Jerusalém, Jerusalém…

MICHEL CHEVAL I

Arte de Michel Cheval

 

Modele o espírito na escuridão!

Na escuridão, a forma arcana

Segrega mistérios, signos em paralaxes

Uma arquitetura de mansidão sobre mansidão

Silêncios roubados ao dia.

 

O despertar da palavra

Solitária, densa, concisa

O fruto pendente da planta

 

O coração na pedra

A eternidade gota a gota

A música do espírito, congelada, mas atenta

Os padrões congelados feitos de preces

A presença como fogo

 

Deus é suspeitado, pressentido

Como a música em derredor da pedra

E aparece pela manhã

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SOBRE CRIATURAS MÁGICAS, SANTOS E SANTAS.

 

elementais-1

 

Jovem como eu era, trabalhava na mesma tecelagem que Selma Plá, a moça que teve as já conhecidas visões místicas. Que ela não procurou, não queria e, aliás, desdenhava.

Mas, outra época, outros feitios, outra feição do universo palpável.

Acordava muito cedo, muito, muito cedo. Havia um trem infecto, um ônibus superlotado e depois a rua, onde andava os seiscentos ou mil metros necessários até nossa senzala.

E aí eu brincava, indicando a A e a B, irmãs e amigas na ocasião, onde estavam, onde se escondiam os duendes, os elfos e as fadinhas, também de ocasião. Havia Saulo, gnomo feio e rugoso, pouco dado ao contato. E Sálvia, fada pequenina, inapropriada aos bons costumes por lasciva e fútil e cruel até a medula. E os Irmãos, também batizados por mim de Demoninhos Assassinos Mauzinhos canibais e que eram, forçoso concordar, demônios pequenos com tendências homicidas, com poucas restrições quanto ao alimento que consumiam, além de serem maus, muito maus.

Escapava de suas maquinações, de suas pequenas armadilhas e ódios por conhecer as canções certas, os enredos, as pequenas magias e estendia esta proteção a A e a B. Eu me achava, me via, me cria, à época, como o precoce herói seminal das histórias. Enfim, um tolo novel e bobinhão.

A e B se casaram e saíram, saem agora desta história, mas eu continuei, digo, continuo.

As pessoas pensam pouco sobre a magia ou mesmos sobre os seres mágicos, embora o assunto nos rodeie nos quadrinhos, livros e filmes.

Engano comum o de algumas pessoas acreditarem que a magia não existe. Falo de “algumas pessoas” por saber que a grande maioria das pessoas é crente fervorosa na realidade das operações mágicas.

A maior parte das pessoas (dá uma coceirinha mental em dizer todos) realiza diariamente pequenos rituais de magia simpática: trocar de caminho para evitar a repetição de um evento; fazer promessas dirigidas a seus santos preferidos; orar mentalmente e coisas outras do mesmo naipe.

Ou surpreender a seres mágicos, os elementais, por dá cá aquela palha. Como eu fazia.

E, outro erro comum, o de algumas pessoinhas acharem que os elementais, os seres mágicos, sejam também pessoinhas boinhas, do bem.  São não. Nem também são do mal, vale também dizer. São, eles, os povinhos mágicos, o que são. Nem PT e nem do PSDB. E nem nada no meio ou além. Só o que são.

Exú, por exemplo, que conheci deveras, é só um cavalheiro magro, escuríssimo, usando jaquetão e gravata. Elegantíssimo. Ou um cavalheiro de tez parda usando um terno de dois botões. Ou um cavalheiro de tez clara, loiro. Mas sempre, sempre elegante. Cem mil anos de idade (ou mais. Suspeito que ele já aporrinhava aos Australopithecus) e ainda por aí, disfarçado de malandro, de pastor, de padre, de analista de sistemas. Mulheres, cuidado!

E dona Janaína. E dona Oxum e os cento e vinte e sete Zé Pelintras.

Sei, existem por aí os meus amigos cristãos modernos que dizem que todos, todos os elementais, são nada mais, nada menos, que encarnações ou servos do Tinhoso.

