Pequeno Dicionário Desalfabético de Maravilhas I

JARDIM DAS DELÍCIAS_Detalhe_Hieronymus Bosch

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STANLEY KUBRICK – O sujeito bota o primeiro terço do filme Dois Mil e Um – Uma Odisseia no Espaço recheado de antropoides (macaco, não, que ofende tia Neide!!!), sem um único diálogo. Tá, os antropoides não eram muito do uso da laringe. E, só dispois, começa a ficção científica mesmo. Mas aí descobrimos que os diálogos são os mais banais possíveis, tipo assim os nossos, do dia-a dia. E a coisa vai, vai, e aí vão até o monolito alienígena desencavado, a noite lunar termina e o bichão recebe toda a luz do sol e grita em todas as radiofrequências. Rapidão, muda para a terceira parte, a nave indo até Júpiter e mais uma coleção de diálogos sensaborões entre os dois únicos astronautas que não estão no sono criogênico. O Computador da nave, o HAL 9000 da Silva se enche e decide matar todo mundo. É contido, mas só sobra um astronauta. Final: temos uma epifania com o astronauta…eita, foi muito spoiler? Puta que me pariu!!!, eu só queria dizer que o Stan era do balacobaco! Estraguei tudo. Disculpaí.

Aqui: https://www.youtube.com/watch?v=EGrKMF5OgfE

ALFRED HITCHCOCK – Adorava um cameo. O que é um cameo? Ora, pesquisem, seus preguiçosos. Ah, tarado por loiras, também.

GLAUBER ROCHA – O sujeito que inventou uma grafia própria e um cinema pra chamar de seu. Um yconoklasta ou um…cumé que se diz em francês? Debochadô.

MARCEL CARNÉ – Dele vi em madrugada pretérita ante um tubo preto-e-branco ao seu Visiteurs du Soir. Dois demônios, disfarçados de humanos, of course, visitam a uma corte medieval com o fito de corromper. Um deles, entretanto, se apaixona pela filha do grão-senhor e é punido pelo demonho-chefe. Atenção para Demons et Merveilles, cantado pelo demônio apaixonado interpretado por Alain Cluny.

Aqui: https://www.youtube.com/watch?v=PnvrwJ_DC4o

AKIRA KUROSAWA – Era um sujeito que depois de uma tentativa malssucedida de suicídio dirigiu a Dersu Uzala, com financiamento e locações soviéticos, filmado em paisagens siberianas. Durante as filmagens Kurosawa ia até um riacho e montava pequenas esculturas com as rochas à margem. Atenção para o excelente ator Maksim Munzuk.

Karim Aïnouz – O qual, claro, já se percebe por nome e sobrenome, é cearense (até morrer, quando então será anjo). Seu Madame Satã tinha um baiano como ator. Um Lázaro. E que fez toda a diferença…

Lenine – que compôs a maravilhosa “Todas Elas Juntas num Só Ser” que toda dama deveria escutar, compungida, sabendo-se amada afinal. Aqui: https://www.youtube.com/watch?v=H8heUZxU92g

Laís Bodanzky – Ela inventou um Bicho de Sete Cabeças. Tinha um Santoro, se não me engano.

O EVANGELHO SEGUNDO O CORINTIANO VOADOR

Angel (simple work) by tornadoeyesart – DeviantArt

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No começo eram trevas. Em verdade em verdade eram mais que trevas, pois que não havia nada e, consequentemente, Watson, nem trevas. Mas eram trevas. Na verdade era o vero verdadeiro veraz estado do Nada. E era um nada tão nada que nada havia de nada (pois que não havia nada, me entendem?).

Bem, sequer era o começo de tudo pois que não havia nada, inclusive o tempo. E eis que Deus estava só, sozinhão no meio de um superaglomerado de nada. E nada havendo, nem luz, estava lá o Senhor no meio da treva nadosa e com um puta medo de perguntar onde estava, pois tinha medo de cair, vocês sabem, no nada.

Bem (de novo) temos aqui duas versões para os subsequentes acontecimentos (que não foram e nem poderiam ser subsequentes. Perceberam? Sem tempo, etc., nada).

Versão Big Bang: ora, todo mundo sabe que o Nada é constituído de partículas infinitesimais constituintes chamadas de “nádons”. Ora, tanto nada havia que o nada começou a se empilhar sobre mais nada até que havia tanto nada que o nada atingiu a massa crítica, com o que explodiu o universo numa mega-hiper-super-ultra explosão: o Big Nada. Assim, a explosão de nada criou ao universo conhecido, este no qual você e eu habitamos, todinho ele feito, todo ele construído a partir de uma sopa hipernadificada dos nádons originais.

Versão Gênesis: então estava lá o Senhor Deus (onde? não havia lugar, só o nada), no começo de tudo (começo de onde? Não havia tempo) enrodilhado, pousado no meio do nada e como um medo terrível de se perguntar onde estava, pois tinha medo de cair. No Nada. E eis que entrou em profundo pânico o Senhor e gritou: Faça-se a luz. Imediatamente, bilhões de sextilhões de sóis se acenderam, a Constante de Planck passou a existir, os diversos multiversos e também a morte (novinha, recém-nascida e sem foice) passaram a existir, Vejam, só a existência, sem a essência como intuiria depois Jean-Paul, o Sartre, servo do Senhor.

