Breves considerações sobre a magia e a palavra

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Mein scribe – by Rovanes – DeviantArt

 

 

 

O romance, este gênero ainda cheirando a verde, teve sua consolidação com o Quixote no século XVI mas já despontara antes nas tentativas do Satyricon de Petrônio, na Roma de Nero e no Genji Monogatari no Japão da era Heian no século XI.

Vejam, foram afloramentos heroicos, dignos, mas somente o século dos descobrimentos, na Europa; somente dele, proveio o correto húmus, o preciso fermento da época.

Então se fez o romance.

E se faz agora, tímida, minha tese: sem magia não há o romance.

A poesia pode prescindir da magia por ser de si um encantamento, como a filosofia que tem a vantagem de não ter nenhuma vantagem e ser prima da poesia. Daí Nietzsche ter composto o seu admirável Zaratustra, que assim falava e que era filosofia e que era poesia.

Quando digo magia quero dizer, oras, magia. A suspenção da crença, me digam, o que é senão uma operação mágica?

Arthur retira a espada da pedra, Lanzarote mata o gigante, Clarice Lispector nos apresenta Macabéa e a barata e nós…acreditamos, estamos lá naquele momento e nos seguintes.

Magicamente suspensa nossa noção do real.

A magia, por sua vez, não pode se desligar do romance porque é ainda muito jovem o romance. Mal acabamos de criar o épico, que é apenas a forma escrita que desenvolvemos para descrever o mito.

As presepadas de Gilgamesh e Enkiddu foram primeiro contadas ao redor de fogueiras sumérias e só depois postas no papel; ou melhor, no barro com o alfabeto cuneiforme que os acadianos tomaram dos sumérios e nele colocaram os sons para que os assírios transcrevessem as histórias cheias de maravilha e magia.

Só a seis, cinco mil anos? Foi ontem.

E como é recente o romance e como é antiga a magia. E como é necessária.

Machado, Cervantes, Swift, Sterne, nossos contadores modernos de histórias, não podiam fugir a esta tradição ancestral.

Então, magia.

Memórias Póstumas de Braz Cubas, um conto de magia, que começa com um morto narrando sua própria morte e se deslocando até o começo dos tempos no pós-morte.

Nosso Dom Casmurro, nos contando de segunda mão, por meio do tenor Marcolini, uma cosmogonia toda particular que retrata a Deus e ao Diabo como cocriadores do universo que é só uma ópera, nada mais que uma ópera.

Magia.

Gulliver em Liliput, os Buendía em Macondo, Alexandre e outros heróis de Graciliano Ramos. Mas também há a necessidade do maravilhoso, do mítico, na Náusea de Sartre e nas andanças de Leopold Bloom pela Dublin de 1904.

No Fausto de Thomas Mann Adrian Leverkühn tem uma das conversas mais longas com o Diabo de toda a literatura.

Também Riobaldo andou pelo sertão e não dispensou um pacto com o demo.

O realismo nunca existiu ou foi só pretensão. Acredito mesmo que se emulada à perfeição a vida em livro (o que tenho por impossível), não teríamos nada mais que um aborto.

O romance é pedra, mas se desgasta a pedra e se transforma. E do que fala a pedra?

Do que pode o romance?

Da mulher enterrada a metros daqui. Do veneno que a matou. Do necessário que foi sua morte.

Do pastor que se apaixona pela Morte e é condenado à imortalidade por ser proibido ligarem-se Morte a mortais.

De soldados tão orgulhosos e seu comandante ainda mais orgulhoso que se perdem em missão. Presos até hoje em andanças eternas pelo único erro de terem encontrado uma das entradas para o mundo de Sexta-Feira.

Da sacerdotisa que viu o futuro quando não queria ver mais nada que o rosto de seu amado e por isso foi amaldiçoada a ver o futuro. De seu exílio, de sua loucura ao falar de épocas futuras com carruagens voadoras e homens e mulheres e animais e demônios aprisionados em caixas de vidro.

Da canção que se transformou em mais que canção e depois em torrente e depois em punho sobre o mundo. E da era glacial que veio ao mundo por conta da canção e do impossível destino dado ao autor da canção e sua flauta de tíbia.

