Tá certo? É isto mesmo?

Saint John The Baptist by Alexey Kondakov

CALMARIA

Calma

a pedra está iluminada

é um dia e uma consequência

água cheia ou morna

e na manhã também, o céu, tonto, baço,

Com estes dias qualquer coisa se constrói, é inventada, qualquer coisa,

Universos, tecidos, obras brancas e obras negras, nada

Existir tornou-se um projeto, solidificado, táctil, pesado.

Um momento sai, dando lugar a um vácuo impossível,

Uma abertura na retórica monotônica,

de ameaça

o dia inteiro assim, um arrastar de sandálias,

Conversas soltas

O mar.

CALM

the stone is lit up

is one day and a consequence

both full of lukewarm water

and the morning also, the sky, dizzy, spleen,

With these days anything if it builds, it is invented, anything,

Universes, woven, white works and black works, nothing

to Exist became a project, solidified, touchable, heavy.

One moment leaves, giving place to an impossible vacuum,

An opening in the rhetoric monotonic,

of threat

the whole day like this, drag of sandals,

free Conversations

THE sea.

SAUDOSISMO

Ó que saudades dos tempos de outrora, onde as coisas eram mais sérias. Os cavalos cavalavam, as árvores arvoravam, as pedras pedravam, as gostosas gostosavam na santa paz de Deus. Ó tempo distante e inolvidável quando as noites noitavam tão bem, os motéis então, nem se fala, motelavam com galhardia. Os homens homavam, as mulheres mulheravam com graça; ou então, se fosse o caso, viadavam os homens e lesbicavam com maestria as mulheres. Hoje não. Hojé nós só bundamos. E bundamos muito mal, por sinal. Escrevi com emoção!