KAMIKAZE JOE E A MÃE QUE ELE ADQUIRIU, BARATINHO, BARATINHO (relato em primeira pessoa)

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Todo mundo devia de ter uma mãe. Mesmo octogenária e chata, um tico de mãe, resmungona e sem bons modos. A minha eu comprei num mercado de mães em Karakorum, ali, como quem vai pra Xanadu, passando por Samarcanda.

Esclareço. Era um dia quente, verão do cão e lá estava o pregoeiro anunciando um lote de mães, baratinho, baratinho, recentemente adquirido pelos piratas marcianos de Otokar, o cruel. (suspeito que Otokar, o cruel tava querendo se livrar das “mães”, que sabiam ser mais cruéis ainda).

Mas então, eu, lá em Karakorum, de passagem, a caminho das Justas de Dragão em ReginaDuarte III, lá no universo 33, pertim pertim do Lajedo do Padre, o planeta dos romeiros.

E lá estava ela, aquela senhora de rosto severo, olhando pra todo mundo com uma cara de senhora severa, do tipo que já conheceu o sertão no pior dos dias e achava Nova York besta, Miami uma vinte e cinco de março que fala inglês (e mal) e Paris um lugar fedorento cheio de cachorros felpudos fedorentos.

Tava ali, uma mãe à venda. “Mãe profissional, pariu sete, criou seis”, cantava o pregoeiro, “apenas cinco mil sequins ou duzentos contos platinados”.

Pensei, pensei e pensei. Pra que é que eu precisava de mais encrenca em minha vida? Era um tico de mãe, devia de ser mais chata que…bem, faltam-me, faltavam-me os adjetivos.

Mas, era um tico de mãe e eu sempre tive um fraco pelas mães.

“Dou dez mil sequins e não se fala mais nisto…”, bradei, muito puto.

“Quer que embrulhe?”, o pregoeiro.

“Quero não, quero passar raiva desde já”.

Já no espaço, na ponte de minha portentosa nave Briolanje, Temujin Pancho, meu parceiro de aventuras, perguntava preocupado.

“Uma mãe? Tu comprou uma mãe?”

Foi neste momento que adentrou Dona Neide, minha androide pessoal.

“É…comprei uma mãe…”

E prontamente assumi minhas obrigações de capitão da gloriosa fragata. “Dona Neide, por favor, o relatório da missão do Sombreiro do Califa, faz favor!”

“Tu já não tinha problema bastante?”, Temujin, algo constrangido, ajeitava o caimento de uma dobra de seu magnífico manto de seda de marca Eifell-Bilac, comprado a peso de ouro em Patrocínio, o país dos aeronautas.

“Seu Kamikaze…”, Dona Neide. “Vou poder não. Vou ter que ajudar Dona Edicleusa a preparar os pastéis-de-concreto com fígado”.

“Certo”

Sob a iluminação mortiça das luminárias flutuantes, em silêncio, descalçei as botas.

“Certo. Pouco sal, por favor”

Virei-me para Temujin Pancho, companheiro de aventuras, músico bissexto e notável cronista e autor do irreprochável Kamikazion.

“A aventura exige bravura e sacrifício…”

“Cumé?”

“Todo mundo tem que ter uma mãe, Temujin, minha preta”

Dona Ediclesusa então nos convocou para o jantar e meu coração de herói se transformou num soufflé de chuchu.

E foi assim.

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RESPOSTA A UM QUESTIONAMENTO A MIM FEITO OU BATMAN, ORA O BATMAN!!!

Batmao – by EstudioOrnitorrico – Deviant Art

Ora, sem dúvida você conseguiu incomodar. Estive lendo as postagens e em quase todas percebi um viés pessoal (não todas, claro. Apareceram uns tantos e quantos que destoaram).

Todo caso, a postagem vossa parece que atingiu um nervo exposto. Quando você optou numa temática, a meu ver, corajosa, ascultando a este lado sombrio da personagem Batman, a saber, o fascismo entranhado na personagem, parece-me que você incomodou.

Mais importante, ainda a meu ver, que vossa postagem (aliás, duas), foram as reações.

Vi reações diversas. De indignação. “Quem é você que nada produziu querer comentar sobre…?”.

Não me impressionaram. Ora, somos receptores de diversos discursos, textuais ou imagéticos. Ninguém me informou que deveria o receptor de qualquer discurso necessitar também ele ser o produtor de um discurso para dele discordar. O discurso, quando sai ao mundo, já não pertence mais a seu produtor. Ele se abre à interpretação. Não fosse este o caso, não caberia mais falar do discurso.

Outros, se ativeram ao chão-de-fábrica. Ora, se é significativo o discurso, não cabe discutir a motivação do discursador. Como se houvesse alguma distância entre o perfil ideológico do autor do discurso e sua obra. Ora, é justamente esta trama, densa, indissolúvel, entre o discursador e sua obra que torna o, Discurso, único, identificável.

Exempli gratia: aprecio imenso Joseph de Maistre, como aprecio imenso um antigo dinossauro, brasileiro, hoje esquecido, Gustavo Corção. Nem por isso deixo de considerar que ambos consideravam com suas tripas, adstritos aos cânones de sua classe e, por mais inteligentes e perceptivos que fossem (e eles foram, inteligentes e perceptivos a enésima potência), não conseguiram sair do cercado, dos muros intelectuais de sua casta.