Estão certos, claro. Não polemizo, comento.

Então foi que em 1986 fui parado no meio da rua por Santa Catarina de Sena.

E aí, ó meu deusinho, lembro porra nenhuma do que ela me falou. Mas foi alguma coisa sublime.

Acho.

A SULTILEZA DA BESTA OU COMO O APOCALIPSE NÃO VEM, MAS SEGUE

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Tired – by Natalia Ciobanu – DeviantArt

 

Estamos em uma época de queda, similar a todas as outras épocas de queda que começaram com a queda dos primeiros anjos e de Lúcifer e o estabelecimento daquele valiosíssimo imóvel psíquico: o Inferno.

Esta nossa época de queda pode ser reconhecida como uma, bem, época de queda, por não ser trágica, mas farsesca. Sem muito conteúdo que não aquele que apela ao fígado e não ao cérebro.

A volta de um moralismo tacanho para substituir o afastamento das pessoas da atuação política, o incremento da demência e da fatuidade nas redes sociais, a preferência do receptor pela imagem, em detrimento do texto e, se inevitável o texto, que seja curto.

O Feicebúqui e suas frases de parachoque de caminhão, suas citações malucas atribuindo a Mahatma Gandhi o que foi de Groucho Marx (considerando que o usuário feicebuquiano saiba quem foram Gandhi e Marx).

O WhatsApp.

Nos anos trinta foi criado Dick Tracy, uma tira de jornal sobre um detetive de queixo quadrado, anglossaxão até a medula, que combatia o crime usando uma tecnologia delirante na qual pontuava, ora vejam, um relógio-videofone, que lhe permitia também ver e não apenas falar com seus colegas policiais. O WhatsApp já faz isto e todos nós somos potenciais participantes do delírio que a tira apenas antecipava.

Nós hoje falamos pouco, lemos quase nada e escrevemos menos ainda. Mas, vemos, olhamos, quase fanaticamente. Olhamos, absorvemos imagens como quem come em um fast-food, de forma rápida, acrítica, sequencialmente.

Natural que seja comum a indisposição estomacal.

No último livro da bíblia cristã, o Apocalipse, há a narrativa final da ascensão do Anticristo, da Besta; onde a Besta providencia um sinal para que se identifiquem seus seguidores: um número. Não sei se com ironia o autor (João de Patmos, Steven Spielberg, tanto faz) nos informa que é um número de homem.

Não, não estou fazendo ilações entre o livro e nossos tempos (O atento pastor ou o gárrulo padre fazem e farão melhor), apenas gosto da imagem literária.

E então o nosso tempo, não apenas de queda, mas uma queda que se eterniza no tempo e com isso se torna um paradoxo, pois que se é eterna a queda, tem-se então uma queda estática (uma queda teria que ser dinâmica, pois não?).

E então o nosso tempo, de anestesias diversas para que não percebamos…o que? Tenho diversas teorias conspiratórias a disposição:

  1. Somos cobaias em uma grande experiência cósmica destinada a conhecer até onde vai nossa disposição de, enquanto gado, permanecer gado?
  2. Somos cobaias em uma grande experiência, controlada pelos senhores do universo, destinada a conhecer até onde vai nossa disposição de, enquanto gado, permanecer gado?
  3. Somos cobaias em uma grande experiência, controlada pelos senhores do capital, destinada a conhecer até onde vai nossa disposição de, enquanto gado, permanecer gado?
  4. Somos cobaias em uma grande experiência, controlada por um deus menor, um demiurgo, destinada a conhecer até onde vai nossa disposição de, enquanto gado, permanecer gado?

 

Não levem a sério, é claro que isto não existe. E mesmo a ideia de um tempo de pranto e ranger de dentes sequer é original. Sabe bastante àquela antiga e persistente doença da psique humana, a saudade da Idade de Ouro, de que já sofreram gregos e romanos, hindus e chineses.

