POEMETO BREVE PARA SER LIDO SOB CANDEIAS

BRIEFLY HELD THE SUN – by Alexxias788 – DeviantArt

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Quando eu leio eu leio.

Meu pai era um homem apaixonado pela vida, só não sabia. E não lia. Quando muito, a Bíblia, que me dizem ser um livro cheio de beleza. Não comento, aceito. Cheio de beleza e tá tudo bem. Não me manifesto também sobre os Upanixades, o Alcorão, o Popol-Vuh, mas tomo cuidado de lhes adicionar maiúsculas.

O Mahabharata, os Escritos Sagrados da Umbanda, o Livro dos Espíritos. Leio mal o sânscrito e quanto ao francês sou uma putinha de cais tentando agradar aos marinheiros. Mas.

Quando leio, leio.

Quando morro, paro de respirar.

Mas amo aos seios das musas

E neles vejo texturas e sei que o diabo, há tempos, já não desempenha seu papel. No pique de um momento, perco e acho minha ideia.

Vigiei Deus, mas ele nunca me levantou a cara.

A bom e bem, respiro. É Deus agindo, solerte. Na lufa de um vento grande, vejo: Nossa senhora, o busto de São José. Tem de tudo neste mundo.

No enredo do livro me basto. Todos os seres são claros, só eu sou turvo.

Uma vez eu disse, tolo até à medula, que reconheceria qualquer lugar do mundo só pela luz que deles viessem. Não penso mais assim. São só frutos amargos de anos difíceis.

Neguei até o fim, em trela, tristeza e alívio.

No pique de um momento vi que a saudade se sustinha, curta.

Então.

A bem e bom conheci, me foi permitido conhecer, a parte interna das coxas de mulheres, seus muitos e fecundos dons, suas reentrâncias e neles meti meu rosto e esperei em fé não ser mal-recebido. Depois seus entornos ( e elas se deitaram para que eu os mapeasse), depois seus prantos que beijei.

A cinza sempre me foi ardente.

Quando li, li.

A PENA DIGITAL

A arte de ler: um catecismo.

caligrafo

Certo, existia antes o diário (feito em casa, por mocinhas burguesas aflitas ou por homens talvez ciosos demais de sua importância). E existia o livro (consulte antropólogos, sociólogos e afins para saber o que é). E existia o jornal (estão por aí, citados por muitos e lidos por ninguém). E existia o hábito de ler, dizem, mas não é verdade. Ocorre, ocorreu que em épocas priscas não havia rádio, televisão, internet, que dirá blogs. Os ricos, os quase ricos, os remediados, eram os únicos leitores e, por consequente, os únicos consumidores da página escrita. Minto, uma minoria dos ricos, quase ricos e remediados consumiam e liam as folhas com caracteres de imprensa. O restante consumia apenas obras técnicas, didáticas. Os futuros engenheiros, advogados, juízes, políticos. Vez por outra uma ou obra de escritor para imitar o estilo, que não podendo ser imitado, dava vez a textos chatos e compridos. Foi a era de ouro dos advogados falastrões, dos juízes e suas sentenças incompreensíveis, dos poetas de ocasião. O que é outra imprecisão, pois eles continuam por aí, os que escrevem como se lhes tivessem extraindo os dentes. E havia o resto, a imensa massa de pobres que não lia nada, até que porque não havia nada para ser lido que os tocasse. E também porque estavam ocupados criando cultura: sambas, choros, lundús, danças e festas. Tudo de significativo que até hoje está por aí e que continua sendo feito, refeito, transformado na maravilhosa usina de utopia chamada Povo. O que significa que uma minoria produzia obras impressas para uma minoria. E apenas uma minoria da minoria produtora de obras impressas produzia algo significativo que, por sua vez, era consumido por uma também minoria da minoria consumidora. O brasileiro não lê? Nunca leu. E, com maiores ou menores índices, o europeu, o japonês, o tadjaquistanês. Ler sempre foi um hábito de poucos. Talvez porque exija disciplina, talvez porque seja feito em solidão. E agora, o blog. O blog: nem diário pessoal, nem livro, nem jornal, nem televisão. O blog, essencialmente visual, mas mesmo assim também espaço para a escrita: seja ela crônica, confessional, comentadora, as vezes meramente constituída de extratos de textos de outras mídias, de outros tantos blogs, mas escrita assim mesmo. À parte a questão de quem consome o blog enquanto fornecedor de imagens e vídeos, mais interessante é quem “lê” o conteúdo do blog. Suspeito que apenas uma minoria da minoria dos blogs produzam textos, que serão consumidos por outra minoria. Também os textos de boa qualidade serão exceção, como excepcionais seus consumidores. Nada tão drástico. As “cousas” continuam a seguir o mesmo padrão. Suspeito novamente que assim continuarão, como parte da ordem natural das coisas. Perdão, das “cousas”. No agora agorinha, acho que é tudo o que eu tinha dizer sobre o ato de ler. Durmam!

