Les visiteurs du soir

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Les visiteurs du soir (Os visitantes da noite), filme de Marcel Carné, com Alain Cuny, Arletty (Arlette-Leonie Bathiat) e Marie Déa nos papéis principais. O castelo de um barão do século XV é visitado pelos menestréis Gilles (Cuny) e Dominique (Arletty), na verdade emissários de Satã com a missão de perverter e promover o desespero. Gilles seduz Anne (Marie Déa), enquanto Dominique, que apesar de se apresentar como homem é mulher, seduz tanto o pai, quanto o noivo de Anne. Gilles, entretanto, é vencido pela pureza de Anne e se apaixona, para a exasperação de Satã. Um filme magnífico, com belíssima fotografia e um roteiro denso e criativo. Realizado no contexto da ocupação alemã na França, sob o governo títere do Marechal Pétain, há quem o veja, sob a aparência de um filme com tema fantástico, como uma crítica velada ao regime.

Bem, postei por que senti saudades da primeira vez, nas altas da madrugada, em que vi o filme em um velho “tubo” preto e branco (é a idade). Abaixo, uma das canções cantadas por Gilles, o demônio.

DÉMONS ET MERVEILLES
Démons et merveilles
Vents et marées
Au loin déjà la mer s’est retirée
Et toi
Comme une algue doucement caressée par le vent
Dans les sables du lit tu remues en rêvant
Démons et merveilles
Vents et marées
Au loin déjà la mer s’est retirée
Mais dans tes yeux entr’ouverts
Deux petites vagues sont restées
Démons et merveilles
Vents et marées
Deux petites vagues pour me noyer.

Um microconto imitando a um microconto padrão em revistas americanas de ficção científica a ser intitulado REVOLUÇÃO QUADRUPÉDICA

A assessora deixou outra garrafa de água mineral.

Meu filho me aguardava no saguão, era o que me tinham dito a…meia hora?

A Garuda já começara a orbitar Marte. Meu marido estava se preparando para a entrevista e na verdade nem meu marido era, mesmo, de fato. Raimundo lambia minha mão.

Minha única ligação com o novo herói. Um gato decrépito de dezessete anos.

“Vinte minutos. Quer repassar?”.

“Vai fazer alguma diferença?”

Dominique tinha trinta e seis anos e era meu amigo há pelo menos vinte. Um homem alto e magro com uma barba meticulosamente cortada.

“Vinte minutos, Vera. Mais uma vez…quer repassar?

“Mãe…? Será que dá pra gente bater um papo?

Dominique levantou-se da poltrona e deu espaço para que Daniel e sua entourage ocupasse a sala. Não sem antes me estender o dedo médio, adicionando um sorrisinho maldoso ao fechar a porta ao sair.

Meu filho era um homem bonito. Bem, o pai dele era bonito, e acho que eu sempre fui desse tipo de biscate que abre as pernas, facinho, para homens bonitos.

“Mãe? Tá me ouvindo?

O comandante da Garuda, um indiano bonitão parecendo ter escapado de uma produção de Bollywood, começara a discursar no melhor inglês de Oxford. Alguma coisa sobre um grande passo para a humanidade ou sei lá o que, acompanhado pela resoluta e discreta astronauta chinesa.

“Mãe…?”

Eu deveria ter investido no mercado de joelheiras e luvas para quadrúpedes. Mas, mas e mais um mas…eu tinha mesmo que ser uma burra ao quadrado, ao cubo. Eu tinha que estar casada com o filho-da-puta.

“O teu pai já está aqui?”

Daniel me mostrou a sua centésima apresentação do rosto condoído de filho sofredor. “Estão te esperando, mãe…e já faz tempo”

No saguão me dei conta de quanto eu havia subestimado a audácia dos malucos. Pelo menos quarenta fileiras de idiotas de quatro, milimetricamente dispostos e me informaram que havia um outro batalhão, maior ainda, lá afora, só me aguardando.

“A imprensa chegou. Não é maravilhoso?”

Acho que eu gostava mais de Dominique antes de mudança de sexo, quando ele só uma mulher tímida. Como é que eu fui me deixar levar para esta merda?

“Doutora Vera…professora? O que a senhora tem a dizer sobre o momento? A chegada do homem a Marte e o assim…vamos dizer, advento do quadrupedismo. Alguma expectativa sobre a entrevista de seu marido?”