Então, os admiro. Não compactuo, mas aprecio suas obras, seus insights, seus mergulhos no caldeirão da cultura de sua época.

Não entendo esta pretensão (e para mim é este o nome, pretensão, veleidade, superficial na intenção e falaz na forma) de pre-tender isolar o autor da obra.

A obra não é autônoma, é apenas livre para tocar o espírito do receptor. Esta a única liberdade que a obra tem. Deste ponto de vista, aberta, sujeita ao alvitre do receptor, se me permite a menção, a paracitação a Umberto Eco.

E, ainda segundo Eco, neste modo de ver, a obra continua, aberta como é, a expandir-se num universo conceitual. A obra é dinâmica ou, pelo menos, por mercê de ser…uma obra, um construto expandindo-se e alongando até deixar de ser pertinente, até deixar de significar. Se não morrer, é um clássico.

Deixo de lado as considerações sobre análise marxista, por não entender onde e quando se deram. Talvez, careçam estas colocações, de uma leitura mais acurada do bom e velho “Nick”, nosso Carlos Marx, muito citado e pouco lido. Sério, “análise marxista” doeu. Parece que a moda do milênio é isolar qualquer discurso com o qual não concordamos e colocar nele o selo do anátema: marxista. Me ofende às narinas.

E temos então o mote principal: Batman, fascista? Não entendo o espanto. Imaginemos um milionário, não, um bilionário brasileiro, atlético e pujante que resolva combater ao crime (na medida em que entendamos o que seja o crime). Ele então,  com seus imensos recursos, constrói uma base de operações, cheia de badulaques tecnológicos propiciados pelos setores criativos de seu conglomerado empresarial (multiempresas com presença em todo o planeta). Bem, a seguir sai às ruas para combater bandidos rasteiros, o lumpen proletariat do crime? Só?

Foi assim no começo das tiras do homem-morcego, nos anos de crise dos trinta. O bom Kal-El também se submeteu a esta rotina.

Natural que se tivesse que criar aos supervilões. Se o guarda-noturno foi esteroidizado, por que não o punguista?

Inda assim, o leitmotiv continuou o mesmo. Batman combate aos “sociopatas de cento e vinte quilos”. Batman combate aos “Zés”.

E, mais atualmente, Batman, quando combate a criminosos de colarinho branco, sempre deixa o subtexto de que estes se submetem a algum gênio do crime de plantão. Gotham é pródiga em gênios do crime. Tem sempre um Napoleão do crime, um Moriarty de ocasião.

Também o Superman. Olá, Lex Luthor.

Então, sim. É fascista…Frank Miller, desculpem, o Batman. Por vezes, se me esqueço e troco às tantas as personagens.

Não vejo qual o problema em Frank ou mesmo seu rebento serem fascistas.

Me alerta e me preocupa?

Não, me preocupo mais com os tempos e com as feições dos tempos que geram estes monstros.

Um grande abraço.

DE E SOBRE PESSOAS QUE FORAM GENTIS COMIGO QUANDO NEM PRECISARIAM SER COMIGO GENTIS

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_Piano inacabado – by VOADOR

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O que dizer?

Acho que desde 2013 estou aí no espaço fantasmal e internético. Conheci aos bons, os que diferença fazem.

Vejamos, Dom Mariel, o Fernandes, emissário de nosso bom “El Rey” nas províncias nossas do sul (e que descobriu alma nas bicicletas).

A dona Mariana, dos Gouveias, de Goiás e mato Grosso adentro, tecelã de ritmos e arqueóloga de quintais.

Ao douto Breno Battistin Sebastiani, amigo e devoto de gregos, que depois se pôs em nuvens e escondeu-se (fê-lo bem, fê-lo mal? E eu sei?).

A Roberto, o Short, que me ensinou a duvidar (e por conta disto me ensinou a crer, inda que ateu o bom Roberto). E a Celma (celtn@ig.com.br), que é toda uma Celma. Quem és?  Manifeste-se.

E Cris Campos (aparteeotododemim.wordpress.com), que é toda uma “Cris”. E minha dama Alessandra Barbierato (Alessandra Barbierato_AlessandraBarbierato / alessbl@hotmail.com), a moça que postava pinturas e pontuava como quem discorre sobre o caos.

E lunna, a Guedes, sob a capa de Catarina, “a que voltou a escrever”. E que escreve e olha a paisagens e considera com o dia.

E a Sousa, que é Ester, antagonicos.wordpress.com, e também, talvez, stersousaw@gmail.com, a quem já dediquei uma postagem. Como dediquei a Dom Mariel e a Dona mariana (tenho bom gosto).

E Eusébio, Eusébio (infante.blogspot.com), depilada@hotmail.com, que achou errado urinar no túmulo de uma mãe. Entendi. Continuarei a urinar, mas entendi.

E o que dizer de Áurea Cristina Szczpanski? aureacristina23@hotmail.com, com este lindo sobrenome polonês e tanta delicadeza d´alma.

E Guilherme, o poeta? poesificando.wordpress.com, gcarvalho.silva@gmail.com, que me assomou, vez por vez, com crônicas ao claro do dia.

E o bom Evandro Balu Saracino, facebook.com/app_scoped_user_id/1794546787440622, ersaracino@gmail.com, que comigo ouviu ao Terveet Kädet ao lado de sua mãe e dileta amiga minha, Elzir, do dileto clã dos Saracino.

E Jair, o Vargas, labirintoradical.wordpress.com, Jdebritovargas@gmail.com. Um jovem que me dá prazer em constatar que é um jovem. Uma promessa.