Qual das duas versões é a verdadeira? Ora, as duas. Digo mais, naquele exato momento o Senhor, papeando com morte, deslindou-lhe um dos grandes acontecimentos cósmicos no porvir.

“Qual, Senhor?”

“Roberto Carlos”, disse o Senhor.

“Ah…”, disse a morte.

E foi assim.

Sete-estrelo: outro resgate

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Meu pai um dia me apontou o Sete-Estrelo, que nada mais é que a constelação das Plêiades. Na verdade, parte ínfima, apenas a visível. Pode ser visto o Sete-Estrelo na madrugadinha final, meio como um milagre, meio como um sonho.

Esta é maravilha contada, anotem.

Outra é o Saci, o Matita-Pereira, Matita-Perê, que nada mais é que um passarinho invisível. Duvido mesmo que exista, mas Tom, o Jobim, musicou o bixim. Quando morava eu nos sertões ele nos aparecia, nas horas mais imprecisas.

Depois tem o Tetéu, que é pássaro insone, desadormecido. E o João-de-Barro que é empresário da construção civil mas que é poeta e nem canta, por poeta ser. E tem o urutau.

E tem o guriatã e tem Guinga que cantou o guriatã que “cantava no seu quarto de telha-vã”.

Meu pai um dia me apontou o Sete-Estrelo.

Sobre a arte de se resgatar a um débito

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kuscu by Ersinpur – DeviantArt

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E eis que conheci ao Vinagre. Eram os oitenta no começo quando existiam os bares e as mesas dos bares para encontros, conversas, apaixonamentos. Salvávamos o mundo todo o fim de semana. Íamos ao cinema, às livrarias, um ou teatro. Às vezes, por vezes, na Avenida Paulista gélida, de julho.

Eram tempos de aventura e gozo. Tínhamos tão poucos cobres na algibeira que nos cotizávamos para a cachaça. Cerveja era luxo. Mas cantávamos loas à cachaça e à cerveja e as chamávamos de hidromel. Mas, mas…acrescento que meus companheiros de vagabundagem eram, todas e todos, damas e cavalheiros de escol. Principalmente as damas. Algumas mesmo, ó gentileza, ó fineza de trato, se me permitiam ver a seus corpos sem roupas e me concediam o sumo dom de lhes dizer palavras sem som, cheias de ternura no que era antes conhecido como madrugadas.

Conheci sim a felicidade, senhores e também vós, senhoras de seios atrevidos.

E então conheci ao Vinagre, dito assim por maldade, como aquele que temperava mas não comia.

Toleima bruta e burra, pois que o Vinagre sabia das coisas, era íntimo das magias mais secretas e só era subestimado pelos tolos por talvez ser conhecedor de magias secretas. Para começo de conversa era leal (continua sendo). Para entremeio de conversa era um sábio e tanto, que desconhecia que era um sábio. Era (ainda é) como um Tzadik.

Sabem o que é um Tzadik? Bem, há uma lenda judaica. Nesta lenda se narra que existem trinta e seis justos no mundo. E apenas trinta e seis. Justos, mas justos além de toda a medida. De tal modo justos que ultrapassam o conceito, de tal modo justos que se põem à direita da justiça. De tal modo justos que ninguém os tomaria por justos. E estão por aí, espalhados pelo mundo estes justos, chamados Tzadik, no plural Tzadikim. Podem ser qualquer coisa: o analista de sistemas, a mendiga negra, o vendedor de amendoins, o padre, o pastor ou o babalorixá. O frentista, a manicure, a prostituta, o sábio.

O interessante nos Tzadikim é que os Tzadikim não sabem que são Tzadikim, que fazem parte da seleta grei dos trinta seis justos que sustentam o mundo. Pois é importante que vos diga que o Altíssimo criou o mundo mas, principalmente, o Altíssimo sustenta ao mundo. E é somente por conta dos trinta e seis justos que sempre renascem a cada geração que o Altíssimo não dissolve ao mundo, não o faz voltar ao primeiro pó de onde foi criado. O preço da vida, da beleza, da sabedoria do mundo. O preço por cada colibri, por cada baleia, por cada poema e canção são pagos pelos trinta e seis Tzadikim. Deus criou galáxias a troco de um sorriso, de uma gentileza. Não discuto sobre os labores de Deus, nem sobre sua eventual ética, nem sobre as dicotomias do mundo.

E o Vinagre era tudo isso aí (ainda é). Generoso e atento. Presente, sempre. Quando foi necessário, colocou uma gravata e foi ao meu casamento. Outra coisa, ainda sobre o Vinagre: jamais o ouvi falar sobre Deus e era, assim a seu modo, avesso a filosofias. Quando enterramos a nossa bruxa dileta, A.S.O., quando enterramos a meu pai, ele estava lá e bebeu aos mortos comigo.