Não, falo e escrevo apenas de eventos locais, circunscritos, brasílicos, nossos. Nosso tempo e nossa sina. Mas não posso evitar de lembrar a previsão do destino humano dada pelo agente O´Brien em 1984, de George Orwell: uma bota pressionando, eternamente, um rosto humano.

É claro que se trata de uma obra de ficção, com as liberdades que às obras de ficção se dá. Por exemplo: O´Brien é pessoa culta. Não me parece que as atuais botas o sejam.

Disse Jesus (ou escreveram que Jesus o disse, o que dá no mesmo) que os humildes herdariam a terra.

Pode ser verdade, mas por enquanto me parece que o quinhão quase total da terra foi dado e é gerido pelo medíocre.

Reconheço a força dos atuais dominadores, mas não consigo ter muito respeito por seus intelectos.

Bem, talvez sejam só os capatazes.

Talvez ocorra que seus senhores, eles sim, sejam os sofisticados, os que escreveram as bíblias diversas, os que projetaram os ritos, os que construíram Babilônia e a partir dela, governam.

E eu acho que era tudo o que eu tinha a demonstrar sobre a arte de escrever como sói escreve uma pessoa cansada. Trabalhei demais ontem, vejam bem. Como eu sempre escrevo e peço: relevem.

Mas, fato: a sutileza sem par da Besta ainda me comove.

Vale.

Marco Polo, na prisão, Conversa com Rustichello de Pisa

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A mystical voyage – by Fizzyjinks (DeviantArt)

 

 

 

Ezo

térmita, forasteiro

out

eu sou um preto amarelo sem raiz

venho então de todo lugar

 

lagarto amarelo na pedra

judeu marinheiro

 

existiu um rei, dizem

que me empregou cosmógrafo

e me lancei então ao mar de especiarias

ao oceano que despenca na crista do mundo

 

e trazia as roupas de meu pai

e seu legado de poemas por companhia

 

velha mulher

te trago agora meu portolano, minhas próprias entranhas,

minha nudez marinha, minha carta náutica do coração

e a mensagem do coração

 

olha e ouve, mulher da idade

matriarca da chuva

:eu nunca esqueci

eu fiz o caminho através dos portos

e me misturei às gentes

 

e trouxe ao de dentro as cores

e os cheiros diversos

pra misturar no teu caldeirão, mãe!

 

vivi os muitos séculos

para me tornar cada vez mais

parecido comigo mesmo

filho de tua tribo

cada vez mais do mar.

RIMADOR, RIMADOR

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260ANALOGOUS by mcptato- DeviantArt

 

Certo, falaremos da viola e do prepúcio

Não, da perseguida falaremos e de Dóris

Para que seja fácil a rima com clitóris

E também, safados, falaremos de Vespúcio

 

O cabra celerado e italiano que sem mais nos deu

Nos emprestou seu nome à América, e por concurso

Nos habilitou a por través o navegar no leito seu

E a dar partida à rima rica e ao discurso? Fudeu?

 

Mas, falava eu?, lembro não, ô vida besta

Só sei que ao relento não me calo, meto os peitos

Procuro outros sóis para regalo, nos direitos

Falho, desconsigo, empunho a lira, romanesca

 

E termino, pronto, agora, ao poeminha torto

Vos concitando a que relembrem e acreditem

Comigo, pois, repitam: vida, estro, luz e porto

Bunda, bilro, sombra, caos e manto. Recitem!

 

 

 

Recordações de meus tempos em Paris. Ou Montreal ou alguma cidade aí que não lembro

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Der Arme Poet – Carl Spitzweg

 

Basicamente, muito basicamente, não confio em padres! Não fiquem excitados! Também não confio em pastores, babalorixás, ialorixás, ministros, apóstolos, missionários, rabinos, monges.

É…não confio, assim de modo geral e preconceituoso, nos operários da fé. Mas confio na Neide!

Talvez então eu possa confiar no homem ou na mulher de fé? No homem que ora?

