LOS RUDI LLATA ou o melhor 2019 que você conseguirem


Nolo, Pepi, Leo e Josélito formaram um grupo maravilhoso de palhaços-músicos ou músicos-palhaços, a senhora ou senhor escolham.

Os Los Rudi Llata se aposentaram no início dos anos setenta e até cinco minutos atrás eu não os conhecia.

O que tem a ver?

Nada.

É que 2018 foi tão sem graça e 2019 só promete prazer aos energúmenos de plantão.

Arrelia e Piolim também, eu gostava muito deles.

O melhor 2019 que você conseguirem é que eu desejo.

Cometerei depois um alexandrino pornográfico para o ano que entra.

Não prometo nada, mas é possível.

E então, bem, é só minha forma de dizer que continuo acreditando na alegria, na sagrada coreografia de corpos nus com corpos nus, na música, no riso e no dom da vida.

Então. E, então, acho que tudo passará. Os tiranetes e seus símbolos.

E seus serviçais engravatados ou togados.

E depois de tudo renascerá a vida nova mesma, e a safadeza também, espero.

Mulheres, fiquem nuas para suas mulheres e seus homens. Homens, fiquem nus para seus homens e suas mulheres.

E cometam todos os pecados.

2019!!! Vamos ver no que é que vai dar!

Evoé, Noéis e Meninos Jesuses.

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SOBRE OS POVOS DO LIVRO E SOBRE O LIVRO

God, that’s for you – by Perhydrol – DeviantArt

“Igreja é o melhor lugar. Lá o gado de Deus pára para beber água”

(Do poema Sítio, do livro Bagagem, de Adélia Prado – 5ª edição, 1986, Editora Guanabara, Rio de Janeiro)

“Devo confessar que não gosto muito de religião e fico muito contente que esta palavra não se encontre na Bíblia”

(Entrevista de Martin Buber à rádio BBC em 1961, transcrita por R. G. Smith em sua obra Martin Buber, pág. 33 – Retirada da introdução de Newton Aquiles von Zuben à tradução de EU E TU, 2ª edição revista, 1979, Cortez & Moraes, São Paulo)

SOBRE OS POVOS DO LIVRO E SOBRE O LIVRO

Todo livro, todo o medo pertence a Pã

E a Merlin no jardim

E a toda fé que modele, e a toda arquitetura que defina

Pertence toda e qualquer bíblia, cada Corão e Upanixade

Ao Conde de Monte cristo

Ou a um barqueiro no Amu-Daria

A um cigano negociante de cavalos cegos na Bahia

A uma sacerdotisa em Tiro

Todo livro, todo pergaminho, permanece

Papel planando no tempo

Como pedaço imemorial da palavra

Um legado

Uma carta para Chuang-Tzu

Não pensamos na hora prima e nem na fatal

A cada palavra da vida se esvai nosso coração

Tudo é tangente

E é o rol de patifarias do Livro

Que nos comove

Suas pequenas misérias,

Somos leitores em cômodo de breu

Nossa bagagem sequer é compartilhada

E nos dói a cabeça aos cinquenta e tantos anos

Pippo Bunorrotri – um parêntesis

La Promenade – Marc Chagall

Há tempos imemoriais, quando trabalhava ainda para a Patrulha do Tempo, conheci a Mariel, O Fernandes, emissário del-Rey em nossas províncias do sul (https://marielfernandes.com).

E, frequentando este soldado da aventura, vim a dar com a caudalosa escrita de Pippo Bunorrotri.

Evidente que o lendo em espanhol, não pude resistir à tentação de cometer uma tradução de um de seus poemas (se já fiz maldades com Ezra Pound, porque não com Pippo?).

Evidente também que cometi liberdades. Certas construções do espanhol não caem bem no português e vice-versa (Por exemplo, “muchachas” é forte e denso em espanhol, ao contrário de “mocinhas”, em português).

De modos que ousei trocar um “mortales”, que daria “mortais”, por “os que morrem”, pelo amor da eufonia em nossa língua.