Do pequeno fidalgo que enlouquece, arma-se cavaleiro e enfrenta moinhos de vento.

Do padre que seduz a donzela e a vê morrer, indiferente, no parto de seu filho.

De muitas coisas fala a pedra que é romance.

E quem trata da pedra é um pequeno mago, e como Jó, profundamente desafiador dos roteiros de Deus.

Que, aliás, foi o primeiro editor e libretista, como já suspeitava aquele Machado, o de Assis.

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Eu, o ghost-writer II

LIBAÇÕES

 

E então Maurinho, o filho-de-uma-égua, me convidou para uma cerveja no bar de um conhecido. Eu tinha acabado de lhe entregar um novo livro, acho que sob o pseudônimo de Emmett Louis Carrol.

Não me lembro bem do enredo. Me recordo vagamente que versava sobre um professor universitário americano em retiro sabático que era recrutado pelo serviço secreto para espionar uma cientista soviética.

Claro, uma senhora gostosa, sensual e dadivosa como exigiam os livros de espionagem da época. O meu era só mais uma das merdas do período, vendido em bancas de jornais paulistanas a um preço módico que a edição feita em papel higiênico e em duas cores podia prover.

O caso é que disse a Maurinho, meu editor e também vendedor de lixo em forma de papel, que era aquela a última colaboração que teria de mim em sua pestífera empresa, pois que arranjara emprego que me pagava um salário mensal.

E, para mim, um soberbo salário para os padrões meus e da época.

Maurinho não se irritou, pegou os papéis datilografados e me pagou.

E, novamente, me convidou para uma cerveja, desta feita acrescentando que dada a situação e a ocasião me levaria a lugar de sua particular preferência.

“Um templo do bom viver e da cachaça.”

“Preparado?”. Maurinho elevou o indicador.

E então foi assim que naquela sexta-feira, por volta de quatro horas da tarde, nos aboletamos no balcão do Capitão Sujeira.

Por pudor, não informo onde ficava o mirífico boteco, mas direi que ali havia poesia, um sanitário imundo, caldo de mocotó com farinha de mandioca crua e passagens para universos paralelos.

“Sabe…eu gosto de você. Um menino bom, inteligente, mas burro. Questionador, amante gentil para as senhoras. E burro. Já te falei que você é burro?”

“Já Maurinho…muitas vezes.” E ele riu, modesto.

E levantando um copo de conhaque vagabundo, me cutucou com um dedo rugoso no peito.

“Este seu pseudônimo aí, Emmett Louis…”, e arrotou. “Me lembrou um outro Emmett.”

“um que?…”

“Não me interrompa! “E ele chorava.

“Emmett Louis Till. Um menino negro americano. Assassinado por supostamente ter assobiado para uma mulher branca.”

E acendendo um cigarro com gestos inseguros de ébrio.

“Acho que foi…em Mississipi?”

E a conversa continuou. Contei a Maurinho sobre Eliahu e Iliya, o judeu e padre ortodoxo russo com quem privava, contei que os conhecera por acaso, na banca de José Einaldo, na rua Tabor, no Ipiranga, em São Paulo.

Contei que ambos me disseram a mesma coisa, que eu era um idiota. Inteligente, perspicaz, mas um idiota.

Contei que me advertiram ambos sobre os sábios, sobre a funesta influência que os sábios tinham sobre as pessoas.

Contei para Maurinho as ideias de Eliahu e Iliya, de seus medos, de suas desconfianças do mundo.

Maurinho riu.

“tá!”

“Tá?” Eu.

“Tá, gostei destes putos aí…”

Maurinho requereu, gentilmente, que se renovasse sua dose do enojante conhaque Padre Cícero e mais uma cerveja para que, a moda de seu Major (Maurinho amava Jorge Amado), se desfeiteasse ao conhaque.

“O mundo é assim, sabe? Bobo.” Maurinho.

“Então é preciso que haja pessoas assim. São tesouro essas pessoas…” Maurinho novamente.

“Já falei que gosto de você?” Maurinho baixou a cabeçorra.

Saí do boteco por volta das cinco da manhã. Desconheço como cheguei em casa. Foi a última vez que vi Maurinho.

Este texto todo foi escrito com muita saudade de uma época, de uma pessoa.