Ora, é minha convicção que o homem de fé que ora nunca está só. Não, quando ora, legiões de anjos esvoaçam a sua volta, quais borboletas celestiais que saíram de uma loja Versace ou Christian Dior. O homem que ora conversa com Deus, troca ideias, receitas de camarão empanado, esses caralhos.

Com Deus ele fala do Corinthians, da vida e do caos. Enfim, só filosofias. O homem que ora, finalmente, está em um universo particular, com o fundo todo em negativo (é só conferir a foto).

Obrigado, Krshna, por mais este dia maravilhoso! Obrigado, Zeus! Obrigado, Obatalá! Obrigado, Santantonho de Catijeró!, Obrigado, Mitra! Obrigado, Neide!

E então eu conheci ao cara.

E, de cara gostei do cara.

Já havia pecado deveras, muito, no passado, mas continuei gostando do sujeito que, aliás, já havia orado sobremaneira.

Contava mesmo ele de uma época em que ele, o cara, cultuava uma divindade tribal da idade do bronze, desenvolvida numa sociedade de pastores na Palestina, mas passou.

Hoje, bom homem, bom pai, bom filho e bom marido. Tenho quase certeza.

Ah, e também um comunistinha legal…do tipo clássico, ordeiro.

Comia criancinhas? Dúvidas, dúvidas.

Depois de Budapest, encontrei-me novamente com o mesmo cara em Paris onde, por breve tempo, criamos uma banda de rock estilo anos sessenta, os Toninaldo´s Boys. Fizemos certo sucesso. Nossa canção “Delicious Fucking Hot Girl” tornou-se o hit do verão na Pont Neuf.

Nos encontramos depois no Canadá.

Em Montreal montamos nossa outra banda, a Plastique Éphémère. Claro, devíamos nosso sucesso ao cara, que com sua charmosa careca encantava às damas. Bons tempos.

E líamos de tudo e guardávamos nossas leituras para comentar com os circunstantes na fila do sopão na Associação Cristã de Moços. Mas isto se deu em Paris, tenho quase certeza.

Bem, duas coisas. Melhor, duas cousas: ler exige tempo e é disciplina. Depois, pensar sobre o que se leu é onde está o busilis.

Bem entendido: líamos como um monge lê. Só nos faltava um súcubo para apimentar nossas poluções noturnas…estávamos em Paris, já comentei o fato? Ou Montreal, agora se me escapa onde parei.

Mas é muito boa esta maconha!

 

O POBRE, ESTE EMPREENDEDOR NATO.

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O Brasileiro é um empreendedor nato. Mas só o pobre.

Guardem minha afirmação enfática, arquivem-na, dissequem-na e sobre ela reflitam.

Sim, considerem o tráfico de entorpecentes.

Todo um negócio de venda de entorpecentes para, majoritariamente, atender às classes desfavorecidas, com toda sua complexidade em termos de logística: a aquisição de matéria-prima, seu beneficiamento, sua distribuição e a contabilização necessária dos valores auferidos.

Não, não estranhem quando falo que o principal mercado consumidor dos entorpecentes sejam as classes baixas e médias. É. O lucro advindo da venda para as classes altas é marginal, parte ínfima do lucro geral e muito mais cara em termos de operação, pois que o entorpecente deve ser mais puro e as condições de entrega e consumo mais seguras.

Modos que esqueçam Meu nome não É Johnny, é só um ponto fora da curva.

Enfim, o traficante-empreendedor só fornece às classes altas por uma questão de sobrevivência política.

Com as classes baixas e médias, não; por “causo” que aí sim é que vem o verdadeiro lucro. Ora vejam, o empreendedor do bagulho pode diluir o entorpecente com outras substâncias para maximizar seus ganhos e sem nem sequer precisar dar grande importância à qualidade do produto.

Modos que na cocaína e na maconha vendidas aqui na terra tem até, em sua composição, alguma cocaína e alguma maconha.

Houvessem headhunters de verdade atuando e os principais cargos na administração das empresas seriam ocupados por ex-funcionários do lucrativo ramo do tráfico de entorpecente.