UM CARRO DE BOI DOURADO

Comigo acontece e não sei se com todos.

DAY AT VILLAGE by Comunity Artist Group

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Um Carro de Boi Dourado é música de parceria de Gilberto Gil e Francis Hime, cabendo ao primeiro a letra, a Francis a música e arranjos. Fez moderado sucesso nos anos oitenta, embora a maior parte das pessoas com que eu, fascinado, procurava conversar sobre ou não a conheciam ou se conheciam torciam o nariz. “Rapaz, entendi nada…”; “Ô letrinha esquisita, amigo, diz nada com nada…”, e por aí ia.

De qualquer modo, alcançou certa relevância e chegou a merecer um clipe no Fantástico da globo, glória máxima à época. Gosto e sempre gostei muito da versão de Francis, mas anos depois topei com uma interpretação de Lenine para álbum especial sobre a obra de Francis. Esta ganhou minha preferência.

Quando ouvi pela primeira e depois pelas setecentas vezes seguintes me bateu aquela confusão típica de quem não entende, mas alguma coisa dentro de si entende, e bem. Basicamente, a letra fala de uma parada ou mesmo procissão liderada por um carro-de-boi cósmico. Um carro-de-boi brilhante, “fluorescente, iluminado”.

Na sua boleia compartilham o espaço deuses e heróis diversos. Touro Sentado, Xangô, o Buda. Logo atrás segue uma fila caótica de “escravas louras, morenas”, “nobres de Roma e de Atenas”, “soldados, sábios, mucamas”, o “Bamba e os super-heróis”. O efeito no ouvinte é de uma grande parada festiva na qual todos os ícones pop desfilam. Com se um dia se estabelecesse um pequeno ensaio lisérgico do apocalipse, onde os ídolos-espelhos da era industrial e tecnológica desfilam ante uma plateia ideal, o ouvinte.

A mistura é a mais diversa possível e tem de ser a mais diversa possível, espelhando a fome onívora da sociedade do entretenimento, onde o sabonete se posta ao lado do deus, o passista de escola de samba com bacantes, roquenrou com hinos sacros, Jesus e guitarras, com a televisão ou a tela do computador indistinguíveis do oratório doméstico.

Confiram aqui no link (enquanto existir o link): https://www.youtube.com/watch?v=llI4MCLx73s.

Um carro de boi dourado

Surgiu na estrada gemendo

Gemendo um doce gemido

Vozes lhe seguindo o som

Bois elegantes puxando

Rodas de luzes piscando

Um carro de boi neon

Um carro de boi neon

Um carro de boi neon

Um carro de boi dourado

Fluorescente, iluminado

Trazendo Touro Sentado

Sentado ao lado de Tron

Buda sorrindo calado

Admirando o machado

Empunhado por Xangô

Os anjos celestiais

Os campeões mundiais

Nobres de Roma e de Atenas

Escravas louras, morenas

Todos desfilando atrás

Soldados, sábios, mucamas

Alfarrábios, fliperamas

Tudo desfilando atrás

Atrás do carro de boi

Atrás do carro de boi

Como na escola de samba

O bamba e o super-herói

Como na escola de samba

O bamba e o super-herói

Um carro de boi dourado

Passou na estrada gemendo

Trazendo os deuses e o som

Um carro de boi neon

Um carro de boi neon

Como escrevi acima, foi ouvir à música e me sentir entendendo o que eu não entendia. Um sinal bem claro de que se tratava de relação de arquétipos, que existem para serem sentidos e não lidos.

Foi então que anos depois (muitos anos depois) me deparei com uma animação de 2006 do japonês Satoshi Kon, Paprika. Simplificando ao máximo, trata de uma megacorporação de pesquisa que desenvolveu um dispositivo que permite acesso aos sonhos. Lá pelas tantas, algo dá errado e os sonhos começam a invadir o que chamamos de mundo real em uma torrente de imagens distorcidas de todos os sonhos possíveis.

A partir de certo momento percebemos que não se trata, só, de sonhos individuais, mas sim de amostra densa, fragrante e múltipla de todas as imagens do inconsciente humano.

Para representar este evento no roteiro, Satoshi kon imaginou uma gigantesca parada, um imenso bloco de carnaval cósmico, invadindo às ruas de Tóquio. Ali se vê de tudo: uma orquestra de sapos; mocinhas em uniformes colegiais com cabeças de telefones celulares levantando as saias plissadas para serem fotografadas e filmadas por cúpidos senhores de meia idade (vale notar que garotas em uniformes escolares são objetos de desejo erótico onipresentes no imagético japonês erótico e pornô).