A repórter tinha grandes e belos olhos azuis e uma magnífica e sedosa pele escuríssima.

Daniel, pelo menos, teve a decência de recuar uns bons dois metros.

“Sem comentários.”. Dominique voltou à sala e me conduziu até o elevador.

“Sem comentários, sem comentários e sem comentários.”, Dominique repetiu e foi firme.  O elevador se fechou e minha última visão foi a de Daniel sendo atropelado por seus assessores e pelos outros repórteres.

“A assessoria dele me ligou. Ele te espera.”

“Sei.”

“Sabe o que me irrita?”. Eu gritei mais alto de que pretendia e mesmo assim mais abaixo do que desejava. Dominique apagou o celular e as luzes sumiram de seu pulso revelando uma face ansiosa.

“Eu fui casada com o filho-da-puta e não pude me divorciar do filho-da-puta e o filho-da-puta entrou em coma e como todo bom filho-da-puta saiu do coma.”

“Não sem antes criar um movimento que contaminou toda a maldita e filha-da-puta da raça humana”. Disse, Dominique, sem qualquer ênfase.

E me abriu, galantemente, a passagem para fora do elevador.

“Vai se foder, Dominique!”

“Já estou me fodendo do melhor modo possível, obrigado. Mas, pelo menos, tão me pagando…você tá pagando. O que um advogado poderia desejar de melhor?”

“Madame…por favor.”. E me abriu a porta de apartamento, depois dos seguranças checarem até suas cuecas.

Quatro terapeutas se revezavam, massageando Edgar, estático e contrito em sua cama de hospital.

Pascale estava de quatro, com primorosas luvas e joelheiras azuis-celestes, defronte ao leito, como um cão obediente. O doutor Janot, aparentemente, conferia ao prontuário do paciente.

Na tela, Anathroy Venugpala Rao havia acabado de vomitar suas platitudes e a astronauta chinesa assumira o encargo. O astronauta francês acenava vigorosamente ao fundo.

“Doutora…?”, a voz da assessora de Edgar era puro mel.

“A doutora quer falar com seu esposo…a sós!”. Dominique se postou a frente de Alisson, Beverly ou Vanessa, ou seja que caralho de nome a americana tivesse.

“Anika, pode nos dar licença?”. Edgar tinha uma maravilhosa voz de comando quando queria, o corno.

A última a sair foi Pascale, trotando elegantemente sobre suas luvas e joelheiras Nike.

A tela agora mostrava uma panorâmica do Vallis Marineris e o locutor prometia para depois uma visão única do Mons Olimpus.

“Oi.”

“Oi”. Oi, seu corno do caralho que não sabe brincar e quando brinca fode todo mundo.

“Eu não queria isso, você sabe.”

“Sei.”

“Vera, você que eu não planejei…você sabe. Foi uma piada, porra.”

Eu me joguei na poltrona defronte.

“Não, você não planejou nada. Só recomendou para toda a humanidade uma disciplina básica, assim…meio babaca…não…muito babaca…não, toda babaca. Tipo assim, porque não?, uma vez por semana, andar de quatro? E aí, né querido?, metade da humanidade agora prefere andar de quatro. E aí você se fode num acidente…

“Vera, por favor…”

“E aí você entra num coma de cinco anos e acorda como guru de alguns bilhões de maníacos…”

Edgar se recostou ao encosto e pressionou o botão para erguer a cama, suspirante.

“E fode sua família…”

E eu dei o soco que estava guardado há cinco anos naquele grande queixo, naquele queixo bonito de Clark Kent. E foi um grande soco e uma bruta dor na minha mão e Edgar só piscou, o escroto.

“Vera…”

“E nem me deu a chance, seu corno, de me divorciar de você…”

Edgar sequer massageou o queixo.

“Vera…”

“Você tem quatro bilhões de pessoas andando de quatro. Por sua causa”

Na tela, Venugpala Rao, o astronauta indiano, apertava a mão da astronauta chinesa e o astronauta francês havia começado a discursar.

“O que você quer que eu diga, Vera?”

“Você tem uma coletiva, não tem? Diga a verdade. Que foi uma piada. Que você não teve a intenção de indicar a nenhum imbecil que andar de quatro fosse uma revolução espiritual. Que lamenta que uma expedição a Marte seja menos importante que a entrevista do maior babaca de todos os tempos.”