Vera verdade.

Eis.

Mas falava de empreendedorismo e talvez me perguntarão do porquê de minha opinião de só ser ele exercido por pobres.

Ora.

Ora, de novo.

Pra comecim de conversa ninguém com bom senso acredita nesta parlanda vendida por aí da meritocracia. A ascensão, natural, da competência. Pobre não é idiota e não acredita na meritocracia.

O pobre não só sabe que o buraco é mais embaixo, ele vive a situação. E não se engana com filhos de empresários sendo empresários, filhos de juízes, filhos de promotores, continuando a juizar e a promotorar como seus ancestrais.

O pobre sabe que ninguém será por ele, daí considerar o Estado somente um ruído de fundo inconveniente que lhe enche o saco.

Daí que não espera bondades o pobre.

E daí que o pobre que prefere se manter do lado, digamos, legal da coisa, crie do nada suas fontes de renda: os salões de beleza de periferia, os camelódromos informais, os botecos microscópicos, as pequenas igrejas vendedoras de milagres et alia.

Quando Deus é servido, quando dá, o pobre trabalha na metalúrgica, labuta no comércio, dá o sangue na construção civil.

Quando não dá, empreende.

O que é só uma maneira edulcorada de dizer que pobre pratica a mais alta magia conhecida: sobreviver.

É.

Acho que é tudo o que eu tinha a dizer sobre o empreendedorismo.

Finalmente, a entrevista do Corintiano Voador a Satanás (curta e pouco informativa)

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Sessenta mil homicídios por ano grassaram aqui na terra.

Brasil, vos amo de tesão sádico.

Satanás: Mas, vede, nobre Corintiano Voador, não serão os próprios criminosos se matando, bestas-feras que são?

Sessenta mil homicídios por ano.

Corintiano Voador: Devo discordar, valoroso Príncipe Imundo das Trevas. Creio ser tão somente o resultado de uma classe social humilhando e executando aos recalcitrantes de outra classe social. Uma questão do tamanho do porrete à disposição. Quem tiver os melhores capitães-do-mato…

Satanás: Mas então…dizeis que temos luta de classes?

Corintiano Voador: Mas então…e portanto…assim é.

Satanás: Mas quem mata quem?

Corintiano Voador (enxugando uma teimosa lágrima): E sabeis, não sabeis? Que és, que estás obsoleto? Perdão, não respondi a vossa pergunta.

Não é?

São os tempos.

 

A paixão segundo o Corintiano Voador II

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Com o que então, Suleiman ibn Daoud, começo esta história

, eu que estava tão longe de ti na ocasião, lá em digamos, um janeiro não é? Uma Jerusalém, quem sabe?

Bem, era um destes dias ou lugares talvez,

quando então era moda lutar contra os fados, desde que se babasse com cuidados nos culhões dos deuses em voga.

Não era uma época de calma, de vagar.

Era mais o comum, o pastoreio de ovelhas, a fermentação de nossas lágrimas, os sacrifícios rituais.

Uma época propícia para servas chamadas Hagar.

Não como hoje, onde enredamos a vida e a paciência em grades tão apertadas que elas choram,

Mas não mais livre era a época, Também cheia de salvação e perdão e inferno em drágeas

Se acaso morrêssemos, quem ligaria para nossos sobejos? As coisas sórdidas que se desprenderiam de nós?, em livros, terra, cuecas, camisetas, sistemas?

Nada. Isto dito pelos golfinhos e pescadores.

Se acaso morrêssemos, nada em nós mereceria sequer um peido.

Enfrentaríamos batalha última, leríamos as muitas bíblias, e não teríamos olhos para ver;

Não atentaríamos para o fato de ser Lilith mais completa que Eva, embora tão morta quanto

E até agora, forçoso dizer: até aqui, só falamos de nosso umbigo

Sim, e de púrpuras sonolentas. E sim, de fadas desidratadas

Ainda assim, temos e mantemos nossas declarações de amor para nossas mulheres: Tu és valente como uma idiota e terna como uma tarde.