Quando precisei, ele me deu o mote para ao poema ou para a prosa. Também me deu a dica de como prover e trazer o pão à mesa. Ainda é um místico (embora não saiba que é um místico e desconheça por completo suas relações privilegiadas com o invisível).

E via aos mortos (acho que ainda vê). Nos enterros, reclamava do barulho nos cemitérios.

O Vinagre, meu Tzadik. Não é impossível que um dia me leia, mas acho improvável.

Acho que é tudo o que eu tinha a dizer sobre a amizade.

IDENTIDADES IV – ENTREATO COM REMINISCÊNCIAS

TRISTESSE by La-esmeralda – DeviantArt_

Exterior. Dia. Talvez tarde.

“Queria tanto te comer!”

“Cumé?”. SELMA virou de lado, o cigarro nanocut entre os dedos.

“Disse a louva-deus fêmea para o louva-deus macho. É uma parte importante do ritual de acasalamento, sabe? Sexo rápido, refeição ligeira.”. VICENTE, negro, altivo, sorridente, com sua branquíssima carapinha com extensões em todas as direções. A Barba de profeta louco, o casacão puído e os jeans velhíssimos e sebentos.

“Cê tem problemas. Cê sabe disso né?”. SELMA, rindo. Leve, magra e vestida despretensiosamente. E o CAO também, acompanhando ao riso.

CORTA PARA:

Tela em branco com a palavra IDENTIDADES. A seguir, os créditos com os nomes da direção, produção e equipe técnica.

MÚSICA: Moto Contínuo nas vozes de Edú Lobo e Tom Jobim.

CORTA PARA:

O banco do parque com os três é visto de trás. Defronte aos três pode-se ver a equipe de filmagem.

CORTA PARA:

FRONTAL. Uma diretora atenta usando uma camiseta com a inscrição: As aventuras do Dr. Jung junto aos pagãos. Um desenho: um Carl Gustav Jung (o psicanalista, esclarecemos) caricatural atravessando um precipício sobre uma corda bamba. Um assistente a consulta, não se ouve sua voz. A música torna-se quase inaudível.

“O rei da piada sem graça.”. CAO, o dono do mítico Bar Pestilencial. Mais de quarenta, uma barriga promissora, barba rala e um indício de bigode, rindo e cabeceando, consultando ao celular. A música para.

CORTA PARA:

CLIMÉRIO, o índio bimilenário, sentado em seu tapete com artesanatos diversos para venda. Um cachimbo abominável entre os dentes. Plácido e alheio.

CORTA PARA:

Um urubu-gereba, no galho de uma jaqueira. JANUÁRIO.

CÂMERA SUBJETIVA DE JANUÁRIO: o banco com os três e do outro lado da trilha do parque, CLIMÉRIO.

CRÉDITOS: os nomes dos atores, pretos sobre tela branca descendo.

CORTA PARA:

CAIO, neto de VICENTE, num banco de trem, conversando, tímido, com MARISSOL, bela e andrógina, em sua identidade secreta de pessoa comum. Caio está apaixonado e não percebe que está apaixonado. Mas é bom que se saiba que MARISSOL, que também atende por NEIDE e é também um anjo desnaturado e também é parceira de dança de CAIO também está apaixonada, mas não o percebe pelo fato simples e singelo de ser uma anja.

“É, gostei do teu neto. O que não significa nada. Eu quero é sangue dele, se ele tiver sangue…aí a gente vê.”. SELMA.

CAO, ao celular. Frontal. “Segura as ponta aí Lucinha. Atende os caras, porra! Ó, o menino com o “troco” já deve tá chegando”. Pausa atenta. “Não, vem mais não…morreu!”. Pausa. “É, morreu, a maluquinha da namorada me falou ontem.”. Pausa. “É, o polícia cachaceiro”.

CORTA PARA:

Um mendigo jovem, louro, molambento, passa. Conversando com ninguém em um celular invisível. Cumprimenta e é cumprimentado por VICENTE.

CORTA PARA: tomada do alto. O parque em panorâmica. A música termina abruptamente.

CORTA PARA: A avenida que margeia com o parque. Barulhenta.

CORTA PARA: o parque, suas trilhas, as pessoas indo e vindo. Algumas correndo.

CORTA PARA:

VICENTE, cofiando a barba.

“O nome dela era Adelaide. Brancona, grandona, toda cheinha.”. VICENTE, a face plácida e sonhadora.

“Aí…aí…aí…arriei os quatro pneus por ela. Mulher besta, besta e linda e casada, também”. VICENTE estende um gesto a SELMA e CAO, como que se desculpando. SELMA, atenta e risonha, o CAO encerrando a ligação ao celular.

“Te fodeu, não foi?”. SELMA. Os três vistos de lado.

Vicente, visto de lado, em perfil

“Houve alguma foda no meio, é verdade.”. VICENTE cumprimenta a Climério, o índio bimilenário.

CORTA PARA: CLIMÉRIO ri e fecha os olhos.

MÚSICA: começa Between The Devil And The Deep Blue Sea, com o piano indeciso de Thelonious Monk.