E ainda dói.

E ainda acende, inflama.

E é isso.

E é assim.

 

 

 

 

 

Aos pequenos covardes de plantão

a essence of a dream

Ah< continuo sAbendo denAdA> nÂo è incrível? E TENHO AÍ MEU PAÍS, QUE GUARDO aqui dentro. E vejo aí os trasgos, os demoninhos, rubros e minúsculos, tentando, desesperadamente se conhecerem, parecerem, com pessoas. São não. Meu país ri e canta, por mais que doa, por mais que sangre. vocÊs, toDOS vOCês. Passarão! VOCês< oS cheiroSoS< oS VErmES DE primEirA HorA, OS PEquenos covardes com medo da aurOra.

E eis que um dia será dia, claro, de espanto e luz. E quando vier o dia, vós, somente vós, não tereis sequer o favor da serpente )MEsMO Um réptil terá engulhos ao vos deglutir(

SERà uM dIa de sonho, onde o país, a pátria-puta hoje nossa, se verá coalhada de mesas de piquenique.

E os covardes nem poderão cantar sua prosa de ganância e grito, porque sempre foi Nossa a Canção e o rito.

Ave, Vida e dOm da vida.

Meu País é ESplEnDOROSA bUCETA, uma bandeira LINDA, meu País é um torso de mulher.

aVE PUTAE!

Eu, o ghost-writer

ghost writer

Em anos pretéritos, não, não darei a exata data, mas digo que foi em tempos de antanho. Um amigo me levou até à editora e gráfica de Maurinho, o filho-de-uma-égua.

Mais outro, de uma coleção que tenho.

Pretendia eu, vejam só, que fossem meus (sinto as faces rubras só no pensar), digamos assim, poemas, postos em livro.

E então, lá, como manda o figurino, apresentei os calhamaços, os papéis, que Maurinho folheou assim como quem nada quer. Inicialmente nos estranhamos, depois engatamos uma conversa maluca, onde entrou o roquenrol, os upanixades, Regina Duarte, Yukio Mishima, Jackson do Pandeiro, Radamés Gnatalli, a vida, Miles Davis e o cerol em linhas de pipa.

Maurinho pediu discreta vênia, pedindo ao meu amigo a devida paciência,  me convidando a seguir a que conhecesse seu império.

Traduzindo, me levou por uma escusa porta aos fundos de sua, vamos dizer assim, editora, e que nos levou a um sebo que mantinha e que dava para a rua paralela (não, não direi onde. Certos pudores ainda me prendem).

Mirífico, sujo, o pestilencial sebo de Maurinho, colado à editora e gráfica, rabo com rabo, me encantou e entonteceu e tanto, que esqueci dos poemas. Era um universo, um plano dimensional inteiramente novo, onde se acharia e se achava de tudo: cordéis, romances, podríssimos acetatos e raridades tão raras que encantariam até uma virgem analfabeta.

Dali, nas estantes cambetas, me acenavam um long play do filme Borsalino (Alain Delon e Jean-Paul Belmondo), o Romance da Pedra do Reino de Ariano Suassuna, ao lado de quadrinhos dos setenta da editora EBAL, do saudoso e imerecidamente esquecido Adolfo Aizen.

Maurinho me levou até um cubículo fedorento nos fundos e de uma gaveta em uma escrivaninha decrépita retirou a garrafa medonha, que até hoje me dá náuseas só de lembrar, do demoníaco conhaque Padre Cícero.

“Olha, os teus poemas…”, disse depois de um trago bem servido, “queria que você soubesse, são uma merda”. “Não que você seja ruim, até que tem bom domínio da língua, vocabulário, mas continuam sendo uma merda, os poemas vossos.”

E continuou. “Ô menino, veja bem, existem dois tipos de pessoas que escrevem poemas: os merdas, seu caso, me perdoe e os poetas de verdade. Bota fé em mim, você não é poeta. O fato é que você é inteligente, mas quem foi que disse que poesia é para os cultos? Mestre Aderaldo era analfabeto e Luiz Gonzaga tinha pouca instrução, mas os dois eram gênios. Agora, pode me mandar à puta-que-me-pariu!”