E Trícia, a Araújo, passarosesilencio@gmail.com, que sabe apreciar com delicadeza e nem saber (acho) que sabe mais do que a maioria (imensamente mais) que acha que sabe apreciar com delicadeza.

E Morgause, morgauseds.wordpress.com, morgauseds@gmail.com, que é irmã de Morgana, claro.

E Bruna? Certamente! Mãe do seu adosedodiablog.wordpress.com, eta-vida@hotmail.com.

E Felipe Calabrez, que exerce o ofício de poetar, ali no rezenhando.wordpress.com, af.calabrez@yahoo.com.br .

E Gabriela Buraick, afetoesubversao.com, gburaick@gmail.com. Solerte e fatal,  descobriu a secretíssima identidade do Corintiano Voador e, ó glória, manteve-se silente ante o mundo.

E Francine, a Camargo, papodefran.wordpress.com, francinesccamargo@yahoo.com.br, de comentários sempre adequados (mas que só percebo adequados no depois, pois que Francine é Zen, despretensiosa por sábia. Francine é uma monja e não sabe. Ou sabe).

Maria Vitoria, aestranhamentee.wordpress.com, vickjoselita@yahoo.com.br, que eu gostaria de entender melhor. Melhor, a quem eu gostaria de entender. Ou seja…

A Poesia Espinha de Peixe, https://poesiaespinhadepeixe.wordpress.com/, por ter publicado o nosso SOBRE A POESIA E OUTRAS EXCENTRICIDADES, ttps://corintianovoador.wordpress.com/2017/07/27/sobre-a-poesia-e-outras-excentricidades/,.

Nem sei por que.

Pippo Bunorrotri, Pippobunorrotri.com, info@Pippobunorrotri.com. O moço que sussurra. Traduzi um dos sussurros. Não discuto o resultado, por pundonor acerbo.

Ricardo, o Vergueiro. ricvergueiro@gmail.com. Colega de cátedra e de vício. Futuro escrevinhador do Kamikazion.

Sumidão. igorflorim95@gmail.com, a quem chamei de “senhor”, por gosto meu.

O que dizer?

Grato a todos pelo tempo, pela verve, pelo suor escorrendo até às teclas, pelo cuidado, pelo dom da palavra amiga. Enfim, a cortesia.

Vocês percebem o quanto fazem a diferença? Vocês são rio e corredeira.

Falei e escrevi com emoção!

O TEMPORA, O MORES

Imagem
Metropolis – Fritz Lang

Os tempos. Ah, os tempos. As redes sociais, os veículos com piloto automático e retrovisores em forma de tela que nos mostrarão a localização exata do mendigo que nós atropelaremos. Os tempos, as redes sociais. Onde nem sequer mais digitamos, copiamos. Os tempos. Onde podemos prever sem tristeza o fim da conversa e o começo de um eterno assistir, visual, nada trabalhoso. As redes sociais e os tempos, onde poderemos odiar a vontade e sem medo.

As redes sociais onde falaremos contra as redes sociais.  Eu sinto falta de um Jesus digitando em alguma espécie de feicebúqui celeste. Os tempos. Onde marcaremos compromissos para pancadaria, onde mendigaremos um “láiqui”. Um “láiqui” peloamordedeus! “Láiquis”, me dêem “láiquis” para que eu me sinta mais vivo. Por favor, um “comentário” peloamordedeus. Um “comentário” exaltando a minha inteligência e a minha agudeza de espírito para que eu me sinta menos só.

Aviso aos interessados: estou vendendo minha verve, minha picardia, meu senso crítico…bem, bem baratinho.

E estou deixando minha casa de Passárgada porque descobri que o rei não é meu amigo e já tenho amigos, obrigado, não preciso do rei. É isso.

Corintiano, Voador por escolha, natural de Cabul, morador de Clevelândia, obstetra e ajudante geral, escreveu.

EU, O ESCRITOR

BOOK by Blindmanphoto – by DeviantArt

Nunca publiquei poesia ou conto ou sermão, não do modo normal. Romance então. Tenho como certo que também, nunca, me daria bem como ajustador mecânico de enredo. Me falta o jeito, o “aplomb” e o culhão.

E não fiz, não cometi o texto publicado por fazer parte dessa raça piolhenta que sãos os leitores. É só o que sei fazer. Se me metesse a começar o romance seria como? “Na madrugada de vinte para vinte e um de maio de 2019 caíram vinte e dois mil e setenta e oito meteoroides no espaço geográfico do Brasil, totalizando 9.575,966924 toneladas. E nenhum deles atravessou o telhado de Obdúlio Silva”.

Daí pra frente, esquece. Não sei continuar. Não sei continuar e Obdúlio que me perdoe. Não sei como introduzir Perséfone Rodrigues, o amor de sua vida, sem falar de Toinho, o vendedor de amendoins torrados ou do gato sinistro que habitava o vão de escada da casa de Manú, a médium iluminada.

‘cabava tudo ali mesmo, nos tais meteoroides.

Daí minha inveja de quem escreve, fala coisas, conversa, engambela, dá umas voltas, vai e volta, encaixa um coiso na coisa e de repente tão todas as personagem vivendo, sofrendo e fodendo ao alvitre do escrevinhador.

Não, nunca chegarei na estratosfera com a pena em riste. Darei uns pulos, no máximo um voo de baixíssima altitude, feito um drone produzido por um nerd perdido na periferia de São Bento do Coco.