“Vera…por favor…”

Sem perceber eu me percebi apertando o pulso de Edgar.

“Vera…”

“Fala…”

Os assessores entraram em torrente, colocando Edgar em uma cadeira-de-rodas, me empurrando para o lado durante todo o processo.

Dominique me entregou o prospecto com as recomendações do que eu poderia ou não falar.

“O teu filho…”, e ele riu um riso cansado, “me pediu para te lembrar que talvez seja melhor você não estragar tudo, falando merda.”

“Muita gente vive da fama do teu marido, inclusive você.”

Na sala de imprensa Edgar estava sendo acomodado. Marte e os astronautas chineses e indianos foram silenciados.

“Doutora…?”, a repórter bonita se achegou a mim.

“Tem alguma declaração antes da entrevista de seu marido?”

Daniel se postou a minha frente e Dominique não pode evitar o gesto obsceno e risonho, um grande dedo médio apontando para o céu.

“Não querida, só posso admirar um grande ser humano e a revolução que este grande ser humano, iniciou.”, respondi do modo mais hipócrita possível.

Fui conduzida por Dominique até uma poltrona ao lado de Edgar.

E Edgar, então, pausadamente, seguro e confiante como o grande cientista que era, começou a discursar para as massas.

PÃ MORREU

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EZRA POUND by SaintArtaud – deviantArt

Tentativa minha de tradução de um poema de Ezra Pound. Como sempre, perdão peço às nobres damas de belos peitos e aos cavalheiros de digno cenho. Vale!

PAN IS DEAD

Ezra Pound

Pan is dead. Great Pan is dead.

Ah! bow your heads, ye maidens all,

And weave ye him his coronal.

There is no summer in the leaves,

And withered are the sedges;

How shall we weave a coronal,

Or gather floral pledges?

That I may not say, Ladies.

Death was ever a churl.

That I may not say, Ladies.

How should he show a reason,

That he has taken our Lord away

Upon such hollow season?

PÃ MORREU

Ezra Pound

Pã morreu. O grande Pã está morto.

Ah! inclinem suas cabeças, vós, donzelas todas,

E teçam para ele sua grinalda de morte.

Não há verão nas folhas,

E murchos estão os juncos;

Como vamos tecer uma grinalda,

Ou entreter promessas de flores?

A Isso não posso responder, senhoras.

A morte sempre foi vilã.

A Isso não posso responder, senhoras.

poderia ele mesmo nos dar um motivo,

para que fosse ele, nosso Senhor, levado

Em tão baixa estação?

TUDO MUITO CLARO

Tudo muito simples. Claro!

Reproduzo aqui os interessantes comentários do senhor Anônimo de Tal, pois que pertinentes:

Parakatzum, parakatzum, parakatzum!

Grosso Modo, botega del piacere na flor-de-lis pentacameral. Tudo saramago e boskovitch, o matias. As avestruzes galopantes invadiram o berçário e lá deixaram seu testamento: picharmurus é preciso.

Mandrake Mandrix, o valoroso voivoda, pai de duas lêndeas seminuas invocou à deusa na platibanda. Depois, a orgia, é claro. A noite inteira em intermináveis charnecas. A mestra desnuda, os alunos chorando e as autoridades nada fizeram?

Súplice, sôfrega mesmo à porta do banheiro estava Neide, com a inscrição em seu fato-macaco: femmes.

Tunda e mais tunda, quem é o turumbamba que se atraverá?

Concuspicência entre padre e freira na sacristia até pode, deve mesmo. Padre e padre, freira e freira. Potomac, Paracatú, Urucuia, são risos. Agora, as rótulas no travesseiro e o alvinitente traseiro se alevantando, patacoadamente, quem haverá de? Cúspide! Arúspice. Totonho.

E o nazireu, que me listem? Todo barba e bigode o paraboloso. Tonga e Raratonga foram à escola dominical, isto é certo, mas Anathroy Venugpala Rao desconversou quando de plano as montras das lojas se rebelaram.

Na retrete não, baudrogas! Urucumim é pouco. Cul-de-sac? Não conheço e tremoço que ninguém também não. Patranhas, tudo patranhas. Patadas também, como Gastão e Donald já tinham nos avisado.