Maurinho era pernambucano de Caruarú e fizera de tudo na vida desde que aportara em São Paulo, de segurança de puteiro a engraxate, com uma temporada inesquecível como cantor de boleros numa churrascaria.

“Eu não cantava mal e fiz certo sucesso, mormente com as damas, apesar do metro e setenta.”

Serviu-me outra dose da pestífera beberagem.

“Sabe por que me dei ao trabalho de gastar meu tempo e conhaque vagabundo com você? Bem, é que eu vejo em você um certo potencial. Um dom para a conversa mole. Qualidade raríssima!”

“Veja…” e professoralmente levantou um dedo, “eu não creio em partidos, religiões e em sistemas. Eu creio é em Maurinho, eu mesmo. Acho as pessoas…fundamentalmente idiotas, manipuláveis. Entendeu a ideia, meu mote de vida? Algum outro imbecil comum, mas você não, percebi bem antes, ficaria impressionado, enojado. Você só fica perplexo mas, seja honesto, fica também maravilhado, engrandecido e agradecido a Deus por ter conhecido um filho-da-puta como eu. Um merda que fez da merda seu lucro. Mas…como diz o poeta ou político, tergiveso…”

Me explicou então Maurinho que seu negócio, ou negócios, eram híbridos: um sebo em uma rua e uma gráfica e editora na outra. E, vejam que genial, editora esta onde publicava livros efêmeros, de pouca tiragem, que vendia em bancas de jornal, principalmente (eram os anos oitenta e não havia internet).

“Então, o que eu vendo é lixo. Livros que ensinam a falar inglês em trinta dias, livros esotéricos de merda que prometem de tudo, desde o Nirvana até o Apocalipse, manuais de prática sexual ─ ilustrados, fique claro, com fotografias surrupiadas de livros pornográficos dinamarqueses (anos oitenta, eu disse) ─ e de espionagem e os caralhos.”

“Mas…” e Maurinho fez pausa dramática, “tenho um diferencial: meus autores são, todos, americanos ou ingleses. Jones, Ferguson, McIntontosh, Knox, são todos meus contratados. Verdadeiros, claro, como os Diários de Hitler, que, aliás, estarão na banca no mês que vem.”

Fiquei pasmo e tanto que me servi de outra dose generosa.

“Então, caro poeta, a proposta que lhe faço é esta. Quero, ambiciono seus serviços para que seja o senhor meu mais novo contratado, com um pagamento de merda, é claro, para que me escreva estes livros, sob glamuroso pseudônimo. Inglês, esclareço.

Amigas e amigos, tremi.

Mas permitam que vos diga que desisti de publicar meus poemas. Aliás, me garantiu Maurinho que se eu o quisesse ele os faria, mas toda a edição seria por mim paga.

Acho, acredito, que foi das decisões mais sábias que tomei na vida.

Entretanto, quanta riqueza eu trouxe à literatura!

Como escritor fantasma de Maurinho me deliciei em entregar às bancas de jornais obras hoje inesquecíveis.

Ora pois, quem, senão eu, sob o nome de Eaxton Boisen, criou o fantástico detetive Stuart Paxton, que resolvia os mais intrincados casos, enquanto comia a mulherada toda? Quem, me digam quem, poderia ter cometido O Manual da Maçonaria Universal pela pena do Professor Boanerges Cotrim (único autor que psicografei com nome português)? E que me dirão da Prática Sexual Dinâmica, assinado pela correta doutora Hope Richardson?

Falei da famosa série da sedutora Rebeca Claxton? Agente secreta da Dragon, agência secreta de espionagem, ramo do MI-6 inglês, que perambulava pelas camas de milhares de homens, descobrindo-lhes todos os segredos?

Procurem, devassem os sebos. Quem sabe vós, pessoas do bem, não encontrarão ainda um exemplar sobrevivente?

Todos de minha alçada e habitantes leais de bancas de jornais paulistanas até o final dos anos noventa, ocasião em que Maurinho teve o seu ataque cardíaco programado e final e sua editora e sebo foram para o limbo.

Compareci ao enterro e “bebi ao defunto”.

Era um dia frio de junho.

Muito frio.