Talvez um romance psicografado do espírito de luz Salvalindis? Não sei. Como seria? A história de Francisco Cotó, escravo liberto do Coronel Boanerges Cotrim, que se envolveu com sua filha Esperança Cotrim e foi morto pelo perverso capataz Elesbão, do qual foi ele, Chico Cotó, obsessor profissional por cento e vinte e três anos. Sem contar o próprio Boanerges, que reencarnou como Jupira dos santos, prostituta explorada por Rogério, aliás reencarnação de Francisco Cotó.

Daria certo. Talvez.

Mas.

Já disse, sem jeito, “aplomb” ou culhão. Me conheço. Iria misturar os amendoins torradinhos de Toinho, Obdúlio se casaria com o Coronel Boanerges, Esperança Cotrim iria reencarnar como Perséfone Rodrigues, moça que passa a vida a chicotear as bundas de homens tímidos em absconsos apartamentos na galante profissão de dominatrix.

E ainda teria o Apocalipse, com os quatro cavaleiros surgindo por cima do Edifício Itália, sendo que o cavalo da morte teria que dar uma parada para ferrar a pata dianteira esquerda no Jockey Club.

Provavelmente iria fazer todo mundo morrer da queda de um maldito meteoroide na mansão da “socialaite” Bárbara Hoheinhein de Alencastro e Castro que, aliás, nem entrou nesta história. Feito Manú, a medium, que entrou mas só como coadjuvante. Cachê menor.

Eu, o beletrista.

Tenham pena de mim!

LUZ LUZ LUZ MAIS LUZ

light study 36 by Razaras – DeviantArt

Todo dia a pessoa acorda e aí vem Deus. E Deus sussurra que antes de haver o antes, havia.

Todo. Tudo. Estamos falando da vida, por isso queremos o tudo, o todo e mais.

Nada ficará, o que é bom. Quem sabe assim, ficaremos.

Toda oração é teatro de mistério, todo mistério é máscara.

Um coração será chama somente se a chama se souber filha de carvão que queima.

Todo amanhecer será glória, toda pátina será selo.

Todo o todo é o que não se pode dizer ou sentir ou falar. Mesmo assim…

O rosto de cada um será mensagem.

Todo ato será pesado,

Toda escuridão traz em si sua prole.

É. Será. Todo caminho terá um fim.

Enfim, há a luz.

KAMIKAZE JOE E O SOMBREIRO DO CALIFA

space-hero

Um sombreiro é um sombreiro. Aquele chapelão mexicano sempre pousado na cabeça de um infante chamado Miguelito, como sabem todos os apreciadores do gênero Western.

(É assim que se escreve, Dona Neide?)

Mas…sombreiro do Califa?

— Jesus cristo, do que falamos aqui, Ibrahim?

— Um símbolo de poder, Bwana Kamikaze. —  E obsequiosamente Ibrahim improvisou uma mesura de cortesão.

— Dindonde?

Kamikaze Joe deu tragada valente no seu Tribeca Hashishin.

— Não dá aguentar esse teu bagulho, mano. Fede mais que estrume queimado de dragão-peidorreiro.

Temujin Pancho se afastou para o extremo da ponte de comando e colocou o condicionamento de ar no máximo.

— Cinco por cento de haxixe marciano, o resto é perfume e fumo-de-goma. Vai se foder!

Ibrahim, turbante azul-cobalto, pele azul-cobalto e barba carmesim, aguardou paciente o término da conversa entre o herói e o ajudante-de-herói.

— Nova Bagdad, Delta do Pavão, valente Bwana Kamikaze. O califado usa o sombreiro ancestral como símbolo de sua posição. É uma relíquia adorada por bilhões, até mais que o Dedão da Virgem.

— Quem…? —  Temujin.

Estavam todos na Briolange, a fragata pessoal de Kamikaze Joe, orbitando Capribarbicornipedesfelpudo, o famoso planeta-prisão.

Depois de entregar um prisioneiro célebre e receber a recompensa Kamikaze nada mais almejava que uma temporada de farra e orgia no puteiro de Madame Camorim, lá prás bandas de ReginaDuarte III.

Todos se lembrarão, é certo, da galante, mas também perigosa aventura que terminou com a prisão de Zeferin, o Demoninho Mauzinho Assassino Canibal.

Mas, como se pode cotejar em célebre página do Kamikazion, todos também se lembrarão que por esta época nosso herói passava por uma fase difícil, conflituosa em sua carreira de herói multifacetado e brigão. Ora, uma reputação é uma reputação e Kamikaze começava a perceber um certo deslustro na apreciação de seu nome.

Talvez uma consequência do fragoroso vexame no banquete de coroação da filha do Duque Negro, ocasião que o herói vomitou na veneranda barba de Shelomo Bar David, cabeça do rabinato em Benbally, no universo número 37.

Foi também nesta ocasião em que Kamikaze jurou nunca mais por na boca uma só gota do pestífero conhaque Padre Cícero, do qual recebera vinte caixas de safra especial, oferta da margravina das Sereias de Ébano de Bombalurina, no universo 33.

— Então eu tenho que achar a porra desse chapéu, é isso? Olha, leva a mal não, mas, não me levanto desta poltrona aqui por menos de quatrocentos contos platinados.

Temujin saiu da ponte de comando. Ibrahim, nervoso, rolou as contas de um rosário.