CORTA PARA: JANUÁRIO, o urubu, voa.

CORTA PARA: CLIMÉRIO, acompanhando o voo da ave.

“Bicho besta!”. CLIMÉRIO.

Interior. Tarde. Luz difusa. Em um presumível motel GEOFFROY se encaminha para uma jovem, também presumivelmente descendente de japoneses, LEILA, nua, absorta ante uma janela e a abraça por trás. CÉLIA corresponde ao carinho. A música para.

CORTA PARA: Plano de conjunto.

“Aí…”. VICENTE, suspirando.

“Aí deu merda, como sempre…”. CAO.

“Sempre dá merda.”. SELMA, acariciando aos cabelos de VICENTE.

MÚSICA: Começa Cinzento, de Marcos vale na voz de Emicida. Baixo, fluído.

Câmera subindo para plongée, depois panorâmica, com a música em crescendo.

SUBORNO PARA FADAS

Flores para Ming-Liao-Tse - By Voador

Flores para Ming-Liao-Tse – By Voador

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ALFABETO ALIEN

ODYSSEUS olhando para o próprio umbigo, sem ciência do nome das coisas, em oração para outro mundo.

e não esqueceremos  p. h. gosse, e padre antônio Vieira, e o padre Brown, também, uma mesma fiada de beatos . E paganismos cheios da palavra de deus para panteões diversos, para parachoques de caminhão.

pedro botelho casado com Perséfone.

Pictografia, plágio criativo, decadentismo, poesia chinesa, possessão.

As primeiras estórias: profecia e profetas. prometeu protagonista do primeiro  protesto, da primeira revolução.

satanismo caseiro e science fiction. sebastianismo e seitas do mal.

submundo de sísifo repleto de tanques de lavar como terapia. Terra devastada e testamento de ULYSSES. ODISSÉIA de  um moço muito branco, de um vilão.

xexéu de bananeira.

zeus

Pálpebra

Borboletas em suco de amora,

talvez vermelhos de xerez sirvam

Coleções de pétalas aninhadas em musgo fino, a perfeita simetria

Cuidados aos milhões

mãos poucas

OS SONHOS PESADOS

Pesaremos o sonho

E com os sonhos construiremos coisas novas

Poemas de homem, sons masculinos que façam

Palavras

precipitações

de coisas que esqueci

tomar cerveja, escrever um poema

dizer à pessoa escondida no arvoredo

à pessoa na noite muito, mas muito fria

dizer

olhar prá outra cidade

na noite muito fria, mas muito fria

e dizer

dizer a palavra, a frase, muito calado

preso

estive preso

deus bebe comigo toda a cerveja

passarinho

TODO ANO É ZERO

Logo

Um marítimo deve tomar a vau

E com determinação

A cada gaivota, a cada pedra do cais,

Um nome deve dar

(para acompanhar, placa pendurada, R.G. cuneiforme)

e palavras devem ser ditas

pela inauguração do sol

tipo

chove, pedra

move-te lua.

Cospe vento, tufão.

Depois, suavidade

bandolim verde na água apaziguada

E nas barbas azuis do céu

Esquecer os oceanos na brancura

A arte de esperar leiteiras vindas pela manhã

(“artes médicas, senhor?”)

ainda que

na manhã do ano zero

este rol por enumerar

ainda careça o dia da etiqueta gris

própria para começos

a matemática nua para o inventário solar

OI, ABADON

Oi, altura e medo

Senhor dos dias

Lodo para chafurdar

Pininfarina, quem era? O Conde Ferrari quem foi?

Qual dos dois falava com os passarinhos?

Qual dos dois levitava como o cara de Copertino?

ABADON, ABADON

Quatro letras do teu nome

E barro

As pedras não confiam em mim

Eu grito e grito

E ainda assim é sexta-feira

PORTO

E chamaremos hélice

A coisa centrífuga por onde escapam partes

Diremos mesmo que é ponto de vista

de pessoas e amor se afastando

diremos também que é espera

como viúvas se despedindo de trirremes

com saudades nascentes da periferia

E manhã também, o céu peregrinando, tonto, baço,

dias onde tudo se constrói, inventa-se,

Universos, tecidos, obras brancas e obras negras, nada

Todo o dia assim, um arrastar de sandálias,

Conversas soltas

O mar.

A SOLIDÃO É ESBRANQUIÇADA E TÊNUE

Eles dizem que a vertigem é só mais uma passagem

Do jade pela abertura, pelo fulcro, pela terra

Eles dirão que a solidão é cinza

E a solidão vem da névoa

E a solidão

Pulso, palma e pão, todas estas palavras

Monte, azagaia, o azul do porão

Todas estas entidades

Todas

O cenário:

A casa na rua tranquila

Equipada com um corredor, um jardim decadente

A aventura, e no entanto a aventura a descoberta

É entrar sabendo que há passagem, uma,

Não localizável, mas lá, uma sobre a qual não se pensa

Entra-se

Sabe-se então pelos sons sussurrantes,

Pelas árvores de mil anos, pela relva onde ao longe pasta um cavalo

Um baio de crinas não tosadas

Os dias, frios e ventosos

Mais a relva ao derredor

No mundo vago

Nas praias de sexta-feira

colares e conchas são benvindos com a maré

SENTADO EM ESTAÇÕES FERROVIÁRIAS

Sentado em estações ferroviárias, esperando o dia e deixando e me esquivando ao seu lento passar para que não me perceba a vida.