 

 

 

A PRISÃO DE WILD MARCIONÍLIA

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COSMIC VOYAGE – By Skmoon-d7anzbl – DeviantArt

 

 

No dia em que Wild Marcionília foi presa, eu chorei.

Vozes sem conta comemoraram sua prisão. Oro Bonfá, dono de cinquenta e três luas de mineração e pelo menos dois planetas terrestroides inteiros abriu seu palácio do prazer com mesa farta, prostitutos e prostitutas à mancheia e de graça e um discurso inflamado que terminou com a morte programada de Maatu, o verde, o putinho mais famoso de todos os tempos e que deve ter ganhado ali os seus milhões e remida aposentadoria, assim que revivido.

E havia o Grande Juiz, autor do mandado de prisão, a quem se prodigalizou grandes comendas, com uma ou duas canonizações em mundos de fronteira.

Wild Marcionília, claro, não foi poupada de nada e por ninguém. Perguntaram às multidões reunidas em torno do Templo em Nárnia: Marcionília ou Barrabás? E as massas urraram.

Entretanto (permitam-me o entretanto), Wild Marcionília, a mais nova presa política do século, não pareceu se dar conta de que tinha um papel a cumprir nos planos do Grande Juiz, nos planos da Grande Babilônia, nos planos da Casta Dourada e não se apresentou na hora e dia previstos.

Conta-se que a guarda pretoriana do Templo veio toda paramentada em glória para sua prisão, com direito a holofotes brilhantes, trovões e raios multicores. Um dos discípulos de Marcionília seccionou com sua adaga à orelha de um dos guardas e Wild Marcionília o deteve só com seu olhar e sorriso, para a seguir recompor a orelha.

“Qual o teu nome?”, perguntou o Grande Pretor.

“Meu nome é legião!”, respondeu altivamente Wild Marcionília, reconhecidamente uma das demônias mais combativas e impiedosas de todo o Xeol.

O qual, aliás, não é nome de planeta mas de um específico inferno.

No dia em que Wild Marcionília foi presa eu também ri. Um riso contido, sereno, como compete a um filho-da-puta de escol que sei que sou.

Sobre o fascismo que habita debaixo de nosso couro

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Dignidad – Ron Vargas – DeviantArt

 

 

Em data incerta de ano incerto passei uma temporada em Ciudad Del Este, aquele grande monumento ao brega dinâmico, aquele mercado Souk plantado no rabo da América do Sul.

Foi das melhores épocas de minha vida. A começar pelo cheiro, presente em todo e qualquer canto, suponho que uma mistura de especiarias da culinária local com as emanações dos corpos, dos deuses também locais e das almas.

E foi lá que aos poucos, aos poucochinhos, nos devagares, que notei os olhares, o conjunto de esgares, as expressões todas confazentes, as periferias dos olhares dos paraguaios, circunvagando meu rosto, não me dando a cortesia sequer do desprezo. Eles se lembravam de outros tempos, onde nossos avós de mãos dadas com avós argentinos fizeram ali coisas, muitas.

Suspeito, acho, que não me tinham qualquer ojeriza pessoal. Me viam, me inspecionavam no geral, não como pessoa, mas como símbolo. O mesmo comportamento que vez em quando nos acode quando nos vemos ante um gringo qualquer, europeu, americano ou japonês, mas mormente mais quando americano e europeu.

Não desgostamos do moço ou da moça. Só temos é gastura, uma reação estomacal de raiva ancestral.

E assim os paraguaios comigo, conosco. Talvez também os bolivianos, de quem tomamos o Acre. Como os mexicanos tiveram tomado a seu Texas.

Mas então o Paraguai e Ciudad Del Este, antes Puerto Presidente Stroessner, em homenagem ao ditador de plantão da época.

Era e acredito que ainda é lugar quente e alegre e triste, ao seu modo tão peculiar de conciliar tristeza com magia.

Povoada com e por pessoas trilíngues, de pedra. Um lugar com partidas de futebol, circo com calendário e todo o mal que se espere, de todas as safadezas mais que esperadas, com seus ódios e tesão.

O fascinante cu de nuestra américa, a capucheta do cão.

Mas os rostos das pessoas, amigas e amigos, os rostos! Velhos, sorridentes e dotados de uma sabedoria que se pressentia quase como dor, se confazendo em gestos de polidez que escondiam mágoa velha.