Desfilam também deuses diversos, eletrodomésticos, homens-guitarra, políticos, bonecas, demônios, executivos, robôs e santas.

Pouco a pouco os circunstantes, cidadãos de Tóquio, a plateia, começam a aderir ao desfile, as vezes se metamorfoseando no processo.

Confiram aqui no link um recorte da cena: https://www.youtube.com/watch?v=Mr86_f-kLSQ.

Nos extras do DVD da animação o diretor Satoshi Kon declara que na preparação do roteiro e depois na execução fez questão de delimitar com exatidão como desejava que fosse construída a cena, à qual chamava a Parada de Tudo o que Existe.

Recomendo que assistam. É animação com imagens belíssimas e roteiro primoroso.

Dei esta volta toda para colocar em paralelo a canção de Gil e Francis (aquela que não entendi) com a animação de Kon (aquela que entendi pouco também). De alguma forma senti que a canção e a animação se completavam, falavam das mesmas coisas; talvez se comentassem mutuamente, ainda que seus autores jamais tenham, até onde sei, tomado conhecimento um do outro.

Senti, o que é diferente de entender, é até antípoda, como se fossem duas erupções, diversas no tempo e no espaço.

Erupções que sentiram a necessidade de comentar ao século e mais agora ao milênio hiperimagético onde ora navegamos.

Ambas as criações nos apresentam um inventário de nossas mitologias, todas dispersas, mas intercomunicantes. Um inventário nivelador, atemporal. Um inventário do palpável e do ubíquo.

Uma obra o faz pela palavra cantada e a outra pela imagem.

E como têm ambas o mesmo mote, falam também o mesmo idioma.

E é isso.

KEEP CALM AND MAKE A MACUMBA

O Fumante Antes de Pecar – By KALÉBER NIETO.

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Fique calmo e pense. Não é tão ruim.

A pessoa no banheiro, diante de sua nudez, em voz inaudível começa a leitura de si mesma. Toda a vida é um nome e um trabalho.

Só dói quando eu penso. Só Dói quando eu rio.

Mas.

E entretanto.

Não se desespere.

Não se desespere que tenho eu a solução mágica bem aqui, na minha algibeira, no bolso do colete, na pochete.

E é só (vejam só) só mais uma magia, mas funciona.

Comigo funciona. Faço assim. Olho para o lado e vejo meu cachorro dormindo, tarde da noite, mas ainda ao meu lado que ele não vai dormir se eu não vou dormir.

É. Eu sei das coisas, do petróleo de Deus e dos sigilos. Do arco da vida. Digo assim, sibilante, me sei. Me sei como uma ponta livre de cabo de sisal ou de algodão, toda uma seda em trama de corda passando por uma alça, entrelaçando, as fibras torcidas.

Quando molhadas, incham. Mas de comprimento contínuo são.

Todo caso, as fibras não precisam ser torcidas.

Todo caso sei que é ouro, os que o buscam racham muita rocha e acham muito pouco. Todo caso é vida reclusa, aquela que não honra os genitais com hinos, aquela que vigia entre a aurora e a tardinha. Aquela que diz veranico quando deveria dizer tempo bom.

Todos os cães latem contra o que não conhecem, que o mal ama ocultar-se. Convém então que dure a pessoa menos que uma vela. Na verdade, convém que todas as plantas sejam juízas do mundo.

Por outro lado, mortos não esperam, nem conjecturam e à noite toda pessoa desnuda acende a luz, à procura deste mundo e com a esperança de que seja o mesmo para todos, um fogo sempre vivo.

De modos que o tempo é sarcófago e tem a boca em “Ó” e é novo o tempo e o dia a cada dia.

Às custas do dia e do sofrimento os velhos remoçam. O caminho dos pintores, reto e curvo, é sempre o mesmo.

Profundo é o mundo do sonho e bela é sua artesania. Mas é mais sábio o que sabe velar, porque dorme bem.

Sofrimento é levedura e vida é pão, mas quando falarem do amor digam “cerveja”.

O sigilo, o bruxedo, o mais nobre fim  é fazer as pazes com o Diabo e com Deus, ambos com “D” maiúsculo. É se exercitar na técnica do criar a mais complexa das tramas e disto fazer vir à luz a mais densa das macumbas.

Fique calmo e pense. Fique calmo e faça o amor, chupe a vagina da flor ou chupe o pênis da pedra. É amor e já valeu a passagem comprada e tudo mais se seguirá: filhas, filhos, obras brancas, obras negras, tudo o que nossa alma ciumenta abarcar.

Mais elevado que o amor é o amor.