E os Bórgias? Victor Hugo namorava as duas vulcanas celeradas e os Bórgias nada fizeram? Lourivalda mequetrefou tântala, a peralvilha. Dogma se revoltou. Walter PPK e Nambú se entregaram a devaneios, pós-modernos.

A tarântula nórdica, o Olaria. E nem me falem no Vasco da Gama, que nem apareceu (O C.S.A. estava envolvido, é certo). E o homem que foi Quinta-Feira? Não se pode mesmo confiar em convertidos, já me dizia o padre Brown, todo pisando em ovos. Farruscada.

Pureza havia, é certo, mas Catherine não nos compreendia. Rapariga tudo bem, mas CEO de multinacional isso não, que temos uma reputação a zerar.

Desgraça em drágeas, peitos embalados, perseguidas voadoras caindo sobre mandiocais em riste, aí já foi demais.

A coisa caminhava para o descambo, o escanteio. Fantomas, Verdugo, o Brasão, o Bala-de-Prata, o Jóia Psicodélico, o Ted Boy Marino, todos concordavam que não dava para se continuar assim. Tava mais prá voadora em riba de senhoras idosas. Vera, a superfêmea, foi taxativa: sou uma mulher-verdade, o que, aliás, já dissera o Riobaldo.

Conversamos assazmente com Maria Deodorina Betancourt Marins. Jocas!

Truste, meus irmãos. Talagada de truz. Verve contra o desalento.

P.S.: Acho que me fiz entender.

Sobre o Tchum, o Tuim, o Punctum e o Studium

Rustavi_Georgia_1972
Rustavi – Georgia – 1972 By Henri Cartier-Bresson

 

 

Roland Barthes ganhava o seu pão pensando. Em seu livro A Câmara Clara, reuniu uma série de seus pensamentos (seu ganha-pão, lembrem), as suas impressões sobre a fotografia.

Dizia ele (ou escrevia) que via, percebia duas instâncias na fotografia, a que batizou de Studium e Punctum. O primeiro trazia ao receptor um sentimento de coesão estética como resposta, um gosto satisfeito, uma redondez feita de afeto.

No entanto, outras fotografias tinham em si a qualidade de gerarem o Punctum, traziam algo de imediato, que se destacava da imagem, nos atingindo bem aqui.

Studium é latim para estudo, no sentido de apreensão de algo. Uma apreensão composta, de inteireza. Punctum, ainda o latim, por outro lado, denota uma “picada”, um flash que salta para nós e em nós.

Em tal sentido uma fotografia primorosamente composta não necessariamente gerará o punctum. Tampouco uma fotografia de momento, grosseira. Mas tanto uma como outra podendo fazer sentir no receptor esta sensação, do espanto, que pode nos comover ou nos aterrorizar ou nos surpreender.

Ouso extrapolar que esta sensação que salta e nos assalta pode advir, também, de outras fontes. O cinema, por exemplo. Um filme qualquer (falo do filme como um todo, orgânico. Fotografia, continuidade, som, roteiro), um que se nos venha por acaso ou por escolha de o assistir e que pode nos trazer este momento único, de estase, de suspensão, onde a dor da picada nos dói sem que tenhamos qualquer ideia da picada, da dor ou mesmo do porquê daquele espanto único, encapsulado em um momento.

Independente de qual seja o filme, de sua conformação, de sua qualidade.

E a poesia, o teatro. O texto em si, todas estas e outras pequenas magias.

Daí que neste mesmo espaço aqui, o blogue, já comentei sobre o principal elemento que confere legitimidade a qualquer obra. A honestidade com que foi feita. Todos compartilhamos esta sensação, esta capacidade de sentir, de saber dizer se a coisa foi feita com trabalho árduo e culhões ou se foi só fita, perfumaria barata.

Ouvimos à música, vemos a dança e…tchum, sabemos. Independente da cor de nosso couro, da qualidade de nosso cérebro e de qualquer divindade que prezemos. É assim, feito um chute, é um tuim, um baque nos bofes.

Certo, começou com punctum e studium e acabou com tchum e tuim. No caso, tchum e tuim tem a ver com o punctum.

O studium tem mais a ver com eita, não tá mal, mas não fique se achando, não.

Minha lista de obras dispensadoras de tuim, desculpem, punctum, é variegada e irregular, não é uma senoide, tá mais para um gráfico de terremotos.