Então, vamos dizer assim, forcei a métrica, acrescentei ou tirei, espero que respeitosamente.

Por outra, procurei, na medida do possível, manter os jogos fônicos do original, donde não sei até onde fui bem sucedido. Enfim!

Evidente que Pippo, mais adiante, possa talvez não gostar do resultado.

Não obstante, no agora momentoso, o gentil Pippo, mais que gentilmente, suportou a ousadia e me sugeriu que a publicasse neste espaço, o que faço, deixando o sagrado link para seu original. Espero que gostem, de Pippo, claro. Evoé!

O poema original: https://pippobunorrotri.com/noche-de-palida-luna/

NOITE DE LUA PÁLIDA

Pippo Bunorrotri

Nesta noite de lua pálida sonhei de um sonho esquecido…

um que eu já fantasiara
com aquele primeiro beijo nas arcadas da Plaza Mayor

roubado a tua sombra inquieta
perturbada por minha sombra demente

onde em um arroubo de atrevimento nos teus lábios coloquei os meus

o que depois aconteceu só sabemos eu e você
o que na memória do tempo ficou
e que lembranças trazem

nas noites de lua pálida
Lá, onde perde sua sombra, a memória
lá, na misteriosa floresta do esquecimento
onde habitam sombras
e não nos chega o voo das gaivotas

Nesta noite de lua pálida
sonhei que nos encontrávamos para admirar nossas faces
gastas pelo tempo
e desfrutar
de nosso amor decrépito.

Se passaram muitos anos desde que naqueles dias
em que escrevemos nossa história
desde que naquelas noites
amarguras e alegrias nos deixaram
o destino meu e o teu

vagou por entre sombras agitadas
em vão tentando lembrar daquele primeiro beijo
que nos deu tanto

Sobre nossos lábios uma legião de beijos
teu campo quiseram conquistar, com festa e aconchego
mas só derrota conseguiram


e na torrente do esquecimento
depois de coroados, flutuam seus cadáveres

na fugaz ternura dos que morrem



Na narcose da lua pálida
balbuciamos uns quantos nomes

o desejo de outrora surgiu frio e acabado
ainda a paixão
o frenesi moribundo
o olhar sem brilho
os lábios sem cor

lívido o rosto…e mesmo assim abatidos
nos acercamos um do outro
como duas sombras atordoadas

e pelo que erramos só nos atrevemos a pedir perdão
de mais uma vez nos vermos
com aquela certeza de tudo, do amor, do tempo
e nós mesmos
Teremos mudado por todo o sempre

Existe o amor…Amor!
ainda que sigamos sendo
donos de nossas vidas

donos de recordações de amores passados, que floresceram na primavera e no outono
bom é não acumular
recordações de amores passados
que em uma primavera floresceram
e no outono

suas pétalas voaram ao vento
foge deste perfume
para que em teu peregrinar pela vida

tu sigas, atenta, cheirando
o aroma de outras flores
pois que mais cedo ou mais tarde
te afogarás no amargo pó
da morte

MINHA FÉ

RELIGIO

Minha mãe era devota de Afrodite-Pandemia. Qualquer tribulação na família e lá ia ela junto ao oratório de sua Deusa depositar velas votivas e pedidos, sempre atendidos segundo me dizia. Devoção tardia, pois na juventude minha mãe fora de uma Ordem Terceira de Vestais, mas acho que a opção pelo casamento a fez mudar.

Interessante como a religião sempre fez parte de minha vida e dos que me eram próximos. Lembro-me que ao conseguir meu primeiro emprego, em uma metalúrgica, a primeira coisa que fiz foi visitar o templo de Zeus-Pancrátor e deixar ali uma mecha de cabelo na pira.

E assim toda a família, cada membro com sua devoção particular: Thor, o jovem para um irmão. Hera para uma irmã, nunca faltando a oferenda de sempre para Ísis, deusa de devoção de outra. Meu pai, um tradicionalista, sempre jejuava às sextas-feiras em honra de seu Osíris.