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Keep Calm And Make A Macumba é um sigilo. Desconheço quem o criou e, caso se manifeste, terei prazer em pedir desculpas pelo uso, retirá-lo da postagem se for o caso ou tornar pública fonte e autor.

Sobre a razão e a fé e sobre a Grande Viagem. Ah, e onde também se fala sobre um jogral de minhas relações

Familiar 2 – by artursadlos – DeviantArt

A verdade pode ser conhecida pela razão e também pela fé. Da primeira maneira trata-se de uma prospecção do espírito, enquanto a segunda é uma aventura arriscada. A primeira maneira foi preconizada por diletos varões. Guilherme de Ockham me vem à mente mas, principalmente Tomás de Aquino. A segunda maneira também, pelo Aquinate, mas a parte do arriscado devemos mais a Søren Aabye Kierkegaard, com sua concepção da fé como um salto rumo ao desconhecido.

Kierkegaard era dinamarquês e seu sobrenome significa cemitério. Já Aquino é só um lugar.

Aquino era de família aristocrática, enquanto Kierkegaard era um burguês, de família burguesa e era um sofredor profissional.

E temos também Mestre Eckhart, que conversava diretamente com Deus, assim como Juan de la Cruz e Santa Teresa de Ávila, que descendia de judeus como Tomás de Torquemada, um inquisidor que dedicou sua vida a queimar pessoas. Nenhum dos dois que eu saiba, Teresa também, se preocupava com a verdade. Eckhart por tê-la de graça e pela graça, Torquemada por ter o espírito tão cheio de soberba quanto um pároco tem o estômago repleto (falo de párocos antigos; os modernos tem a internet e automóvel). Teresa e Juan sofreram demais para se preocupar com o tempo em que viviam. Natural, privavam com Deus, o atemporal. Teresa significa “caçadora”.

O ano passado foi difícil para mim. Desagradavelmente (restrospectivamente, coisa para se repensar agora). Ano passado conheci a uma mulher vestida de azul, de rosto sempre sorridente e dada a conversas vagarosas. Suspeito que me levou o pai. Me deu algum susto. Minha tia Noêmia viu também à senhora de azul. Na verdade, uma grande fileira de tias e tios a conheceu. Uma enorme fieira cheia de nós, como fieira de pião. Um nó para cada vida, de modo que é especial a última hora de cada vida que a mulher de azul tomou. Mas eu falava da verdade.

Eu falava da verdade mas deveria falar da minha relação com a verdade. Esclareço, nunca foi muito boa. A fé, por alguma razão, nunca me foi acessível. Não que não tenha tentado, mas o Senhor Deus nunca me facilitou as coisas. Já a razão, com esta me dei melhor. Sempre.

Constrangedor como eu nunca consegui seguir uma missa (sou de uma longa tradição de católicos relapsos que nunca de fato levaram a sério admoestações  de padres e, aliás, nunca gostaram muito de padres. Que me lembre, meu avô paterno evitava entrar em igrejas e nas festas religiosas chegava sempre depois da missa e ficava do lado de fora, o chapéu às costas, apreciando.

Minha avó era prima de meu avô. Eu nunca entendi os seus banhos rituais de sexta-feira.

Também meu avô materno não dedicava grande respeito à “Santa Madre”. Minhas avós não sei. Talvez orassem).

Certo, saí do parêntesis. Voltemos à verdade.

Friedrich Wilhelm Nietzsche não acreditava na verdade e tinha ojeriza à metafísica. No entanto, encontrei o seu “Assim Falava Zaratustra” em uma banca de jornal aos vinte anos e, vejam só, sem ter qualquer experiência prévia com o indizível (exceto Cego Aderaldo e Zé Limeira e Leminski) o apreendi de imediato. Daí que entendi que a verdade tinha a ver com a poesia.

De todo o escrito só me agrada aquilo que uma pessoa escreveu com o seu sangue. Escreve com sangue e aprenderás que o sangue é espírito.

Isto é Nietzsche no seu “Zaratustra”.

Para apreender a verdade pela via poética temos que ter como pena um osso nosso e um sangue nosso. Quanto mais vermelho, melhor. Foi o que entendi e tentei levar à prática, não obstante meu sangue fosse rosado.

E então meu pai morreu em março de 2020 e não havia nenhuma verdade ali, somente um homem de face emaciada, magra e eu não o conhecia mais. Todo nós, filhos e filhas e netos rodeamos ao caixão. E se mostrou um caixão pesado quando eu peguei a alça da frente, à esquerda. E não havia nenhuma grandeza ali, somente a falta dele que tomou o lugar de seu corpo físico, de seu riso, de sua bondade.

Minha mãe, já dele separada, chorou.