É verdade, somos o que o somos, como um anjo, como uma promissória.

É. Ainda assim, Hagar, teremos filhos.

A HISTÓRIA DE PIJAMAS

Art of Diplomacy III - Michel Cheval

Art of Diplomacy III – Michel Cheval

O fato histórico não precisa ser notável, apenas pode.

Minha ambição: a História como um daqueles almanaques de antigamente, com edição anual e recheados de curiosidades: datas ideais de plantio, conselhos sobre a saúde, calendários, lunários perpétuos. Nada sério.

E as datas e os lugares ganhariam alguma coisa, talvez mais humana, mais real por que descobriríamos que os fatos se dão não tanto pelo general famoso, pelo rei ou imperador, mas antes por uma tempestade imprevista, um grumete de embarcação que deu o tiro preciso, uma prostituta que envenenou um clérigo.

Os fatinhos que geram os fatões, se me perdoam a esculhambação com a língua pátria. A História na contramão, de pijama.

Exempli gratia.

Os Templários não foram totalmente exterminados quando da execução de Jacques de Molay pelo Felipe francês. Enclaves da ordem sobreviveram na Escócia e em Portugal. E foram os Templários de Portugal, sob a denominação de Ordem de Cristo, quem financiaram as caravelas de Cabral.

Este nosso almanaque de insignificâncias continua, não tem fim.

A Espanha continuou poderosíssima após a derrota da Invencível Armada, pelos ingleses e pelas tempestades, por mais que os ingleses gostem de pensar o contrário.

Jesus Cristo, ou ainda Yeshua Ben Youssef, era Galileu. O que em termos modernos, no Brasil, seria o mesmo que ser nordestino e atender por Jesonaldo ou Ademilson. Só samaritanos eram menos considerados que os galileus e o nome de Jesus nada mais era que uma variante (considerada vulgar) de Yoshua,  Josué.

Mas aí aparece a História, com agazão, sisuda, séria, posuda.

Eu sei, sabemos, que para merecer os holofotes da História convinha, convém ser macho, adulto e branco. Senão, vejamos.

Era um homem bom René Descartes? E Sidarta dos Sakhia, e Emanuel Swedenborg e Ludwig da Baviera? E Santos Dumont?

E tantos outros, talvez também bons, e homens, ali, congelados em seus nichos no grande Panteão dos Grandes.

Adulto, macho e branco. O perfil acabado do herói. Sem mênstruo, sem dores, só a glória.

E as mulheres? São historiáveis?

Santa Catarina de Siena não sei se era boa, dizem mesmo que era analfabeta e pervertedora de papas. Siatemi uomo virile, e non timoroso. Rispondete a Dio, che vi chiama che veniate a tenere e possedere il luogo del glorioso pastore Santo Pietro, di cui vicário sete rimasto. E por aí foi, em famosa carta, comendo o rabo papalino de Gregório XI ou LXXV, sei lá.

Teresa de Ávila, santa de minha particular devoção, também era analfabeta, fato nada incomum em quase toda a História humana, mas poeta sublime. Igual aquele João da Cruz com quem levitou junto, em êxtase compartilhado.

Ambas, post mortem, tornaram-se doutoras da Igreja. As únicas. Prêmio de consolação.

Mais mulheres e mais história.

Murasaki Shikibu, também escritora e poeta sublime, fazia parte daquela maravilhosa e hedonista aristocracia japonesa do período Heian, séculos X e XI, cultivadora de clássicos chineses.

Aliás, foram provavelmente as mulheres desta aristocracia que criaram sua própria versão simplificada da escrita chinesa Han, adaptada aos falares japoneses, o Kana.

Autora do primeiro romance, o Genji Monogatari, se desconsiderarmos o Satiricon. Vergonhosamente não há ainda tradução portuguesa que eu saiba.