Pela manhã, havia sobras do natal na mesa e o telefone tocava, uma voz esquecida falava nestas horas.

O telefone tocava, uma mensagem de 1968, ainda lá, esperando para ser ouvida.

Depois, o interior calmo e cheirando a couro, os bancos enfileirando-se comportadamente até infinitos. Obedientes paisagens me saudando, manhãs de Katmandu, jazz para tardes frias.

É de trabalho honesto que falo, constante, competente e paciente.

O trançar de hora sobre hora, o quilômetro após quilômetro atravessado.

A construção da luz ambarina, o molhe dos travesseiros.  O invernal.

“quão rica é minha vida interior”, penso, e carrego estes mundos planantes comigo por ruas e avenidas, os apresento a pessoas cegas, com elas bebo, com elas converso, o tempo todo uma fornalha de imagens dando voltas pelo lugar em que bebo ou converso.

E ninguém esbarra em mim.

os mundos nem suspeitados passeiam, provocam, riem, pousam no tampo das mesas.

Faço coisas então, ou melhor, eu deixo coisas passarem, acontecerem. Minha atenção distante, as coisas começam, fluidamente, a serem.

Do modo mais casual: borboletas azuis saem do vinho também azul, facas planam em movimento viscoso, denso de significado, de coisas por dizer.

É POSSÍVEL

É possível

Sherringford Holmes em algum lugar

Uma tarde fria no Clube Diogenes

É sempre bom lembrar que Mycroft

Era o gênio da família

Holmes era mais como Gene Kelly

Um operário esforçado

TEOLOGIA APLICADA

Que  novas maneiras de provar o sal podem ser inventadas?

(pausa respeitosa)

Ouve, Israel. Ouve.

Os sobreviventes da última tribo:

Sussurrando para o teu coração está uma multidão de orixás

(amaldiçoados e livres)

As faces abençoadas e ocultas (mas corajosas ante o rei)

Os secretários bons e eleitos:

Vasos prontos para o preenchimento é o que são

Com sua própria prata

(Para o uso de Deus)

As presilhas de minha alma

As presilhas de nossa alma

Para teu uso deixo

Os sobreviventes da última tribo:

Desafios de parecer honesto. Dizer e cantar

Somos correnteza, somos rio agora

O que era desde o princípio

Os secretários bons e eleitos (interferindo):

O que ouvimos quando nos assentamos?

Quando julgamos, julgamos. Somos a luz do céu e da terra

Luz sobre luz. Pilar. Palavra

Os prestigitadores e magos de feira:

Somos o Iman escondido, o jardim construído para o Renga

E para o banho de Suzana

Somos o Um, mãe e pai das incertezas. Somos os doze

Somos a sabedoria se prostituindo nas ruas

Para comprar sua carta de alforria

Somos o último dia, os diálogos e os silêncios entre a devoção e o gelo

Somos a chama aprisionada no gelo

Somos charlatães

O CORINTIANO PAIRANTE

Ao largo do castelo, defronte à janela

E a sobremesa do rei

Viagem cerebral no tempo com magias escolhidas, manhãs

Toda a tépida substância de seda

Todos os olhares, os nomes em estase

A sala de luz, pé direito de légua

E meia

A poltrona para gigantes onde

Finalmente pousa

DIÁRIO DE DRAGÃO

Ora, era dragão e voava

(uma construção não passiva de sangue e asas)

Tinha óleos e escamas e razões para voar

Um dia quis saber o que o fazia ser alado

E resolveu se consagrar ao céu

Usou das muitas palavras e ficou por demais pesado

Os dragões lexicógrafos o convocaram a seu labirinto

DOIS OBITUÁRIOS: UM PEQUENO E UM GRANDE

Tomás de Aquino morreu gordo e imenso

Quebraram uma parede para trazê-lo à luz do dia

Meu avô mantinha um diário no qual registrava negócios e nascimentos de filhos

Espancava com regularidade minha avó

Prático, final e conciso

Meu pai, enregelado, saía para o trabalho

Não tinha agasalho e nem se dava conta

Era irmão de Marieta e genro de Luisa, domesticada e atenta

Luisa salvou um rato do afogamento

Tanta coisa junta

A família vista do alto

O LILÁS É UMA COR QUE NÃO SE DÁ AO RESPEITO

O lilás é uma cor que não se dá ao respeito

Vem mundo,

Ninho de corvo de marujo velho

Amontoado de pequenas patifarias atlânticas

Vem,

Golfinho-mor

Tertúlia de ultrassom entre a rede e o peixe

Vem,

Visitante e consulente

Ao gnômon de jaipur

Loas, coração

Loas ao rajá

Ao rajá adormecido na pedra

Loas, mundo

Loas à doçura do caminho

Ao espinho do aprendizado

Rasgando camada após camada

Vem, mundo,

Rir com a aventura.