A religião, como uma capa, permeava tudo. E ainda permeia, creio eu: qual camelô na vinte e cinco de março não queima seu incenso de todo dia no altar de Hermes-Benefactor e qual marginal não faz sua doaçãozinha de sempre para a confraria de Bel-dos-Ladrões?

A modernidade, temiam e temem alguns, conspira para o adelgaçamento da fé, mas eu discordo. Minha esposa até hoje deposita sua porção de bolo de trigo e mel para Atena, em um pratinho decorado ao lado do computador.

Nesta época de “BBBs” e que tais ainda é possível o despreendimento da fé e da esperança que só a fé traz? Eu digo sim e sim e sim. Ainda haverão: sacrifícios a Poseidon quando de cada enchente no Rio de janeiro; orações a Réia antes de cada parto; oferendas a Apolo antes de cada apresentação musical; saudações a Príapo por parte de homens e a Afrodite-Urânia, por parte de mulheres, antes do ato sexual.

E libações de cada presidente ou governador de estado em honra a Zeus-Pancrátor depois de eleitos e sua estátua continuará soberana, de braços abertos sobre a baía da Guanabara.

ET IN ARCADIA EGO

ET IN ARCADIA EGO - Intervenção de Aires Almeida em imagem de tela de Nicolas Poussim

ET IN ARCADIA EGO – Intervenção de Aires Almeida em imagem de tela de Nicolas Poussim.

 

 

Et in Arcadia ego.

Ah, momento sublime, em que posso inserir uma frase em latim para perfumar meu arroto de homem culto. E eu sou um homem culto e Ipanema ainda existe, mas nunca fui lá.

Et in Ipanema ego. Et in Brasília…mais ou menos por aí.

Sigo escrevendo, melífluo como um putinho novel. Ouvi agora o discurso: somente a mão de Deus pode, etc., etc. Nada demais. Só impliquei com o colar no pescoço da personagem de camisa embandeirada. Coisa minha, boba.

Tenho um amigo que se especializou em inventar xingamentos, invectivas cheia de bom humor e originalidade que acreditava que ajudavam a desopilar o fígado, de não sucumbir à inana (inana, gostaram? Hoje estou de verve!)

E então, vinham as pérolas: arrombado da Babilônia; vai tomar no Silva (ou Cardoso ou Perlemütter, o importante era colocar o sobrenome de um desafeto).

Estou virado na bobônica da hipersquidgerônica.

Emputecido? Estou é virado no setenta, transformado na madrasta hidrófoba do Jiraya e metamorfoseado no cramulhão do casco fendido.

Sentiram? Como, querida? Não, não estou puto não, só psicografo o que me chega das esferas.

E eis que. E eis.

Mas eu falava de Ipanema ou da Arcadia, já se me esqueço, a vida me aprontou mais uma. Me aguarde, vida, que eu te dou o troco com muito paticumbum prugurundum e invento a festa e organizo o pessoal!

Para que se entenda o meu samba é preciso, são precisos, uma velhíssima vitrola, um copo do conhaque Padre Cícero e um baralho velho de tarô. Eis que. Na vitrola colocarei para tocar Ângela Maria cantando Tango para Tereza e seguirei com Variações Goldberg e terminarei com o Mourão Voltado do Quinteto Violado.

Ah, mas ele bebe, se embriaga!…dirão. Não, não me embriago, só considero com meus botões de madrepérola, só cismo. Assimzinho, sutil como um flato numa batisfera.

E os rojões, os rojões! Felizmente Zé Bebelo, meu cachorro, não é de muitos medos. Limitou-se a levantar a garra média para riba e latiu: vão tomar no Trump, chatonaldos!

Relevo e perdoo. Trata-se de um cão.

Perdoem-me do mesmo modo, sou só mais um turista.

Aquele meu amigo também tinha outra sacada muito boa: a loteria do inferno.