— Bwana, veja bem, nós sabemos onde está o sagrado sombreiro. Só não temos os culhões para o reclamar. E são oitocentos contos agora, o que oferecemos.

— Eitaaa, porra! —  Exclamou nosso herói, talvez um tanto grosseiramente.

— Seu Kamikaze, tão chamando o senhor pelo trambolho. —  Dona Neide, a androide pessoal de Kamikaze entrou na sala de comando com um comunicador em formato de pênis em uma das mãos.

— Trambolho? —  Ibrahim recolheu-se ante a visão de trinta monstruosos centímetros.

— Trambolho: Transdecodificador metadimensional de bolha holística. Esse aqui me foi dado de presente em Karu-Aru, pelas contrabandistas feministas da Feira-do-Rolo. —  Kamikaze aceitou, constrangido, o comunicador cheio de veias azuis que quase não cabia em sua mão.

— Elas são meio sarristas, as meninas. —  E levou o aparelho exótico ao ouvido.

— Alaummm? Quem fala?

—  O responsável pelo grupo local de universos. —  Uma voz andrógina extraordinariamente suave chegou aos ouvidos do herói.

—  Ô porra…Dona Neide, que é que tá pegando? — A face dourada de Dona Neide contorceu-se numa imitação maravilhosa de ignorância humana.

— Humm —  pigarreou —  …responsável pelo grupo local…tipassim, Deus? —  Kamikaze aproximou a glande do trambolho de sua boca.

— Não, tipo assim o responsável pelo grupo local de universos.

— Sei. Ah…e então?

— O problema, mestre Kamikaze Joe é que senhor está bagunçando tudo na minha área de atuação. Na verdade, o motivo de minha ligação é encontrar algum meio de convencê-lo ou de ameaçá-lo, talvez, para que pare de sonhar desta maneira tão obscena.

— Sonhar? Tá falando do que?

— Sonhar. O senhor, a partir de sua base de atuação está sonhando demais. Queria que voltasse para lá e tivesse sonhos, digamos, mais burgueses. Voltaremos a falar!

Ora, foi neste minuto, enquanto entregava o trambolho a Dona Neide, que nosso herói percebeu que Ibrahim não estava mais na sala. Ainda neste minuto o valente Temujin Pancho adentrou esbaforido.

—  Mano, cê não vai acreditar…um maluco ligou prá mim, pelo trambolho, e falou umas merdas. E olha….já te falei que um maluco ligou prá mim?

— Dona Neide, acho que já falei para controlar a maconha de Temujin, não falei?

—  Seu Kamikaze, leva a mal não, mas o planeta-prisão aí embaixo sumiu. Aliás, não leva a mal de novo, mas acho que as estrelas tão se apagando..

Kamikaze Joe acordou no universo zero.

A cama era pequena, o colchão velho e as cobertas bolorentas.

Dormitava em uma cama, no extremo oposto de um cômodo minúsculo, uma menina de uns dez anos que kamikaze,  dolorosamente, se deu conta que podia ser sua irmã.

Aos poucos uma estranheza começou a tomar de nosso herói, de onde um nome começou a emergir e kamikaze começou a pensar em si mesmo como Erenilson Erickson  de Jesus. E pior, começou a desconfiar que a mulher ressonando por puro cansaço, em outra cama, era sua mãe Edicleusa.

Havia um cheiro pungente de sujidade e um pano de fundo sonoro de uma rodovia movimentada e de apitos de trem.

Ao lado de sua cama estavam ajeitados, em uma estante rudimentar feita de blocos de cimento, um monte de livros e revistas em quadrinhos. Havia de Tolstói a Chiclete com Banana. Faulkner a folhetos de cordel.

Havia também um computador velhíssimo num canto do barraco. E quando Erenilson, não, Kamikaze, apertou uma tecla, surgiu um arquivo de texto com o título em negrito em corpo 24: AS AVENTURAS DE KAMIKAZE JOE.

Em outro barraco, ele intuiu, alguém de nome Jhonny Carlos de Santana Nicolau acordava para o turno da manhã na padaria Santa Edwiges.

E então ele sentou-se em sua pequena cama e por pura teimosia, observando cada pequeno detalhe das paredes de madeira esburacada e sentido cada nuança de ranço, enrolou-se nas cobertas.

Vagarosamente, o mundo se perdeu em sons cavos de abelha, espalhados por todo o cômodo.

— Chefe? —Temujin Pancho dava pequenos tapinhas no rosto do herói com uma Dona Neide na sua melhor imitação de preocupação maternal mais ao fundo.

—  Jonin?

—  Cumé. Chefe, tá maluco? Deu o maior medão na gente…ficou aí, paradão um tempão.

Era de novo a ponte de comando da Briolange e ali estava o engenhoso Temujin, no mais profundo pesar e preocupação pelo herói.

— Você está bem, Bwana?

Ah, sim. E Ibrahim estava de volta também, juntamente com o planeta-prisão e as estrelas.

— É…sabe de uma coisa, Jhonny…

— Quem?

— Tá…sabe de uma coisa, Temujin, minha preta… —  E o herói abriu seu melhor sorriso de safado profissional.

— Eu quero é que se foda o tal responsável pelo grupo local de universos.

E colocando um portentoso charuto Tribeca Hashishin em ângulo atrevido na boca.

— E que se fodam também os tais sonhos burgueses. Ibrahim!

— Bwana?

— Mil contos platinados! Prá cada um.