Se havia alguma grandeza era pretérita, quando ele chegava à casa pela manhã, vindo de um trabalho noturno estafante e trazia queijo e pão fresco. De quando ele caminhou comigo num dia gélido, minha mão na sua mão. De quando ele me trouxe um livro que ele jamais leria, mas respeitava, pois que meu pai respeitava aos livros.

Se havia alguma verdade ali, era a da senhora de azul que levou de modo igual aos Tomases, o de Aquino e o Torquemada, a Teresa e a João e à minha tia Noêmia.

Meu pai lá, pequenino, finito e belo; como é bela a vida. Meu pai lá, cercado de flores murchas. Sinceramente (posso ser sincero), senti que a razão, a fé e a verdade não significavam nada ante à vida. E a vida é trabalho perpétuo.

Duas vezes se morre, primeiro na carne, depois no nome, escreveu Manuel Bandeira.

Acho que é tudo o que eu tenho a dizer sobre meu pai.

KAMIKAZE JOE E A MÃE QUE ELE ADQUIRIU, BARATINHO, BARATINHO (relato em primeira pessoa)

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Todo mundo devia de ter uma mãe. Mesmo octogenária e chata, um tico de mãe, resmungona e sem bons modos. A minha eu comprei num mercado de mães em Karakorum, ali, como quem vai pra Xanadu, passando por Samarcanda.

Esclareço. Era um dia quente, verão do cão e lá estava o pregoeiro anunciando um lote de mães, baratinho, baratinho, recentemente adquirido pelos piratas marcianos de Otokar, o cruel. (suspeito que Otokar, o cruel tava querendo se livrar das “mães”, que sabiam ser mais cruéis ainda).

Mas então, eu, lá em Karakorum, de passagem, a caminho das Justas de Dragão em ReginaDuarte III, lá no universo 33, pertim pertim do Lajedo do Padre, o planeta dos romeiros.

E lá estava ela, aquela senhora de rosto severo, olhando pra todo mundo com uma cara de senhora severa, do tipo que já conheceu o sertão no pior dos dias e achava Nova York besta, Miami uma vinte e cinco de março que fala inglês (e mal) e Paris um lugar fedorento cheio de cachorros felpudos fedorentos.

Tava ali, uma mãe à venda. “Mãe profissional, pariu sete, criou seis”, cantava o pregoeiro, “apenas cinco mil sequins ou duzentos contos platinados”.

Pensei, pensei e pensei. Pra que é que eu precisava de mais encrenca em minha vida? Era um tico de mãe, devia de ser mais chata que…bem, faltam-me, faltavam-me os adjetivos.

Mas, era um tico de mãe e eu sempre tive um fraco pelas mães.

“Dou dez mil sequins e não se fala mais nisto…”, bradei, muito puto.

“Quer que embrulhe?”, o pregoeiro.

“Quero não, quero passar raiva desde já”.

Já no espaço, na ponte de minha portentosa nave Briolanje, Temujin Pancho, meu parceiro de aventuras, perguntava preocupado.

“Uma mãe? Tu comprou uma mãe?”

Foi neste momento que adentrou Dona Neide, minha androide pessoal.

“É…comprei uma mãe…”

E prontamente assumi minhas obrigações de capitão da gloriosa fragata. “Dona Neide, por favor, o relatório da missão do Sombreiro do Califa, faz favor!”

“Tu já não tinha problema bastante?”, Temujin, algo constrangido, ajeitava o caimento de uma dobra de seu magnífico manto de seda de marca Eifell-Bilac, comprado a peso de ouro em Patrocínio, o país dos aeronautas.

“Seu Kamikaze…”, Dona Neide. “Vou poder não. Vou ter que ajudar Dona Edicleusa a preparar os pastéis-de-concreto com fígado”.

“Certo”

Sob a iluminação mortiça das luminárias flutuantes, em silêncio, descalçei as botas.

“Certo. Pouco sal, por favor”

Virei-me para Temujin Pancho, companheiro de aventuras, músico bissexto e notável cronista e autor do irreprochável Kamikazion.

“A aventura exige bravura e sacrifício…”

“Cumé?”

“Todo mundo tem que ter uma mãe, Temujin, minha preta”

Dona Ediclesusa então nos convocou para o jantar e meu coração de herói se transformou num soufflé de chuchu.

E foi assim.

RESPOSTA A UM QUESTIONAMENTO A MIM FEITO OU BATMAN, ORA O BATMAN!!!

Batmao – by EstudioOrnitorrico – Deviant Art

Ora, sem dúvida você conseguiu incomodar. Estive lendo as postagens e em quase todas percebi um viés pessoal (não todas, claro. Apareceram uns tantos e quantos que destoaram).