CABUM DADÁ

Piroga, lêndea, espiroqueta

Anões de bagdá e Giordano bruno

Larvas querendo-se sutis

Lá onde Bagdad Jones deixou grávida a Keely Smith

Lá onde os irmãos da Neide, a bat-puta, navegavam

Com carta de corso da rainha

A mando de lady Urubú

(pássaro esculpido em sussurro

Untado com os vermelhos de seu passado)

As novas:

O casamento de Karl Marx e da Princesa Zaira

Psicobum, disseram

Urubú dadá

Cabum, repetiram, nada

O atrevido Quetzacoatl teve o seu passa-moleque.

Luba Luft disse:

Dadabum, rapaxepa!

Os garotos que riem saíram de noite,

Pressurosos, preocupados, curtidos de bemóis

A música escorrendo de seus ouvidos

Ameaçaram:

Punhais, fiquem presos na pedra!

Canções douradas refulgiram, Foram trabalhadas e teleportadas para o sol

Os serviçais embutidos no ambarino da tarde

Trouxeram as cartomantes

presas ao caule de suas palavras

(Marilyn Monroe era nossa agora

exposta no sudário lilás, na meseta negra ao luar)

O cambiante Sir Richard, vindo das Montanhas da Lua

Besta de carga com QI de gênio

(os sutras roubados na algibeira)

na palha trançada onde deitou-se

Confidenciou-me:

Sob uma casa onde o tatami sonhava com o sal na rocha

E com o sol no estio

Uma casa onde o tempo era aprisionado no vão de escadas

Eu me aperfeiçoei

Nada mais, nada menos

Soube tudo.

Ah, os segredos do rei!

Lightbulb by Sjerz

MODERN TIMES, O FILME OU COMO CHARLES CHAPLIN CANTOU A CANÇÃO MAIS ESQUISITA DE TODOS OS TEMPOS

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Tempos Modernos (Modern Times) é um filme de 1936, dirigido por Charles Chaplin, que também atuou no papel principal, na pele de seu eterno personagem Charlie (no Brasil, Carlitos), o vagabundo.

Sinopse: O vagabundo, Charlie, é agora um operário em uma linha de montagem de uma grande empresa, onde todos os movimentos dos operários são vigiados continuamente por um patrão frio e indiferente, que tem acesso a diversas telas de vigilância. A uma ordem sua, a linha de montagem é acelerada e Charlie tenta freneticamente acompanhar seu ritmo. Não conseguindo, enlouquece e passar apertar com sua ferramenta a tudo o que lhe apareça pela frente (os mamilos, o nariz de um colega, os botões do vestido de uma funcionária, por exemplo). Charlie é dado como louco e internado em um asilo, posteriormente é dado como curado e quando saí é confundido com um líder grevista de um movimento operário e é preso. Na prisão, sem querer, frusta uma fuga e é solto.

A partir daí Charlie conhece a filha de um líder grevista que morreu em um protesto, personagem interpretada por Paulette Goddard, nos créditos do filme simplesmente chamada de Gamine (numa tradução livre e pouco acurada, “moleca”). Seguem-se diversas aventuras dos dois até que por fim terminam em restaurante onde a jovem é uma cantora e Charlie é contratado como garçom-cantor. Finalmente, ambos perdem o emprego e terminam o filme caminhando juntos em direção ao amanhecer.

O último filme mudo de Chaplin (só se ouve, brevemente, a voz do Patrão dando ordens na empresa, bem como a música final, cantada pelo vagabundo), Tempos Modernos dá voz a preocupações pessoais de Chaplin com os rumos que o mundo estava tomando. Na recessão feroz que se seguiu à quebra da Bolsa de Nova York, massas de desempregados circulavam sem rumo pelo país e, ao mesmo tempo, novas tecnologias estavam assumindo as funções dos últimos que ainda possuíam emprego. Este é o cenário de Tempos Modernos, espelhando as mudanças trazidas com o século vinte, seu frenesi, com as máquinas desumanizando, engolindo o homem, transformando-o em ferramenta (Charlie é engolido pelas engrenagens e circula por elas, como se fizesse parte da máquina).

Chaplin era pessoa preocupada com as novas feições que tomava o mundo. No período de 1931 a 1932 embarcou em uma viagem de dezoito meses pelo mundo e na Europa viu em primeira mão o surgimento do nacionalismo, a depressão econômica e o desemprego que coincidia com o massivo aumento da automatização industrial. Em 1931, em entrevista a um jornal, declarou “O desemprego é a questão vital … a máquina deveria beneficiar a humanidade. Ele não deveria significar tragédia e tirar-lhe o trabalho”.