— Ouço e obedeço. —  Ibrahim caprichou na mesura.

— Mano, tu é doido. —  Temujin riu, algo aliviado.

— Dona Neide, traz uma cachaça. Não, peraí…traz um conhaque. Padre Cícero, por favor.

IDENTIDADES III – Andante Moderato

Shadow by mokkofisher_deatudf-fullview - DevianArt
Shadow by mokkofisher_deatudf-fullview – DeviantArt

PRELÚDIO

Interior – Dia – Um bar. Nada muito sofisticado, mas limpo, amplo, arejado. Duas atendentes, simpáticas atendendo e um homem de seus cinquenta anos, barba grisalha, no balcão, um copo de café e uma média lhes são entregues. Parece estar consultando apontamentos em um laptop. GUILHERME.

– Um homem negro, sessenta anos, vestindo roupas esfarrapadas, está sentado em um banco ao lado, conversando com uma mulher magra, de idade indefinível, andrógina. Ouve-se a voz do homem, mas não as respostas da mulher. Ambos parecem contentes com a vida e riem. VICENTE e a ANJA. Ambos parecem estar bebendo uma cachaça indefinível.

– um jovem de seus vinte e cinco anos, GEOFFROY, alto e de aparência tímida chega e senta-se ao lado dos dois, os observando discretamente. Sua aparência estudadamente descolada, barba cuidadosamente por fazer, não combina muito com o lugar, mas até aí, VICENTE E a ANJA também. Parece estar esperando alguém.

Música: começa Back Street Love, do Curved Air.

– Foco em Geoffroy, que parece, pouco a vontade, estar seguindo a música, balançando a cabeça.

CORTA PARA:

– Interior (veículo em movimento) – Dia – Uma jovem de vinte e poucos, descendência asiática, ao volante. LEILA. Parece também estar seguindo a música.

CORTA PARA:

– Foco lateral da câmera do ponto de vista da janela da motorista, altura do rosto. O Trânsito parado. Irritada, consultando ao celular. A música termina.

LEILA

Tomá-no-cú. Boteco do caralho…fica onde essa porra?…

CORTA PARA: Câmera no alto, em plongée. O carro e outros tantos, parados em um congestionamento. A música para.

CORTA PARA:

– LEILA chega até GEOFFROY, toca em seu ombro e conforme ele se vira, o beija nos lábios, sorridente. VICENTE interrompe a conversa com a ANJA, dá-se conta da presença de LEILA e gentilmente lhe cede seu lugar e toma outro. VICENTE, ainda ao lado da ANJA, ouve dela uma afirmação sorridente, inaudível. VICENTE, também sorrindo, concorda.

– Câmera subjetiva de uma atendente: LEILA pede um chocolate. Ao fundo se pode ver a VICENTE e ANJA deixando o lugar, de braços dados, ainda rindo.

GEOFFROY

Te liguei, cê não ligou…fiquei preocupado.

LEILA

Desculpa, tava em Monte Verde. Um negócio de última hora. Soube do teu avô.

GEOFFROY

É. Foi muito rápido, quando eu cheguei já tinha acontecido. Minha mãe praticamente tomou conta de tudo…só faltou tomar o lugar do rabino.

– LEILA se aconchega a GEOFFROY. Frontal.

– Câmera subjetiva de GEOFFROY. Vê-se a sua mão acariciando a face de LEILA.

LEILA

Sei. E cumé qui tá ela, a supermãe fodona?

– câmera subjetiva de LEILA. GEOFFROY faz um trejeito, como se não acreditasse na atitude de LEILA.

LEILA

Tá, desculpa. Mas é que…

– foco frontal dos dois.

LEILA

Ela nunca qui foi muito com a minha cara. Me demitiu, essas coisas. Desculpa aí…

GEOFFROY

Ela até que te acha muito inteligente. Sacumé…uma japa às direitas…

LEILA

Ah, tá. Fala pra ela que eu também acho ela uma…que porra que ela é? Uma “qualquer coisa aí” às direitas, também.

GEOFFROY

Senti tua falta.

– os dois se beijam, de leve.

CENA I

Interior – Dia – uma sala ampla, arejada por grandes janelões, antiga, com piso de placas de madeira. Dezenas de pessoas estão ali, algumas fazendo exercícios de alongamento defronte a um espelho. Outras dançando, com uma coreógrafa os observando atentamente, caminhando em volta do grupo e observando.

MÚSICA: S´Wonderfull, interpretada por Rosa Passos, soando baixo o bastante para que se ouçam os arfados, as conversas, os risos.

CORTA PARA:

Interior – Dia – Plano aberto. uma sala de reunião e um elenco de moças e rapazes sentados em semicírculo em torno de uma mulher de seus cinquenta anos, magra, consultando a uma prancheta e um maço de papéis. Ouvem-se sons indistintos de sua palestra e uma ou outra intervenção. SELMA PLÁ.

CORTA PARA: plongée – O semicírculo com SELMA ao centro.

CORTA PARA: plano americano – Um jovem de brilhosa pele negra, bonito, estudando uma brochura, enquanto volta e meia olha para o centro do grupo. Depois de algum tempo, olha o relógio. CAIO.

CORTA PARA: Plano de conjunto – CAIO se despedindo de todo mundo e já à porta. Para um pouco e ouve atentamente algo que SELMA diz. Acena em concordância, SELMA retribui, um pouco alheia, já voltando a atenção para a prancheta.