Exempli gratia. No Assim falava Zaratustra, de Nietsche, punctum. No Como Tem Zé na Paraíba, de Jackson do Pandeiro, também. Já o Ulisses, de Joyce, não. Pretensioso.

Na Lua Não Há, de Roberto Carlos, um rhytm and blues um pouco mais acelerado e com as síncopas atenuadas. Tuim/punctum do bom.

E Grande Sertão: Veredas. Sá Marica Parteira. Funiculì, funiculà!, que, aliás, foi composta para fins publicitários. Algumas fotografias de Henri Cartier-Bresson.

E descendo ao paroquialismo: a campanha ascendente e vitoriosa do Corinthians, ascendendo da segunda divisão até o mundial de 2012, anno mirabilis.

Mas aí já estarei falando de absolutos, de epifanias.

Perdão peço.

Foder, comer, foder de novo, broxar, comer, amar.

Jesus Returns - Kleverton Monteiro
Jesus Returns – Kleverton Monteiro

Foder, comer, foder de novo, broxar, comer, amar. A vida é mais que isso e o mundo é um emaranhado de mistérios não revelados. Ainda. Sigam-me.

É uma bola a terra, redonda.

Uma bola de excremento, pensavam os egípcios, rolada por um escaravelho por toda a eternidade.

Ou uma placa redonda, sustentada por quatro elefantes apoiados no dorso de uma tartaruga descomunal, como sói pensavam os criativos chineses.

Enganados todos estavam em um ou outro detalhe, pois somente a mim foi dada a oportunidade de conferir as coisas de fora, com vista privilegiada, concessão que me fez o Altíssimo.

“Se eu puder falar com Deus”. Besteira, eu falo. Todo o tempo. Deus e eu somos assim, ó, muito chegados. Ele fala, eu escuto. Eu argumento, ele faz milagres. Eu subo o monte, ele providencia as nuvens.

Moisés, todos os que leram o Livro Santo sabem, também privou com o Todo-Poderoso. Feito eu, Moisés faz parte de uma confraria de poucos, de papeadores com o divino. Mas Moisés teve privilégios que não tenho, claro. Via Deus, não só falava com o Senhor das esferas. Teve mesmo a honra de ver ao traseiro de Javé, confiram lá no Êxodo 33:20-23.

 E, havendo eu tirado a minha mão, me verás pelas costas; mas a minha face não se verá.

E então, Deus. Ainda na infância sentia sua presença e depois de algum tempo, sua voz. Me dando conselhos, me soprando as respostas erradas nas provas de matemáticas, me moldando que Deus é dos que fazem isso: sempre mexendo no barro humano.

E então Deus, chapa meu, me fez este mimo, de mostrar o real, a Terra vista ao alto. Bondoso que sou, transmito a vós, povo de dura cerviz, o que aprendi em visão a mim proporcionada. Em high-definition, aliás. Então lá vai:

A Terra não é redonda, é plana, como todo mundo sempre suspeita mas tem vergonha de falar prá que não pensem que é uma anta. Esqueçam a conquista da Lua, foi tudo feito em estúdio. Aliás, com Stanley Kubrick dirigindo a coisa toda. Segredo que ele levou para o túmulo, ajudado, claro, pelas constantes ameaças que recebia do serviço secreto americano.

Não existem outros planetas e nem outras estrelas, Deus colocou aquelas luzinhas lá em cima para confundir a nós, néscios. Telescópios, astronomia? A irrelevância das irrelevâncias.

Evolução? Piada. Deus criou o mundo do nada e, só prá sacanear, criou os fósseis de dinossauros, australopitecos, neandertais e preguiças gigantes que nunca existiram[i]. Há mais ou menos uns seis mil anos[ii], para não ser exato.

Concepção? Nada de espermatozoides e óvulos, esta a vera verdade verdadeira e veraz. Deus, o Altíssimo, ouviram?, ele é que anima e dá forma ao gérmen da vida.

Agora, Inferno, Purgatório, Limbo, realidades são, como já nos tinham informado Dante Alighieri e Virgílio.

Que mais me disse Deus? Coisas. Deus me disse e me diz muitas coisas, além de excelente cantor, Deus, arrasando na interpretação de Bohemian Rhapsody. E fazendo todas as vozes. Deus é Queen, digo, cool.