Cinquenta e quatro volumes tem esta narrativa dos amores do príncipe  Genji, se bem recordo e não, não li senão extratos. Significa que não li. Queria.

Exemplo: A dama da corte termina uma carta endereçada ao herói e vai depois apreciar a neve caindo no jardim. A personagem da dama espanta-se que também ao camponês seja permitido apreciar aquelas delicadezas.

Cinquenta personagens principais, nem sempre chamados por seus nomes, mas também por seus títulos ou apelidos poéticos.

Outra, o Haiku, este metro que prima pela brevidade, também foi criado pelas mulheres japonesas, que os homens estavam ocupados escrevendo tratados confucianos ou poemas em chinês clássico.

Terra Brasilis. A ciranda, se não foi criada por Lia de Itamaracá, foi por ancestral não nomeada.

História. E Bashô, François Villon, Vergílio, Dante, valha-me deus, eram homens bons? Grandes, tudo bem, mas bons?

Na coisa toda, o que me enche os pacovares, é essa grande lista de homens, como se toda a cultura fosse criada apenas por homens e homens ricos, poderosos. E Adão gerou Set que gerou Enós que gerou Cainan que gerou Malaleel que gerou Jared que gerou Henoc. Nenhum útero deu sua cara. Nenhum faxineiro, nenhuma doméstica.

Nâo, não estou cultivando feminismos, que devem em minha modesta opinião ser cultivados por feministas. E se mulheres, as feministas, melhor.

Não, falo somente da invisibilidade de algumas personagens e de algumas circunstâncias. E da História e de sua grandiloquência.

Então, sendo a História muito mais do que bustos de heróis enfileirados, por que não enfileirar uma coleção de coisas miúdas, cotidianas? A História no diminutivo?

Oremos.

E vamos aos microfatos:

Já notaram que as pessoas eram magras e esbeltas nos filmes dos anos setenta e mesmo oitenta? Para não falar das décadas anteriores? Menos fast food, menos dietas esquizofrênicas e mais comida caseira, imagino. História.

E assistir a um documentário como Doces Bárbaros e se maravilhar com os Baianos de plástico, maleáveis, rodopiantes, de quarenta anos atrás? Distinguir os maneirismos de uma época: gente assumindo cultuar religiões afro-brasileiras (e não se diga que nada mudou. Hoje será considerada vulgar a pessoa vulgar que o admitir, já que rodou a História junto com a Lusitana e voltamos à Idade Média).

Doces Bárbaros. Gente com pouca roupa no corpo, esparramada em tapetes, almofadas, espreguiçando-se como felinos (o tempo hoje é de urgências, velocidade. O tempo hoje é dinâmico e as pessoas são dinâmicas, dúcteis, urgentes e velozes demais para caberem em almofadas).

Doces Bárbaros. Gal, Bethania, Gil e Caetano. Toda uma série de músicas com temas afro, roupas e adereços com motivos afro, árabes ou indianos. Havia leveza ali. História.

E Betty Davis apagando seus cigarros em um prato no restaurante? Eu vi o filme e estranhei a cena. Não estranharia há alguns anos. Fosse hoje, Betty seria expulsa do lugar, acompanhada por um coro de faces desaprovadoras deplorando sua abominável conduta. História.

E ouvir a música brasileira, dita de vanguarda, dos insossos anos de 1970 a 1980? Uma delícia de estranhamento, com aquela metalinguagem que originalmente fora um meio de driblar à censura e depois tornou-se um fim em si. Um patois para uso exclusivo da classe média. Confiram Panema Leblon na voz de  Cláudia (hoje, Claudya) ou Com Mais de Trinta, de Marcos Valle. Tão disponíveis lá no YouToba e está tudo lá: juventude banhada em sol e rebeldia de butique.

Enfim, a micro-história, pequenininha, doméstica.

A casa da História é lugar onde os Grandes Homens descansam seus fígados e posam para a eternidade. A casa da micro-história só serve à marginalia, é nota de rodapé.

A História clama. A micro-história não, no máximo emite alguns borborigmos.