A vida se decide é nestes rostos, nos humildementes, nos falares atrás de pilastras, nos cochichos atrás de monumentos de fundadores, foi o que atinei e atino.

Jesus caminhava por Ciudad Del Este, insuspeitado. E disputava o espaço com os espíritos abissais de antigas divindades indígenas destronadas, com quilômetros de extensão.

SOBRE LER, VIVER E O UNIVERSO.

GUERRA

 

 

Sei que entrei para a escola, meu pai me comprou os cadernos e chovia. Minha mãe me acompanhou e me deixou lá, no pátio. E eu tinha muito, muito medo.

Chovia novamente, forçoso é acrescentar, no meu primeiro dia de escola.

Minha primeira professora era severa, grosseira e temperamental. Obrigado, dona Maria de Lourdes (você merece o “dona”, como o sabem todos os que tiveram professoras, mestres ou gurus).

Bem, havia a escola e tive minha primeira prova, onde não percebi que tinha ido tão bem que recebi até elogio. Meus pais eram econômicos nos encômios e nada me disseram.

Naquela época uma vizinha mudou-se e deixou toda uma coleção de livros sob a guarda de minha família, para resgate posterior, mas nunca mais deu as caras. Eu tremia todo dia ante a ameaça, o desidério de que algum dia ela viesse até mim para resgatar aquelas preciosidades, provisoriamente sob minha guarda.

Foram anos mágicos. Houve um mistério no céu (1970?) quando um raio verde e brilhante apareceu, indo de baixo para cima, denso, lento e fatal. Juro que é verdade.

E houve toda uma infância após tudo aquilo, onde eu ouvia um passarinho cantar e me diziam que não era passarinho, que era um anão, fortíssimo, que se descoberto espancaria seu descobridor. Anos depois, Tom, o Jobim, me mostraria que o som que eu ouvia era tão somente o do Matita-Perê.

Ô merda. ‘brigadu, Tom.

Mas tem esse “negoço” aí da leitura.

Sei que eu lia e lia e lia. Primeiro os livros da vizinha, herdados contra a vontade dela. Bem, na verdade vera e verdadinha eu me apaixonei não foi pela leitura, mas pelo fetiche do livro. Me lembro que na casa de meu avô, em épocas pretéritas, me caiu nas mãos um livro encapado em couro castanho-marrom. E eu amava este livro. E havia uma gravura em perfil de um homem barbado na antecapa. Era? Sei não. Era então eu um  analfabeto de cinco anos.

Mas era do meu avô, o paterno, o livro. Aliás, também forçoso dizer, tive dois avós do caralho, assim tipo Filho-da-Puta um e Filho-da-Puta dois. Escrotos, exploradores de pobres, um preto e outro marrano, mas uns caras, assim, como direi…do caralho.

Tá, mas a leitura.

Eu lia, no começo a Bíblia que eu achava que era um livro de aventuras e era. É. Achava um tesão Isaque dando uns amassos em Rebeca, surpreendendo ao rei. Depois, foram os romances de cordel de meu pai, depois Camões, depois os divinais quadrinhos pornográficos de Carlos Zéfiro, e Tolstói e Shakespeare e Ofélia e Narbal Fontes e Machado e o Pasquim e Yukio Mishima e Clarice Lispector Thomas Mann e J. F. de Almeida Prado e Charles Fort e Jacques Bergier e Marguerite Youcernar e a revista Playboy, da qual só lia aos artigos, nunca me preocupando com os seios, as bundas…bem, aquela coisa toda.

E então, eu lia.

E tudo o que eu posso dizer sobre ler, sobre o que eu lia, é muito pouco. Sei que quando lia eu era soberano, senhor absoluto de meu espaço. Egoisticamente, egostisticamente, eu me bastava.

Estávamos lá. Eu e meus livros.

E eles me contavam coisas, me segredavam coisas, me antecipavam coisas.

E, vejam só como são as coisas, nem sabia eu que estava sendo muito, mas muito feliz.

O que pode ser uma coisa muito boa.

Acho.

Acredito.

Sei lá.

Deus é soberano.