Todo caso, a postagem vossa parece que atingiu um nervo exposto. Quando você optou numa temática, a meu ver, corajosa, ascultando a este lado sombrio da personagem Batman, a saber, o fascismo entranhado na personagem, parece-me que você incomodou.

Mais importante, ainda a meu ver, que vossa postagem (aliás, duas), foram as reações.

Vi reações diversas. De indignação. “Quem é você que nada produziu querer comentar sobre…?”.

Não me impressionaram. Ora, somos receptores de diversos discursos, textuais ou imagéticos. Ninguém me informou que deveria o receptor de qualquer discurso necessitar também ele ser o produtor de um discurso para dele discordar. O discurso, quando sai ao mundo, já não pertence mais a seu produtor. Ele se abre à interpretação. Não fosse este o caso, não caberia mais falar do discurso.

Outros, se ativeram ao chão-de-fábrica. Ora, se é significativo o discurso, não cabe discutir a motivação do discursador. Como se houvesse alguma distância entre o perfil ideológico do autor do discurso e sua obra. Ora, é justamente esta trama, densa, indissolúvel, entre o discursador e sua obra que torna o, Discurso, único, identificável.

Exempli gratia: aprecio imenso Joseph de Maistre, como aprecio imenso um antigo dinossauro, brasileiro, hoje esquecido, Gustavo Corção. Nem por isso deixo de considerar que ambos consideravam com suas tripas, adstritos aos cânones de sua classe e, por mais inteligentes e perceptivos que fossem (e eles foram, inteligentes e perceptivos a enésima potência), não conseguiram sair do cercado, dos muros intelectuais de sua casta.

Então, os admiro. Não compactuo, mas aprecio suas obras, seus insights, seus mergulhos no caldeirão da cultura de sua época.

Não entendo esta pretensão (e para mim é este o nome, pretensão, veleidade, superficial na intenção e falaz na forma) de pre-tender isolar o autor da obra.

A obra não é autônoma, é apenas livre para tocar o espírito do receptor. Esta a única liberdade que a obra tem. Deste ponto de vista, aberta, sujeita ao alvitre do receptor, se me permite a menção, a paracitação a Umberto Eco.

E, ainda segundo Eco, neste modo de ver, a obra continua, aberta como é, a expandir-se num universo conceitual. A obra é dinâmica ou, pelo menos, por mercê de ser…uma obra, um construto expandindo-se e alongando até deixar de ser pertinente, até deixar de significar. Se não morrer, é um clássico.

Deixo de lado as considerações sobre análise marxista, por não entender onde e quando se deram. Talvez, careçam estas colocações, de uma leitura mais acurada do bom e velho “Nick”, nosso Carlos Marx, muito citado e pouco lido. Sério, “análise marxista” doeu. Parece que a moda do milênio é isolar qualquer discurso com o qual não concordamos e colocar nele o selo do anátema: marxista. Me ofende às narinas.

E temos então o mote principal: Batman, fascista? Não entendo o espanto. Imaginemos um milionário, não, um bilionário brasileiro, atlético e pujante que resolva combater ao crime (na medida em que entendamos o que seja o crime). Ele então,  com seus imensos recursos, constrói uma base de operações, cheia de badulaques tecnológicos propiciados pelos setores criativos de seu conglomerado empresarial (multiempresas com presença em todo o planeta). Bem, a seguir sai às ruas para combater bandidos rasteiros, o lumpen proletariat do crime? Só?

Foi assim no começo das tiras do homem-morcego, nos anos de crise dos trinta. O bom Kal-El também se submeteu a esta rotina.

Natural que se tivesse que criar aos supervilões. Se o guarda-noturno foi esteroidizado, por que não o punguista?

Inda assim, o leitmotiv continuou o mesmo. Batman combate aos “sociopatas de cento e vinte quilos”. Batman combate aos “Zés”.

E, mais atualmente, Batman, quando combate a criminosos de colarinho branco, sempre deixa o subtexto de que estes se submetem a algum gênio do crime de plantão. Gotham é pródiga em gênios do crime. Tem sempre um Napoleão do crime, um Moriarty de ocasião.

Também o Superman. Olá, Lex Luthor.

Então, sim. É fascista…Frank Miller, desculpem, o Batman. Por vezes, se me esqueço e troco às tantas as personagens.

Não vejo qual o problema em Frank ou mesmo seu rebento serem fascistas.

Me alerta e me preocupa?

Não, me preocupo mais com os tempos e com as feições dos tempos que geram estes monstros.

Um grande abraço.

DE E SOBRE PESSOAS QUE FORAM GENTIS COMIGO QUANDO NEM PRECISARIAM SER COMIGO GENTIS

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_Piano inacabado – by VOADOR

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O que dizer?