Imaginaram, o inferno, aquele delicioso imóvel psíquico lotado de fudidos sendo assados ao espeto na churrascaria do Coisa-Ruim? Pois bem, primeiro prêmio: uma semana no Brasilzão de meu Deus. Segundo prêmio: um mês no Brasilzão de meu Deus. O Diabo é um gozador do balacobaco, dizia adrede aquele o meu amigo que já devo ter mencionado em algum parágrafo aí de cima.

Justo!

No mais, aquieto-me. Minha boca é um túmulo.

Todo em mármore e cheio de volutas, com direito a estátuas de voluptuosas carpideiras nuas.

Vamos agora ao conhaque, ao café e aos charutos.

Zé Bebelo manda lembranças. Algo assim como um Au. Au. Au.

E a galera vibra e a multidão solfeja: chupaaaaaa, comunistaaaa!

Chupo nada. No máximo, cuspo fazendo um beicinho.

Et in Arcadia…et in putaqueopariu…et qualquer coisa aí.

Abraços.

 

O AUTOR E A OBRA MAIS QUE ABERTA, POR INEXISTENTE.

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books – by ELEK-trik – DeviantArt

 

E o autor, prolífico como uma ratazana, mas que não tem obra literária publicada é o que?

Pergunta besta, claro. Trata-se tão somente de um residente da terra de NunseiPorra.

Tá. E serve pra que o autor prolífico, criativo e inventivo, sem obra publicada?

Homessa!  Serve para ocupar espaço. Digamos de cinquenta a cento e tantos quilogramas de massa oprimindo ao planeta, gerando aí os seus tantos quinhentos ou mil e tantos newtons, seus quilopascais, suas libra-força por polegada quadrada, exercendo atração gravitacional, mínima é claro, mas certa, sobre a Lua, sobre Alfa do Centauro, sobre Betelgeuse.

O autor prolífico sem obra publicada pode também contribuir para a manutenção do número de homo sapiens no planeta, emprestando seu útero para a gestação ou, em muito menor grau de importância, seu esperma.

Pode também contribuir com e para a pátria.

Exempli gratia: Pode comungar com Deus, catequizar aos selvagens, doutrinar às fêmeas rebeldes, estapear a homossexuais, vender o ar que respira e alugar as palmeiras e as praias para o demônio do meio-dia.

Mas aí já estamos falando de almoçar com vermes.

Talvez seja melhor o autor prolífico publicar sua obra!

 

 

 

 

Breves considerações sobre a magia e a palavra

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Mein scribe – by Rovanes – DeviantArt

 

 

 

O romance, este gênero ainda cheirando a verde, teve sua consolidação com o Quixote no século XVI mas já despontara antes nas tentativas do Satyricon de Petrônio, na Roma de Nero e no Genji Monogatari no Japão da era Heian no século XI.

Vejam, foram afloramentos heroicos, dignos, mas somente o século dos descobrimentos, na Europa; somente dele, proveio o correto húmus, o preciso fermento da época.

Então se fez o romance.

E se faz agora, tímida, minha tese: sem magia não há o romance.

A poesia pode prescindir da magia por ser de si um encantamento, como a filosofia que tem a vantagem de não ter nenhuma vantagem e ser prima da poesia. Daí Nietzsche ter composto o seu admirável Zaratustra, que assim falava e que era filosofia e que era poesia.

Quando digo magia quero dizer, oras, magia. A suspenção da crença, me digam, o que é senão uma operação mágica?

Arthur retira a espada da pedra, Lanzarote mata o gigante, Clarice Lispector nos apresenta Macabéa e a barata e nós…acreditamos, estamos lá naquele momento e nos seguintes.

Magicamente suspensa nossa noção do real.

A magia, por sua vez, não pode se desligar do romance porque é ainda muito jovem o romance. Mal acabamos de criar o épico, que é apenas a forma escrita que desenvolvemos para descrever o mito.

As presepadas de Gilgamesh e Enkiddu foram primeiro contadas ao redor de fogueiras sumérias e só depois postas no papel; ou melhor, no barro com o alfabeto cuneiforme que os acadianos tomaram dos sumérios e nele colocaram os sons para que os assírios transcrevessem as histórias cheias de maravilha e magia.