Interior – Dia – a primeira sala, a dos bailarinos. CAIO chega correndo, com uma mochila às costas. Aparentemente pede desculpas à coreógrafa, muito calma, apontando para o relógio de pulso. A música diminui e se desvanece.

CENA II

CORTA PARA:

Exterior – Dia – o parque. Plano de conjunto. Há sol. VICENTE caminha e conversa com a ANJA. Ainda se ouve apenas a sua voz.

CORTA PARA:

CENA III

Interior – Dia – a sala dos bailarinos. Close no rosto de CAIO, suado e extenuado.

CAIO

É foda!

CORTA PARA: a sala de reuniões. Close no rosto de SELMA PLÁ, sorridente e zombeteira.

SELMA PLÁ

Pois é. Foda, né não?

FADE OUT:

Exterior – Dia – o parque arborizado. VICENTE e a ANJA  dançam calmamente. MÚSICA:  Exu e Takeshi, de Marcos Visconti, no arranjo intimista de Cléia Tominaga para a banda Capitão Temor, com shabizen, berimbau, piano e assovios. Uma equipe de filmagem está enquadrando os dois. A dança prossegue com tomadas laterais, travellings e tomadas do alto.

Interior – Dia? – sem quebra de continuidade, a dança continua, com VICENTE e a ANJA dançando contra um fundo infinito branco. Eles dançam, riem, brincam entre si e com a mesma equipe de filmagem, que parece constrangida.

CORTA PARA:

Enquadramento em contra-plongée dos dançarinos, que vai subindo, os perde de vista e se perde no fundo infinito. Aparecem tremulantes, em preto, os créditos: os nomes dos atores somente e depois o nome da série: IDENTIDADES. A música para abruptamente.

CORTA PARA:

Exterior – Dia: o parque. VICENTE e a ANJA, sentados no banco, cansados, suados e sorridentes.

ANJA

………………………

VICENTE

É, faz tempo…não tenho mais resistência pra esse negócio…

ANJA

……………………

VICENTE

Cumé?

–Se ouve claramente a voz da ANJA, um belo contralto com leve sotaque espanhol.

ANJA

Eu perguntei se a moça do filme do CAIO é a mesma lá do hospital. Sabe, no dia da morte do outro moço, Mordechai, né…? Um conhecido meu me falou que encontrou ela lá no bar do Cao.

VICENTE

Ah sim, ela mesma, Selma. A nora da viúva…

ANJA

Interessante…sabia que ela, sabe, um dia a gente tava trabalhando…

VICENTE

A gente?

ANJA

Cê sabe, eu, os outros anjos…

VICENTE

Sei, interferindo na vida das pessoas. Esse teu amigo aí, que falou dela, também tava lá?

ANJA

Não, quer dizer tava, mas só como observador. Ele é meio que um demônio, sabe?

–Vicente, gargalhando e olhando para o alto.

VICENTE

Incrível como não dá pra distinguir na maioria das vezes. Papaizinho sabe que vocês trocam figurinhas?

ANJA

Depois de tanto tempo jogando a gente acaba por se acostumar um com o outro, sacumé… troca camisa depois do jogo, essas coisas. Conheci o cara quando ainda era junior, antes de ganhar as asas…

VICENTE

E ele tem nome?

ANJA

Ele é um puto meio sem imaginação. Gosta de ser chamado de Nibiru, mas um filho-da-puta legal, assim do jeito meio babaca dele.

VICENTE

Nibiru? Tá, podia ser pior. Ele podia escolher aqueles nomes da Divina Comédia ou então tipo Holywood…Rotomago, Nergal. Nibiru passa. E você não pode falar de nome, não…

–A Anja, sorrindo.

ANJA

Neide, acho superfofo, despretensioso.

VICENTE

Tá, mas que é que tem a Selma?

ANJA

Ah, desculpe, a Selma. É que ela é capaz de ver as coisas, sabe, tipo sensitiva? Anjos, demônios, fantasmas…se brincar até fadinha. Em outra época ia terminar num convento ou na fogueira, o que viesse primeiro.

VICENTE

É. E acabou cineasta.

ANJA

Deu sorte, muito menos perigoso, se não você não contar as dívidas com os bancos.

FADE OUT:

Interior – Dia – a primeira sala, a dos bailarinos. CAIO e uma parceira dançam ao som de Caresse, de Erik Satie, observados por SELMA PLÁ e GEOFFROY, seu filho. GEOFFROY aparenta não estar muito confiante no projeto.

GEOFFROY

É, cê acha que vai funcionar? Quer dizer, o rapaz é bom. Mas sabe atuar? Vai apostar nele?

–Selma, pensativa, a mão em concha segurando o rosto.

SELMA

Ele vai atuar. E bem. Só não sabe disso ainda.

–A música acaba e CAIO e sua parceira, reluzentes de suor, se aproximam de SELMA e GEOFFROY. A parceira é a ANJA. Selma a olha fixamente, só desviando o olhar para atender a uma pergunta de caio.

SELMA

AH, me desculpa, olha esse aqui é o meu filho, Geoffroy e também produtor executivo do filme.

–Caio o cumprimenta, sorridente e depois também sua parceira.

CAIO

Essa é a Neide, minha parceira.

–NEIDE, a ANJA, estende a mão a Selma, que a segura como se segurasse uma serpente.

NEIDE

Oi, já tinha ouvido falar…a gente não se conhece não?

–Close em Selma.