Um dos mais importante, se não o mais importante, dos sistemas de produção, o Fordismo foi crucial para dar forma à produção em massa. No início do século 20, o industrial americano Henry Ford passou a utilizar a teoria de gestão, hoje amplamente conhecida como “administração científica” ou “taylorismo” para incrementar a produtividade de sua fábrica de automóveis. Basicamente, o trabalhado é fracionado em quantas partes sejam possíveis, em tarefas repetitivas e simples, a serem executadas em tempo previamente especificado em busca de maior eficiência. Mas o grande ponto, é que estas tarefas podiam ser realizadas por trabalhadores semiqualificados ou não qualificados, o que se refletia em salários menores.

Tempos Modernos foi um filme que transferiu a natureza do fordismo para a tela de forma vívida. O herói e a heroína se movimentam em meio aos problemas da época, a pobreza, o desemprego, as desigualdades econômicas e, principalmente, a tirania da máquina. O filme começa com um grande relógio e há uma sobreposição de cenas de ovelhas sendo conduzidas com as de trabalhadores se encaminhando para a fábrica. Também há uma menção explícita ao trabalhador transformado em ferramenta, desumanizado, sendo vigiado a cada minuto para que não desperdice um só minuto, mas os dedique inteiramente à empresa. Charlie é flagrado fumando e é imediatamente repreendido e mandado de volta ao trabalho pelo patrão, através de uma tela de vigilância instalada no banheiro. O trabalhador não tem sequer o direito à intimidade.

Em outro sentido, além de crítica aos “tempos modernos”, o filme é também uma afirmação dos valores humanistas de Chaplin. A personagem que interpreta, chamado nos créditos simplesmente de “um trabalhador de fábrica”, e sua parceira, resistem o tempo todo à opressão do sistema e em cada uma das confusões em que se metem sempre se colocam como pessoas, afirmando sua humanidade. Ela, sempre obstinada. Ele, sempre confuso. Interessante observar que quase todas as músicas do filme foram todas compostas por Charles Chaplin, pessoa que ingressou na vida artística aos oito anos, filho de atores e cantores do gênero Vaudeville, que aqui no Brasil chamaríamos de teatro de revista.

Muito já se disse sobre a cena final, na qual Charlie, o garçom-cantor, perde a letra da música que iria cantar e, desesperado, inventa uma letra cheia de nonsense que acaba encantando à plateia. A pergunta é, a letra da canção final Nonsense Song (Titine), tem algum esotérico significado escondido? Bem, a música foi originalmente composta pelo autor francês de teatro de variedades Leo Daniderff em 1917 e se chamava Titine, Je cherche a Titine [Titine, procuro a Titine]. Pode ser encontrada na rede um versão cantada por Yves Montand. A letra original era esta:

Je cherche après Titine Titine, oh ! Titine ! /Je cherche après Titine et ne la trouve pas

Je cherche après Titine Titine, oh ! Titine ! /Je cherche après Titine et ne la trouve pas

Mon oncle le baron des Glycines/ Qui a des fermes et des millions,

M’a dit : Je pars pour l’Argentine/ Et tu connais mes conditions :

Mon héritage je te le destine/ Mais tu ne toucherais pas un rond

Si tu ne prenais pas soin de Titine/ Pour qui j’ai une adoration…

Y a huit jours qu’elle n’est pas rentrée/ Et je suis bien entitiné…

[refrão]

Elle avait les yeux en losange/ Un regard très compromettant

Elle était frisée comme un ange/ Et s’tortillait tout en marchant

Titine, avec son coeur frivole/ Changeait de flirt dix fois par jour

J’en avais honte, mais ce qui me desole/ C’est qu’elle est partie pour toujours

C’était … vous la reconnaîtrez bien/ Une chienne qui a vraiment du chien.

Chaplin, para conseguir o efeito cômico, fez com que o vagabundo perdesse a letra que estava escrita em papel no punho de sua camisa e criasse a algaravia sem sentido que segue abaixo:

Se bella giu satore/Je notre so cafore

Je notre si cavore/ Je la tu la ti la twah

La spinash o la bouchon/ Cigaretto Portabello

Si rakish spaghaletto/ Ti la tu la ti la twah

Senora pilasina / Voulez-vous le taximeter?

Le zionta su la seata/ Tu la tu la tu la wa

Sa montia si n’amora/ La sontia so gravora

La zontcha con sora/ Je la possa ti la twah

Je notre so lamina/ Je notre so cosina

Je le se tro savita/ Je la tossa vi la twah

Se motra so la sonta/ Chi vossa l’otra volta

Li zoscha si catonta/ Tra la la la la la la

E o que é a canção? Nada, somente uma coleção de palavras sem sentido, algumas em italiano, francês e outras em língua nenhuma. E o que significa? Nada, foi somente mais uma piada de Chaplin. Quando foi encaminhado para distribuição internacional, a equipe de pós-produção adicionou uma nota à parte do roteiro que continha a canção: “Nota! Muito importante. O Sr. Chaplin canta uma canção em um idioma inventado (não é necessário se traduzir) “. Finalmente, consta que o filme originalmente tinha um final diferente, que chegou até a ser filmado, com o vagabundo conhecendo à garota no hospital onde trabalhava como enfermeira. Chaplin, entretanto, modificou ao roteiro para um final diferente, a hoje clássica caminhada dos dois, de mãos dadas rumo ao horizonte.