Só a seis, cinco mil anos? Foi ontem.

E como é recente o romance e como é antiga a magia. E como é necessária.

Machado, Cervantes, Swift, Sterne, nossos contadores modernos de histórias, não podiam fugir a esta tradição ancestral.

Então, magia.

Memórias Póstumas de Braz Cubas, um conto de magia, que começa com um morto narrando sua própria morte e se deslocando até o começo dos tempos no pós-morte.

Nosso Dom Casmurro, nos contando de segunda mão, por meio do tenor Marcolini, uma cosmogonia toda particular que retrata a Deus e ao Diabo como cocriadores do universo que é só uma ópera, nada mais que uma ópera.

Magia.

Gulliver em Liliput, os Buendía em Macondo, Alexandre e outros heróis de Graciliano Ramos. Mas também há a necessidade do maravilhoso, do mítico, na Náusea de Sartre e nas andanças de Leopold Bloom pela Dublin de 1904.

No Fausto de Thomas Mann Adrian Leverkühn tem uma das conversas mais longas com o Diabo de toda a literatura.

Também Riobaldo andou pelo sertão e não dispensou um pacto com o demo.

O realismo nunca existiu ou foi só pretensão. Acredito mesmo que se emulada à perfeição a vida em livro (o que tenho por impossível), não teríamos nada mais que um aborto.

O romance é pedra, mas se desgasta a pedra e se transforma. E do que fala a pedra?

Do que pode o romance?

Da mulher enterrada a metros daqui. Do veneno que a matou. Do necessário que foi sua morte.

Do pastor que se apaixona pela Morte e é condenado à imortalidade por ser proibido ligarem-se Morte a mortais.

De soldados tão orgulhosos e seu comandante ainda mais orgulhoso que se perdem em missão. Presos até hoje em andanças eternas pelo único erro de terem encontrado uma das entradas para o mundo de Sexta-Feira.

Da sacerdotisa que viu o futuro quando não queria ver mais nada que o rosto de seu amado e por isso foi amaldiçoada a ver o futuro. De seu exílio, de sua loucura ao falar de épocas futuras com carruagens voadoras e homens e mulheres e animais e demônios aprisionados em caixas de vidro.

Da canção que se transformou em mais que canção e depois em torrente e depois em punho sobre o mundo. E da era glacial que veio ao mundo por conta da canção e do impossível destino dado ao autor da canção e sua flauta de tíbia.

Do pequeno fidalgo que enlouquece, arma-se cavaleiro e enfrenta moinhos de vento.

Do padre que seduz a donzela e a vê morrer, indiferente, no parto de seu filho.

De muitas coisas fala a pedra que é romance.

E quem trata da pedra é um pequeno mago, e como Jó, profundamente desafiador dos roteiros de Deus.

Que, aliás, foi o primeiro editor e libretista, como já suspeitava aquele Machado, o de Assis.

Eu, o ghost-writer II

LIBAÇÕES

 

E então Maurinho, o filho-de-uma-égua, me convidou para uma cerveja no bar de um conhecido. Eu tinha acabado de lhe entregar um novo livro, acho que sob o pseudônimo de Emmett Louis Carrol.

Não me lembro bem do enredo. Me recordo vagamente que versava sobre um professor universitário americano em retiro sabático que era recrutado pelo serviço secreto para espionar uma cientista soviética.

Claro, uma senhora gostosa, sensual e dadivosa como exigiam os livros de espionagem da época. O meu era só mais uma das merdas do período, vendido em bancas de jornais paulistanas a um preço módico que a edição feita em papel higiênico e em duas cores podia prover.

O caso é que disse a Maurinho, meu editor e também vendedor de lixo em forma de papel, que era aquela a última colaboração que teria de mim em sua pestífera empresa, pois que arranjara emprego que me pagava um salário mensal.

E, para mim, um soberbo salário para os padrões meus e da época.

Maurinho não se irritou, pegou os papéis datilografados e me pagou.