Corintiano Voador…pode ir brincar lá fora!

 

SOBRE AS CANÇÕES, AS PALAVRAS E OS SONS

rabeca

 

 

Para meu pai e sua viola, minha mãe e seus cantares

 

Vixe, tem a poesia que cresce e viceja à mancheia

Tem os cavalos e as árvores, poéticos e frágeis

Tem as canções que são de outros (como as de Mariana, a Gouveia)

Tem os armênios tocando dubuks e tem meu pai

 

 

Meu pai um dia me apontou o Setestrelo

Onde era o céu todo feito de pretume

E havia o lume de estrelas aos milhões

E havia o medo do escuro como selo

E era meu pai e um instrumento e as canções

E empunhava um instrumento e então cantava

Todo o aparato de uma lua como lume

E era meu pai e era a vida e era o mundo

 

(Meu pai um dia me apontou o Setestrelo)

 

E era meu pai, o violeiro, o autor bissexto

num violão com afinação Paraguaçu, mó de viola

desesquecia desta a vida o rumo, o texto

mas deslembrava que era o mundo, escola

 

(Meu pai um dia me apontou o Setestrelo)

 

E tocava descuidado para a lua cheia

E Era como ouvir a mouros de mil anos, vãos e ágeis

No seu eterno cantochão sem fim, tenazes

Em um sussurro construindo, avó a mãe, a filho, a teia

 

(Meu pai um dia me apontou o Setestrelo)

 

O alaúde que meu pai compunha por capricho

Domando o violão como se fosse um bicho

Tocando ao invertido por viola, amiúde

E sem saber meu pai tocava um alaúde

 

E se acolhia este pai meu em becos da mouraria

Com suas décimas e as décimas que ficaram, os frutos

Compartilhadas por judeus, por mouros e por meus pais

Décimas que vieram por aqueles mesmos aquedutos

 

(Meu pai um dia me apontou o Setestrelo)

 

Os tais romanos, sabe a Lapa?, nos Rios em janeiros?

E se lavrando nos cordéis, nas alegrias e nos lutos

No mesmo compasso que eram tocadas em Karakorum

Quando dez músicos as tocavam como se fossem um

 

(Meu pai um dia me apontou o Setestrelo)

 

mesmo compasso da milonga e do martelo

e de ciganos, de judeus, dos repentistas

como Aderaldo que era vate e era cego

como Vicente, tio meu, bom rabequista

 

(Meu pai um dia me apontou o Setestrelo)

 

Mas não falava de mim, nunca de mim, tão só de música

Como músicos eram e são meu pai e irmãos

Compondo como compunham gestas de criação

Com todo o estranhamento que nos trouxe a música

 

(Meu pai um dia me apontou o Setestrelo)

 

Como todo o estranhamento que me trouxe o som

Somente eu não, de mãos esquerdas, nunca eu não

Como um Aníbal falho, fugido de uma guerra Púnica

Como alguém carente de todo e qualquer dom.

TERCEIRO CANTO PARA ARAM – um canto feminino

armorial

 

Helena de Briseis

 

 

Para Balac, que o achará infantil

E para Issac, que perguntará e perguntará…

 

 

 

Existe uma casa para o homem Aram, no infinito

para que existam constelações que se cruzem

Por sobre seu teto

Cheiro (existe cheiro)

Você agora pode sentir o cheiro de facas

Usadas em rituais ao por-do-sol

(reflexo na adaga

o teu rosto pode estar capturado na folha da Atame

de uma bruxa

um duplo

um brilho fulvo de doppelgänger partindo do metal

mas teu rosto inda assim)

 

Pausa

 

Existe uma floresta

E nesta floresta

É tarde agora

E existe relva

 

E há o sol na folha

E na folha, bálsamo e mistério e frialdade

(e há alguém dormindo

ressonar entressaindo do verde

sussurro da fada do dia)

 

existe um sonho sendo tecido

sobre uma tarde nublada e uterina

em uma casa de amores paralela

uma casa para Aram no infinito

 

e em seu quintal há uma pedra

e sobre a pedra o altar

e em tudo isto

o cheiro de constelações alinhadas

 

e o fulgor incandescente do amor

e toda a teimosia feminina feita de fogo