Sobre os personagens, Chaplin escreveu “Os dois são os únicos espíritos livres vivendo em um mundo de autômatos”.

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POEMETO BREVE PARA SER LIDO SOB CANDEIAS

BRIEFLY HELD THE SUN – by Alexxias788 – DeviantArt

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Quando eu leio eu leio.

Meu pai era um homem apaixonado pela vida, só não sabia. E não lia. Quando muito, a Bíblia, que me dizem ser um livro cheio de beleza. Não comento, aceito. Cheio de beleza e tá tudo bem. Não me manifesto também sobre os Upanixades, o Alcorão, o Popol-Vuh, mas tomo cuidado de lhes adicionar maiúsculas.

O Mahabharata, os Escritos Sagrados da Umbanda, o Livro dos Espíritos. Leio mal o sânscrito e quanto ao francês sou uma putinha de cais tentando agradar aos marinheiros. Mas.

Quando leio, leio.

Quando morro, paro de respirar.

Mas amo aos seios das musas

E neles vejo texturas e sei que o diabo, há tempos, já não desempenha seu papel. No pique de um momento, perco e acho minha ideia.

Vigiei Deus, mas ele nunca me levantou a cara.

A bom e bem, respiro. É Deus agindo, solerte. Na lufa de um vento grande, vejo: Nossa senhora, o busto de São José. Tem de tudo neste mundo.

No enredo do livro me basto. Todos os seres são claros, só eu sou turvo.

Uma vez eu disse, tolo até à medula, que reconheceria qualquer lugar do mundo só pela luz que deles viessem. Não penso mais assim. São só frutos amargos de anos difíceis.

Neguei até o fim, em trela, tristeza e alívio.

No pique de um momento vi que a saudade se sustinha, curta.

Então.

A bem e bom conheci, me foi permitido conhecer, a parte interna das coxas de mulheres, seus muitos e fecundos dons, suas reentrâncias e neles meti meu rosto e esperei em fé não ser mal-recebido. Depois seus entornos ( e elas se deitaram para que eu os mapeasse), depois seus prantos que beijei.

A cinza sempre me foi ardente.

Quando li, li.

A PENA DIGITAL

A arte de ler: um catecismo.

caligrafo

Certo, existia antes o diário (feito em casa, por mocinhas burguesas aflitas ou por homens talvez ciosos demais de sua importância). E existia o livro (consulte antropólogos, sociólogos e afins para saber o que é). E existia o jornal (estão por aí, citados por muitos e lidos por ninguém). E existia o hábito de ler, dizem, mas não é verdade. Ocorre, ocorreu que em épocas priscas não havia rádio, televisão, internet, que dirá blogs. Os ricos, os quase ricos, os remediados, eram os únicos leitores e, por consequente, os únicos consumidores da página escrita. Minto, uma minoria dos ricos, quase ricos e remediados consumiam e liam as folhas com caracteres de imprensa. O restante consumia apenas obras técnicas, didáticas. Os futuros engenheiros, advogados, juízes, políticos. Vez por outra uma ou obra de escritor para imitar o estilo, que não podendo ser imitado, dava vez a textos chatos e compridos. Foi a era de ouro dos advogados falastrões, dos juízes e suas sentenças incompreensíveis, dos poetas de ocasião. O que é outra imprecisão, pois eles continuam por aí, os que escrevem como se lhes tivessem extraindo os dentes. E havia o resto, a imensa massa de pobres que não lia nada, até que porque não havia nada para ser lido que os tocasse. E também porque estavam ocupados criando cultura: sambas, choros, lundús, danças e festas. Tudo de significativo que até hoje está por aí e que continua sendo feito, refeito, transformado na maravilhosa usina de utopia chamada Povo. O que significa que uma minoria produzia obras impressas para uma minoria. E apenas uma minoria da minoria produtora de obras impressas produzia algo significativo que, por sua vez, era consumido por uma também minoria da minoria consumidora. O brasileiro não lê? Nunca leu. E, com maiores ou menores índices, o europeu, o japonês, o tadjaquistanês. Ler sempre foi um hábito de poucos. Talvez porque exija disciplina, talvez porque seja feito em solidão. E agora, o blog. O blog: nem diário pessoal, nem livro, nem jornal, nem televisão. O blog, essencialmente visual, mas mesmo assim também espaço para a escrita: seja ela crônica, confessional, comentadora, as vezes meramente constituída de extratos de textos de outras mídias, de outros tantos blogs, mas escrita assim mesmo. À parte a questão de quem consome o blog enquanto fornecedor de imagens e vídeos, mais interessante é quem “lê” o conteúdo do blog. Suspeito que apenas uma minoria da minoria dos blogs produzam textos, que serão consumidos por outra minoria. Também os textos de boa qualidade serão exceção, como excepcionais seus consumidores. Nada tão drástico. As “cousas” continuam a seguir o mesmo padrão. Suspeito novamente que assim continuarão, como parte da ordem natural das coisas. Perdão, das “cousas”. No agora agorinha, acho que é tudo o que eu tinha dizer sobre o ato de ler. Durmam!