E, novamente, me convidou para uma cerveja, desta feita acrescentando que dada a situação e a ocasião me levaria a lugar de sua particular preferência.

“Um templo do bom viver e da cachaça.”

“Preparado?”. Maurinho elevou o indicador.

E então foi assim que naquela sexta-feira, por volta de quatro horas da tarde, nos aboletamos no balcão do Capitão Sujeira.

Por pudor, não informo onde ficava o mirífico boteco, mas direi que ali havia poesia, um sanitário imundo, caldo de mocotó com farinha de mandioca crua e passagens para universos paralelos.

“Sabe…eu gosto de você. Um menino bom, inteligente, mas burro. Questionador, amante gentil para as senhoras. E burro. Já te falei que você é burro?”

“Já Maurinho…muitas vezes.” E ele riu, modesto.

E levantando um copo de conhaque vagabundo, me cutucou com um dedo rugoso no peito.

“Este seu pseudônimo aí, Emmett Louis…”, e arrotou. “Me lembrou um outro Emmett.”

“um que?…”

“Não me interrompa! “E ele chorava.

“Emmett Louis Till. Um menino negro americano. Assassinado por supostamente ter assobiado para uma mulher branca.”

E acendendo um cigarro com gestos inseguros de ébrio.

“Acho que foi…em Mississipi?”

E a conversa continuou. Contei a Maurinho sobre Eliahu e Iliya, o judeu e padre ortodoxo russo com quem privava, contei que os conhecera por acaso, na banca de José Einaldo, na rua Tabor, no Ipiranga, em São Paulo.

Contei que ambos me disseram a mesma coisa, que eu era um idiota. Inteligente, perspicaz, mas um idiota.

Contei que me advertiram ambos sobre os sábios, sobre a funesta influência que os sábios tinham sobre as pessoas.

Contei para Maurinho as ideias de Eliahu e Iliya, de seus medos, de suas desconfianças do mundo.

Maurinho riu.

“tá!”

“Tá?” Eu.

“Tá, gostei destes putos aí…”

Maurinho requereu, gentilmente, que se renovasse sua dose do enojante conhaque Padre Cícero e mais uma cerveja para que, a moda de seu Major (Maurinho amava Jorge Amado), se desfeiteasse ao conhaque.

“O mundo é assim, sabe? Bobo.” Maurinho.

“Então é preciso que haja pessoas assim. São tesouro essas pessoas…” Maurinho novamente.

“Já falei que gosto de você?” Maurinho baixou a cabeçorra.

Saí do boteco por volta das cinco da manhã. Desconheço como cheguei em casa. Foi a última vez que vi Maurinho.

Este texto todo foi escrito com muita saudade de uma época, de uma pessoa.

E ainda dói.

E ainda acende, inflama.

E é isso.

E é assim.

 

 

 

 

 

Aos pequenos covardes de plantão

a essence of a dream

Ah< continuo sAbendo denAdA> nÂo è incrível? E TENHO AÍ MEU PAÍS, QUE GUARDO aqui dentro. E vejo aí os trasgos, os demoninhos, rubros e minúsculos, tentando, desesperadamente se conhecerem, parecerem, com pessoas. São não. Meu país ri e canta, por mais que doa, por mais que sangre. vocÊs, toDOS vOCês. Passarão! VOCês< oS cheiroSoS< oS VErmES DE primEirA HorA, OS PEquenos covardes com medo da aurOra.

E eis que um dia será dia, claro, de espanto e luz. E quando vier o dia, vós, somente vós, não tereis sequer o favor da serpente )MEsMO Um réptil terá engulhos ao vos deglutir(

SERà uM dIa de sonho, onde o país, a pátria-puta hoje nossa, se verá coalhada de mesas de piquenique.

E os covardes nem poderão cantar sua prosa de ganância e grito, porque sempre foi Nossa a Canção e o rito.

Ave, Vida e dOm da vida.

Meu País é ESplEnDOROSA bUCETA, uma bandeira LINDA, meu País é um torso de mulher.

aVE PUTAE!