SELMA

Biscate!

Plano americano evoluindo para aberto, a câmera se afastando. MÚSICA: Rakuen wo Futari de, nas vozes de Hanare gumi & Kotoringo, da trilha sonora produzida por Riyuchi Sakamoto, começando baixo e a seguir aumentando, acompanhando o afastamento da câmera.

FADE OUT:

CRÉDITOS: aparece o título da série, IDENTIDADES, a seguir os nomes da equipe técnica, os copyrights de música e a produção. A música para abruptamente. Tela escura.

POEMEU DE FIM D´ANO PARA 2020

The Wrong Reaction by trattoGrullo – DeviantArt

E vejo que meu siso desfalha ante meu músculo primeiro

Entre morrer de morte morrida e honesta, toda esta festa

Desfalha por maldade e acinte, no sobreviver ao dia depois

De outro dia

A peste, o siso, o comtempto, o sol regulador, toda a alegoria

O manancial do caos, as plantas carnívoras saciadas, o carnaval

Vinte bilhões de dólares e dez outros bilhões de crises, tudim

Vejam como falo mal e pouco, como me desvelo nest´outro um

Ano aziago

Cabecim, curvelo, pão que amassou o diabo, o fim de vida dum

Mas, por fim, ‘ caba o ano, té que fim, eu precisava

Cercado de pessoas amorosas que amavam e ainda amam

E ainda aqui e ainda assim aqui está

O filho-da-puta-mor, o polidor de cascos do demonho

A vacina predita pelo demo, com cascavéis minúsculas

No cânulo

Que nos denunciarão, nos terão fitos, na mão o culhão nosso

E me dizem de um demônio ufano, chinês absconso, um fâmulo do demo

No degrau mais baixo, no desvão obsceno

Tudo que não sei dizer e urro

Cada filho-da-puta no seu canto, cada boizinho em seu curral

A terra desarredondada, não-geoide, agora plana

A inana, a terra-chã, o coração de pulo em pulo, o murro

Dois mil e vinte finando, sem Jesus, sem festa, só o moço

Somente aquele que se quer colosso, olhos verdes, boquirroto

O cujo que o cão pariu. Mas eu falava…? Ah, Brasil

Mesmassim, até por isso, ante o exposto, não obstante

valor

mais forte

se requesta

Então que seja boa a sua, a minha, a nossa festa!

AUDRE LORDE: uma tradução

Audre Lorde - in SI Home - 1981-by-JEB-Swann. Obs.: Alterada

Audre Lorde foi escritora, poeta, professora e ativista americana, nascida no Harlem novaiorquino de pais caribenhos. Sexualidade, raça, gênero, cultura, classe, doença, ela as discutiu pela única lente que considerava válida: a política. Homossexual assumida, desenvolveu o conceito do autocuidado feminino que ia muito além da estética de academia, envolvendo todo o espectro da vida para ser entendido como autopreservação. Feminista, jamais entendeu o feminismo como uno e fazia distinções entre correntes. A das mulheres negras, por exemplo.

E poeta.

Abaixo, seu intenso Movement Songs, que traduzi do modo mais infiel possível.

Como deve ser.

MOVEMENT SONG

By Audre Lorde

I have studied the tight curls on the back of your neck   

moving away from me

beyond anger or failure

your face in the evening schools of longing

through mornings of wish and ripen

we were always saying goodbye

in the blood in the bone over coffee

before dashing for elevators going

in opposite directions

without goodbyes.

Do not remember me as a bridge nor a roof   

as the maker of legends

nor as a trap

door to that world

where black and white clericals

hang on the edge of beauty in five oclock elevators   

twitching their shoulders to avoid other flesh   

and now

there is someone to speak for them   

moving away from me into tomorrows   

morning of wish and ripen

your goodbye is a promise of lightning   

in the last angels hand

unwelcome and warning

the sands have run out against us   

we were rewarded by journeys

away from each other

into desire

into mornings alone

where excuse and endurance mingle   

conceiving decision.

Do not remember me

as disaster

nor as the keeper of secrets

I am a fellow rider in the cattle cars

watching

you move slowly out of my bed   

saying we cannot waste time

only ourselves.

CANÇÃO DO MOVER-SE

Tenho observado os cachos apertados em tua nuca

se afastando de mim

mais além de raiva ou fracasso

teu rosto nas escolas noturnas da falta

entre manhãs de desejo e maturidade

estávamos sempre nos dizendo adeus

no sangue nos ossos durante o café

antes de correr para os elevadores

em direções opostas

sem despedidas.

Não lembro de mim nem como ponte nem como um telhado

como uma autora de fábulas

nem como armadilha

porta para aquele mundo

onde executivos em preto e branco

esperam, no limite da graça, ao elevador das cinco horas

contraindo seus ombros para evitar outra carne

mas agora

há alguém para falar por eles

afastando-se de mim para o amanhã

manhã de desejo e maturidade

uma promessa o teu adeus, um relâmpago

na mão dos últimos anjos

indesejadas, nos advertindo

as areias correram contra nós

fomos recompensadas por viagens

longe uma da outra

no desejo

Em solitárias manhãs

onde perdão e relutância se misturam

e se fizeram resolução.

Não lembre de mim

como infelicidade

nem como guardiã de segredos

sou só mais uma viajante no vagão de carga

assistindo

a você, lentamente, se movendo para fora da minha cama

dizendo que não perdemos tempo

apenas a nós mesmas.