Foder, comer, foder de novo, broxar, comer, amar. Bem, Deus foi taxativo. Pecados são. Tudo bem, perguntei a Deus a causa de sua preocupação excessiva com nossas fodelanças e nossa gula, coisas tão comezinhas em relação a sua grandeza.

“Nada escapa ao meu olhar”, disse-me Deus, o Voyeur das Alturas, pontuando tudo com uns trovões e raios. Calei-me, claro. Vou lá eu encher ao Saco Divino com tais questiúnculas?

Ah, Adão não tinha umbigo

E finalmente, todos foram e estão sendo enganados: o rádio não existe, mesmo o modelo digital novinho no seu carro. Tem um hominho lá dentro.


[i] Philip Henry Gosse, naturalista inglês, publicou em 1857 o seu  Omphalos, onde postula exatamente isto, a saber: Deus criou os animais já adultos, as árvores já crescidas (as sequoias, inclusive) e, mais importante, os fósseis e as camadas geológicas indicando datas de milhões de anos.

[ii] Como já tinha calculado James Ussher, bispo de Armagh.

Poemeu escrito nos reinos distantes

Poeta com pássaros – Marc Chagall

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Tudo o que sei da vida e da pedra

A solidão rugosa, a treva

esta palavra não proferida

Em algum lugar há uma tarde e um rio

Onde Deus habita em vida, em instante

Onde um semblante de Deus é vida

É mimo, é presente e é amargo

Tao e solidão

O Peixe na escuridão

Não que seja Deus, assim, amargo

Não que seja sofrido seu semblante

é o somente o semblante de um pastor cansado

ao largo

Como Krishna entre vaqueiras nuas

Um pastor azulado com olhar distante

Como o riso ante e acima, flutuante

Como o ato de colher bem cedo

A fruta no fundo do quintal

O manjericão, o trevo, o fado

Como um passarinho manco, Deus

de pé alado

Um pé esquerdo para cada lado

E há o deus devaneante e plano

No aconchego gris azul de sonhos

Sonhando com vinhos taninosos

em outra época e tempo e outros ossos

vinhos bebidos há mil anos

Pequeno Dicionário Desalfabético de Maravilhas I

JARDIM DAS DELÍCIAS_Detalhe_Hieronymus Bosch

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STANLEY KUBRICK – O sujeito bota o primeiro terço do filme Dois Mil e Um – Uma Odisseia no Espaço recheado de antropoides (macaco, não, que ofende tia Neide!!!), sem um único diálogo. Tá, os antropoides não eram muito do uso da laringe. E, só dispois, começa a ficção científica mesmo. Mas aí descobrimos que os diálogos são os mais banais possíveis, tipo assim os nossos, do dia-a dia. E a coisa vai, vai, e aí vão até o monolito alienígena desencavado, a noite lunar termina e o bichão recebe toda a luz do sol e grita em todas as radiofrequências. Rapidão, muda para a terceira parte, a nave indo até Júpiter e mais uma coleção de diálogos sensaborões entre os dois únicos astronautas que não estão no sono criogênico. O Computador da nave, o HAL 9000 da Silva se enche e decide matar todo mundo. É contido, mas só sobra um astronauta. Final: temos uma epifania com o astronauta…eita, foi muito spoiler? Puta que me pariu!!!, eu só queria dizer que o Stan era do balacobaco! Estraguei tudo. Disculpaí.

Aqui: https://www.youtube.com/watch?v=EGrKMF5OgfE

ALFRED HITCHCOCK – Adorava um cameo. O que é um cameo? Ora, pesquisem, seus preguiçosos. Ah, tarado por loiras, também.

GLAUBER ROCHA – O sujeito que inventou uma grafia própria e um cinema pra chamar de seu. Um yconoklasta ou um…cumé que se diz em francês? Debochadô.

MARCEL CARNÉ – Dele vi em madrugada pretérita ante um tubo preto-e-branco ao seu Visiteurs du Soir. Dois demônios, disfarçados de humanos, of course, visitam a uma corte medieval com o fito de corromper. Um deles, entretanto, se apaixona pela filha do grão-senhor e é punido pelo demonho-chefe. Atenção para Demons et Merveilles, cantado pelo demônio apaixonado interpretado por Alain Cluny.