Acho que desde 2013 estou aí no espaço fantasmal e internético. Conheci aos bons, os que diferença fazem.

Vejamos, Dom Mariel, o Fernandes, emissário de nosso bom “El Rey” nas províncias nossas do sul (e que descobriu alma nas bicicletas).

A dona Mariana, dos Gouveias, de Goiás e mato Grosso adentro, tecelã de ritmos e arqueóloga de quintais.

Ao douto Breno Battistin Sebastiani, amigo e devoto de gregos, que depois se pôs em nuvens e escondeu-se (fê-lo bem, fê-lo mal? E eu sei?).

A Roberto, o Short, que me ensinou a duvidar (e por conta disto me ensinou a crer, inda que ateu o bom Roberto). E a Celma (celtn@ig.com.br), que é toda uma Celma. Quem és?  Manifeste-se.

E Cris Campos (aparteeotododemim.wordpress.com), que é toda uma “Cris”. E minha dama Alessandra Barbierato (Alessandra Barbierato_AlessandraBarbierato / alessbl@hotmail.com), a moça que postava pinturas e pontuava como quem discorre sobre o caos.

E lunna, a Guedes, sob a capa de Catarina, “a que voltou a escrever”. E que escreve e olha a paisagens e considera com o dia.

E a Sousa, que é Ester, antagonicos.wordpress.com, e também, talvez, stersousaw@gmail.com, a quem já dediquei uma postagem. Como dediquei a Dom Mariel e a Dona mariana (tenho bom gosto).

E Eusébio, Eusébio (infante.blogspot.com), depilada@hotmail.com, que achou errado urinar no túmulo de uma mãe. Entendi. Continuarei a urinar, mas entendi.

E o que dizer de Áurea Cristina Szczpanski? aureacristina23@hotmail.com, com este lindo sobrenome polonês e tanta delicadeza d´alma.

E Guilherme, o poeta? poesificando.wordpress.com, gcarvalho.silva@gmail.com, que me assomou, vez por vez, com crônicas ao claro do dia.

E o bom Evandro Balu Saracino, facebook.com/app_scoped_user_id/1794546787440622, ersaracino@gmail.com, que comigo ouviu ao Terveet Kädet ao lado de sua mãe e dileta amiga minha, Elzir, do dileto clã dos Saracino.

E Jair, o Vargas, labirintoradical.wordpress.com, Jdebritovargas@gmail.com. Um jovem que me dá prazer em constatar que é um jovem. Uma promessa.

E Trícia, a Araújo, passarosesilencio@gmail.com, que sabe apreciar com delicadeza e nem saber (acho) que sabe mais do que a maioria (imensamente mais) que acha que sabe apreciar com delicadeza.

E Morgause, morgauseds.wordpress.com, morgauseds@gmail.com, que é irmã de Morgana, claro.

E Bruna? Certamente! Mãe do seu adosedodiablog.wordpress.com, eta-vida@hotmail.com.

E Felipe Calabrez, que exerce o ofício de poetar, ali no rezenhando.wordpress.com, af.calabrez@yahoo.com.br .

E Gabriela Buraick, afetoesubversao.com, gburaick@gmail.com. Solerte e fatal,  descobriu a secretíssima identidade do Corintiano Voador e, ó glória, manteve-se silente ante o mundo.

E Francine, a Camargo, papodefran.wordpress.com, francinesccamargo@yahoo.com.br, de comentários sempre adequados (mas que só percebo adequados no depois, pois que Francine é Zen, despretensiosa por sábia. Francine é uma monja e não sabe. Ou sabe).

Maria Vitoria, aestranhamentee.wordpress.com, vickjoselita@yahoo.com.br, que eu gostaria de entender melhor. Melhor, a quem eu gostaria de entender. Ou seja…

A Poesia Espinha de Peixe, https://poesiaespinhadepeixe.wordpress.com/, por ter publicado o nosso SOBRE A POESIA E OUTRAS EXCENTRICIDADES, ttps://corintianovoador.wordpress.com/2017/07/27/sobre-a-poesia-e-outras-excentricidades/,.

Nem sei por que.

Pippo Bunorrotri, Pippobunorrotri.com, info@Pippobunorrotri.com. O moço que sussurra. Traduzi um dos sussurros. Não discuto o resultado, por pundonor acerbo.

Ricardo, o Vergueiro. ricvergueiro@gmail.com. Colega de cátedra e de vício. Futuro escrevinhador do Kamikazion.

Sumidão. igorflorim95@gmail.com, a quem chamei de “senhor”, por gosto meu.

O que dizer?

Grato a todos pelo tempo, pela verve, pelo suor escorrendo até às teclas, pelo cuidado, pelo dom da palavra amiga. Enfim, a cortesia.

Vocês percebem o quanto fazem a diferença? Vocês são rio e corredeira.

Falei e escrevi com emoção!

O TEMPORA, O MORES

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Metropolis – Fritz Lang

Os tempos. Ah, os tempos. As redes sociais, os veículos com piloto automático e retrovisores em forma de tela que nos mostrarão a localização exata do mendigo que nós atropelaremos. Os tempos, as redes sociais. Onde nem sequer mais digitamos, copiamos. Os tempos. Onde podemos prever sem tristeza o fim da conversa e o começo de um eterno assistir, visual, nada trabalhoso. As redes sociais e os tempos, onde poderemos odiar a vontade e sem medo.

As redes sociais onde falaremos contra as redes sociais.  Eu sinto falta de um Jesus digitando em alguma espécie de feicebúqui celeste. Os tempos. Onde marcaremos compromissos para pancadaria, onde mendigaremos um “láiqui”. Um “láiqui” peloamordedeus! “Láiquis”, me dêem “láiquis” para que eu me sinta mais vivo. Por favor, um “comentário” peloamordedeus. Um “comentário” exaltando a minha inteligência e a minha agudeza de espírito para que eu me sinta menos só.

Aviso aos interessados: estou vendendo minha verve, minha picardia, meu senso crítico…bem, bem baratinho.

E estou deixando minha casa de Passárgada porque descobri que o rei não é meu amigo e já tenho amigos, obrigado, não preciso do rei. É isso.

Corintiano, Voador por escolha, natural de Cabul, morador de Clevelândia, obstetra e ajudante geral, escreveu.

EU, O ESCRITOR

BOOK by Blindmanphoto – by DeviantArt

Nunca publiquei poesia ou conto ou sermão, não do modo normal. Romance então. Tenho como certo que também, nunca, me daria bem como ajustador mecânico de enredo. Me falta o jeito, o “aplomb” e o culhão.

E não fiz, não cometi o texto publicado por fazer parte dessa raça piolhenta que sãos os leitores. É só o que sei fazer. Se me metesse a começar o romance seria como? “Na madrugada de vinte para vinte e um de maio de 2019 caíram vinte e dois mil e setenta e oito meteoroides no espaço geográfico do Brasil, totalizando 9.575,966924 toneladas. E nenhum deles atravessou o telhado de Obdúlio Silva”.

Daí pra frente, esquece. Não sei continuar. Não sei continuar e Obdúlio que me perdoe. Não sei como introduzir Perséfone Rodrigues, o amor de sua vida, sem falar de Toinho, o vendedor de amendoins torrados ou do gato sinistro que habitava o vão de escada da casa de Manú, a médium iluminada.

‘cabava tudo ali mesmo, nos tais meteoroides.

Daí minha inveja de quem escreve, fala coisas, conversa, engambela, dá umas voltas, vai e volta, encaixa um coiso na coisa e de repente tão todas as personagem vivendo, sofrendo e fodendo ao alvitre do escrevinhador.

Não, nunca chegarei na estratosfera com a pena em riste. Darei uns pulos, no máximo um voo de baixíssima altitude, feito um drone produzido por um nerd perdido na periferia de São Bento do Coco.

Talvez um romance psicografado do espírito de luz Salvalindis? Não sei. Como seria? A história de Francisco Cotó, escravo liberto do Coronel Boanerges Cotrim, que se envolveu com sua filha Esperança Cotrim e foi morto pelo perverso capataz Elesbão, do qual foi ele, Chico Cotó, obsessor profissional por cento e vinte e três anos. Sem contar o próprio Boanerges, que reencarnou como Jupira dos santos, prostituta explorada por Rogério, aliás reencarnação de Francisco Cotó.

Daria certo. Talvez.

Mas.

Já disse, sem jeito, “aplomb” ou culhão. Me conheço. Iria misturar os amendoins torradinhos de Toinho, Obdúlio se casaria com o Coronel Boanerges, Esperança Cotrim iria reencarnar como Perséfone Rodrigues, moça que passa a vida a chicotear as bundas de homens tímidos em absconsos apartamentos na galante profissão de dominatrix.

E ainda teria o Apocalipse, com os quatro cavaleiros surgindo por cima do Edifício Itália, sendo que o cavalo da morte teria que dar uma parada para ferrar a pata dianteira esquerda no Jockey Club.

Provavelmente iria fazer todo mundo morrer da queda de um maldito meteoroide na mansão da “socialaite” Bárbara Hoheinhein de Alencastro e Castro que, aliás, nem entrou nesta história. Feito Manú, a medium, que entrou mas só como coadjuvante. Cachê menor.

Eu, o beletrista.

Tenham pena de mim!