Aqui: https://www.youtube.com/watch?v=PnvrwJ_DC4o

AKIRA KUROSAWA – Era um sujeito que depois de uma tentativa malssucedida de suicídio dirigiu a Dersu Uzala, com financiamento e locações soviéticos, filmado em paisagens siberianas. Durante as filmagens Kurosawa ia até um riacho e montava pequenas esculturas com as rochas à margem. Atenção para o excelente ator Maksim Munzuk.

Karim Aïnouz – O qual, claro, já se percebe por nome e sobrenome, é cearense (até morrer, quando então será anjo). Seu Madame Satã tinha um baiano como ator. Um Lázaro. E que fez toda a diferença…

Lenine – que compôs a maravilhosa “Todas Elas Juntas num Só Ser” que toda dama deveria escutar, compungida, sabendo-se amada afinal. Aqui: https://www.youtube.com/watch?v=H8heUZxU92g

Laís Bodanzky – Ela inventou um Bicho de Sete Cabeças. Tinha um Santoro, se não me engano.

O EVANGELHO SEGUNDO O CORINTIANO VOADOR

Angel (simple work) by tornadoeyesart – DeviantArt

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No começo eram trevas. Em verdade em verdade eram mais que trevas, pois que não havia nada e, consequentemente, Watson, nem trevas. Mas eram trevas. Na verdade era o vero verdadeiro veraz estado do Nada. E era um nada tão nada que nada havia de nada (pois que não havia nada, me entendem?).

Bem, sequer era o começo de tudo pois que não havia nada, inclusive o tempo. E eis que Deus estava só, sozinhão no meio de um superaglomerado de nada. E nada havendo, nem luz, estava lá o Senhor no meio da treva nadosa e com um puta medo de perguntar onde estava, pois tinha medo de cair, vocês sabem, no nada.

Bem (de novo) temos aqui duas versões para os subsequentes acontecimentos (que não foram e nem poderiam ser subsequentes. Perceberam? Sem tempo, etc., nada).

Versão Big Bang: ora, todo mundo sabe que o Nada é constituído de partículas infinitesimais constituintes chamadas de “nádons”. Ora, tanto nada havia que o nada começou a se empilhar sobre mais nada até que havia tanto nada que o nada atingiu a massa crítica, com o que explodiu o universo numa mega-hiper-super-ultra explosão: o Big Nada. Assim, a explosão de nada criou ao universo conhecido, este no qual você e eu habitamos, todinho ele feito, todo ele construído a partir de uma sopa hipernadificada dos nádons originais.

Versão Gênesis: então estava lá o Senhor Deus (onde? não havia lugar, só o nada), no começo de tudo (começo de onde? Não havia tempo) enrodilhado, pousado no meio do nada e como um medo terrível de se perguntar onde estava, pois tinha medo de cair. No Nada. E eis que entrou em profundo pânico o Senhor e gritou: Faça-se a luz. Imediatamente, bilhões de sextilhões de sóis se acenderam, a Constante de Planck passou a existir, os diversos multiversos e também a morte (novinha, recém-nascida e sem foice) passaram a existir, Vejam, só a existência, sem a essência como intuiria depois Jean-Paul, o Sartre, servo do Senhor.

Qual das duas versões é a verdadeira? Ora, as duas. Digo mais, naquele exato momento o Senhor, papeando com morte, deslindou-lhe um dos grandes acontecimentos cósmicos no porvir.

“Qual, Senhor?”

“Roberto Carlos”, disse o Senhor.

“Ah…”, disse a morte.

E foi assim.

Sete-estrelo: outro resgate

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Meu pai um dia me apontou o Sete-Estrelo, que nada mais é que a constelação das Plêiades. Na verdade, parte ínfima, apenas a visível. Pode ser visto o Sete-Estrelo na madrugadinha final, meio como um milagre, meio como um sonho.

Esta é maravilha contada, anotem.

Outra é o Saci, o Matita-Pereira, Matita-Perê, que nada mais é que um passarinho invisível. Duvido mesmo que exista, mas Tom, o Jobim, musicou o bixim. Quando morava eu nos sertões ele nos aparecia, nas horas mais imprecisas.

Depois tem o Tetéu, que é pássaro insone, desadormecido. E o João-de-Barro que é empresário da construção civil mas que é poeta e nem canta, por poeta ser. E tem o urutau.

E tem o guriatã e tem Guinga que cantou o guriatã que “cantava no seu quarto de telha-vã”.

Meu pai um dia me apontou o Sete-Estrelo.